<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872</id><updated>2011-08-18T12:35:51.567+01:00</updated><title type='text'>Rui Nepomuceno</title><subtitle type='html'>História, Literatura, Economia e Política.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>34</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-7855163533236347006</id><published>2010-02-23T00:16:00.002Z</published><updated>2010-02-23T00:29:15.137Z</updated><title type='text'>Aluviões na Madeira no Séc. XIX</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S4MgXxZ6T9I/AAAAAAAAAGI/5hK7kog2Ex4/s1600-h/Aluviao.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 223px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S4MgXxZ6T9I/AAAAAAAAAGI/5hK7kog2Ex4/s320/Aluviao.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5441228367564787666" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;As Aluviões na Madeira Durante o Século XIX   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                     Rui Nepomuceno&lt;br /&gt;                   &lt;br /&gt;  Embora o arquipélago da Madeira seja mundialmente conhecido pelas suas maravilhosas paisagens e pelo seu excelente e moderado clima, é do conhecimento geral que, excepcionalmente, tem sido varrido por grandes chuvadas, que em virtude da desrtificação de algumas serras, e sobretudo pela extrema inclinação das encostas têm causado horas de grande pânico, destruição, e perdas de vida. &lt;br /&gt; A aluvião de Outubro 1803 foi considerada a maior calamidade que tem ferido a Ilha no largo período de cinco séculos; quando grande volume de águas das ribeiras do Funchal galgaram as suas margens e espalharam-se com grande ruído pelas ruas laterais, começando a sua obra de destruição. Nessas terríveis circunstâncias a morte surpreendeu muitos madeirenses na fuga, arrastados pela violência das correntes ou atingidos pelas derrocadas das casas e paredes que se desmoronavam, sendo certo que inúmeros prédios foram arrastados para o mar, incluindo a «Igreja de Nossa Senhora do Calhau». &lt;br /&gt; Segundo referem Fernando Augusto da Silva e Carlos A. Menezes no «Elucidário Madeirense», «calcula-se que só no Bairro de Santa Maria Maior tivessem perecido cerca de 200 pessoas. Ruas inteiras desapareceram com os seus habitantes, e outras inundadas de água e lama deixaram os proprietários reduzidos à extrema indigência».&lt;br /&gt;  Segundo assevera Cabral Nascimento mum longo estudo sobre estes avontecimentos que publicu no «Arquivo Histórico da Madeira» (Vols.1 e 5), esta aluvião terá causado mais de 700 vítimas mortais e além da cidade, também houve muitos danos nas restantes freguesias do Sul da Ilha, nomeadamente em Campanário, Calheta, Tabua Ribeira Brava, Santa Cruz e, sobretudo em Machico, onde morreram catorze pessoas, ruiu a «Capela do Senhor dos Milagres», as águas danificaram algumas igrejas e ainda os arquivos de Foros, Capelas e Irmandades.&lt;br /&gt; Em Fevereiro de 1804, chegou ao Funchal o Brigadeiro Reinaldo Oudinot, encarregado de dirigir as Obras Públicas do arquipélago e de mandar reparar os grandes danos verificados na cidade e no campo. Este engenheiro dirigiu os notáveis trabalhos para o encanamento, alargamento, e reforço das muralhas das bermas das ribeiras do Funchal e de Machico, e como refere Eduardo de Castro e Almeida no «Inventário do Arquivo da Marinha e Ultramar – Madeira e Açores» alertou sobre «a urgência de empregar todos os meios possíveis para obviar os desastres que as correntes das ribeiras causavam no dia-a-dia, sendo para temer a destruição de algumas localidades». Simplesmente, estes sábios conselhos, não têm sido seguidos por algumas autoridades camarárias por ganância, negligência e, sobretudo, pressionados pela cupidez dos «patos bravos» da construção civil, que têm estrangulado algumas ribeiras e, pasme-se, chegam a construir sobre o leito doutras, pondo em perigo as zonas ribeirinhas do Funchal.&lt;br /&gt; Oudinot desenhou ainda um desenvolvido mapa da cidade do Funchal e da sua baía, e em todos os trabalhos para minorar os efeitos da tragédia socorreu-se do serviço braçal gratuito de muitos madeirenses, que apenas receberam géneros de primeira necessidade e a isenção de certos tributos, tudo de acordo com as antigas «Ordenações», que vigoravam desde o início do povoamento, para ocorrer a eventos excepcionais.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Em 24 de Agosto de 1842, outra aluvião também causou bastos sofrimentos e muita destruição. Novamente, como colhemos no «Elucidário Madeirense» da autoria do historiador Fernando Augusto da Silva «as águas das ribeiras saíram dos seus leitos e espalharam-se pelos terrenos marginais. Ficaram completamente inundadas as ruas do Bairro de Santa Maria Maior, o Pelourinho, a Rua dos Medinas e ainda outras. Uma grande parte da cidade ficou destruída, muitos edifícios arruinados até os alicerces, e muitas famílias ficaram pobres».)    &lt;br /&gt; E o mesmo desolador panorama verificou-se em 5 e 6 de Janeiro de 1856, tudo agravado pela tremenda epidemia de cólera morbus, que ceifou muitas vidas na Madeira e no Porto Santo.&lt;br /&gt; E para alertar e deixar bem esclarecido que as aluviões são um fenómeno cíclico no Arquipélago da Madeira, lembramos que já nos séculos anteriores se tinham verificado outras tragédias idênticas, como por exemplo em 19 de Setembro de 1724, quando outra aluvião causou grandes danos na cidade e no campo, tendo morrido, pelo menos 25 pessoas.&lt;br /&gt;                                                                                                         Funchal, Outubro de 2006&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aluv&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-7855163533236347006?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/7855163533236347006/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/aluvioes-na-madeira-no-sec-xix.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/7855163533236347006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/7855163533236347006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/aluvioes-na-madeira-no-sec-xix.html' title='Aluviões na Madeira no Séc. XIX'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S4MgXxZ6T9I/AAAAAAAAAGI/5hK7kog2Ex4/s72-c/Aluviao.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-5913240101981878425</id><published>2010-02-22T00:38:00.001Z</published><updated>2010-02-22T00:45:49.696Z</updated><title type='text'>António Aragão e o Experimentalismo Literário Portugês</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S4HTrtY-DoI/AAAAAAAAAGA/KebqvgXchng/s1600-h/Aragao_Correia.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 112px; height: 116px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S4HTrtY-DoI/AAAAAAAAAGA/KebqvgXchng/s320/Aragao_Correia.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5440862572712431234" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia, nasceu em 22 de Outubro de 1921, no Norte da Madeira, mais precisamente na freguesia e concelho de São Vicente. Estudou o ensino secundário no Liceu Jaime Moniz do Funchal, e licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na «Universidade de Lisboa», tendo ainda estudado Belas Artes em Paris, na Itália, e também na capital.&lt;br /&gt;Exerceu durante muitos anos o cargo de Director do «Arquivo Regional da Madeira», então instalado na Rua da Mouraria do Funchal, e nessas tarefas dirigiu o lançamento e a publicação, duma série de importantes transcrições de documentos relativos à História do arquipélago madeirense.&lt;br /&gt; Foi ainda director da «Casa Museu César Gomes», instalada na Quinta das Cruzes; tendo publicado, em 1970, um vistoso e importante estudo sobre esse relevante núcleo museológico, que denominou «O Museu da Quinta das Cruzes».&lt;br /&gt;Em 1955, António Aragão Mendes Correia, liderou a constituição do «Cine Clube do Funchal», que teve um papel importante na criação duma alternativa ao medíocre cinema comercial da época, em que pontificavam os filmes policiais e de pancadaria; o qual chegou a contar com mais de 400 associados, entre eles o poeta Herberto Hélder; e cuja actividade iria estender-se até os inícios da década seguinte; quando António Aragão e outros associados fundaram o «Cine Forum do Funchal».&lt;br /&gt;João Maurício Marques, no seu livro «Os Faunos do Cinema Madeirense», referiu que o «Cine Clube do Funchal», «durante vários anos efectuou sessões na principal sala de espectáculos da cidade, exibindo nomeadamente filmes europeus, na altura já preteridos pelos distribuidores madeirenses. Numa entrevista ao suplemento cultural «Varanda» do «Diário de Notícias», António Aragão salientava em 1959 que pretendiam desenvolver «uma compreensão crítica e estética em face de cada filme apresentado, elucidando cenas e ideias difíceis de compreender ou que passam vulgarmente despercebidas» A estratégia para captar público era simples: «o que é preciso é dar-lhes mesmo o que eles não pedem nem sabem que existe».&lt;br /&gt;Antes dos anos 60, António Aragão Mendes Correia também participou em exposições de pintura na Madeira, no Continente e até no estrangeiro, tendo ilustrado com esplêndidas gravuras o livro «Canhenhos da Ilha» da autoria do grande escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia. Mais tarde, durante um longo período manteve uma galeria de arte em Lisboa, e em 2007, alguns quadros da sua autoria estiveram expostos no «Museu de Arte Contemporânea de Serralves».&lt;br /&gt;Como historiador, António Aragão Mendes Correia publicou, em 1959, «Os Pelourinhos da Madeira»; em 1970, «Para a História do Funchal (pequenos passos da sua memória)»; e ainda «A Madeira Vista por Estrangeiros – 1455-1700»; no qual coordenou e anotou crónicas e trabalhos literários sobre o arquipélago da autoria de Cadamosto (1455), Conde Giulio Landi (1570), Pompeo Arditi, (1577), Hans Sloane (1687), Jonhn Ovington (1689), e William Bolton (1695 – 1700); terminando com uma importante antologia de outras obras realizadas acerca da Madeira, por forasteiros de diversas nacionalidades.&lt;br /&gt;Acresce que, na qualidade de interessado e estudioso das temáticas ligadas à Etnografia e ao Folclore, com a colaboração de Jorge Valdemar Guerra e do músico Artur Andrade; durante todo o ano de 1972, António Aragão elaborou e executou uma importante recolha do cancioneiro tradicional do povo do concelho de Machico. &lt;br /&gt;Por outro lado, antes dos anos 60, e de ter aderido ao «Movimento Experimentalista Poético e Literário Português» de que foi o principal percursor, Aragão Mendes Correia, ainda muito jovem, fez parte da «Tertúlia Ritziana», e em 1946, o seu Conto intitulado «Pressentimento», obteve o 2º lugar nos Jogos Florais organizados pelo Ateneu Comercial do Funchal.&lt;br /&gt;Em 1952, com Herberto Hélder e Jorge Freitas, elaborou algumas poesias que foram publicadas pelo «Eco do Funchal» na colectânea «Arquipélago», onde claramente já revelava certo pendor modernista, como procuraremos demonstrar com a seguinte transcrição:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                      Do meu passado tudo…&lt;br /&gt;                                                                      folhas altas secando.&lt;br /&gt;                                                                      Nos meus olhos – ai barcos –&lt;br /&gt;                                                                       risos – velas brincando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maré cheia em altares;&lt;br /&gt;dedos longos buscando…&lt;br /&gt;Búzio-grande – saudade…&lt;br /&gt;Corre o tempo lembrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                        Alto! Alto! Mar fundo.&lt;br /&gt;                                                                        Vai o medo subindo.&lt;br /&gt;                                                                         Marinheiro de pau,&lt;br /&gt;                                                                         o que estarás sentindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No muro do quintal &lt;br /&gt;um ladrão espiando…&lt;br /&gt;Tens esperanças ainda, &lt;br /&gt;Sonho que vais sonhando?&lt;br /&gt;                       &lt;br /&gt;                                                                        Outra vez o Dilúvio&lt;br /&gt;                                                                        e Noé navegando?&lt;br /&gt;                                                                        Foge, foge menino&lt;br /&gt;                                                                        nem eu sei até quando.     &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Em 1956, António Aragão, foi o editor e principal impulsionador de revista literária colectiva «Búzio», publicada no Funchal, mas impressa no Porto, para a qual desenhou uma gravura abstracta com características geométricas e modernistas, e escreveu a Nota Introdutória, um poema modernista composto em 1954, outro escrito em 1955, um comentário sobre uma carta de Castilho dirigida a Agostinho Ornelas, e ainda um ensaio intitulado «O Público e as Novas Morfologias», onde já patenteava influências futuristas e revelava a sua inclinação para a ruptura contra os modelos literários tradicionais e a procura de novas formas de expressão artística e poética.&lt;br /&gt;Também colaboraram na revista Edmundo Bettencourt, com três importantes poemas; David Mourão Ferreira com um ensaio intitulado «Nótula sobre o Fundo e a Forma em Poesia»; Eurico de Sousa também com três poesias modernistas; Ester de Lemos com um ensaio sobre uma obra de Orwell intitulado «O Pesa- Papéis»; Herberto Hélder com dois excelentes poemas de influência pós-surrealista; Jorge Sumares com um conto regionalista a que chamou «Rega»; e, finalmente, J. Escada, que escreveu um artigo comentando as exposições de Artes Plásticas de 55 e 56, realizadas em Lisboa.&lt;br /&gt;Explanando um pouco mais as intervenções de António Aragão no «Búzio», começamos por referir que no Preâmbulo dessa revista, o nosso escritor revela que se tratava duma publicação de carácter colectivo «sem periodicidade ou compromisso de ideias ou sistemas; despida de intenções de luta ou cesarismo literário e sem qualquer tipo de monocordismo preconceituoso e intencional». Acrescentava que esse trabalho seria antes de mais «uma natural exigência, e uma requerida consequência viva, inconvencional e amorfa», no sentido que a sua finalidade era só para dizer sem porta-paz de antecipação para a jornada. «De cada um o que cada um possui de diverso, (…) conformado ou inconformado, de cada um a sua linguagem própria, o indivíduo inteiro».&lt;br /&gt;Aragão rematava, afirmando que no seu conjunto «Búzio» era apenas um enfeixar de diversas vozes – «umas desconhecidas, novas e dispersas, outras de que no tempo já muito foi dito. Em particular é uma defesa contra o silêncio, uma espécie de revolta frente ao geografismo imperioso que como uma anulação, impõe constante e unicamente um céu azul por cima e um pitoresco turístico em volta».&lt;br /&gt;No estudo ensaístico inserido na revista, que intitulou «O Público e as Novas Morfologias», que consideramos já possuir alguns ingredientes que anunciavam o Experimentalismo Literário, António Aragão discorreu sobre os diversos tipos de escritos que destroem o convencional e constroem o mistério, dissecando o problema da «dissociação da arte com o público na aguda crise da incompreensão e do consequente repúdio, derivada da mudança de símbolos, da afirmação de novas morfologias, e até do regresso a fontes primitivas capazes de criar mistério. (…) O artista, poderoso iconoclasta, destrói as formas definitivas e destrói devido ao esgotamento das forças misteriosas que as animavam e constrói, com outra morfologia, o mistério. E só ele se apercebe desse esgotamento e da necessidade de destruição – destruição sem sentenças ou elaborados racionalismos, sem prévios padrões políticos, sociais, económicos ou religiosos, destruição assistemática, inviolável, finalizada em si própria, egocêntrica e espontânea».&lt;br /&gt;Em resultado de toda esta ruína dos seus símbolos caídos no caos, António Aragão refere que o público fruidor exaspera-se, pois baralha o convencional e tradicionalmente assente, «confunde os valores fundamentais do homem, a sua moral, a sua cultura, e os seus padrões abalados e ofendidos». Todavia, segundo o nosso escritor, essa dissociação do artista com o público não é para sempre, «porque do contacto sucessivo com a nova morfologia, da constante chamada aos sentidos e ao plano mental, a distância encurta-se e acaba por deixar de existir, tornando-se compreensível o que até parecia ser mero jogo formal. É difícil explicar a passagem psicológica da aceitação, mas é fácil experimentá-la, porque sucede sempre em qualquer época marcada com a mais variada morfologia».&lt;br /&gt;Quanto às duas poesias que António Aragão publicou na revista colectiva de que nos estamos ocupando, adoptam algumas formas vanguardistas, embora ainda não exibam as principais características do «Experimentalismo Poético» que pouco depois o nosso escritor abraçaria, nem o modelo da «Poesia Concreta» que também chegou a cultivar, como veremos adiante. Para o provar vejamos «Génese», escrita em 1954:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os búzios eram nas trevas                                                     &lt;br /&gt;nas trevas brilharam olhos&lt;br /&gt;os olhos rasgaram águas&lt;br /&gt;as águas encheram ventres&lt;br /&gt;os ventres criaram filhos&lt;br /&gt;os filhos comeram terra&lt;br /&gt;a terra deu logo bichas&lt;br /&gt;as bichas pariram bichos&lt;br /&gt;os bichos pejaram ruas&lt;br /&gt;nas ruas nasceram casas&lt;br /&gt;das casas saíram braços&lt;br /&gt;os braços treparam muros&lt;br /&gt;os muros prenderam bocas&lt;br /&gt;as bocas disseram vozes&lt;br /&gt;as vozes gritaram gritos&lt;br /&gt;os gritos tornaram vozes&lt;br /&gt;as vozes passaram muros&lt;br /&gt;dos muros vieram braços&lt;br /&gt;os braços ruíram casas&lt;br /&gt;as casas fizeram ruas&lt;br /&gt;nas ruas havia bichos&lt;br /&gt;os bichos furaram terras&lt;br /&gt;das terras surgiram filhos&lt;br /&gt;os filhos só tinham ventres&lt;br /&gt;os ventres traziam água&lt;br /&gt;a água tapou os olhos&lt;br /&gt;os olhos ficaram trevas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nas trevas cantaram búzios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após esta referência genérica à obra histórica, artística e literária de Aragão Mendes Correia, até os anos cinquenta, é altura de estudar e salientar o seu incontornável papel como impulsionador e precursor do «Experimentalismo Literário Português», de parceria com Ernesto Melo e Castro, o grande poeta madeirense Herberto Hélder, e dois ou três outros escritores continentais.&lt;br /&gt;E começamos deste já por referir que de harmonia com o que ocorreu com a Pintura, a Música, o Teatro, e certas áreas das Ciências; o «Experimentalismo Poético e Literário Internacional» surgiu como uma importante tendência do vanguardismo literário da segunda metade do séc. XX, que se distinguiu por atribuir um especial relevo às questões da forma e da estrutura, nos variados fenómenos e manifestações da comunicabilidade artística e literária.&lt;br /&gt;Deste modo, na teorização deste movimento, passaram a assumir grande importância e estatuto determinante, os diversos factores relacionados com a «Linguística Moderna», a «Semiótica», o «Estruturalismo», e, obviamente, os diversos aspectos da «Teoria da Forma e da Informação», de que foram principais interpretes e seguidores no estrangeiro Abraham Moles, Saussure, Jakobson e, sobretudo, o muito citado Levy Strauss.&lt;br /&gt;Em Portugal, o Experimentalismo Poético e Literário ocorreu em Lisboa nos meados dos anos 60, mais precisamente em 1964, com a publicação da «Revista Experimental 1»; muito embora desde os finais de 50 já tivesse começado a germinar, como até podemos verificar ao cotejar os trabalhos literários de António Aragão organizados e divulgados naquele decénio, na Madeira. &lt;br /&gt;Devemos até realçar que essa primeira revista colectiva experimental, ordenada e em grande parte custeada pelo nosso escritor, e de certo modo o Portugal Futurista» de 1917, foram um dos únicos momentos em que a Poesia Portuguesa esteve em sintonia e caminhou a par e passo com as experiências que iam acontecendo no Brasil e um pouco pela Europa e na América do Norte.&lt;br /&gt;Convém também precisar que a postura para-científica dos experimentalistas, nomeadamente a atitude de nos seus escritos e objectos-actos concederem especial relevo à investigação criadora, e a um processo criativo que privilegiava muitíssimo mais o percurso e as peripécias das experiências que iam ensaiando, do que o próprio objecto que acabavam por produzir; tudo isso chocava profundamente grande parte do público e sobretudo os corifeus da crítica da época.&lt;br /&gt;De facto, o novo modelo de comunicação experimentalista navegava em águas muito diferentes e em nítida contra-corrente aos padrões literários e artísticos há muito consagrados e estabelecidos, determinando a desconfiança e a rejeição activa de todas as forças conservadoras, dos tradicionais fruidores, e mesmo do grosso dos críticos artísticos e literários.&lt;br /&gt;Tudo isso era fortemente potenciado pela atitude dos experimentalistas que de modo frontal e inédito convidavam os seus leitores e fruidores para que participassem de forma interactiva, em volta dos diversos objectos da acção ou do acto criativo.&lt;br /&gt; Na verdade, em 1965, o próprio Aragão Mendes Correia, escrevia «que o denominado público, em frente de certos objectos artísticos, deixa de lado a cómoda ou incómoda posição estática de simples receptor de sensações, e passa a actuar como elemento activo, participante e provocador das suas próprias emoções». E para maior escândalo dos empertigados críticos oficiais e oficiosos, Aragão afirmava mesmo que a partir de então, era permitida e concedida a plena e inteira liberdade para que «o imaginário criador dos fruidores também actue sobre a obra de arte, ou seja que a sua imaginação passe de espelho receptivo, a operante, e que ponha de lado para sempre a posição de absoluta subalternidade a que tanto se escravizara».&lt;br /&gt;E, fomentando a perplexidade de grande parte dos costumados consumidores e fruidores, e incrementando ainda mais a vigorosa rejeição da critica conservadora e dominante, António Aragão e os demais experimentalistas também desmontaram o discurso tradicionalista das literaturas ocidentais, propondo e utilizando um novo construtivismo fortemente apoiado no poder e no impacto da «comunicação visual».&lt;br /&gt;Importa também realçar que o «Experimentalismo Português», cujo nome resultou da citada «Revista Experimental», é também um movimento de vanguarda que despontou nitidamente ligado e conexado com as experiências do «Movimento Internacional de Poesia Concreta», surgido em meados da década de 50, no Brasil e também na Europa.&lt;br /&gt; Podemos ainda afirmar que as suas raízes mais profundas e longínquas foram beber no vanguardismo europeu dos primeiros anos do séc. XX, e alimentaram-se, progressivamente, na tradição barroca e maneirista peninsular, que a partir dos anos 60 assumiu uma grande importância. De facto, além das propostas em torno da «poesia concreta e da comunicação visual», a poesia barroca também atraiu grande parte dos experimentalistas, que encontravam nessas obras do passado afinidades idiossincráticas ainda actuais quanto à compreensão da estrutura mental e da sensibilidade artística, bem como manifestações lúdicas e valores retóricos belos e dinâmicos, apesar de haverem caído em completo desuso e esquecimento, e terem passado a ser mal amados pela critica oficial.&lt;br /&gt;Acresce que, conforme referiu Melo e Castro na «Dialéctica dos Vanguardistas», o «surto barroco experimental de 60 deve ser atendido pelo que é: a manifestação critica dinâmica de um mundo em transformação, em que valores fixos vacilam e caem, as formas se multiplicam nas suas particularidades materiais, os materiais se valorizam como definidores do volume, do espaço e do tempo, em relações probabilísticas abertas».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda antes de fazer uma referência mais pormenorizada aos trabalhos literários experimentalistas de António Aragão Mendes Correia, importa tentar descobrir as origens, o itinerário, e as demais raízes históricas do «Experimentalismo Português» dos anos 60. E começamos por salientar que os diversos percursores desse movimento já tinham um longo passado cultural, pois todos haviam publicado livros, e ensaiado outras vivências pessoais, sendo também certo que cada um deles tinha conhecido diferentes práticas literárias.&lt;br /&gt;Na verdade, e como refere Melo e Castro numa longa entrevista dada a Raquel Monteiro, ele próprio havia vivido na Inglaterra entre 52 e 56 «e tinha tido uma experiência muito importante com os britânicos, e continuou a ter muitas relações com o «underground» inglês nos anos 60. (…) A Ana Hatherly tinha vivido na Suiça e em Paris, e era principalmente de formação francesa, mas também com algumas ligações ao mundo inglês. (…) O Herberto Hélder tinha publicado trabalhos na Madeira e a grande experiência dele era coimbrã; sendo um homem de formação pós-surrealista. (…) O António Barahona da Fonseca, era o mais novo de todos e o menos experimental, mas já tinha publicado alguns livros. O José Alberto Marques (…) era um autor que sempre se tinha interessado pelos vanguardismos da década de 10 e de 15 e dos anos 20; o «Orpheu», os futuristas, e também tinha contacto com os letristas».&lt;br /&gt;Quanto ao nosso António Aragão Mendes Correia, que também era pintor, além dos trabalhos que realizou na Madeira nos anos 50, a que já fizemos referência; tinha vivido um curto período em Paris, e muito mais tempo na Itália, onde se especializou como restaurador de obras de arte. E foi precisamente em terras italianas que Aragão conheceu e privou com Emílio Villa, o pai do grupo vanguardista e experimental «INovissimi», com o qual o nosso escritor chegou a colaborar e de quem auferiu bastantes influências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, para conhecermos melhor a obra de António Aragão Mendes Correia, e a génese do «Experimentalismo Poético Português» e todas as suas manifestações, torna-se indispensável começar por analisar e estudar o primeiro número da «Revista Experimental», publicado em 1964, em que foram principais impulsionadores os madeirenses Herberto Hélder e António Aragão que coordenou e pagou quase toda a edição; os quais receberam a colaboração de Ernesto Melo e Castro, Ana Hatherly, Salette Tavares, Barahona da Fonseca e Ramos Rosa; todos eles escritores que apesar da equivalência de interesses na produção e publicação de experiências vanguardistas, já não eram jovens principiantes, e como já dissemos, tinham editado outros tipos de trabalho, vivido diversas vivências pessoais, e percorrido diferentes itinerários e padrões estilísticos.  &lt;br /&gt;O segundo número da «Revista Experimental» foi editado e novamente organizado pelo nosso António Aragão, com alguma colaboração de Melo e Castro e Herberto Hélder, tendo sido divulgado, em 1966, com um texto de Lewis Carrol na contracapa, e com uma curiosa e desusada capa de cartão em forma de envelope grampado, da autoria de Ilídio Ribeiro, contendo folhas soltas, não numeradas e dobradas de forma original, que foram compostas e impressas nas oficinas gráficas da «Escola de Artes e Ofícios do Funchal».&lt;br /&gt;Contém uma separata do músico Jorge Peixinho intitulada «Música e Notação», signos alfabéticos, desenhos caligráficos, e poemas visuais, tais como «Mirakaum» de António Aragão; um texto experimental e quase cabalístico de Herberto Hélder, um poema vanguardista de Eugénio de Melo e Castro, um conto e desenho de Ana Hatherly denominado «Eros Frenético»; a «Composição Aliatória» de Salette Tavares; e outros textos experimentais dos portugueses António Barahona da Fonseca, José Alberto Marques, Luísa Neto Jorge e Álvaro Neto; dos brasileiros Edgard Braga, Pedro Xisto e Heraldo Campos; dos italianos Emídio Vila e Mário Diácono; e ainda dos ingleses Ian Hamilton e Mike Weaver.&lt;br /&gt;Para fazermos uma pequena ideia da grande inovação experimental, introduzida pelas duas Revistas, faremos uma breve transcrição do poema «Mirakaum», escrito por Aragão em 1965, embora com a nota de que apenas nos dará uma pálida ideia, pois não temos condições técnicas para reproduzir os seus numerosos desenhos e efeitos visuais:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em Mirakaum           meu reino           que me lume&lt;br /&gt;louvado seja              louvado seja&lt;br /&gt;me falando o caso de dizer&lt;br /&gt;                                          meu rei  nu  de  Mirakaum&lt;br /&gt;            com mexer-se  e  mas  ti  gare&lt;br /&gt;            ou  com boy  ando  o  aumento&lt;br /&gt;                                  guerreiro  do  olhar&lt;br /&gt;            com  30% + 20% + 15% e &lt;br /&gt;                                                                DDT  e CTT e DSPT&lt;br /&gt;                                                                e TNT e ANT e ROBT&lt;br /&gt;e fazer o Q?&lt;br /&gt;e dizer o Q?               (segue pequenos efeitos visuais)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois desta participação activa e impulsionadora nas «Revistas Experimentais I e II», António Aragão Mendes Correia, sempre animado de propósitos vanguardistas, continuou a enfrentar a critica oficial, a rigidez da censura e a tacanhez de algumas camadas da burguesia conservadora; publicando novos textos experimentais na revista colectiva «Visopoemas».&lt;br /&gt;Em 1967, sempre claramente influenciado pelo Estruturalismo, a Semiótica e a Poesia Virtual, António Aragão, foi um dos principais colaboradores da revista «Operações 1», de índole estruturalista, que para espanto dos basbaques corporativistas e nacionalistas, surgiu envolta num álbum de desmedidas dimensões e com os textos impressos em lâminas de cartolina, provocando ruidosas polémicas e a condenação dos críticos conservadores; seguida meses depois pela «Hidra 2», que também acarretou muitas controvérsias, pelas suas características inovadoras e experimentais, e onde o nosso escritor voltou a publicar trabalhos vanguardistas que escandalizaram e atarantaram as correntes literárias dominantes no nosso País, facto que em nada incomodou o nosso escritor, que segundo nos parece sentia muito gozo com isso, e nunca perdia uma ocasião para melindrar e susceptibilizar os pândegos e balofos burgueses tradicionalistas.&lt;br /&gt; Anos depois, em 1981, e numa altura em que o estruturalismo literário de 60 acusava algum desgaste, Ana Hatherly e Ernesto Melo e Castro, com alguma colaboração de António Aragão e outros experimentalistas publicaram o «Poex – Textos Teóricos e Documentos da Poesia Experimental Portuguesa», que contem a documentação básica do Experimentalismo Poético Português.&lt;br /&gt;Além de toda esta importantíssima e frutuosa colaboração nas revistas colectivas do movimento experimental, António Aragão Mendes Correia, ainda antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, sempre fiel às matrizes vanguardistas e experimentalistas publicou em 1962 «O Poema Primeiro»; em 1964, a ficção «Roma nce de Iza Mor f ismo»; em 1966 os poemas «Folheama 1» e «Folheama 2»; em 1970, o poema «Azul e Branco», em 1971, o «Poema Vermelho e Branco»; e ainda o «Buraco na Boca», editado pelo semanário «Comércio do Funchal», onde o nosso escritor também publicou excelentes textos jornalísticos; e que é um romance que consideramos a sua obra-prima, pela elegância da escrita, as subtis abordagens às contradições da condição humana, e sobretudo pela originalidade, mordacidade, e profunda ironia.&lt;br /&gt;Após a Revolução de 25 de Abril, sempre fiel aos cânones do experimentalismo literário, António Aragão publicou em 1975, o poema «Os Bancos»; em 1977 a «Poesia espacial POVO/OVO» (audio-visual); em 1980 a peça de Teatro «Desastre Nu»; em 1981, os textos poéticos «Metanemas»; em Junho de 1982 a 1ª edição da ficção «Pátria, Couves, Deus, etc»; contendo uma curiosa xerografia da sua autoria; e ainda os poemas «Joyciana» (com Alberto Pimenta, Ana Hatherly e Eugénio Melo e Castro); em 1984, publicou a ficção «Os 3 Farros» (com Alberto Pimenta); em Fevereiro de 1992 António Aragão, editou os contos vanguardistas «Textos de Apocalipse», acompanhados duma interessante gravura a cores por ele desenhada; e em 1993 voltou a divulgar «Pátria, Couves, Deus, etc», aumentada com novos textos experimentais, entre outros, «Tesão, Politica, Detergentes, etc».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegados aqui, é o momento de precisar que ao contrário do que ambicionaram os escritores neo-realistas portugueses, contemporâneos dos experimentalistas, estes nunca manifestaram qualquer interesse pelas teses e doutrinas marxistas, nem pretenderam intervir com os seus escritos e trabalhos, no processo da luta pela transformação da sociedade, no sentido da libertação da Humanidade de todos os tipos de exploração e opressão, e pelo fim da pobreza, da ignorância e das desigualdades.&lt;br /&gt;Todavia, pelo simples facto de serem vanguardistas, numa conjuntura em que Portugal estava envolvido numa bafienta mas sanguinária Guerra Colonial, e estagnava asfixiado pela censura, pelo obscurantismo e por uma feroz perseguição aos criativos e dissidentes; os experimentalistas passaram a ser olhados pelo regime fascista, como criaturas suspeitas e até perigosas.&lt;br /&gt;E na medida em que, indirectamente, denunciavam as consequências e as implicações do retrocesso cultural que grassava no País, e sobretudo, pelas suas atitudes anti-saudosistas e anti-liricas, os experimentalistas, eram acusados de produzir textos e objectos que escandalizavam as tendências aceites pelo gosto e pelos cânones do estatuto sócio cultural vigente.&lt;br /&gt;A esse respeito, Melo e Castro, na entrevista que concedeu a Raquel Monteiro referiu que a censura chegou a recusar que um dos seus poemas fosse publicado, pois era considerado danoso, «embora não soubessem sequer que era contra eles, porque eram estúpidos como uma porta, mas sabiam que era perigoso e sentiam-se ameaçados».&lt;br /&gt;Todavia, após a revolução de 25 de Abril de 1974, o punhado de experimentalistas que restaram fiéis ao espírito matricial do movimento, declararam-se frontalmente antifascistas, como facilmente podemos concluir da leitura dos trabalhos de António Aragão publicados após essa data, e também de alguns textos de Melo e Castro, Ana Hatherley, Alberto Pimenta, Salette Tavares e do madeirense Silvestre Pestana.&lt;br /&gt; O próprio autor do presente ensaio colaborou com António Aragão Mendes Correia na confecção e distribuição duma folha humorística intitulada «O Lixo», coordenada e em grande parte escrita pelo nosso escritor, denunciando com muita ironia e corrosivo sarcasmo, uma série de atentados regionais contra as liberdades e o espírito de Abril.&lt;br /&gt;Resta afirmar que nos dias de hoje, o experimentalismo ainda conhece alguma visibilidade e afirmação. Na verdade, num recente artigo publicado na importante Revista espanhola «Espacio Escrito 11/12» (Badajoz, 1995); Ernesto Melo e Castro e Ana Hatherly, declararam que a «Poesia Visual» no nosso tempo, «era uma alternativa ao hiper-subjectivismo e decadentismo que invadiram a poesia a partir dos anos 80. Dadas as suas grandes potencialidades de comunicação, ela pode veicular um optimismo construtivista que claramente se opõe às tendências metafísico-decadentes, típicas de um certo pós-modernismo que para nós, herdeiros da tradição barroca, aparece destituído de interesse. Actualmente a «Poesia Experimental» encontra uma renovação justificada, opondo-se aos valores economicistas da nova selva da sociedade neo-capitalista. Do mesmo modo como se opuseram ao fascismo e ao realismo socialista, os poetas experimentais, que continuam activamente produzindo, são agora hipercríticos do modelo consumista aplicado a todas as actividades humanas».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terminar, cumpre lembrar que António Aragão Mendes Correia, apesar de se encontrar bastante doente e de ter deixado de escrever, com toda a justiça foi reconhecido, publicamente, pela Câmara Municipal do Funchal, como sendo um dos mais importantes homens da cultura e das letras madeirense, tendo sido homenageado, em 2007, por aquele Município, que deu o seu nome a uma rua na freguesia de Santo António, em ligação com outro arruamento que ostenta o nome de Edmundo Bettencourt, que também é outra grande e incontornável figura da literatura do Arquipélago.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-5913240101981878425?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/5913240101981878425/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/antonio-aragao-e-o-experimentalismo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/5913240101981878425'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/5913240101981878425'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/antonio-aragao-e-o-experimentalismo.html' title='António Aragão e o Experimentalismo Literário Portugês'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S4HTrtY-DoI/AAAAAAAAAGA/KebqvgXchng/s72-c/Aragao_Correia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-1338972395679505652</id><published>2010-02-19T00:41:00.002Z</published><updated>2010-02-19T00:43:56.797Z</updated><title type='text'>A Madeira na Obra de Marmelo e Silva</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33ewsiISBI/AAAAAAAAAEA/iTv_NeyFSDo/s1600-h/Marmelo_Silva.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 259px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33ewsiISBI/AAAAAAAAAEA/iTv_NeyFSDo/s320/Marmelo_Silva.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5439748853102823442" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;José Marmelo e Silva, nasceu na Beira Baixa, mais precisamente na freguesia do Paul, do concelho da Covilhã, a 7 de Maio de 1911, e faleceu a 11 de Outubro de 1991, em Espinho, cidade onde residia desde 1947, e que, em 1987, o agraciou com a medalha do município; sendo que no ano seguinte, também seria distinguido com o grau de «Comendador da Ordem de Mérito». &lt;br /&gt; Marmelo e Silva, estudou no Seminário do Fundão, donde acabou por ser expulso quando tinha 17 anos, por não se ter conformado com a distorcida visão do mundo e a hipocrisia castradora daquela instituição. E em virtude de não lhe haverem abonado a carta de habilitações literárias, foi constrangido a repetir todos os degraus do ensino desde a instrução primária, pelo que só em 1940, se licenciou em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da «Universidade de Lisboa», após ter frequentado a «Universidade de Coimbra», onde participou na «Tuna Académica», com a qual visitou muitas cidades do País, e também a Madeira e os Açores.&lt;br /&gt;Em 1936, prestou o serviço militar no quartel do Convento de Mafra, experiência que o inspirou nalguns lances do livro «Depoimento»; e depois de doze meses como soldado cadete, serviu quatro anos na categoria de oficial miliciano do exército.&lt;br /&gt;Desde 1943 a 1947, José Marmelo e Silva fixou-se na Madeira, salvo num curto período de 1946, em que se ausentou na cidade de Lisboa, onde casou com D.ª Marcolina de Oliveira Gomes, tendo ambos vindo para a ilha, aonde residiram desde Setembro de 1946 a Junho de 1947, e leccionaram no «Colégio Académico do Funchal», do qual o escritor foi proprietário.&lt;br /&gt;A partir de 1947, o casal passaria a morar em Espinho, onde Marmelo e Silva pertenceu à direcção do «Colégio de São Luís», de que era sócio; aí ensinando até 1960. Além da docência, impelido pelas suas raízes camponesas, também se dedicou a exercer actividades agro-comerciais.&lt;br /&gt;Desde muito jovem, José Marmelo e Silva mostrou vocação para as letras, tendo colaborado na década de 20 no «Brado Académico», no «Raio» da Covilhã, e ainda na «Mocidade Livre» da cidade de Castelo Branco. Mais tarde, já nos anos 30, utilizando o pseudónimo Eduardo Moreno, cooperou no semanário lisboeta «O Diabo»; e nas décadas de 50 e 60 publicou diversos artigos no «Jornal de Notícias», no «Diário de Notícias» e ainda na revista «Seara Nova», onde divulgou, entre outros, os «Poemas da Ilha de Porto Santo».  &lt;br /&gt;Como escritor José Marmelo e Silva publicou em 1932, «O Homem que Abjurou a Sociedade – Crónicas do Amor e do Tempo»; em 1937, «Sedução», (cuja 5ª edição renovada e alterada saiu em 1989); no ano de 1939, divulgou na revista Presença, nº 1, série II a novela «Depoimento», (com 4ª edição melhorada, em 1967); em 1943, editou o livro de contos «O Sonho e a Aventura»; em 1948, «Adolescente» (modificado e passando a denominar-se Adolescente Agrilhoado, com 5ª edição de 1986); em 1968, «O Ser e o Ter», (com 2ª edição alterada em 1973); no ano de 1971, «Anquilose»; em 1983, «Desnudez Uivante»; a 1989, «O Cabo Elísio»  (com um excerto publicado no «Letras e Letras» de 5 de Março de 1989); e, finalmente, «Memoriais» ainda inédito.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nos primeiros anos de sessenta, quando ainda estudava Direito na «Universidade de Coimbra», que nos veio parar à mão a 3ª edição da novela «Sedução» de José Marmelo e Silva; um escritor de quem pouco ou nada tinha ouvido falar.&lt;br /&gt; E ainda hoje lembro que fiquei seduzido pela sua linguagem ágil e moderna, embora tão opulenta que me recordou Aquilino. Também entusiasmou-me a rigorosa construção psicológica das personagens, com comportamentos livres de preconceitos e mordaças, onde de permeio com episódios de irremediável frustração e de exagerado erotismo, também pulsavam cenas da mais profunda ternura e humanidade.&lt;br /&gt; E note-se que fiquei muito agradado com esse livro, muito embora nessa época, além de Marx, Gramsci, Sartre e Camus, lesse também com avidez Carlos de Oliveira e todos os neo-realistas portugueses, bem como os seus confrades estrangeiros da resistência transformadora, desde Steinbeck, Faulkener, Hemingwai, Morávia, Pratolini, Pavese, Thomas Mann, Brecht, Malraux, Graciliano Ramos, Neruda e o grande Jorge Amado.&lt;br /&gt;Passado pouco tempo, li também com aprazimento a 2ª edição do «Adolescente Agrilhoado», onde irrompem certos traços autobiográficos do escritor, que nos fez recordar a «Manhã Submersa» de Virgílio Ferreira, e no qual Marmelo e Silva descreveu de forma muito realista o drama psicológico de um jovem expulso do Seminário, onde tinha entrado com grande pureza de intenções, e findara traumatizado e revoltado contra o ambiente perverso, falso e de grande hipocrisia que, inesperadamente, ali encontrou.&lt;br /&gt;Também me recordo que procurei conhecer estudos ou ensaios sobre José Marmelo e Silva, e fiquei surpreendido por nada encontrar que satisfizesse a minha curiosidade, nem sequer no «Dicionário de Literatura» dirigido por Jacinto Prado Coelho, ou na conhecida «História da Literatura Portuguesa» de Óscar Lopes e António José Saraiva.&lt;br /&gt; Apenas ouvi, nem sei bem onde, que esse silêncio ensurdecedor dos seus companheiros de letras, se devia ao facto de naqueles negros tempos em que o fascismo sujeitava o nosso povo a grande obscurantismo e a esmagadora opressão e exploração; José Marmelo e Silva, rendido aos cânones da já serôdia «Presença», se teria afastado das trincheiras dos neo-realistas, e da dura luta pela transformação dessa injusta e prepotente sociedade, votando-se à caterva dos «psicólogos de almas», e ao intimismo egoísta do romance burguês, desligado dos grandes problemas que afligiam o País.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos anos depois, ao compulsar o Suplemento Cultural do «Diário» de 23 de Maio de 1987, órgão de imprensa que lia com muita assiduidade, deparei, com surpresa, que um vasto leque de analistas, quase todos marxistas convictos, dedicava uma longa homenagem a Marmelo e Silva.&lt;br /&gt; Atentamente, apurei a entrevista que Marmelo e Silva concedeu a Serafim Neves, e fez-se luz no meu espírito, quando aferi que o escritor afirmava, peremptoriamente: - «não escrevo para vender livros, escrevo para os escrever. (…) Sou o autor do texto e não das teorias que vieram depois ou que vieram antes. Persigo as minhas histórias e não os comentadores delas».&lt;br /&gt;Deste modo, depressa cheguei à conclusão que Marmelo e Silva apenas se havia denegado a aceitar qualquer tipo de ortodoxia literária, mantendo-se, porém, solidário, fraterno, e atento aos problemas do seu povo.&lt;br /&gt; Na verdade, Mário Sacramento, asseverou que o nosso escritor «é não só um dos casos mais notáveis da moderna literatura portuguesa, mas o que mais fundo exprime e ensaia o significado da arte como libertação do homem – como reintegração do homem. Assim, quando o autor do «Adolescente» prefere, com certa insistência, designar o seu herói por «o adolescente», a dizer-lhe o nome, não está criando apenas uma ambiguidade que reverte à autobiografia, está igualmente emancipando-se dela por um esforço generalizador, que em certos passos aspira ao «ensaio» estrito da psicologia puberal. E, não obstante, que riqueza de concretização, a desta novela! E que variedade e verdade de tipos, (…) originalidade estilística e sugestão humanitária, (…) que talento aquele, capaz de entrançar em realismo de lei o que houve de pior no romantismo decadente. (…)&lt;br /&gt;«Como tantos outros de nós, Marmelo e Silva é um elo entre duas idades, entre dois humanismos – como a adolescência ela própria. E se o primeiro humanismo libertava o homem, individualmente considerado, dos cilícios do preconceito, o segundo recondu-lo, como espécie, à reintegração do mundo».&lt;br /&gt;O entrevistador e crítico Serafim Ferreira também quis deixar muito claro, que «partindo com a chamada corrente «neo-realista», mas antecipando-se-lhe numa mais exacta perspectiva humanista do fenómeno literário, Marmelo e Silva não deixou nunca de se identificar com esse movimento. (…) No entanto, o autor de «Sedução» procurou colocar-se sempre adiante dos valores da corrente, ultrapassar as barreiras de um esquematismo por demais evidente e já tão discutido, desdobrando a sua produção em dois sentidos ou opções diferentes: de um lado, o arreigamento a um mundo real objectivado nas suas razões e desigualdades sociais, visão lírica, sentimental e poética de um mundo a que não deixa sempre de se mostrar preso; por outro lado, a libertação plena de uma imaginação rica em experiência, sinuosa nos labirintos, (…) tendo sempre em conta uma intenção social e histórica bem localizada e escalpelizada em rigor literário que define toda a arte de escrever de Marmelo e Silva». &lt;br /&gt;Por sua vez, Óscar Lopes, depois de analisar, cuidadosamente, toda a tipologia e fatalidade objectiva dos conflitos da novela «O Ser e o Ter» de José Marmelo e Silva; comentou «que nem faltam, sequer, figuras femininas de uma total abnegação económica, a sentimentos que se cruzam sobre a generalizada e mesquinha caça ao «ter», mas definindo-se precisamente por contraste, numa rede de relações balzaquianamente dominada pela distribuição da supervalia. Tudo coisas tão obviamente vividas, ou extrapoladas do vivido, como outras análogas o foram por Aquilino nas «Terras do Demo».&lt;br /&gt;O crítico Liberto Cruz, expressou também um imenso apreço pela elevada estatura do estilo de José Marmelo e Silva, comentando que «apesar de verdadeiro esteta, não se embriaga contudo com o maravilhoso das palavras. Por detrás de cada frase está presente o escritor lúcido, o homem atento ao mundo que o rodeia, o contador excelente de histórias sabendo perfeitamente a grandeza e a função daquilo que se conta».  &lt;br /&gt;Manuel Poppe esclareceu ainda que José Marmelo e Silva «não desconhece a alma humana; o que não impede de se manter atento aos problemas sociais do seu tempo e de, acreditando no poder do homem e no valor da acção, angustiada e esperançosamente sobre eles se debruça». &lt;br /&gt;E José Saramago foi de parecer que os livros de Marmelo e Silva dão a impressão «de textos inclusos, como se o autor por pudor, retraimento ou alta sabedoria, tivesse renunciado à total explicação, que por via da regra o leitor espera. As suas novelas assemelham-se singularmente a seres vivos, dos quais nunca se pode dizer «que são assim», por que no minuto seguinte são já «outro ser». (…) É um narrador discreto e reservado. Sabe que o livro tem vida independente da vida do escritor, e, o que é mais importante que sabê-lo simplesmente, sabe-o enquanto escreve».&lt;br /&gt;Pelo seu lado, António Augusto Menano, afirmou, claramente, que «o que se mostra essencial em Marmelo e Silva não é o ter escolhido «determinado ambiente» (o universo da adolescência, da juventude, do seminário, do serviço militar, da escola, da universidade, a vida rural, a vida coimbrã, a vida provinciana), o mais importante, reside na sua acção renovadora, no que Gramcsi designou de «atitude do escritor» … em face desse ambiente. (…) Marmelo e Silva com «Sedução» espanta e abala os críticos, estabelecendo uma ponte entre os presencistas e o neo-realismo. Com «As Sete Partidas do Mundo» de Fernando Namora, «Sedução» afirma-se como a primeira ficção neo-realista. (…)&lt;br /&gt;«Assim, para além de elaborar subjectivamente a relação das personagens com o meio em que se movimentam, Marmelo e Silva realiza, num estilo seguro e vibrátil, a projecção estético-literária que visa a «intencionalidade» e a «apropriação da realidade». &lt;br /&gt;Quanto a António Rebordão Navarro, apelidou de Mestre a José Marmelo e Silva, e afirmou que é inconcebível que a sua obra ainda não tenha atingido o lugar cimeiro que merece. «Os seus livros, lidos e relidos são sempre novos ou não têm idade, concedendo sempre outras chaves, interpretações, espelhismos, velaturas, revérberos, construções, reconstruções, aberturas para recentes labirintos, considerações do corpo próximo da alma, do rancor, e do mistério insondável da existência».&lt;br /&gt;Albano Martins, escreveria mesmo que Marmelo e Silva era um grande escritor, na rigorosa e inteira acepção da palavra. (…) Leia-se a «Desnudez Uivante» e ter-se-á a medida exacta da estatura do autor. Que o é, também, de outras obras exemplares. Um caminho percorrido sem alardes, sem desvios e sem transigências. Não cedendo à tentação do fácil, do gratuito e do (tantas vezes) falsamente inovador».&lt;br /&gt;E Baptista Bastos, depois de analisar a novela «Sedução» e afirmar um profundo respeito e admiração pelas demais novelas de Marmelo e Silva, comentou que «a obra deste escritor discreto, relator ficto do corpo, o corpo entendido como liberdade ou como experiência do sagrado – a obra deste escritor maior possui algo de religioso, de valores e de implicações cósmicas, e nela avulta essa profunda relação causal entre a matriz e o crescimento, entre amor e morte, entre Eros e Tahnatos. (…)&lt;br /&gt;«Um grande escritor, como José Marmelo e Silva, não é «medível». Pode, talvez, ser «mensurável», através da sua própria «desmesura». E como nele não há excesso (excesso de palavras, excesso na composição, excesso nesse equilíbrio entre o antigo e o moderno) eis porque, sem estratégias de glória, sem tácticas imediatas, e precárias porque efémeras, de marquetingue – eis porque ele é um clássico e, a um tempo, um contemporâneo». &lt;br /&gt;Também Luís Miranda Rocha desenvolveu um demorado estudo sobre Marmelo e Silva e os seus livros, comentando «que o que a história diz da obra dele é que ele representa como que uma transição entre a novelística da presença e a do neo-realismo, Quanto ao significado, ele transcenderá razoavelmente os limites deste enquadramento. (…) A obra de Marmelo e Silva exprime um inconformismo e uma revolta perante convencionalismos, arbitrariedades, e um, enfim, decidido empenho na liberdade e nos valores que lhe andam associados e dos quais coragem, audácia e ousadia são os suscitadores de maior elevação. (…)&lt;br /&gt;«As personagens principais dos principais livros de Marmelo e Silva são jovens, recém-saídos da adolescência e fazendo a aprendizagem da adultez. Eu creio que o escritor teve sempre em vista atingir um público assim, de preferência a qualquer outro. (…) Também por isso é ainda essa idade que eu gostaria de pensar que ele tem, como escritor».  &lt;br /&gt; Finalmente, Urbano Tavares Rodrigues lamentou que os trabalhos do final do ano lectivo, não lhe dessem tempo para a cuidada exegese que a obra inovadora de José Marmelo e Silva merecia. Todavia, num rápido testemunho assegurou que «o antifascismo sempre se exprimiu corajosamente na obra desse escritor, e que nele também admira a sensualidade avessa ao preconceito, ao policiamento consórcio, e a generosa adesão à causa dos malditos da terra, tão patente no «Adolescente Agrilhoado», curto romance que marcou posição original entre as obras decisivas do neo-realismo. Qualquer coisa de mítico, um certo sopro bíblico assinalou este texto que o tempo não envenenou nem amareleceu. &lt;br /&gt;«A força erótica libertadora de «Sedução» e de «Anquilose», narrativas de límpida análise e observação da juventude, carregador de seiva e de desafio reapareceu, tantos anos volvidos, no imaginoso, por vezes barroco, mas sempre apaixonado e apaixonante romance «Desnudez Uivante». José Marmelo e Silva é um escritor da adolescência, do amor da transgressão, e tudo isso reaparece no cenário insólito da Madeira serranal, sem fragrância de flores tropicais nem folclore turístico, antes devorado de asperezas e tradições, de desejos prementes, que as infracções estimulam, enquanto os sons da guerra de 1939-45 ecoasse ao longe».&lt;br /&gt;Por seu lado, João Gaspar Simões, um dos fundadores da «Presença», comentaria na sua «História da Poesia Portuguesa do Século XX», que «em poucos escritores dos nossos séculos XIX e XX encontramos a vibração do real aliada a qualquer coisa de irreal patente no prosa de José Marmelo e Silva quando ele, efectivamente, acerta no seu tema, que, em verdade, é sempre, pode dizer-se, o mesmo. (…) O tema dos amores frustrados, das mulheres levianas, dos encontros sensuais avulsos, tudo isto misturado com uma sentimentalidade realmente ingénua, podíamos dizer, mesmo provinciana, mas que na focagem multifacetada da narrativa, ganha relevos singulares, imprevistos súbitos, aspectos onde a ferocidade e a ingenuidade, a candura e a perversidade se dão fraternalmente as mãos».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns anos passaram em que pouco soube acerca do escritor, até que em 2003, adquiri a notável impressão da Obra Completa de José Marmelo e Silva, publicada pela editora «Campo das Letras», com um importante prefácio da coordenadora Maria de Fátima Marinho, e excelentes ensaios de Arnaldo Saraiva, Celina Silva, Maria Alzira Seixo, Maria Manuela Morais Silva, Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo. &lt;br /&gt;E nos primeiros meses de 2008, deparei-me na revista 41 da «Islenha», com um extenso estudo sobre José Marmelo e Silva, elaborado pelo crítico Ramiro Teixeira, no qual o ensaísta lembrou que muitos dos escritores que aceitaram a «ortodoxia» desapareceram, enquanto Marmelo e Silva «soube caracterizar uma voz sofridamente pessoal para além da circunstancialidade retórica do seu tempo. Por isto, não cabe nas prateleiras das correntes literárias do tempo que atravessou, sejam estas as do «neo-realismo» ou da «Presença»: não tem um pé numa coisa e o outro noutra, tem sim ambos os pés fixados num amadurecimento literário, com todos os seus defeitos e virtudes, que pela perturbação que transportam o fixam igualmente no aquém de todos os «arrumos», de todos os figurinos, de toda a objectivação rigorosa».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já dissemos, no período da 2ª Guerra Mundial, José Marmelo e Silva residiu durante alguns anos na Madeira, e desse estreito contacto com a ilha - onde além dos típicos problemas da insularidade acresciam os gerados pelo conflito bélico, e uma tremenda crise económica, social e até moral - resultou, em grande parte, o Romance «Desnudez Uivante» e o conto «O Cabo Elísio»; muito valorizados também pela experiência e conhecimentos do escritor acerca dos labirintos e meandros da vida militar.&lt;br /&gt;A acção desenrola-se em torno duma pequena unidade do exército, amoldada com militares frustrados, mal equipados, bisonhos, ociosos, desmotivados, muitos deles indignados e até revoltados, que sem as mínimas condições de conforto vegetavam num destacamento montado no comatoso e desolador planalto do Santo da Serra.&lt;br /&gt; A personagem principal é um jovem alferes miliciano, intelectual, progressista, partidário dos aliados, recrutado contra a sua vontade, que deplorava a miséria a que estavam sujeitos os militares e o povo da Madeira, o deboche entre a soldadesca, a corrupção, as prepotências e as injustiças; mas que também ele se aturdia e alienava, entregando-se a eróticas libertinagens e uivantes transgressões sexuais, com a Madre dum Convento, a filha do capitão, e a Aninhas e Gracinda, duas camponesas madeirenses.&lt;br /&gt;   De tudo isto resultou, segundo Maria Alzira Seixo, «o carácter eminentemente complexo deste texto, aparentemente directo e linear, que a uma leitura de superfície pode parecer apenas incómodo ou incongruente pela insistência na dimensão orgíaca e no palavreado obsceno (se assim fosse, teríamos apenas um escrito de erotismo vulgar), mas que o é pelo que de atitude humana essencialmente se assume entre o trágico duma situação-limite de carência, e a farsa (o quase grotesco) do seu preenchimento cumulativo através dos excessos mais desencontrados e mesmo discursivamente desconexos».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aclaradas as circunstâncias que demarcam a «Desnudez Uivante» e o «Cabo Elísio», passaremos a resumir e recriar os comentários e alusões referentes às paisagens, aos costumes, e ao difícil quotidiano do povo da Madeira.  &lt;br /&gt;O escrito começa por referir que vindo de Lisboa, o alferes miliciano José Luís Jordão, desembarcou na ilha e poucos dias depois desprende-se para o Santo da Serra, para se apresentar no destacamento da sua unidade;&lt;br /&gt;«Do Funchal a Machico, nada de maravilhoso, nada de imprevisível. Nenhuma singularidade tropical. (…) Nisto surge o pormenor que não deverei esquecer nunca. Relanceado da escarpa, na vertical dos nossos pés, o mar ilhéu, mudo, profundo, carbonoso, sem uma ruga nem um risco de asa, intimida-nos como um abismo lunar. Ouvi-lhe o silêncio escuro, o coração parado. Estremeci».&lt;br /&gt;Já no interior, quase a meio da ilha, a carrinha que conduzia os militares estacou para que todos repousassem um pouco, e o alferes procurou um pouco de sombra: - «Entro na floresta onde o verde do loureiro obscurece e o tortulho alastra. Desolador este paraíso de vegetação selvagem, se não fora a esperança de perpetuidade que cintila no intumescer dos gomos, no pespontar dos ramos. E o mistério que nele vive, me prende e se esquiva. Um rafeiro acompanha-me. Observo-lhe o esqueleto, a inteligência. (…) Fura, cheira, rebola-se, goza da vantagem dos quatro pilhares e cabeça aguda do animal genuíno da floresta. Impossível ter o primata adquirido aqui a posição erecta. Neste digladiar teimoso de copas e de agulhas, o bípede é obrigado a rastejar. Eu ou me agacho ou me revolto. Tal o dilema. A vegetação ameaça-nos, sobrevive-nos.&lt;br /&gt;«Detenho-me de preferência nos braços de um azinho idoso. O ulmeiro esbelto perde-se na cinza do ar. Enquanto que o Elísio (assim lhe gravaram na coleira aristocrática) continua a latir, dum esconso a outro, exibindo-me a espaços a glória de ser quadrúpede. Trago comigo este livro para quê? Flui a tarde na irisação de uma gota de água que não cai». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, já instalado no desolado acampamento incrustado no planalto do Santo da Serra, o tempo passava enfadonho e áspero. «O pesadelo era a nuvem; o planalto, o leito. Visceral, do leito à nuvem, o verde luz da vegetação. Musgo ou floresta, tudo a nuvem enrodilha nos seus cabelos tépidos incestuosos.&lt;br /&gt;«Céu negro. Temperatura morna pegajosa. Solidão de mundo ausente. Nem pássaro dentro, nem besoiro álacre. (…)&lt;br /&gt;«Assim escorrem os dias, as noites, a corrupção, a insídia…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada vez mais entediado, o alferes recordou quanto tinha sido bem diferente, há cinco anos, quando tinha esdado na Madeira acompanhando um cruzeiro da Tuna Académica de Coimbra. «Uma alegria infinita, fruíamos o espanto-triunfal dos velhos descobridores: mundo exótico, novo, num estado de pureza virginal. Como provindos duma outra galáxia, rodeavam-nos de admiração, de gentilezas excessivas – bailes sumptuosos em nossa honra, moças duma doçura que não há, rendidas! Passeios pela ilha que assombravam. (…) Cortes verticais de grande altura (lembro os 600 metros, no Cabo Girão e as cabrinhas encarrapitadas na face a pique), abismos de água cavados entre montanhas, picos nevados agulhando o céu, cabeleiras de águas ondulantes, rios de flores na cidade…Em suma, um éden acabado de criar. Mas não perdíamos a noção do real... No percurso de tantas maravilhas, as lágrimas da gente que nos olhava da porta das cabanas» …    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias iam passando e o militar só não apodrecia de tédio porque de vez em quando espairecia pelas redondezas, «quando a natureza se lhe afigurava propícia. Toda a manhã a nortada varrera as clareiras da floresta, o nevoeiro fragmentava-se, voava em lençóis fantasmáticos que a ramalheira rasgava, sumia. Pela primeira vez, em oito dias de planalto, vi, jubiloso, a brancura do Pico Ruivo, mamilo fulgurante na harmonia azul do céu. (O cão ia comigo?) Maravilha, os pinheiros floridos, baloiçando, zumbindo, quais rodízios suspensos dos brancos cirros que vogavam. Floridas também, e sensuais, as fruteiras do pomar, que logo as laranjeiras me impregnaram do seu cálido odor. (…)&lt;br /&gt;«Retrocedo no caminho que afinal se cobre de musgos e de madressilvas floridas, e observo a levada que o ia acompanhando humildemente, e tão repousada que dir-se-ia dormindo. Que bondade e inocência a da água que vem para nós descida das montanhas! Apraz-me brincar com ela, diverti-la, jogando-lhe bagas de zimbro que, balanceando, por si mesmas se recreiam, e sigo-a até à rampa do lado sul, maravilhado da sua ternura e mansidão, e como nela se debruçam os plátanos a mirar a imagem dos próprios olhos doirados». &lt;br /&gt;A meio do trilho, de novo se rarefez a nuvem que durante algum tempo reaparecera, «e os olhos alongaram-se por abismos e alturas. Árvores até aí espectrais, de visão radiográfica, readquiriam a sua beleza específica da folhagem gorda e oleosa. Já o azul transbordava do céu sobre as quebradas longínquas. E brilhavam de sol branco até à cinta os picos agulhados, onde a noção do real se evolava.&lt;br /&gt; «Iam comigo trabalhadores da terra. Via-os bisonhos, receosos, talvez ressentidos de penas ancestrais… Que pensariam de tão complexa grandeza? Porque nem tudo era fascínio. Escarpas amedrontadoras, declives vertiginosos, águas rugindo, desfaldas arrepiantes… (…)&lt;br /&gt; «- Faz-me lembrar o Bocarral do Inferno – digo interessado para que todos ouvissem. E acenei para um recente desprendimento de rochas que represavam a água no fundo da ravina.&lt;br /&gt; «- Oh!, pior é quando matam, arrastam palhotas, gente a dormir…&lt;br /&gt; «- E na construção de estradas? – interveio um cabo muito afoitamente. – De há um ano para cá, três derrocadas colossais nas obras de S. Vicente – Seixal. Trabalhadores cuspidos da falésia, 700 metros de altura, no meio de avalanches vazadas no ma».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Semanas depois, o alferes subiu quase até o cume dum dos picos do interior da ilha, acompanhado pela filha do capitão que o granjeara no acampamento, «sereia encantatória com olhos de esmeralda nascidos no fundo dos mares, que trazia consigo o aroma e a frescura de flores entreabertas.&lt;br /&gt; «- Estamos «porriba» da nuvem! – Gritou ela, provocadora de alegrias.&lt;br /&gt; «A falésia, - que singularidade inesperada! Uma névoa branca bordejada de oiro colmatava o desnível falésia-mar e convidava-nos ao repouso abissal imperturbável. O manto estendia-se com rigor linear dois metros abaixo dos nossos pés, não urdindo transição semelhante à de penumbra, claridade, luz. O salto era tentador… (…)&lt;br /&gt; «Entardecera… Tudo à nossa volta foi perdendo o encanto das primeiras horas. O Oceano liso-imóvel dir-se-ia fóssil antediluviano. A Penha d´Águia, maravilha suspensa, cinzelagem da água, agora fantasmalhão que amedrontava o vale. Telhados vermelhos trepando pelos socalcos atapetados de verde, sombreados de abacates e anoneiras, - igualmente despidos do seu fascínio: longínquos e de seus donos, sem fruto, sem voz» ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Passados meses, finalmente, uma semana de férias no Funchal. Ardentes talvez... Constava que já tinham chegado as gibraltinas, refugiadas da guerra…  &lt;br /&gt; O sonido monótono do motor apelava ao sono. «Espreito pela janela poeirenta, ângulos, retalhos da vila de Santa Cruz. Palacetes de base roqueira debruçam-se, retribuindo a alva fidalguia ao mar azul henriquino. Outros de igual brancura escondiam-se entre arvoredos da encosta abaulada». &lt;br /&gt; Finalmente, a carrinha estacionou perto do cais. «Vou enfim passear os olhos pela cidade, do mar para a montanha. E o que logo me prende e maravilha é a festa cromática da natureza. Vê-se renascer o sol de Abril nas delicadas flores esplendentes. As ribeiras que dos altos montes se despenham correndo seu destino ao mar, não são ribeiras de água rumorejante espelho da cidade. São torrentes de flores que lhes engrinaldam policromaticamente o leito. Sortilégio! (…) &lt;br /&gt; «Um barco acaba de atracar, e com a avalanche vinda da Pontinha, o «Golden» ficou sem um lugar vago. Fui subindo ao 1º andar e dei com um salão a tresandar de aburguesado, pequenas mesas rés-do-chão, meiples de coiro de javali para adormecer ingleses aposentados, e quase repleto, ele igualmente de fardas de não muita demora. Falavam ruidosamente, esfumaçavam… Domino a curiosidade, enterro-me no estofadão. Começo a desdobrar os jornais, atento aos mapas da guerra».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Os trepidantes dias de férias no Funchal depressa acabaram. «De novo, no Planalto do Santo da Serra, escorrem os dias, as noites, a corrupção, a insídia» …O escritor ainda se espanta como pôde aguentar «três anos de planalto (deserto, gorduroso, enevoado, coberto de vegetação voraz que dir-se-ia absorvente do próprio ar que respirávamos. Coisa curiosa: o vento cilindrava o nevoeiro em grandes rolos que iam por sua vez dissipar-se nos cedros como fusos). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alferes Jordão recorda-se que pouco depois de regressar desse descanso na cidade, ecoou como refrigério a ordem de marcha para construir uma carreira de tiro nas bandas do Faial. Pelo menos, quebrava a monotonia… e a ociosidade…&lt;br /&gt;«O caminho sumia-se através de massas cerradas de austrálias, choupos e eucaliptos, mas, onde parecia menos impressa a intervenção do homem, arbustos bizarros emaranhavam-se gracilmente em freixos e bambus, salgueiros a amargoseiras. Uma levada fugia sempre à minha frente, ora clara e cantante, ora escondida como réptil, e pressentia-se no extremo do planalto a sua precipitação leitosa, pulverizante, convertida milagrosamente em grande cabeleira branca. Acompanhei-a durante muito tempo, encantado dos seus rumores e negaças. Quando toda a linha do horizonte era já só minha e um silêncio profundo se fez em toda ela, nascido das mais remotas origens e nunca, no decorrer dos milénios, interrompido pelas gerações, dei por mim suspenso desse mistério espantoso de ficar só no meio da Terra inteira.&lt;br /&gt;«Ali trazido, onde ninguém sabia de mim, ou prezaria de nada a minha existência, eu senti, por momentos, angustiosamente, o esquecimento total da morte, semelhante ao duma haste extinta. O Homem apenas sobrevive em comunhão e solidariedade – e sem elas é pouco mais que inútil. Revejo-me ainda hoje jacente nas raízes dum pinheiro marítimo secular, esmagado por esse encontro frio com a fria mineralização do ser. Então vira eu, ao fundo do planalto, o mar longínquo, negro e imóvel, mas tão negro e imóvel como se todos os sinais de vida do planeta expiassem a sua agonia.&lt;br /&gt;«Assim estive, desaparecido e só, não sei por quanto tempo. Finalmente, diante de mim, através das folhagens, um luar surpreendente, níveo-azulado, coava-se e parecia sorrir, como vindo do mundo real, belo como uma aparição sagrada, parecia penetrar-me, encher-me de claridade, iluminar-me o sangue, outra vez fremente, outra vez humano».  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; A enorme dependência da Madeira, e a dominação esmagadora dos britânicos, perante o autismo do Terreiro do Paço, não escaparam à lupa de Marmelo e Silva. «Fraudes, difamações, suspeitas, vinganças – são de esperar no espaço português, onde os reizinhos são sagrados e sangrados todos nós, muito especialmente nesta ilha que o poder central, de olhos vendados, entrega à voracidade dos monopolistas estrangeiros. (Veja-se o escândalo da cana-de-açúcar, recentemente esbulhada aos naturais, oferecida pelo ditador, de mão beijada, ao seu londrino amigo Hinton).  (…) A Madeira jaz ainda na fase da escravatura, retida pelo colonialismo inglês, com as inevitáveis consequências de fome, roubo, prostituição e suicídio».&lt;br /&gt;A tudo isso acrescia a desmedida exploração a que estavam sujeitas as bordadeiras. Num diálogo dramático, uma dessas pobres mulheres desabafava: - «Ah, se soubesses do meu martírio… Bordei, escrava de mim, desde os três anos. Na palhota éramos oito, 16 mãos noite e dia a bordar, e não comíamos senão papas frias de milho, que vinha de África. São precisas ainda hoje 18 horas diárias para um salário de esmola».&lt;br /&gt;Até as pobres adolescentes do asilo de Santa Úrsula no Santo da Serra, eram cruelmente exploradas. O alferes, ainda tentou consolar uma delas, explicando que pelo menos, no abrigo do internato, se livrara da miséria e «dum trabalho precoce.&lt;br /&gt;«- Livrei-me! Qual uma que se livre, de fome bem o diabo a leva, Doze horas a bordar na cadeirinha. (…) – Aos doze anos, passei a catorze horas, é assim, na ilha. A bordar se nasce, a bordar se morre. (…) E mesmo sem pagar impostos, nem medicamentos, os ricaços industriais apavoravam-nos: - Dizem que estavam a sustentar-nos, que lhes rapávamos o dinheiro dos bolsos, a caridade tinha limites (calcule, eles a engordarem à nossa custa!) que nos punham a pão e água… Milhares de criança morriam lá fora à espera de vagas da nossa cama-e-mesa. «Então, rua! Que o cemitério não estava ali para outro lixo…»&lt;br /&gt; E para cúmulo da injustiça, exerciam toda essa exploração, mesmo naqueles ricos tempos da guerras, tão salutares para as exportações e os seus réditos...«O mercado, excepcionalmente favorável sem a concorrência das Filipinas «obrigava-os» a exigir mais horas de trabalho (…) Cresciam à farta os lucros. As crianças começaram a sentir-se a estalar por dentro, com cuspos de sangue… Conclusão, - com o rótulo de caridade, um trabalho ilícito a vários níveis»…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem os pachorrentos animais escapavam à monstruosidade que grassava. Numa das curtas deambulações pelas redondezas do aquartelamento o oficial miliciano perguntou a um camponês: «Diga-me só: Aquelas palhotas na rampa, todas iguais, - vive gente ali?&lt;br /&gt;«- Vivem as vacas cegas – e riu espontaneamente… (…) - O meu alferes não sabe? As vacas leiteiras. Prantam-se à manjedoura, depois é até a morte. (…) – Para estarem quietas, o patrão arranca-lhes as vistas, salvo seja. (…) – E já não arredam pé. Esperam sempre o dia.&lt;br /&gt;«- Assombro! Uma negridão perpétua, sonhando com prados verdes…&lt;br /&gt;«- Ora! No mesmo lugar, sem ralações nenhumas… Comem, dormem, dão leite com fartura, engordam, - que mais querem? Tratadas como princesas»! ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como os bichos, os próprios vilões, boçais e analfabetos, vegetavam flagelados pela exploração e a miséria… Enquanto prosseguia a caminhada, o alferes passeava os olhos pela paisagem. «Além um moinho com palhota anexa, aqui, à beira do trilho, um cortiço esventrado onde vivem crianças selvagens (pai e mãe mendigos).&lt;br /&gt;«Descansaram, por fim, na Venda dos Quatro Caminhos. Havia àquela hora uma atmosfera sufocante, de feira de escravos. A camioneta Burnay, de Santa Cruz, recebe ali, diariamente as natas de leite originárias de Santana, Faial, S. Roque, Porto da Cruz e redondezas. (…) Não há animais de carga nem de tracção. Ainda que houvesse, qual se adaptaria aos milhares de degraus de Babel que ligam abismos do inferno aos do céu? Só o animal humano é passível de tamanha ousadia (e sofrimento).&lt;br /&gt;«No calvário das natas, centenas de trepadores vêm de quilómetros de distância com a carga albardada ao tronco, saco encordoado à cabeça, inundados de suor, descalços, abandalhados, malcheirosos, esbofados, língua de fora, - porventura moribundos.&lt;br /&gt;«(Quem libertará de vez no universo os flagelados do infortúnio?)&lt;br /&gt;«Este que observo de perto descarrega-se ao balcão e logo se precipita para a torneira do exterior. Mas não se lava. Emborca goladas e goladas ruidosas, até que a asfixia o faz rodar, ziguezagueante, por donde veio. Isoladamente, estende-se no musgo humedecido, rola sobre si mesmo, remédio original de estancar o suor. (…) Muitos gesticulam, nem falam, ardem por grogues, sua redenção e morte, enquanto outros, atendidos, bebem, bochecham e, entreolhando-se tacitamente, ainda ofegosos, lembram doentes na hora da extrema-unção».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A decadência e o abastardamento alastravam como nódoa de azeite….&lt;br /&gt;Enquanto caminhava o alferes Jordão ia cotejando:&lt;br /&gt;«As algarvias, e muito especialmente as de Tavira, cidade morta, perdem-se pelos nortenhos. Influência talvez dos cursos milicianos…Assim acontece aqui, connosco. As madeirenses caem-nos aos pés, de joelhos. (…) Põe-se-lhes um dedo, e alas assapam-se.  Nada ariscas, nada unhas de gata. Às vezes até gostaríamos duma resistenciazinha estúpida. Mas não. Assapam-se» … &lt;br /&gt; E perturbado, o militar concluía:&lt;br /&gt; «Escondemos em eufemismos as realidades perversas. Apelidamos de ilhas adjacentes a Madeira e os Açores, quando na verdade a colonização a todos nos subjuga. Para estes homens que acompanho, a salvação está no emigrar. Eles confessam-nos. Os senhores da terra vivem em Lisboa, em Londres, também em Roma, e sem remorsos… A Venezuela vai receber a força do trabalho dos analfabetos…(…)&lt;br /&gt;   «- E as mulheres?&lt;br /&gt;«- Que se defendam com os bordados.&lt;br /&gt;«- E morram tísicas, não é?...&lt;br /&gt; &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-1338972395679505652?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/1338972395679505652/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-marmelo-e-silva.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/1338972395679505652'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/1338972395679505652'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-marmelo-e-silva.html' title='A Madeira na Obra de Marmelo e Silva'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33ewsiISBI/AAAAAAAAAEA/iTv_NeyFSDo/s72-c/Marmelo_Silva.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-4320253793447643755</id><published>2010-02-19T00:06:00.002Z</published><updated>2010-02-19T00:52:38.291Z</updated><title type='text'>Os Poetas na Família de Francisco Álvares Nóbrega</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33gxoY85dI/AAAAAAAAAEg/IC936zwo2Aw/s1600-h/Machico_01.JPG"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33gxoY85dI/AAAAAAAAAEg/IC936zwo2Aw/s320/Machico_01.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5439751068193711570" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Francisco Álvares de Nóbrega, o prestigiado vate de Machico, provém duma família bafejada com o dom de exprimir com belos e harmoniosos cantos, os requintes da natureza, o amor, os dramas, e os sentimentos humanos; dádiva que, certamente, muito se deveu à magia de ter nascido em Machim, «a vila idosa», que refulge «na fralda de dois íngremes rochedos, que levantam aos céus fronte orgulhosa».&lt;br /&gt;Um desses poetas chamava-se Januário Justiniano de Nóbrega, nascido no Funchal em 25 de Fevereiro de 1824, cidade onde faleceria a 28 de Julho de 1866, que ficou conhecido como talentoso escritor e jornalista; e ainda por ter sido sobrinho do nosso «Camões Pequeno».&lt;br /&gt; Justiniano de Nóbrega casou no Funchal com Natália Pereira de Nóbrega, que minada pelo desgosto, pouco tempo sobreviveu à morte do marido. Desse casamento nasceu um único filho, que tal como o pai, chamou-se Januário Justiniano de Nóbrega Júnior, que foi ajudante da Conservatória do Registo Predial do Funchal, tendo contraído matrimónio com Dª Virgínia Pereira de Nóbrega, de quem teve o afamado poeta e jornalista, João Marinho de Nóbrega, que na nossa juventude chegamos a conhecer.&lt;br /&gt; E por mais invulgar que pareça, outra grande prova que nos genes de Francisco Álvares de Nóbrega e dos seus familiares, pulsava a criatividade e a inspiração poética, lemos num artigo de Alberto Figueira Gomes, publicado na revista «Das Artes e da História da Madeira», que Januário Justiniano de Nóbrega, sobrinho do nosso «Camões Pequeno», «tinha três irmãs – Carolina, Alexandra e Josefa, e que todas elas também se dedicavam às musas».&lt;br /&gt; Todavia, ao contrário do seu tio de Machico, que após a instrução primária trabalhou com o erudito Marco João de Ornelas, e estudou no «Colégio de São João Evangelista», entre outras, as cadeiras de Filosofia, «Retórica», e «Gramática Latina e Portuguesa»; Januário Justiniano de Nóbrega, apenas possuía a quarta classe, muito embora se tivesse salientado como autodidacta, ao ponto de ter sido um dos melhores jornalistas do seu tempo, e um talentoso praticante das Letras, tanto na prosa como em verso. &lt;br /&gt; Apesar dessas diferenças, é um facto que nos dramas da vida e na tragédia da morte, encontramos grandes afinidades entre o sobrinho e o nosso «Camões Pequeno». Na verdade, como de forma emocionada o próprio Januário Justiniano de Nóbrega verteu no prefácio da edição das «Rimas» do seu tio; o nosso poeta de Machico, amargurado pela doença, o infortúnio e os males de amor, «depois de se fechar no quarto e enrolar-se num lençol, que cozeu até os ombros; levantou a própria eça no silêncio da noite, rodeou-se dos livros a que consagrava as longas horas de insónia, pôs à cabeceira os seus escritos, e libando como Sócrates a bebida fatal, adormeceu no seio do Criador». &lt;br /&gt;Pelo lado do sobrinho, também bateu-lhe à porta uma morte fatídica, pois conforme referiu Luís Marino, «Januário Justiniano de Nóbrega tinha pronta uma colecção de inéditos e não inéditos para dar à estampa, mas destruí-os pouco antes de ser assaltado por um ataque de alienação mental que o levou ao suicídio, despenhando-se por uma rocha, á beira-mar».&lt;br /&gt;Acresce que como o seu tio Francisco Álvares de Nóbrega, Januário Justiniano de Nóbrega foi igualmente um homem que praticava os valores da solidariedade e da fraternidade, segundo lemos no Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses dos Sécs. XIX e XX, onde Luís Peter Clode assevera «que durante a pavorosa epidemia da cólera mórbus, em 1856, a sua acção ao lado do Governador Civil, foi de tal maneira benéfica, que mereceu ser louvado por esta autoridade por alvará especial».&lt;br /&gt; Justiniano de Nóbrega, exerceu a profissão de Amanuense da Administração do Concelho desde 30 de Junho de 1837, até 8 de Janeiro de 1857, data em que foi nomeado escrivão dessa instituição. E como já referimos, notabilizou-se como um talentoso jornalista, colaborando em vários jornais, nomeadamente, «O Funchalense», «Campo Neutro», «Flor do Oceano», e «A Folha»; tendo ficado célebres as polémicas que publicou ao lado do seu amigo Dr. António Pita contra o Conde de Canavial; e um estudo de carácter histórico–estatístico sobre o Arquipélago da Madeira, que entregou ao Governador José Silvestre Ribeiro.&lt;br /&gt;Outro importante trabalho que por si só o guinaria, aos píncaros da fama na cultura madeirense, foi prefaciar e organizar uma cuidadosa edição das «Rimas» de Francisco Álvares de Nóbrega, seu venerado tio e grande bardo de Machico.&lt;br /&gt;Após o fatídico suicídio de Justiniano de Nóbrega foi divulgado postumamente, o seu ensaio intitulado «A Visita de Sua Majestade a Imperatriz do Brasil, Viúva, Duquesa de Bragança à Ilha da Madeira», enriquecido com um importante prefácio da autoria do poeta Júlio da Silva Carvalho; e ainda o artigo «A Fundação do Hospício da Sereníssima Princesa Dª Maria Amélia», ambos vindos à luz em 1867.       &lt;br /&gt; Para darmos um breve exemplo da elegância e delicadeza da prosa de Justiniano Nóbrega, reproduzimos a seguinte transcrição extraída do referido ensaio onde ele escreveu: - «Foi bem dramática a luta da Imperatriz do Brasil, para impedir que a morte viesse arrancar dos braços duma mãe carinhosa a sua querida filha, o único conforto que na vida lhe restava. (…) Eram quatro horas da madrugada. Em seus Paços, onde tudo era consternação e desalento, a Majestade, curvada ao peso da mais pungente dor, apertando entre as suas uma gelada mão, fitava, ávidos olhos num rosto macerado, inclinado para ela em leito que fora de agonia».&lt;br /&gt;Finalmente, como poeta, Januário Justiniano de Nóbrega, editou, em 1860, um excelente livro intitulado «Flores Agrestes»; e na colectânea «Flores da Madeira», divulgada no Funchal, em 1871, por José Leite Monteiro e Alfredo César de Oliveira, publicou seis das suas primorosas poesias, de que passaremos a mostrar alguns excertos, que revelam, claramente, que tal como aconteceu com o seu glorioso tio de Machico; Justiniano Nóbrega também amava a Liberdade, e a sua querida Madeira, a quem, carinhosamente, chamava «Pátria».&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Assim, no poema «Oração do Poeta», escrito em 1851, o vate enaltecia as belezas da sua dilecta Ilha, embora lamentasse a pobreza que afligia muitas das famílias do seu povo:  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                               Uma terra assim tão linda&lt;br /&gt;                               Em que parte o globo encerra?!&lt;br /&gt;                              Terra assim não vi ainda &lt;br /&gt;                              Linda como a minha terra:&lt;br /&gt;                              Gôsto é ver d’esta campina&lt;br /&gt;                              Correr água cristalina&lt;br /&gt;                              Em cordões de prata fina, &lt;br /&gt;                              Pela encosta d’ampla serra;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                              Gôsto é, sim, a vista alçar&lt;br /&gt;                              Pelas penhas que estou vendo,&lt;br /&gt;                              Que o céu parecem tocar, &lt;br /&gt;                              Que vão d’abismos erguendo!&lt;br /&gt;                              Nestes bosques verdejantes,&lt;br /&gt;                              Nestas selvas flutuantes,&lt;br /&gt;                              Nestes prados tão fragrantes&lt;br /&gt;                              Minh’ alma s’está revendo! (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                              Nascer em berços de neve&lt;br /&gt;                              Gosto é ver dia invernoso. &lt;br /&gt;                              E o sol, que oculto esteve, &lt;br /&gt;                              Surgir depois majestoso;&lt;br /&gt;                              E lá do céu, meu anelo,&lt;br /&gt;                              Despedir um raio belo &lt;br /&gt;                              Por sobre grupos de gelo&lt;br /&gt;                              Que em monte alveja formoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                              Que neste vergel de rosas,&lt;br /&gt;                              Não há invernosa estação&lt;br /&gt;                              Que, após noites tormentosas,&lt;br /&gt;                              Não traga dias de Verão;&lt;br /&gt;                              Nem n’esta plaga se viu&lt;br /&gt;                              Despedir-se Inverno frio,&lt;br /&gt;                               Sem nos dar noites d’estio&lt;br /&gt;                               Belas como os dias são. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                               C´o mesmo esplendor do dia &lt;br /&gt;                               Brilha a noite! Eu vejo a serra,&lt;br /&gt;                               Vejo o oceano qual via!&lt;br /&gt;                               Desde o princípio da terra&lt;br /&gt;                               Até onde a terra finda,&lt;br /&gt;                               Uma terra assim tão linda &lt;br /&gt;                               Eu não vi, não vi ainda,&lt;br /&gt;                               Nem o globo todo encerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                               Do céu e da terra&lt;br /&gt;                               Soberano Senhor,&lt;br /&gt;                               Qu’és todo bondade, &lt;br /&gt;                               Que todo és amor; (…)&lt;br /&gt;                               Torna a minha pátria&lt;br /&gt;                               Qual foi, florescente,&lt;br /&gt;                               Oh! põe sobre a triste &lt;br /&gt;                               Olhar complacente.(…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                Mais amor da pátria,&lt;br /&gt;                                Senhor, nos inspira;&lt;br /&gt;                                Amor pela terra&lt;br /&gt;                                Que nascer nos vira;&lt;br /&gt;                                Que já foi empório&lt;br /&gt;                                D’imensa riqueza,&lt;br /&gt;                                E é hoje o triste&lt;br /&gt;                                Painel da pobreza!&lt;br /&gt;                                De preces ingénuas&lt;br /&gt;                                Te mova o fervor.&lt;br /&gt;                                Revoca-me ao fausto&lt;br /&gt;                                A pátria, Senhor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Num outro poema intitulado «O Lago Do Trovador», também escrito em 1851, Januário Justiniano de Nóbrega, lateja com perfeito lirismo o seu amor à natureza, e trova num estilo modo romântico que faz lembrar o nosso «Camões Pequeno»: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                Serei poeta? Talvez&lt;br /&gt;                                Poeta o céu me fadasse!&lt;br /&gt;                                Talvez um nome pomposo&lt;br /&gt;                                À minha aldeia legasse.&lt;br /&gt;                                Se à voz dos cisnes do Tibre&lt;br /&gt;                                O canto meu ensaiasse. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                 Cá num cantinho da terra,&lt;br /&gt;                                 De pobre choça habitante,&lt;br /&gt;                                 Nem tenho heróis que incensar,&lt;br /&gt;                                 Nem tenho rios que cante;&lt;br /&gt;                                 Mas tenho um lago formoso,&lt;br /&gt;                                 Que retrata o céu brilhante. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                  Aqui no meu lago&lt;br /&gt;                                  O céu se revê,&lt;br /&gt;                                  Tornando-o safira,&lt;br /&gt;                                  De prata que é.&lt;br /&gt;                                  Espelho fulgente&lt;br /&gt;                                  D ‘extrema beleza,&lt;br /&gt;                                  Ao vivo retrata&lt;br /&gt;                                  Toda a Natureza. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                  Perfumada aragem,&lt;br /&gt;                                  Que adeja ligeira,&lt;br /&gt;                                  Como a superfície&lt;br /&gt;                                  Lhe enruga fagueira!&lt;br /&gt;                                  E uma folhinha&lt;br /&gt;                                  Lá leva impelida...&lt;br /&gt;                                  É imagem fatal &lt;br /&gt;                                  D’esta minha vida,&lt;br /&gt;                                  Que assim me levarão&lt;br /&gt;                                  Mil doces enganos. &lt;br /&gt;                                  A bem dolorosos,&lt;br /&gt;                                  Cruéis desenganos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Noutra poesia, intitulada «O Soldado do Mindelo», composta em 1854, por ocasião das exéquias à morte de Dª Maria II, em homenagem à Rainha, e também à Liberdade, e à causa dos livres, Januário Justiniano Nóbrega, clamava com emoção:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                  Voluntário fiel do Mindelo, &lt;br /&gt;                                  Porque assim a chorar magoado?&lt;br /&gt;                                  Tão afeito às cruezas da guerra,&lt;br /&gt;                                  Porque assim gemer desolado?&lt;br /&gt;                                  Onde está doutro tempo o valor?&lt;br /&gt;                                  Onde os brios d’ antigo soldado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                  A teus olhos sumiram-se os montes&lt;br /&gt;                                 Tão virentes da pátria querida,&lt;br /&gt;                                 Quando d’ela te foste a imolar&lt;br /&gt;                                 Pela causa dos livres a vida:&lt;br /&gt;                                 E tal eras…que nem uma lágrima&lt;br /&gt;                                 Te rolou pela face incendida. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                  Voluntário fiel do Mindelo,&lt;br /&gt;                                  Ergue a fronte que tens abatida.&lt;br /&gt;                                  Olha ao céu… acolá quanto é doce&lt;br /&gt;                                  Repousar do pungir d’esta vida!&lt;br /&gt;                                  Olha ao céu…acolá entre os anjos &lt;br /&gt;                                   Folga a tua rainha querida. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                   Voluntário fiel do Mindelo,&lt;br /&gt;                                   Ergue a fronte que tens abatida;&lt;br /&gt;                                   Cesse o pranto qu’ as faces te inunda,&lt;br /&gt;                                   Cala a dor nesse peito oprimida.&lt;br /&gt;                                   Olha ao céu…acolá entre os anjos&lt;br /&gt;                                   Folga a tua Rainha querida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutro longo poema escrito em 1850, denominado o «Apelido de Zarco», o nosso poeta, baseado na leitura da «História Insulana Lusitana» de Cordeiro, e no «Poema da Insulana» de Manuel Tomás, descreveu alguns factos, que segundo aqueles autores, explicam o apelido do primeiro Capitão-mor do Funchal, João Gonçalves:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                          Junto às traqueiras do Tanger&lt;br /&gt;                          Gritam centos d’ infiéis,&lt;br /&gt;                           Feros inimigos da Cruz,&lt;br /&gt;                           Rebeldes de Cristo às leis. &lt;br /&gt;                           Acodem lusos soldados,&lt;br /&gt;                           À lei de Cristo fieis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                           Gigante moiro a cavalo&lt;br /&gt;                           Dos seus à frente saiu&lt;br /&gt;                           E diz, enristando a lança,&lt;br /&gt;                           Que tantos mil já feriu;&lt;br /&gt;                            - Nazarenos! Raça vil!&lt;br /&gt;                           Um por um vos desafio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                    - Capitão! Daquele moiro&lt;br /&gt;                          Quero a audácia castigar; &lt;br /&gt;                          Cobardia o desafio&lt;br /&gt;                          Fora em mim não aceitar –&lt;br /&gt;                          Diz ao chefe um nazareno-&lt;br /&gt;                          Já no ginete a montar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                           Trava-se crua peleja&lt;br /&gt;                           Entre os dois – moiro e cristão-&lt;br /&gt;                           O moiro ao cristão encrava&lt;br /&gt;                            A lança no coração&lt;br /&gt;                           Em borbotões salta o sangue,&lt;br /&gt;                           Cai morto o bravo no chão! (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                            Trava-se novo combate&lt;br /&gt;                            Feroz, cruel, carniceiro; (…)&lt;br /&gt;                            Um segundo nazareno&lt;br /&gt;                            Cai morto como o primeiro! (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                             Já outros golpes se dão&lt;br /&gt;                             Como os dois que o precederam&lt;br /&gt;                             Morre terceiro cristão! (…) &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                                      - Capitão! Prossegue um moço-&lt;br /&gt;                                       Não tenho nome nem fama,&lt;br /&gt;                                       Obscuro soldado sou,&lt;br /&gt;                                       Meu valor ninguém aclama.&lt;br /&gt;                                       Que perdes se o infiel &lt;br /&gt;                                       Meu sangue também derrama!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                              Jovem! é de mau agoiro,&lt;br /&gt;                              De mau agoiro este dia;&lt;br /&gt;                              Mortos são já três guerreiros&lt;br /&gt;                              De provada valentia.&lt;br /&gt;                              Dar ao moiro um prazer mais!&lt;br /&gt;                              Na verdade, isto injuria…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                               Capitão! Disseste bem,&lt;br /&gt;                               É dia de mau agoiro&lt;br /&gt;                               Mas não é desonra, não,&lt;br /&gt;                               Cair morto aos pés d’ um moiro;&lt;br /&gt;                               È desonra fraquejar&lt;br /&gt;                               Ser cobarde é que é desdoiro!-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                O Capitão imudece;&lt;br /&gt;                                O jovem já tem partido;&lt;br /&gt;                                Em menos de um credo volta&lt;br /&gt;                                No seu ginete garrido,&lt;br /&gt;                                Trazendo pelos cabelos&lt;br /&gt;                                Cativo o moiro e ferido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                 Soam entre os nazarenos&lt;br /&gt;                                 Atabales de alegria,&lt;br /&gt;                                 Nos arraiais dos cristãos&lt;br /&gt;                                 O folguedo principia,&lt;br /&gt;                                 Esgotam-se imensos copos &lt;br /&gt;                                 À vitória d’este dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                 Dom Henrique, nobre infante,&lt;br /&gt;                                 Cavaleiro o moço armou;&lt;br /&gt;                                 Chamava-se Zarco o moiro&lt;br /&gt;                                 Que o mancebo cativou, &lt;br /&gt;                                 Zarco também desde então&lt;br /&gt;                                 Este bravo se chamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                           E foi quem quebrou o encanto&lt;br /&gt;                                    À minha pátria querida;&lt;br /&gt;                                    Quem deu co’a perl´a dos mares,&lt;br /&gt;                                    Esta terra tão florida; &lt;br /&gt;                                    Quem descobriu a Madeira,&lt;br /&gt;                                    Vergel de aroma e de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por último, citaremos parte do canto «A Viúva do Artista e o Órfão»; que é uma poesia claramente influenciada pelas tragédias de Soares dos Passos, e muito ao gosto ultra-romântico, aliás em grande voga, no ano de 1859, quando Justiniano de Nóbrega escreveu as trovas que se seguem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                              De artista que em flor morreu&lt;br /&gt;                              Saudosa viúva sou;&lt;br /&gt;                              Saudosa sim, que o amei&lt;br /&gt;                              Como ninguém inda amou;&lt;br /&gt;                              Ninguém …diz-me aqui no peito&lt;br /&gt;                               Saudade que me ficou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                              Desse amor tão casto e santo&lt;br /&gt;                              Dois frutos, só, eu lhe dei;&lt;br /&gt;                              Cobiçou-o Deus o primeiro&lt;br /&gt;                              e quanto, quanto o chorei!&lt;br /&gt;                             O segundo ei-lo em meus braços,&lt;br /&gt;                              Para quê!? Céus! Eu não sei! (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                              Não sei, não; mágoas, tristezas,&lt;br /&gt;                              Eis quanto a viúva tem;&lt;br /&gt;                              Nem já na trémula mão&lt;br /&gt;                              A gasta agulha sustem;&lt;br /&gt;                              A agulha que nem a ela&lt;br /&gt;                              Nem ao órfão já mantem. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                Apenas te vejo a ti,&lt;br /&gt;                                Anjo de amor que gerei;&lt;br /&gt;                                Por ti só que não por mim&lt;br /&gt;                                Dia e noite costurei;&lt;br /&gt;                                E quando deixar de ver-te&lt;br /&gt;                                Nada no mundo verei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                 Assim foi. Viúva e órfão&lt;br /&gt;                                 A penar continuaram;&lt;br /&gt;                                 Em um asilo a viúva&lt;br /&gt;                                 Em pouco tempo encerraram,&lt;br /&gt;                                 E para outro o filhinho&lt;br /&gt;                                 Dos braços lhe arrebataram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                  Ausente d’ este a mãe triste&lt;br /&gt;                                 Tanto chorou e sofreu;&lt;br /&gt;                                 Tanta lágrima de sangue,&lt;br /&gt;                                 Tanto pranto ela verteu,&lt;br /&gt;                                  Que em breves dias, coitada!&lt;br /&gt;                                  Cegou de todo e morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como referimos, outro familiar de Francisco Álvares de Nóbrega que também se dedicou às musas chamava-se João Marinho de Nóbrega, que nasceu na freguesia de Santa Maria Maior da cidade do Funchal, em 18 de Julho de 1880, e faleceu em Santo António, a 8 de Março de 1954; e que foi filho de Januário Justiniano de Nóbrega Júnior, e de Dª Maria Virgínia Pereira de Nóbrega; e neto do supracitado poeta Januário Justiniano Nóbrega.&lt;br /&gt;João Marinho de Nóbrega, frequentou o 3º ano da Faculdade de Direito na «Universidade de Coimbra», mas não chegou a licenciar-se, por motivo de ter adoecido gravemente. Mais tarde, durante o agitado período da ditadura de Sidónio Pais, foi vogal da «Câmara Municipal do Funchal»; tendo também exercido, o cargo de auxiliar da «Conservatória do Registo Predial do Funchal».&lt;br /&gt; Luís Peter Clode no «Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses dos Sécs. XIX e XX», informa-nos que, nos últimos anos de vida, « JoãoMarinho de Nóbrega, foi químico-analista da Fábrica do Torreão, sendo à data do seu falecimento director do laboratório da referida fábrica».&lt;br /&gt;Na vida literária, utilizou diversos pseudónimos, entre eles, João Liso, X, José Manuel Décio Braga, João Lopes, Azul e Branco, e Ohniram.&lt;br /&gt;Como jornalista, João Marinho Nóbrega, durante um longo período, publicou crónicas no «Diário de Notícias», no «Diário da Madeira», e em «O Jornal»; que foram muito conhecidas e apreciadas, sobretudo, as intituladas Apostilhas, Comentários, Coisas Minhas, Croniquetas, Pinceladas, Um Pouco de Tudo, Garatuja, Notas do Dia, Com os Meus Botões, e Réstea de Sol. Também entrevistou, longamente, em 1943, o célebre Padre Cruz, e colaborou nos periódicos «Heraldo da Madeira», «O Jornal», «A Voz», «Os Novos Filhos», «Revista Esperança», e «Revista Portuguesa»; tendo ainda divulgado um opúsculo intitulado «Uma Entrevista».&lt;br /&gt;Tal como o seu antepassado de Machico, João Marinho de Nóbrega também publicou poesias, que vieram à luz em diversos órgãos da imprensa, das quais escolhemos dois sonetos e uma canção que foram editados na «Musa Insular (Poetas da Madeira)» de Luís Marino.&lt;br /&gt;Comecemos pelo melancólico, mas harmonioso soneto a que deu o titulo: «Despertando»:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Por onde andaste tu, meu pensamento,&lt;br /&gt;                  Que bem dentro de mim eu sinto agora,&lt;br /&gt;                  A falta que me faz o teu tormento, &lt;br /&gt;                 Que me visita sempre, a toda a hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   A padecer, por ti, acostumado&lt;br /&gt;                   Tanto estou, que às vezes me parece&lt;br /&gt;                   Um prazer, a dor que me tens dado.&lt;br /&gt;                   Que ter a dor constante me apetece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Desabafa comigo os teus anseios.&lt;br /&gt;                   A tua negra mágoa, e a alegria&lt;br /&gt;                   Dos teus ledos, fagueiros devaneios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Já não me fazem mal as tuas queixas,&lt;br /&gt;                   As novas que me trazes dia a dia,&lt;br /&gt;                   Só me causas pezar, quando me deixas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em «Outono», e também muito ao gosto dos cânones estéticos do Romantismo, João Marinho Nóbrega, cantou a natureza, para através dela transmitir o seu pesaroso estado de espírito:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                     Já o azul do céu empalidece,&lt;br /&gt;                     A noite é feia, é mais gelada a lua.&lt;br /&gt;                    - É o turbado Outono que aparece&lt;br /&gt;                    Sem tornar-me dif’rente a imagem tua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    De cada ramo as folhas vão caindo,&lt;br /&gt;                    De cada folha brota uma saudade,&lt;br /&gt;                    Tudo vai de saudades se cobrindo,&lt;br /&gt;                    Só não vem para mim a soledade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Estremecida alegria abençoada,&lt;br /&gt;                    Vivam sempre comigo esp’ranças minhas&lt;br /&gt;                    Mais puras que a neve imaculada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                     Oh! não me abandoneis, visão querida,&lt;br /&gt;                     Como partem agora as andorinhas,&lt;br /&gt;                     Não parteis também vós da minha vida!...&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terminar, o mesmo lirismo nostálgico e romântico lateja nas quadras da canção «Líricas»: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                        Se eu chegar a ser velhinho,&lt;br /&gt;                        Sabe-o Deus de quantos anos,&lt;br /&gt;                        Hei-de ter muita saudade&lt;br /&gt;                        Tecida com desenganos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                         Olhos meus, olhos escuros,&lt;br /&gt;                         Olhos noites sem luar,&lt;br /&gt;                         Olhos tristes de saudades,&lt;br /&gt;                         Olhos cegos de chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                          O meu amor por ser grande,&lt;br /&gt;                          Que pesar que ele me faz,&lt;br /&gt;                          De tanto te amar anseio&lt;br /&gt;                          Amar-te mais, muito mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                         Eu sei que choras de pena&lt;br /&gt;                         Quando só mágoas te escrevo;&lt;br /&gt;                         E eu nem ao menos sei&lt;br /&gt;                         Quantas lágrimas te devo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-4320253793447643755?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/4320253793447643755/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/os-poetas-na-familia-de-francisco.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/4320253793447643755'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/4320253793447643755'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/os-poetas-na-familia-de-francisco.html' title='Os Poetas na Família de Francisco Álvares Nóbrega'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33gxoY85dI/AAAAAAAAAEg/IC936zwo2Aw/s72-c/Machico_01.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-7781522829196105512</id><published>2010-02-19T00:01:00.001Z</published><updated>2010-02-19T00:50:41.503Z</updated><title type='text'>Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33gV4o0TLI/AAAAAAAAAEI/roWDrDMBXtc/s1600-h/Rimas.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 194px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33gV4o0TLI/AAAAAAAAAEI/roWDrDMBXtc/s320/Rimas.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5439750591518887090" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Francisco André Álvares de Nóbrega que também foi conhecido pelo Camões Pequeno, segundo alguns autores teria nascido no sítio da Torre, em Machico; tendo passado a infância na casa dos progenitores localizada naquele concelho, na Banda D’Além, mais precisamente na Rua dos Moinhos, onde também consta que teria nascido, a 30 de Novembro de 1773, aliás como vem claramente expresso no seu Registo de Baptismo.&lt;br /&gt;Era filho do 2º casamento de Domingos de Nóbrega Barreto, O Furão, que nascera no Funchal, na freguesia de Santa Maria Maior do Calhau, e de Dª Ana Rita de Sampaio, natural de Machico; onde casaram em 15 de Fevereiro de 1773. &lt;br /&gt;Segundo informa a distinta investigadora Ivone Correia Alves no ensaio Para Uma Biografia de Francisco André Álvares de Nóbrega, o padrinho do nosso poeta «foi o Dr. João José Espinosa Martel (1746-1812), bacharel em Cânones, formado pela Universidade de Coimbra, professor de Gramática Latina no Funchal, mas natural e com residência principal em Machico»; casado com Dª Ana Martins Perestrelo da Câmara, herdeira do vínculo do Caramanchão de Machico e de outros bens; facto que nos leva a presumir, com segurança, que os pais do escritor seriam pessoas consideradas e estavam bem relacionados. &lt;br /&gt;Na verdade, o progenitor do nosso poeta era sapateiro e exercia a função de Contestável da Fortaleza de São João Baptista, cargo meramente representativo, mas de muita importância, pois competia-lhe vigiar e dar aviso com fachos ou búzios, sempre que assomassem à costa armadas de corsários; acontecimento que naquela época era frequente e muito perigoso para as populações e os seus haveres. &lt;br /&gt;Podemos assim dizer que embora não fosse filho da classe dominante, o escritor pertencia à camada média machiquense, e por consequência, viveu uma juventude normal e sem grandes privações materiais, na vila de Machico, onde circundado por uma deslumbrante paisagem, teria sido feliz, em pobre, sim, mas paternal morada, bem abrigado por gente simples, respeitada e trabalhadora, e espairecendo junto ao mar azul da mais bela baía da ilha, como, aliás, deixou bem assinalado num precioso soneto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na fralda de dois íngremes rochedos,&lt;br /&gt;Que levantam aos Céus fronte orgulhosa,&lt;br /&gt;Existe de Machim a Vila idosa,&lt;br /&gt;Povoada de escassos arvoredos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo meio, alisando alvos penedos,&lt;br /&gt;Desce extensa Ribeira preguiçosa:&lt;br /&gt;Porém tão crespa na estação chuvosa,&lt;br /&gt;Que aos Íncolas infunde respeito e medos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Às margens dela em hora atenuada,&lt;br /&gt;Vi a primeira luz do sol sereno.&lt;br /&gt;Em pobre, sim, mas paternal morada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos trabalhos me afiz desde pequeno,&lt;br /&gt;O abrigo deixei da Pátria amada,&lt;br /&gt;E vim ser infeliz noutro terreno.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Depois de aprender as primeiras letras em Machico, seu pai permitiu que viesse para o Funchal, com apenas com nove anos de idade, para se empregar na loja de fazendas do abastado comerciante Marco João de Ornelas, que foi descobrindo que o seu jovem protegido, além de desfrutar de muita sensibilidade e criatividade, possuía grande talento para escrever e poetar, e talvez por isso, em Janeiro de 1793, quando Francisco Álvares de Nóbrega teria cerca de 20 anos de idade, propiciou-lhe a possibilidade de matricular-se no Real Seminário de São João Evangelista, que então era dirigido pelos jesuítas. &lt;br /&gt;De facto, apesar do nosso poeta ter escrito que o seu patrão lhe tinha ministrado ensinamentos e instrução, tudo nos indica que antes de encetar estudos mais avançados, aprendera a ler, a escrever e a contar em Machico; e só depois, o seu protector proporcionou-lhe outros conhecimentos e saberes, atenção que Francisco Álvares de Nóbrega sempre enalteceu com gratidão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sisudo Ornelas meu, em cujos lares&lt;br /&gt;A tenra flor dos anos meus abriu,&lt;br /&gt;Flor que, ao depois, do tempo a mão cobriu&lt;br /&gt;De hórrido luto, e de fatais pesares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transpondo o espaço de alongados ares,&lt;br /&gt;Leve sinal de gratidão te enviu,&lt;br /&gt;Da minha história o entre-cortado fio&lt;br /&gt;Verás, quando este livro folheares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ler os duros males que lastimo,&lt;br /&gt;Não afogues em mar de novo pranto&lt;br /&gt;Planta nutrida ao teu afago e mimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vingam-me as musas de infortúnio tanto;&lt;br /&gt;Afugento a Desgraça, a dor suprimo&lt;br /&gt;Quando ao toque da Lyra a voz levanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela época em que se respirava uma atmosfera de mudança, e fervilhavam surdas controvérsias contra a aspereza e o conservadorismo da Velha Ordem, Francisco Álvares de Nóbrega, influenciado pelos ventos revolucionários desses tempos, confidenciou ao seu amigo e colega de Seminário João Mendes da Silva, que se sentia aferrolhado e oprimido no Colégio jesuíta, onde lhe aplicavam carradas de arcaísmos em enfadonhas aulas de Teologia e Gramática Portuguesa e Latina:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caro colega meu, Mendes querido,&lt;br /&gt;Lenitivo suave a meu cuidado,&lt;br /&gt;Quando em austero asilo aferrolhado&lt;br /&gt;Nos verdes anos meus era oprimido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela mão da verdade aqui tecido&lt;br /&gt;C’as próprias tintas, que moera o fado,&lt;br /&gt;O quadro vê daquele antigo estado,&lt;br /&gt;Em trabalhos fatais reproduzido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é a desventura enfim repara;&lt;br /&gt;Depois que desandou a roda sua,&lt;br /&gt;Oh! como, amigo, raras vezes pára!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem sido a minha vida amarga e crua,&lt;br /&gt;De martírios sem fim cadeia rara,&lt;br /&gt;Que de hora em hora sem cessar gradua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos compreender melhor a aversão que Francisco Álvares de Nóbrega nutria contra o retrógrado sistema de ensino dessa mirrada e estéril sociedade, através dum belo soneto que também nos legou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terreno estéril, árido e mirrado,&lt;br /&gt;Dos mais terrenos, por meu mal, desdouro,&lt;br /&gt;Tu convertes em peste a chuva de ouro,&lt;br /&gt;Que entorna sobre ti Jove Sagrado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terreno ingrato, onde mal é plantado,&lt;br /&gt;Murcha, definha e cai por terra o Louro,&lt;br /&gt;Tu, podendo das graças ser tesouro,&lt;br /&gt;És só de espinhos ásperos juncado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atado o cepo vil da Independência,&lt;br /&gt;Em ti o Sábio vê com dor, com luto&lt;br /&gt;Amortecer-se a luz da Sapiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande Deus, que em ti se adora, é Pluto;&lt;br /&gt;Do seio maternal brota inocência;&lt;br /&gt;Crimes, crimes cruéis são só seu fruto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, como relatou o brilhante investigador Daniel Pires numa conferência realizada em Machico, intitulada Francisco Álvares de Nóbrega: Retrato dum Pensador, o nosso poeta compensava esses constrangimentos bebendo, absorto e mudo, as brilhantes aulas do professor de Retórica e membro activo da maçonaria, cónego Deão da Sé João Francisco Lopes da Rocha, que o marcavam, particularmente, pelo seu discurso claro e pelos seus ideais filantrópicos, afeição que ficaria bem patente num emocionante poema que o nosso poeta lhe dirigiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cícero funchalense, eu te saúdo,&lt;br /&gt;E grato cá de longe a voz alçando,&lt;br /&gt;Te agradeço as lições que bebi, quando&lt;br /&gt;Comecei a gostar o doce estudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas escoram o alentado escudo&lt;br /&gt;Com que espanto este mal, que estou passando,&lt;br /&gt;No meio dos trabalhos recordando&lt;br /&gt;Ditames, que te ouvi absorto e mudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu me dispusestes o loiro que me enrama,&lt;br /&gt;Que nem o raio cresta, nem me consome,&lt;br /&gt;Apesar da desgraça, que me acama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a minha glória a tua glória assome,&lt;br /&gt;Participa também da minha fama,&lt;br /&gt;Ouvido seja, a par do meu, teu Nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas essas circunstâncias, e muito especialmente a sua inclinação para a poesia repentista, conjugada com a falta de apego pela carreira eclesiástica, determinaram que muito cedo fosse conhecido como poeta de mérito, e intelectual com pendor para conhecer e divulgar as mais modernas correntes de pensamento da sua época, então muito marcadas pelos ventos da Revolução Francesa, e pelo pensamento rebelde e liberalizante de Voltaire, dos enciclopedistas, e doutros filósofos revolucionários.&lt;br /&gt;Simplesmente, para grande desventura do jovem escritor, em todo aquele período era rigorosamente proibida a livre expressão de tais doutrinas, punidas pela legislação opressora da rainha D. Maria Iª, e sobretudo pela actividade policial do Intendente Diogo Inácio Manique - terrífico reaccionário que, acolitado pelos seus informadores e bufos, então chamados Moscas, reprimia qualquer tentativa progressista, que agitasse, minimamente, os parâmetros ideológicos em que assentava a Velha Ordem.&lt;br /&gt;E, quando já frequentava o 3º ano, e tinha sido admitido a ordens menores, impelido pelo entusiasmo e pelas verduras da juventude, Francisco Alvares de Nóbrega se atreveu a satirizar o bispo D. José da Costa Torres, figura conservadora e doutorado em cânones pela Universidade de Coimbra; este, não suportando a irreverência e a crítica mordaz dos seus versos, ordenou a expulsão do poeta do Seminário e manobrou para que ficasse preso nos cárceres do regime; acusado de pertencer à maçonaria, e de ser um perigoso pedreiro-livre, doutrinado pelo seu mestre e mação, Cónego Dr. Lopes Rocha, fidagal inimigo do Bispo, com quem se tinha envolvido em ruidosas polémicas, que só não atingiram consequências mais extremas, pelo facto de, em 23 de Junho de 1792, ter sido promulgado um edital que perdoava os que se tinham alistado nas lojas maçónicas.&lt;br /&gt;É, assim, um facto indiscutível o papel decisivo do bispo D. José da Costa Nunes, na expulsão do nosso poeta do Seminário e na sua posterior prisão. De notar até, que devido às crueldades e à desmedida opressão exercida sobre os defensores das ideias progressistas, temendo fortes represálias e vinganças, esse prelado saiu, precipitadamente, e quase em fuga da Madeira, a 6 de Outubro de 1976, sem se despedir de pessoa alguma, nem do Santíssimo Sacramento, ocorrência que Francisco Álvares de Nóbrega exprimiu com regozijo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alvíssaras, Funchal, da opressa frente&lt;br /&gt;Arranca enfim o ramo d’acipreste;&lt;br /&gt;As alvas roupas de alegria veste;&lt;br /&gt;As faces banha de prazer veemente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flagelo tenaz da humana gente,&lt;br /&gt;Mais terrível que fome, guerra e peste&lt;br /&gt;Por decreto fatal de Mão celeste&lt;br /&gt;A seu pesar te deixa em paz contente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um «santo» Varão!... Viver devia&lt;br /&gt;Lá no calado horror das mudas selvas,&lt;br /&gt;Onde nem sequer visse a luz do dia;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brutas feras tratar, manter-se em relvas,&lt;br /&gt;Esse aborto da torpe hipocrisia,&lt;br /&gt;O Bispo do Funchal, eleito d’Elvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Debruçando-se sobre esses acontecimentos, num ensaio denominado Notícia Biográfica e Literária – Francisco Álvares de Nóbrega, Jaime Moniz referiu que o poeta foi despedido do Seminário, indo preso para o Aljube, daqui para Lisboa, por causa de uns versos que apareceram, digo, se ouviram dele.&lt;br /&gt;Consequentemente, estamos certos que pelo menos daquela vez, o escritor esteve detido no já demolido Aljube do Funchal, antes de partir para o continente, aliás como ele próprio afirmou num soneto enviado ao Dr. Luís António Jardim, pedindo que o leia sem desmaio, e pesares:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se d’entre as lidas do enredado foro,&lt;br /&gt;Q ue das Musas louçãs desdenha o mimo, (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se do metro suave o som canoro,&lt;br /&gt;A cujo encanto o gasto alento animo,&lt;br /&gt;Inda sabe em teu seio achar arrimo,&lt;br /&gt;E a Lyra adoras, bem como eu adoro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acolhe brandamente em teu recinto&lt;br /&gt;A escassa produção com que à luz saio,(…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De mim só fala, lê-lo sem desmaio&lt;br /&gt;Porque eu fiz por tratar do mal que sinto,&lt;br /&gt;Sem me queixar de quem me forja o raio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, a ilustre investigadora Ivone Correia Alves, num brilhante estudo lido em Machico intitulado Para Uma Biografia de Francisco André Álvares de Nóbrega, começa por referir que através do Registo de entradas e saídas dos alunos, ficamos a saber que, em 1796, e após três anos de Seminário, Francisco Álvares Minorista, fora despedido indo prezo para o Aljube, daqui para Lisboa onde teve Sentença de degredo (…) por cauza de huns verços que appareceram, digo se ouvirão por boca delle.&lt;br /&gt;Todavia, essa distinta historiadora acrescenta que encontrou nos Arquivos da Torre do Tombo, datado de 1798, um Sumário contra Francisco Alvares, por apelido Camoens, morador na cidade do Funchal ilha da Madeira. Porém, as razões dessa sindicância, de 9 de Outubro de 1798, não são as mesmas que o registo do Seminário invocou. Referem-se sim, a uma denúncia à Mesa do Santo Ofício, no Funchal, apresentada por Tomás Ferreira Saldanha, proferindo que ouviu dizer a José de Menezes, Sargento do Terço dos Auxiliares, que Francisco Álvares, Colegial que fora no Colégio de S. João Evangelista (…) proferira preposições ímpias, heréticas, tais como que não havia Eternidade (negando a imortalidade da alma); Nª Sª não fora Virgem porque era impossível que hua molher parice e ficasse virgem; negando ainda a Existencia do S.mo Corpo de Christo na Ostia Consagrada.&lt;br /&gt;Note-se que esse deplorável delator nada viu e nada escutou, pois apenas repetiu o que afirma ter ouvido a um tal Menezes, facto que, segundo Alberto F. Gomes, anuncia que a atmosfera que pairava, e o modo como eram feitas as denúncias, levam-nos a crer que as palavras atribuídas ao poeta, no documento acima transcrito, não correspondem inteiramente à verdade, mas envolvem um propósito de empurrar o vate para o cárcere, evitando, por outro lado, que continuasse a destilar seu humor sobre as entidades visadas.&lt;br /&gt;Naquela difícil conjuntura, para conseguirem a libertação do nosso poeta, foi importante o apelo de alguns amigos influentes; nomeadamente a influência decisiva do novo Bispo do Funchal, D. Luís Rodrigues de Villares, que se tornou protector do escritor, e a quem Francisco Álvares de Nóbrega enalteceu num dos seus mais belos e comovidos sonetos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prelado Excelso, o Nóbrega doente,&lt;br /&gt;Cá das margens do Tejo, onde o remistes,&lt;br /&gt;Vai, sobre as asas de seus versos tristes,&lt;br /&gt;A beijar-vos humilde a mão clemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda se lembra da tenaz corrente,&lt;br /&gt;Que de seu roto pé, Sábio despistes,&lt;br /&gt;Quando em cárcere abjecto em luto o vistes&lt;br /&gt;Dos pais, do bemfeitor, da Pátria ausente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só vós o fado meu vencer pudestes,&lt;br /&gt;Só vós os amargos dias me adoçastes,&lt;br /&gt;Do vosso antecessor mimos agrestes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheça o Mundo o quão diverso andastes;&lt;br /&gt;Aquele me espancou, vós me acolhestes;&lt;br /&gt;Aquele me prendeu, vós me soltastes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1797, ultrapassada a agonia dessa primeira prisão no Aljube do Funchal e nas masmorras do Reino, e recuperada a liberdade querida e suspirada, Francisco Álvares de Nóbrega, segundo refere Daniel Pires no ensaio que já citamos, ter-se ia encantado pelo cosmopolitismo de Lisboa, onde as tripulações dos navios de mercadorias contribuíam para impregnar a cidade de um colorido peculiar e de um toque de subversão, pois eram frequentemente portadoras de panfletos clandestinos, de gravuras e de obras que sugeriam formas distintas de encarar a política, a sociedade e a própria natureza humana. A trilogia emblemática da Revolução Francesa – igualdade, fraternidade e liberdade – era acenada mais ou menos sub-repticiamente (…), nos cafés e pelas ruas; embora fosse duramente reprimida pelo Intendente Pina Manique, com o empenho dos seus Moscas.&lt;br /&gt;Por tudo isso, Daniel Pires, arrematou que a adesão do poeta de Machico à maçonaria, na capital do reino, constituiu um passo previsível, tendo em consideração o seu percurso de vida e o ambiente sociopolítico existente na sua terra natal. (…) Consequentemente, não será precipitado, afirmar que Nóbrega terá envidado, durante aquele período, múltiplos esforços para a disseminação dos ideais filantrópicos que a ideologia maçónica encerra.&lt;br /&gt; Contudo, para além dessa militância política, o nosso escritor de Machico cultivou, sobretudo, a poesia, visto que, entre 1801 e 1802, vieram a lume os quatro folhetos das suas Rimas.&lt;br /&gt;Aconteceu até, que de forma corajosa e de certo modo atrevida para os constrangimentos reaccionários da época, Francisco Álvares de Nóbrega chegou a dedicar um interessante poema a Voltaire, onde, veladamente, patenteava a sua inclinação pelo estro sublime e os alto escritos desse célebre pensador francês:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se lá de quando em quando, Águia do Sena,&lt;br /&gt;Sobre os ditames da moral mais pura,&lt;br /&gt;Não entornasses a letal doçura,&lt;br /&gt;Que teus altos escritos envenena;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o Sol da Graça fúlgida, serena,&lt;br /&gt;Iluminasse igual tua escritura:&lt;br /&gt;Quem não te levaria à sepultura&lt;br /&gt;Amplos tributos de saudade e pena!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que vezes pela noite extensa e fria,&lt;br /&gt;Curvado sobre ti, absorto exclamo:&lt;br /&gt;Oh alma grande! Assim não fora ímpia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com teu estro sublime ali m’ inflamo;&lt;br /&gt;E abrasado na luz que o acendia,&lt;br /&gt;Sem teus erros amar, seus vôos amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glorificou, também as grandes conquistas que iam acontecendo nas investigações científicas, e, claramente, rendeu homenagem a Newton:&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ave real, que a esfera demandando,&lt;br /&gt;Sobre o clima bretano o voo erguias,&lt;br /&gt;E de perto a tratar co´os astros ias, &lt;br /&gt;Leis infalíveis a seu giro dando…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, nos últimos meses de 1802, piorou, significativamente, a insidiosa elefantíase que afligia o infeliz poeta de Machico, que além de suportar dores cada vez maiores, e ver o seu rosto cada vez mais estigmatizado, sofria com desgosto, o receio de contágio patenteado por alguns dos seus amigos, que chegaram a abandoná-lo. Amargamente, Álvares de Nóbrega lamentava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                     (…)&lt;br /&gt;Entre desgosto e desgosto&lt;br /&gt;Caminho ao meu triste fim,&lt;br /&gt;Como se já para mim&lt;br /&gt;Da vida o Sol fora posto;&lt;br /&gt;As manchas que tem meu rosto,&lt;br /&gt;Da morte são já matizes,&lt;br /&gt;Meu mal tem fundas raízes.&lt;br /&gt;E quer a acerba desgraça&lt;br /&gt;Que eu brilhante época faça&lt;br /&gt;No livro dos infelizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem deste fatal volume&lt;br /&gt;Quizer combinar os factos,&lt;br /&gt;Em mim os tem mais exactos,&lt;br /&gt;Mais fieis do que presume;&lt;br /&gt;A minha vida resume&lt;br /&gt;Todo o rigor d’impios fados:&lt;br /&gt;Enfim se forem lembrados&lt;br /&gt;Nos tempos mais horrorosos&lt;br /&gt;Se julgarão fabulosos&lt;br /&gt;Os meus dias desgraçados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E para cúmulo da tragédia, Daniel Pires refere, que a tudo isto, juntou-se um outro facto igualmente lancinante: a própria amada evitava-o:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Nos olhos o pranto ferve,&lt;br /&gt;                   No coração cresce a dor,&lt;br /&gt;                   E com males da fortuna&lt;br /&gt;                   Se mistura o mal de amor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, mesmo com as dúvidas de mero pormenor apontadas por Ivone Correia Alves, é absolutamente certo que o nosso poeta esteve preso, pelo menos uma vez, no Aljube do Funchal e pouco depois em Lisboa. &lt;br /&gt;Após voltar à liberdade, devastado pela doença, e até dos mesmo seus abandonado, Francisco Álvares de Nóbrega encontrou protecção e abrigo na casa do seu amigo e livreiro Manuel José Moreira Pinto Baptista, onde mais tarde, na madrugada de 16 de Janeiro de 1803, tornaria a ser detido, numa altura em que se encontrava cada vez mais doente, e já acamado há quatro meses. Deste modo, em 1803, - segundo aquela investigadora concluiu num importante estudo sobre o julgamento de Álvares de Nóbrega pelo Tribunal do Santo Ofício, a que chamou Inquisição de Lisboa – Processo nº 15764 – o infeliz poeta de Machico voltou à prisão na Cadeia do Limoeiro, durante cinco longos meses e seis dias, sem julgamento, apesar de se encontrar doente, como ele próprio descreve e afirma:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 Um mortal sem valia, um desgraçado,&lt;br /&gt;                 Que em pobre leito há meses geme aflito,&lt;br /&gt;                 Que traz na própria face o mal escrito,&lt;br /&gt;                 Até dos mesmos seus abandonados,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                           De agudíssimas dores volteado.&lt;br /&gt;                 Aos céus mandando inconsável grito,&lt;br /&gt;                 Que desordem, que crime, que delito&lt;br /&gt;                 Cometer poderia, ou que atentado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Juízo dos mortais, quanto te iludes!&lt;br /&gt;                  A menor sombra tuas vozes borra,&lt;br /&gt;                  Tu confundes os vícios c’o virtudes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  E sentirei em fúnebre masmorra&lt;br /&gt;                  De parca desumana os golpes rudes,&lt;br /&gt;                  Sem ter piedosa mão que me socorra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Depois do período de prisão preventiva, Ivone Correia Alves refere que Francisco Álvares de Nóbrega, sempre enclausurado e no Segredo, teve um primeiro processo, com as datas extremas de 16 de Janeiro e 21 de Junho de 1803, que teria corrido apenas pela Cadeia do Limoeiro; e que a seu próprio pedido, foi julgado num segundo processo, pela Inquisição, a partir de 22 de Junho e até 13 de Agosto.&lt;br /&gt; De notar, que nesse longo tempo de tormentos, mesmo apesar de estar «às portas da morte», o nosso infeliz poeta de Machico, além de ter sofrido horripilantes torturas físicas, jazeu no «Segredo», dormindo no chão, supliciado com algemas e grilhões. Por outro lado, nos interrogatórios praticados pela Inquisição, o réu foi ainda submetido a uma permanente e tenaz tortura psíquica, para que confessasse as suas culpas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Mas, antes de nos debruçar, um pouco mais, sobre o Processo da Inquisição, com o número 15764, lembramos que Francisco Álvares de Nóbrega esteve preso no cárceres do Limoeiro, tal como aconteceu com Bocage, seu companheiro de clausura, de quem, na altura em que foi detido, possuía o poema manuscrito intitulado Pavorosa Ilusão da Eternidade, conforme confessou ao horrendo Tribunal do Santo Ofício, e ao qual dedicou três belos sonetos, de que extraímos algumas passagens:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versos, que produzi, Cantor do Sado,&lt;br /&gt;Ao tinir do grilhão áspero e duro,&lt;br /&gt;Em cadafalso infame, hórrido, escuro,&lt;br /&gt;A diversas paixões abandonado;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vão, como os teus, em tempo desgraçado.&lt;br /&gt;Ministrar novo pasto ao Zoilo impuro. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E num outro poema também dedicado ao poeta de Setúbal, o nosso Camões Pequeno clamava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ler os Versos teus, prezado Elmano, &lt;br /&gt;Teus versos, meu tesouro e meu feitiço,&lt;br /&gt;Quanto um Augusto para ti cobiço&lt;br /&gt;Que à Glória excelsa os elevasse ufano! (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda noutro luzente soneto, Francisco Álvares de Nóbrega, voltou a demonstrar, a sua profunda admiração por Bocage:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem par Elmano, a quem do Pindo a chave&lt;br /&gt;Franqueara o Pastor do loiro Amfriso,&lt;br /&gt;Quanto mal te apontava ao rosto liso&lt;br /&gt;A sombra, que afugenta o branco ignave;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mana dos lábios teus néctar suave,&lt;br /&gt;Se copias de Armia o doce riso;&lt;br /&gt;Fala por tua boca um Deus diviso,&lt;br /&gt;Se tratas da Moral sisuda e grave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre as asas reais, cria inda implume&lt;br /&gt;Águia possante pouco a pouco exalta,&lt;br /&gt;Té que a faça do Phebo o lume:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim teu metro, que meu estro esmalta,&lt;br /&gt;Me convida a subir da Glória ao cume,&lt;br /&gt;E o ensino me dá, que inda me falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retomando a análise ao Processo nº 15764 da Inquisição, recentemente estudado por Ivone Correia Alves, esta começa por informar que se trata dum volume incompleto e restaurado, com vinte e oito fólios, com data de abertura a 22 de Junho e encerramento a 13 de Agosto de 1803; e que como refere Borges Coelho, deveria dividir-se, em duas partes: a primeira reunia a documentação anterior à prisão do réu; e a segunda agrupava as folhas que testemunhavam indirectamente a via-sacra dos cárceres até a marcha do auto-da-fé. Todavia, o processo de Francisco Álvares de Nóbrega, não tem a primeira parte, e a segunda não está completa, talvez porque atendendo à terrível doença e ampla «confissão»; o Príncipe se tivesse apiedado e ordenado a soltura do réu. &lt;br /&gt; Logo na «abertura» dos autos, o representante do Inquisidor refere, que foi o próprio poeta, já preso e inquirido há mais de cinco meses no Limoeiro, quem tomou a iniciativa, de através do seu confessor, enviar à Mesa do Santo Ofício, o pedido para ser julgado pela Inquisição. E, na verdade, grato a esse confessor, Nóbrega dedicou-lhe um comovente soneto:  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Palinuro Sagrado, oh, como absorto&lt;br /&gt;                Ao ver-vos fica o meu batel por certo!&lt;br /&gt;                Meu náufrago batel, que sábio e esperto&lt;br /&gt;                Vindes guiar da salvação ao porto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                De mim se apossa um divinal conforto&lt;br /&gt;                Á proporção que vos chegais mais perto;&lt;br /&gt;                Vós dourais da existência o fio incerto,&lt;br /&gt;                Vós arrancais da fria campa um morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Imagem do meu Deus, ministro augusto,&lt;br /&gt;                Tanto ímpio quebranta a vossa vinda,&lt;br /&gt;                Quanto conforta e fortalece o justo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Minha interna aflição convosco finda,&lt;br /&gt;                Já o transe final me não dá susto;&lt;br /&gt;                Graças, graças aos céus! Não morro ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos fólios seguintes, o poeta começou por mencionar toda a sua genealogia, com a curiosidade de apenas lembrar-se do nome dos pais e do avô materno; em interrogatórios, bem longos, se atendermos ao estado de saúde do réu; e sempre torturado física e psiquicamente; segundo refere Ivone Correia Alves.&lt;br /&gt;No decurso das inquirições, Francisco Álvares de Nóbrega, exortado para confessar as seus erros, respondeu que tinha escrito nas três folhas que lhe deram, a totalidade do que se lembrava, mas instado e atormentado, sibilinamente, pelas constantes advertências do Comissário da Inquisição, que ameaçava que só seria melhor tratado, se abrisse os olhos da alma e explicasse a totalidade das suas ofensas, e tudo o que sabia da Sociedade dos Pedreiros Livres, Nóbrega foi pedindo mais folhas, e outras mais ainda, afim de registar todas as suas culpas; ao mesmo tempo que implorava que tivessem piedade e fossem misericordiosos com ele.&lt;br /&gt;E o certo, é que o poeta preencheu doze folhas e meia com a confissão e denúncia, dos mais pequenos pormenores da sua vida, nomeadamente onde e o que estudou, que livros possuía, os conhecimentos religiosos, os seus escritos, leituras, amigos, pensamentos, viagens, e, obviamente, tudo o que sabia e pensava sobre os pedreiros livres, e da sua actividade em Portugal e no estrangeiro.&lt;br /&gt;Muito em resumo, ficamos a saber da leitura dos autos, que Francisco Álvares de Nóbrega foi baptizado pelo Vigário de Machico; que Nossa Senhora da Conceição era sua madrinha; que foi crismado em Machico pelo bispo D. Gaspar Afonso da Costa Brandão, tendo sido padrinho da crisma o Padre Matias do Nascimento, que se supõe ser seu parente por via materna; que frequentava as Igrejas, ouvia Missas e Pregações, se confessava, Comungava e fazia todos os mais actos e obras de Católico; que sabia todas as  orações; que saio da sua pátria por três vezes para esta Corte, e desta foi por oito dias a Coina e ao Estoril em razão de tomar aí os banhos, e por passeio algumas vezes a Cascais; que esteve preso no Aljube, mas alcançou-lhe perdão, e o foi soltar o Bispo D. Luís Rodrigues Villares; que nenhum dos seus ascendentes foi julgado pela Inquisição; e que além do citado manuscrito de Bocage, leu o «Pope», emprestado pelo Secretário da Ilha da Madeira, João Marques Caldeira; Rousseau; o «Sistema da Natureza», emprestado por um moço de Setúbal primo dum boticário chamado José António Uxorio morador na Rua dos Cordoeiros para diante da Calçada de S. João Nepomuceno; e «Épocas da Natureza», emprestados por Manuel Ferreira, oficial de Arquitectura, morador na Rua dos Fanqueiros.&lt;br /&gt;Perguntado nesse Processo 15764, porque se afirmou mação, e outros pormenores sobre as mais pessoas que declara; Francisco Álvares de Nóbrega disse que por ser constante entre os Maçãos que Melchior Manuel Curvo Semedo era venerável da Loge União, como declarou no adicionamento à sua Confissão, e achando-se em necessidade e precisado de todo Socorro, se lembrou de procurar o dito Semedo, esperando que dando-se lhe a conhecer por Sócio da Maçonaria, lhe prestasse algum donativo. (…) E voltando pela resposta, lhe dissera o tal Semedo que fosse falar com Francisco Xavier Torrezão a quem tinham dado ordem, como Secretário da Loge. (…) Que este era também o objecto, porque fora procurar José Sebastião por mandato do mesmo Semedo. (…) Que idêntico motivo o obrigou a declarar-se Mação com o Desembargador Maldonado; porém que de nenhum recebera o mais pequeno auxilio. Declarou ainda que conhece o sobredito Prior dos Anjos, por ser tido, e reputado Sócio da Corporação Maçónica pelos membros dela, mas nunca falou com ele, nem sabe quem falasse.&lt;br /&gt;Seguidamente, Nóbrega afirmou que nunca se filiou noutra loja maçónica, além da tal que o dito Maurício estabeleceu, e para que o convidou, como já fez patente na sua Confissão. Todavia, dissertou sobre as lojas do Grande Oriente de Londres, Berlim, Roma e que circunstâncias sabe a esse respeito, nomeadamente, as ligações que um tal Hipólito tem tido com elas; declarando que na Corte há seis ou sete mações, mas quais sejam e no que consistem os seus Mistérios e Segredos, ele o ignora, por ser coisa absolutamente vedada nessa Sociedade; embora fosse voz corrente, entre eles, que em Lisboa haviam doze mil mações. E quanto ao conceito que forma dos Segredos e Mistérios reservados só aos Cavalheiros do Ultimo Segredo, (…) presentemente está persuadido não ser esta Sociedade tão lícita e conforme as Leis do Estado e da Religião, como seus sócios forsejam inculcar aos que pretendem atrair à mesma…&lt;br /&gt;De novo, pede piedade e misericórdia, não só em atenção ao seu verdadeiro arrependimento mas à dilatada, penosa, e cruel prisão por que tem passado, e está sofrendo, e ao deplorável estado de sua saúde.&lt;br /&gt;Contudo, sempre admoestado, por diversas vezes, para continuar no exame da sua consciência; ainda prestou algumas declarações sobre as organizações maçónicas, e torna a dizer que nada mais sabe. Termina afirmando que durante alguns anos, devido aos sofrimentos porque passou, alimentou a ideia de que não podia haver um Deus de bondade e justiça, pois permitia o vexassem e punissem tão cruelmente sem fulminar o raio contra os opressores da sua inocência; mas que nunca dera escândalo de maior. Todavia, reconhece na sua última infelicidade um evidente castigo do mesmo Deus a quem tinha ofendido tão sacrilegamente, prometendo não voltar a ter tais pensamentos, convencido de que só de Deus dimanam bens, e males, morte e vida, conforme o sentimento Sábio…    &lt;br /&gt;Resta lembrar que mesmo durante o julgamento no Tribunal do Santo Ofício, após os ignóbeis interrogatórios, o nosso desditoso poeta era arremessado com inaudita crueldade para o «segredo» do Limoeiro - terrível enxovia onde supliciado nem cama tinha para se acostar; e na qual suportou situações deveras apocalípticas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(…)&lt;br /&gt;A um lado um triste arremessava a custo&lt;br /&gt;Algema pertinaz de sangue cheia,&lt;br /&gt;Outro mostrava em comprimida veia&lt;br /&gt;Roxeado vergão no pé robusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta cena esgotando o trago azedo,&lt;br /&gt;Por esconso alçapão me arrojo abaixo&lt;br /&gt;Onde foi dar a hórrido segredo. (…)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Segundo refere Alberto F. Gomes, o nosso poeta de Machico, durante o longo período de prisão, dirigiu-se em verso a vários protectores, entre eles um britânico e enaltece os que o atendem ou a seu favor se pronunciam. Ao Regente D. João VI, Príncipe do Brasil, também dedicou da cadeia do Limoeiro, 15 sonetos impetrando o perdão.&lt;br /&gt;Começa por solicitar clemência e proclamar que não tem outro Deus, além do cristão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Príncipe! E será, será possível,&lt;br /&gt;Que não vos causem o menor abalo&lt;br /&gt;Os ais que solta o íntegro vassalo&lt;br /&gt;Neste hediondo cárcere terrível?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mostrar-vos-eis acaso ainda insensível,&lt;br /&gt;Quando a verdade, vos atesto e falo?&lt;br /&gt;Olhai, Senhor, que de aflição estalo&lt;br /&gt;Olhai que toco a meta impreterível. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conheço outro Deus de Jove abaixo;&lt;br /&gt;De vós só é que pende eu ser ditoso,&lt;br /&gt;Seja, qual meu delito, o meu despacho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, protesta que não havia cometido qualquer crime ou delito, e fez questão de demonstrar que respeitava a Monarquia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(…)&lt;br /&gt;Sei que o Rei é porção da Divindade;&lt;br /&gt;Rendo-lhe a adoração, que lhe é devida;(…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detesto a ingratidão, choro a violência,&lt;br /&gt;Amo o nobre, o plebeu, o alto, o baixo&lt;br /&gt;No estado em que os pôs a Providência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se me espreito da Razão co´facho&lt;br /&gt;Se meto a mão na própria cosciência&lt;br /&gt;Em minha vida um crime só não acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com sentido desespero, Francisco Álvares de Nóbrega, protesta a sua inocência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Príncepe Excelso, em lúgubre masmorra&lt;br /&gt;A que jamais dá luz do Sol o facho,&lt;br /&gt;Geme ao som do grilhão infame e baixo, &lt;br /&gt;Sem ter piedosa mão, que me socorra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que pense e que discorra,&lt;br /&gt;Em minha vida um crime só não acho,&lt;br /&gt;Seja qual meu delicto, o meu despacho&lt;br /&gt;Que me soltem, mandai, ou que enfim morra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem culpa cometeu, é bem que pague,&lt;br /&gt;Em cadeia fatal, que o pé lhe oprime&lt;br /&gt;Com lágrimas de dor embora alague.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém não consintais que se lastime&lt;br /&gt;Na mesma estância, e em confusão se esmague&lt;br /&gt;A singela inocência a par do crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acaba pedindo a sua libertação; pois a quem tanto pode, é pedir pouco: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Príncipe suspirado, áurea vergonta&lt;br /&gt;De um ramo, cuja sombra o Mundo abraça.&lt;br /&gt;De quem a Lusa História, inda que escassa,&lt;br /&gt;Mil glórias narra, mil prodígios conta. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vós não quero mais que alguns espaços,&lt;br /&gt;Em que às Musas me dê, por quem sou louco,&lt;br /&gt;Quebrada a algema, que me estreita os braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consenti que eu melhore o canto rouco,&lt;br /&gt;Fazei-me estes grilhões em mil pedaços,&lt;br /&gt;A quem tanto pode, é pedir pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos ainda que o seu grande amigo, Manuel José Moreira Pinto Baptista, em cuja casa o poeta estava acolhido, no malfadado dia em que foi preso pela última vez, também moveu vastas diligências para que libertassem o inditoso vate de Machico, que vivia aterrado; numa situação muito idêntica à tão bem resumida, dois séculos antes, pelo genial António Ferreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A medo vivo, escrevo e falo,&lt;br /&gt;                     Hei medo do que falo só comigo,&lt;br /&gt;           Mas inda a medo cuido, a medo calo…&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Com grande dignidade, mas comovido, o nosso Camões Pequeno anunciava a esse dedicado amigo do coração:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não lastimes, Baptista, a minha sorte,&lt;br /&gt;Nenhum abalo o dano meu te faça;&lt;br /&gt;Batem em mim os golpes da desgraça,&lt;br /&gt;Bem como as ondas num rochedo forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ver-me-às tranquilo sujeitar ao corte.&lt;br /&gt;Que da vida a cadeia desenlaça. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens, com tormento agudo e grave,&lt;br /&gt;Podem fazer que desta estância abjecta&lt;br /&gt;Meu sangue, espadanando, os tetos lave;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podem no coração cravar-me a seta,&lt;br /&gt;Porém não extorquir-me a paz suave,&lt;br /&gt;Com que o Justo transpõe da vida a meta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Até que, não sabemos a data precisa em que Francisco Álvares de Nóbrega foi posto em liberdade, mas podemos afirmar que, em fins de 1803, o nosso poeta publicou a tradução duma novela da autoria de Florian, intitulada Sélico ou Heroísmo Filial, o que nos dá a certeza que nessa era já estaria solto, sendo também certo que, em 13 de Agosto de 1803, o processo da Inquisição foi encerrado, abruptamente.&lt;br /&gt; Nos cerca de três anos de vida que lhe restaram, o nosso poeta de Machico, aumentou, retocou, e editou as suas primorosas Rimas, que ofereceu ao livreiro que o acolhera na sua casa, Manuel José Moreira Pinto Baptista. Ainda teve tempo para traduzir, além da indicada novela de Florian, o livro de Fulchiron, Algar e Ainorex- Os Efeitos da Funesta Ambição de Um Pai; e uma novela de Mr. Gardy intitulada O Poder da Primeira Inclinação.&lt;br /&gt;  Até que, em dia incerto de 1806, sempre infeliz, minado e desfigurado pela lepra que grassava cada vez mais, Francisco Álvares de Nóbrega, cansou-se de lutar contra as adversidades, o infortúnio e os males do amor; e com apenas 33 anos de idade, na casa do amigo dilecto Baptista, à Calçada de São João Nepomuceno em Lisboa, depois de se fechar no quarto e enrolar-se num lençol que coseu até aos ombros, preparou-se para dormir o último sono, e sem mais alentos, quiçá em Paz, suicidou-se, ingerindo grandes porções de láudano, que antes havia comprado na botica.&lt;br /&gt;Esventrando essa trágica morte, o jornalista Januário Justiniano de Nóbrega, sobrinho do nosso infeliz poeta e avô do poeta João Marinho de Nóbrega, refere que o seu tio levantou a própria eça no silêncio da noite, rodeou-se dos livros a que consagrava as longas horas de insónia, pôs à cabeceira os seus escritos, e libando, como Sócrates, a bebida fatal, adormeceu no seio do Criador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feita esta breve abordagem à trágica existência de Francisco Álvares de Nóbrega, resta-nos precisar que o poeta viveu entre finais do séc. XVIII e princípios do XIX, numa altura em que o cultivo da vinha em regime de quase monocultura, e a abundante produção e exportação do vinho, de novo, tornaram a Madeira famosa em todo o Mundo. &lt;br /&gt;Na realidade, a economia do arquipélago conheceu um surto de grande expansão e até de certo fulgor nessa época; voltando o ancoradouro do Funchal a ser frequentado por muitas embarcações vindas de todos os quadrantes do planeta. Deste modo, entre 1787 a 1806, ou seja durante os últimos vinte anos da vida do poeta, o número médio de navios que entravam no porto do Funchal era de 350 por ano, ou seja, mais do que aqueles que no mesmo período demandavam a cidade do Porto.&lt;br /&gt;Destacamos também as imensas plantações de vinhas malvasia, boal, sercial, verdelho, e negra mole, que com grande pujança, se estendiam desde os 600 metros de altitude na costa sul da ilha, onde os madeirenses fabricavam um vinho generoso de superior qualidade, empregado em abundantes e lucrativas exportações; mas que, diga-se de passagem, os nossos camponeses quase nunca o consumiam.&lt;br /&gt;Salientamos ainda, que nesse tempo do esplendor vinhateiro, chegaram-se a atingir, anualmente, montantes produtivos superiores a 50.000 pipas de vinho; sendo também o período em que a Madeira exportava mais de 40.000 pipas anuais, sobretudo, como consequência dos principais mercados estarem encerrados por efeito das guerras europeias; o que determinava o recurso quase exclusivo ao «Madeira», nomeadamente por parte da Inglaterra e das colónias inglesas da América.&lt;br /&gt;E como não podia deixar de ser, esse progresso da gentil Madeira - Ilha dos Amores para Luís de Camões - inspirou a Francisco Álvares de Nóbrega um bonito soneto, galhardamente, dedicado à sua flor do Oceano:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do vasto Oceano flor, gentil Madeira,&lt;br /&gt;Que murta viçosa o cimo enlaças,&lt;br /&gt;Sóbria a teu seio amamentando as Graças,&lt;br /&gt;Com o vítrio suco da imortal Parreira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daquele, que em ti viu a luz primeira,&lt;br /&gt;Se acaso é crível que inda apreço faças,&lt;br /&gt;Entre o prazer das brincadeiras taças&lt;br /&gt;Recolhe a minha produção rasteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É donativo escasso, eu bem conheço;&lt;br /&gt;Mas o desejo que acompanha a oferenda,&lt;br /&gt;Lhe avulta a estima, lhe engrandece o preço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa que a roda o meu Destino prenda;&lt;br /&gt;Em cessando estes males, que padeço&lt;br /&gt;Talvez então mais altos dons te renda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembramos também, que naquela época, a Madeira não tinha, praticamente, relações comerciais com o Reino, onde o nosso poeta acabou os seus gloriosos dias, em virtude de por um lado, o Continente também se afirmar como grande produtor de vinho, e por outro lado, apresentar-se profundamente deficitário em cereais, que consistia precisamente o produto de que a ilha mais necessitava.&lt;br /&gt;Referir ainda, que entre 1775 a 1783, ou seja no período da adolescência de Francisco Alvares de Nóbrega, surgiram algumas dificuldades na economia do arquipélago devido à Guerra da Independência da América, e ao Bloqueio Inglês às colónias, acontecimentos externos que durante um curto prazo determinaram uma significativa quebra nas exportações insulares, mas que depressa foram ultrapassados, com o retorno da paz.&lt;br /&gt;Acrescentamos igualmente, que em consequência do pleno emprego e dos altos preços que os vinhos chegaram a alcançar, esse grande desenvolvimento que se verificou no ciclo de existência do nosso poeta, determinou melhorias no nível de vida de certos madeirenses, designadamente dum punhado de comerciantes, dalguns grandes proprietários de terras, e de meia dúzia de colonos que ainda trabalhavam superfícies com razoáveis dimensões.&lt;br /&gt;Porém, nas esteira do historiador Alberto Vieira, também somos da opinião que o vinho Madeira foi sobretudo um vinho para inglês degustar e amealhar fortunas, e para o Ilhéu foi apenas um limitado recurso económico, e ao mesmo tempo um vexame pouco compensatório; como certamente constatou a aguçada sensibilidade humanista de Francisco Álvares de Nóbrega.&lt;br /&gt;Resta lembrar, que condicionada pela estrutura económica que acabamos de descrever, o subconsciente colectivo e a superstrutura mental madeirense foi sendo dominada pelos temas ligados à exploração vinícola, ao mesmo tempo que, paulatinamente, se foram apagando as referências açucareiras. O próprio brasão da cidade do Funchal que no período áureo da produção e exportação do açúcar, tinha como armas cinco formas de açúcar dispostas em cruz e nos quatro cantos o escudo com cinco quinas ladeado por uma cana verde com folhas; nesta era do apogeu do vinho, viu precisamente essas folhas de cana serem substituídas por cachos de uva.   &lt;br /&gt;Do mesmo modo, acompanhando o fulgor vinhateiro, exprimiram-se nas Artes e na Arquitectura novos estilos e influências. Assim, foram construídas as típicas residências madeirenses do séc. XVIII com os seus óculos de pedra nas paredes, as torres avista navios, cimalhas nos beirais, cantarias de pedra vermelha, varandas decoradas com ferro forjado, o lagar do coxo no rés-do-chão, e os mirantes, balcões e casas de prazer nos jardins, que ainda hoje abundam nas ruas do centro histórico do Funchal, e de certo modo em Machico; os quais certamente influenciaram o sentido estético e o gosto refinado de Francisco Álvares de Nóbrega .&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, um pouco por toda a Ilha, assistiu-se à vitória do barroco e da talha dourada sobre o gosto flamengo e o mudejarismo, de que escolhemos como exemplo a bela igreja jesuíta do Colégio, no Funchal.&lt;br /&gt;Acresce que a classe dominante da Madeira copiou a vida cortesã dos numerosos ingleses que pontificavam na economia da ilha; e as suas quintas rodeadas de sumptuosos vinhedos e jardins, rivalizavam, por vezes, com os melhores exemplares das mansões britânicas.&lt;br /&gt;Mas, nos últimos decénios do séc. XVIII, precisamente no período de vida do nosso poeta, o Neoclassicismo também começou a influir na arquitectura insular, como podemos verificar na Igreja Inglesa da Sagrada Trindade, e no palacete do cônsul inglês Henry Veitch, hoje sede do Instituto do Vinho da Madeira.&lt;br /&gt;No campo da Literatura e da Poesia, Francisco Álvares de Nóbrega viveu no período final do Neoclassicismo, que foi um movimento literário que derivou do espírito critico do Iluminismo e do Racionalismo, que tinha como principal finalidade a restauração das formas, das técnicas, e das expressões clássicas da Renascença, que haviam vingado em Portugal e na Madeira do séc. XVI. Tratava-se, assim, duma corrente literária de ruptura frontal contra o barroquismo e os exageros do cultismo, e do conceptismo, preocupada com a restituição da sobriedade, e da prática de grande disciplina estética; tudo factores que podemos verificar e apreciar ao cotejar a obra poética do talentoso vate de Machico.&lt;br /&gt;E tal como os escritores neoclássicos, também o nosso poeta procurou descrever a natureza com muita fidelidade, como é bem visível nalguns sonetos que já relatamos, e na seguinte Gloza que como mero exemplo, transcrevemos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Natureza! Mãe fecunda&lt;br /&gt;            De tudo quanto respira,&lt;br /&gt;            Que prodígios não admira &lt;br /&gt;            Quem teus segredos profunda!&lt;br /&gt;             Do centro da terra funda&lt;br /&gt;             Tenra planta brota e cresce,&lt;br /&gt;             E tanto o ser agradece&lt;br /&gt;             Á causa donde proveio,&lt;br /&gt;             Que mostra trazer no seio&lt;br /&gt;             Uma alma, que reconhece. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              Este tributo expressivo&lt;br /&gt;              De amor e de gratidão,&lt;br /&gt;              Nos mostra que as plantas são&lt;br /&gt;              Dos Numes exemplar vivo;&lt;br /&gt;              Seu suco vegetativo,&lt;br /&gt;              Alma que as agita, e move,&lt;br /&gt;              Extrai porções da de Jove:&lt;br /&gt;              É sua mútua firmeza&lt;br /&gt;              Um dever, que a Natureza&lt;br /&gt;              Não altera, antes promove.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              Cingindo frente com frente,&lt;br /&gt;              Unindo braços com braços,&lt;br /&gt;               Sem depender de outros laços,&lt;br /&gt;               Elas se amam mutuamente;&lt;br /&gt;               Propagam sua semente&lt;br /&gt;               Em gostosa liberdade,&lt;br /&gt;               Terno amor, doce amizade.&lt;br /&gt;                Vós que fazeis seu transporte,&lt;br /&gt;                Outorgai da mesma sorte &lt;br /&gt;                Este bem à Humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Porém, no Elucidário Madeirense, o padre Fernando Augusto da Silva e Carlos A. Menezes comentam que, Inocêncio Silva, falando do nosso poeta no «Dicionário Bibliográphico», explana que o vate de Machico, não seguiu escola determinada, porque dos seus versos, uns recordam a maneira de Bocage e outros a de Francisco Manuel. Acrescenta ainda que houve muito poucos poetas que o igualassem nos sonetos, e que a sua linguagem, posto que não abundante em demasia, é pura e correcta, e os versos são em geral fluentes e harmoniosos. &lt;br /&gt;Quanto a nós, sem negar a nítida influência neoclássica que recheia toda a obra poética de Nóbrega, aditamos que tal como aconteceu com o Tomás António Gonzaga da Marília de Dirceu; e sobretudo com o seu contemporâneo e amigo Manuel Maria Barbosa du Bocage; o nosso poeta descreveu com grande realismo e sensibilidade as frementes emoções da doença e das masmorras, bem como os seus desesperos, infortúnios, e dores da alma, pelo que o podemos colocar, sem hesitação, entre os mais eminentes cultores do Pré-Romantismo português, como podemos apreender neste soneto de amor escrito na prisão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sadias virações da madrugada,&lt;br /&gt;Que as folhas embalais deste arvoredo,&lt;br /&gt;Entrando neste sítio inda mais cedo&lt;br /&gt;Que a dúbia luz da aurora marchetada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora que repousa a doce Amada&lt;br /&gt;Em bençãos de jasmins seu corpo ledo,&lt;br /&gt;Um pouco respirai mais em segredo,&lt;br /&gt;Sádias virações da madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respeitai de Marília o sono brando&lt;br /&gt;Nos ramos destes álamos copados.&lt;br /&gt;As subtis asas plácidas feixando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende em morno silêncio os verdes prados,&lt;br /&gt;Durma a causa do mal que estou passando&lt;br /&gt;Enquanto dorme – dormem meus cuidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acrescentamos mesmo, que uma das admiráveis zonas de inovação em relação aos modelos da sua época, quer de Bocage, quer do nosso Nóbrega, situa-se precisamente na exploração que ambos fizeram dos ambientes hórridos e tenebrosos, dentro da melhor tradição shakespereana, e no mais puro gosto pré-romântico.&lt;br /&gt;Efectivamente, ambos legaram-nos os melhores depoimentos da literatura portuguesa e as mais vibrantes e comovedoras experiências da vida nos cárceres, particularmente os horrorosos enredos vividos nesses sepulcros dos viventes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas, alguns exemplos:&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Preso à rija cadeia, onde inocente&lt;br /&gt;Suporto da calúnia o férreo açoite,&lt;br /&gt;Sem achar outro arrimo, a que me acoite,&lt;br /&gt;Bradava pela morte em pranto ardente. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me diz que entre os ferros da violência,&lt;br /&gt;A cujo peso o meu valor quebranto,&lt;br /&gt;Pode a dor sufocar, conter o pranto,&lt;br /&gt;O que conserva ilesa a consciência;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou dos trabalhos tem pouca experiência,&lt;br /&gt;Ou finge esforço inexpugnável, santo;&lt;br /&gt;O delinquente em ferros geme tanto,&lt;br /&gt;Como o herói da cândida inocência. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Como está este dia tão soturno!&lt;br /&gt;           Pavoroso negrume o ar enlucta,&lt;br /&gt;           Naquele galho a regougar se escuta,&lt;br /&gt;           Crendo que é noite, o carpidor nocturno.(…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O encrespado mar, de negro tinto,&lt;br /&gt;             Ostenta em sua túmida voragem&lt;br /&gt;                      Querer o Orbe aniquilar faminto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                       Sucedeu Bóreas torvo à branda aragem;&lt;br /&gt;                       Da viva inquietação, que n´alma sinto&lt;br /&gt;                       Ó dia de pavor, tu és a imagem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por último, este belo soneto, que Nóbrega dedicou a Camões:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Se me recordo, meu Camões divino,&lt;br /&gt;     De que em pobre hospital, sórdido, agreste,&lt;br /&gt;     O derradeiro adeus ao Mundo deste,&lt;br /&gt;     Leio em tua desgraça o meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O drago da doença, atroz, maligno,&lt;br /&gt;      Cospe em meu corpo tragadora peste;&lt;br /&gt;      Que meu fatal instante em fim se apreste,&lt;br /&gt;      Espero, como tu, em leito indigno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Com tudo melhor sorte em ti conheço:&lt;br /&gt;      Tu do desprezo sofres só o insulto,&lt;br /&gt;      Eu entre ferros ao sepulcro desço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Tu sem nota, eu infame me sepulto;&lt;br /&gt;      Porém menos, também, menos mereço,&lt;br /&gt;      Porque tu eras sábio, eu sou estulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegados aqui, é altura de recordar uma contradição ao fulgor económico do período histórico em apreço, com consequências que, certamente, preocuparam e alvoroçaram Francisco Álvares de Nóbrega, que não compreenderia, totalmente, os motivos de muitas dramas, que vitimavam, especialmente, os mais frágeis e desvalidos.&lt;br /&gt; Na verdade, as explorações agrícolas e económicas madeirenses de então, tinham características de quase monocultura e praticamente estavam viradas em exclusivo para a exportação. Daí resultava que, quando por circunstâncias externas, nomeadamente tempestades, guerras internacionais, ou acção dos corsários, o tráfego de navios para a Madeira era afectado, tais ocorrências determinavam que o arquipélago deixasse de ser devidamente abastecido de cereais e doutros géneros alimentícios; desencadeando-se as tradicionais Crises de Subsistência e até pavorosas fomes, com todo o seu caudal de mortes, misérias e tormentos.&lt;br /&gt;Por exemplo, em 1761, ou seja poucos anos antes do nascimento de Francisco Alvares de Nóbrega, os efeitos da Guerra dos Sete Anos afastaram a navegação do Funchal, provocando situações de grandes carências alimentares; que acarretavam intensos surtos emigratórios, sobretudo para o Brasil. Em 1767, a situação piorou, exacerbada por uma epidemia de sarampo que grassou na cidade e nos campos; e em 1777, já na infância do nosso Camões Pequeno, assistia-se ao triste espectáculo de ver as ruas cheias de gente famélica a procurar, desesperadamente, o pão que não havia. &lt;br /&gt;Esta trágica conjuntura agravou-se ainda mais com a eclosão da Revolução Americana e da Guerra da Independência da América, que tornava impossível a previsão, com um mínimo de rigor, de quando arribariam ao porto do Funchal os navios abastecedores vindos da América do Norte. Para fazermos uma pequena ideia da real dimensão dessas crises, basta lembrar que Baltimore fornecia-nos trigo, milho e arroz; de Bóston recebíamos farinhas, biscoito, feijão, arroz e carne; de Charleston provinha biscoitos, salmão, arroz, feijão e carne; e da Filadélfia e Virgínia também adquiriríamos carne, farinha, e milho.&lt;br /&gt;Para atenuar as fomes, e evitar mais mortes, em 6 de Dezembro de 1777, a Câmara Municipal do Funchal pedia, encarecidamente, que pela Junta do Bem Comum fossem enviados navios com trigo para a Madeira; e em 1789, quando Francisco Alvares de Nóbrega já trabalhava na cidade, os vereadores e procuradores dos mesteres do Funchal, seguramente contando com a solidariedade e o apoio do jovem poeta de Machico, reivindicavam com veemência, em nome do povo, que fosse autorizado importarmos, directamente, trigo e milho dos Açores, cuja aquisição era privilégio exclusivo da Coroa.&lt;br /&gt;É de realçar que em todas estas reivindicações e manifestações, os procuradores dos mesteres sempre foram os mais activos, pois eram precisamente as classes populares que suportavam quase todo o peso das crises de subsistência, situação que, certamente, feriu a aguçada sensibilidade humanista de Francisco Álvares de Nóbrega.&lt;br /&gt;Aconteceu até, que em 1798, ainda no ciclo da existência do grande poeta de Machico, o governador Diogo Pereira Forjaz compeliu, violentamente, o comandante de uma galera estrangeira, vinda de Safin e que estava ancorada no porto do Funchal, a descarregar toda a carga de cereais que transportava para outro destino, invocando a falta de trigo que havia na Ilha para sustento dos seus habitantes que morriam de fome.&lt;br /&gt;No século XX nada mudou. Em 1805, já no fim da vida de Francisco Alvares de Nóbrega, novo surto de fomes provocou lutas, arruaças e manifestações, reivindicando que o trigo dos Açores fosse importado sem entraves pelo nosso arquipélago; tendo sido tão intensa a reacção popular contra o autismo do Poder Central, que determinou a ordenação régia de 17 de Janeiro de 1806, onde, finalmente, constava que dada a esterilidade que se achava a Ilha pela falta de grão e farinhas, ordena-se que doravante nas Ilhas dos Açores não se compre grão de qualidade alguma, para ser remetido à Corte de Sua Real Fazenda, a fim de que o existente se transporte para a Madeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque já nos alongamos, resta-nos debruçar, embora de forma muito sucinta, á volta da superstrutura relativa à História das ideias e das correntes de pensamento que se esgrimiam durante o curto tempo da vida do nosso poeta.&lt;br /&gt;Assim, por um lado pontificavam os defensores do servilismo, dos Morgadios e Capelas, da obediência cega, do dogmatismo e de todas as instituições da Velha Ordem, robustecidos com a política conservadora de Dª Maria 1ª e do seu governo, que após o afastamento do Marquez de Pombal recorreu às ameaças, à prisão, e à tortura, com a finalidade de impedir o progresso do pensamento liberal, que um pouco por toda a Europa gerou as condições para a eclosão da Revolução Francesa.&lt;br /&gt;Do outro lado, vítimas da opressão e relegados para a clandestinidade, pulsavam os paladinos da mudança, da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, que foram ganhando cada vez mais adeptos, sobretudo nas camadas intelectuais; sendo até certo que a Madeira foi das primeiras terras portuguesas onde se organizaram as célebres lojas maçónicas, condenadas em 1737, por bula papal; apesar de apenas difundirem os ideais filantrópicos, a fraternidade universal, e o auto-aperfeiçoamento moral e intelectual.&lt;br /&gt;De facto, logo em 1770, ainda o nosso escritor não era nascido, o Governador do arquipélago mandou prender Aires Ornelas Frasão, Francisco Alincourt, e Bartolomeu Andrieux, acusados de serem perigosos pedreiros–livres, que ponham em perigo a ordem, a religião, as instituições, e a moral tradicional.&lt;br /&gt;E em 1792, pouco antes de Francisco Álvares de Nóbrega entrar no Seminário, foi desencadeada pelo déspota Bispo D. José da Costa Torres, uma cruel perseguição contra os maçons e outros cidadãos que não se conformavam com o dogmatismo e a opressão. Para tanto o Prelado mandou publicar um raivoso edital convocando os cidadãos a denunciar à Inquisição todos aqueles que soubessem pertencer ao que ele chamava a maldita seita, que tinha pacto com Satanás e era excomungada.&lt;br /&gt;Num importante estudo sobre estes factos, publicado em 1989, nas Actas do I Colóquio Internacional da História da Madeira com o título, A Madeira nos Arquivos da Inquirição, a investigadora Maria do Carmo Jardim Dias Farinha refere que se verificou um conjunto de denúncias para o Tribunal do Santo Ofício, tal como aconteceu em 1591 contra os cristãos-novos. Desta vez o alvo foi a Sociedade dos Pedreiros Livres; que organizava muitos membros da nobreza, grandes proprietários, intelectuais, e até padres católicos, chegando alguns a ser presos e outros foram exilados.&lt;br /&gt;Comentando estes factos, a historiadora Anita Novinsky, com quem estamos inteiramente de acordo, referia que a violência punitiva e castradora da Inquisição era mais uma prova que esse Tribunal tinha por fim averiguar o grau de ortodoxia dos moradores, e testar a resistência que estes apresentarem em aceitar a doutrina, a moral e a explicação do Mundo dadas pelo Poder, representado por um lado pela Igreja e do outro pelo Estado.&lt;br /&gt;E foi precisamente porque não se conformou com um Estado absolutista e tirano; e porque também afrontou a doutrina retrógrada duma Igreja caduca e prepotente, que o grande poeta Francisco Álvares de Nóbrega sofreu os tormentos do cárcere, e acabou tragicamente com os seus dias, muito infeliz e deprimido.&lt;br /&gt;Podemos assim classificar Francisco Alvares de Nóbrega como um dos heróis que foram sacrificados na luta pela Liberdade, pela Justiça e pela profunda transformação da Humanidade, em favor de mais igualdade e fraternidade para todos os povos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A finalizar, lembramos que tem sido voz corrente, que os tenebrosos esbirros da Inquisição, quando depararam com o cadáver do escritor, vandalizaram e destruíram os seus escritos, e até uma nova colecção de poesias que estava pronta para ser publicada; facto que torna imperativo que continuem a ser promovidas cuidadosas investigações e buscas para tentar descobrir os trabalhos do nosso poeta que, porventura, ainda estejam dispersos e desconhecidos.&lt;br /&gt;Por outro lado, continuam a faltar investigações, estudos, e ensaios sobre a vida e a obra deste grande poeta madeirense, pelo que terminamos este artigo com um apelo aos nossos eruditos, sobretudo aos organismos regionais de cultura, e à Universidade da Madeira, propondo que sejam motivados e incentivados mais estudos especializados para a procura, investigação crítica, e a reconstituição judiciosa dos escritos de Francisco Álvares de Nóbrega, e ainda para que prossigam investigações tendentes a colmatar as lacunas que ainda persistem em volta da biografia e das influências históricas, literárias e culturais na obra deste grande e nobre poeta; que muito honra Machico e a Madeira. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;             &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                         BIBLIOGRAFIA&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Alves, Ivone Correia, Para Uma Biografia de Francisco André Álvares de Nóbrega, Actas das Comemorações do Bicentenário, «EFAN – Estudos Nobricenses», Machico 2007.&lt;br /&gt;- Inquisição de Lisboa – Processo nº 15764, «Efan – Estudos Nobricenses»,  Machico 2007.&lt;br /&gt;Farinha, Maria do Carmo Jardim Dias, A Madeira nos Arquivos da Inquisição, in Actas do I Colóquio Internacional da História da Madeira, Vol.1, Funchal 1989.&lt;br /&gt;Gomes, Alberto Figueira, in Prefácio da Vida e Obra de Francisco Álvares de Nóbrega, Publicado pela Câmara Municipal de Machico, Machico 2001.&lt;br /&gt;Loja, António, A Luta do Poder Contra a Maçonaria – Quatro Perseguições no séc. XVIII, Imprensa Nacional, Lisboa 1986.&lt;br /&gt;Lopes, Óscar, Ler e Depois – Crítica e Interpretação Literária, (vol.1) Editorial Inova, Porto 1969. &lt;br /&gt;Moniz, Jaime, Notícia Biográfica e Literária – Francisco Álvares de Nóbrega, in Instituto de Coimbra (vol. IX), Coimbra 1861.&lt;br /&gt;Nascimento, João Cabral do, «O Camões Pequeno» e a Inquisição, in Anais das Bibliotecas e Arquivos, Lisboa 1938.&lt;br /&gt;Nepomuceno, Rui Faria, História da Madeira, uma visão actual, Campo das Letras, Porto 2006.&lt;br /&gt;--- Francisco Álvares de Nóbrega e a Sua Época, Actas do Bicentenário,  «EFAN – Estudos Nobricenses», Machico 2007.&lt;br /&gt;S.A., Porto 2006.&lt;br /&gt;Nóbrega, Francisco Álvares de, Rimas que em Sinal de Reconhecimento Oferece ao Senhor Manuel José Moreira Pinto Baptista o seu Autor, Tipografia Lacerdina, Lisboa 1804. &lt;br /&gt;Novinsky, Anita, Inquisição e Heresias na Ilha da Madeira, in Actas do I Colóquio Internacional da História da Madeira, Vol II, Funchal 1990.&lt;br /&gt;Pires, Daniel, Francisco Álvares de Nóbrega: Retrato de um Livre Pensador, Actas das Comemorações do Bicentenário, «EFAN – Estudos Nobricenses», Machico 2007.&lt;br /&gt;Silva, Fernando Augusto da (com Carlos A. Menezes), Alvares de Nóbrega, Francisco, in Elucidário Madeirense, Tipografia Esperança, Funchal 1921.&lt;br /&gt;Vieira, Alberto, História do Vinho da Madeira, Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal 1993.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-7781522829196105512?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/7781522829196105512/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/francisco-alvares-de-nobrega-camoes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/7781522829196105512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/7781522829196105512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/francisco-alvares-de-nobrega-camoes.html' title='Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33gV4o0TLI/AAAAAAAAAEI/roWDrDMBXtc/s72-c/Rimas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-8924270099855239873</id><published>2010-02-15T00:36:00.003Z</published><updated>2010-02-19T00:27:27.844Z</updated><title type='text'>Horácio Bento de Gouveia e a Escola Neo-Realista Lusa</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33a4bFwQwI/AAAAAAAAADg/HpzcfMXknFg/s1600-h/hbg.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 154px; height: 238px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33a4bFwQwI/AAAAAAAAADg/HpzcfMXknFg/s320/hbg.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5439744587812848386" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Horácio Bento de Gouveia nasceu em 5 de Setembro de 1901, na freguesia da Ponta Delgada, do concelho de São Vicente, e faleceu no Funchal em 23 de Maio de 1983. Era filho de Francisco Bento de Gouveia e de D.ª Firmina Matilde de Ornellas Bento de Gouveia; e em 1930, terminou a sua licenciatura em Ciências Históricas e Geográficas na Faculdade de Letras da «Universidade de Lisboa»; tendo sido durante muitos anos professor do ensino secundário, primeiro no Continente, nomeadamente nos liceus «Passos Manuel» e «D. João de Castro»; e depois no «Liceu Jaime Moniz» do Funchal, onde leccionou grande parte da sua vida. &lt;br /&gt;Foi um notável jornalista que colaborou em muitos jornais e revistas, nomeadamente no «Diário de Notícias»; no «Diário da Madeira», no «Jornal da Madeira», e na revista cultural «Das Artes e da História da Madeira».&lt;br /&gt;Foi ainda um dos maiores, senão o maior romancista e novelista da História da Literatura do Arquipélago da Madeira, estando para esta ilha «como Vitorino Nemésio está para os Açores, e Aquilino Ribeiro para Portugal», conforme, muito bem, apontou a sua filha Dr.ª Maria de Fátima Madureira de Ornellas de Gouveia Soares, que tem investigado, recolhido e publicado os numerosos escritos jornalísticos do seu pai.&lt;br /&gt; Em 1932, Horácio Bento de Gouveia publicou «Aspectos Históricos-Geográficos da Ilha da Madeira»; e «Aspectos da Moderna Literatura Brasileira», trabalhos muito relacionados à sua actividade de professor, com um brilhante prefácio de Hernani Cidade, que analisou, distinguiu e dissertou sobre os conceitos de jornalista e escritor. &lt;br /&gt;Nos princípios de 1949, prefaciado por Aquilino Ribeiro, surgiu a 1ª edição dos «Ilhéus», onde com muita coragem denunciou o injusto Contrato de Colonia e a situação de grande opressão e exploração imposta por certos senhorios aos caseiros madeirenses. Na 3ª edição desse romance, surgida em 1976, Horácio Bento de Gouveia, além de ter incluído passagens que antes tinham sido eliminadas pela censura, deu-lhe o nome de «Canga», título original que sempre tinha desejado para aquele livro, mas que fora proibido pelos censores.&lt;br /&gt; Durante 1959, divulgou o romance «Lágrimas Correndo Mundo», onde salientou diversos aspectos e perspectivas relacionadas com a indústria de bordados da Madeira, e se debruçou sobre a vida dura e difícil das grandes obreiras e artistas que foram as bordadeiras do campo e da cidade.&lt;br /&gt; Em 1963, com um prefácio do Dr. Carlos Lélis, veio à luz o romance «Águas Mansas», onde pulsa a vida dos estudantes madeirenses nas Universidades continentais, em busca duma licenciatura que lhes permitisse alcançar um marcante estatuto social e uma carreira garantida. &lt;br /&gt;No ano de 1966, Horácio Bento de Gouveia editou o livro de crónicas «Canhenhos da Ilha», superiormente ilustrado por António Aragão Mendes Correia; e em 1972, os contos «Alma Negra e Outras Almas», nos quais aliou a ficção, ao registo de viagens, e à biografia de alguns escritores.&lt;br /&gt; Em 1979, saiu o romance «Torna Viajem», onde o nosso escritor estudou a temática da emigração e os seus envolvimentos económicos e sociais; a 1980, lançou o romance urbano «Margareta», e em 1982, a DRAC publicou a obra póstuma «Luísa Marta», que é uma novela de ficção e memórias.&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Alguns eruditos influenciados pela apressada leitura da sua obra-prima que é o romance «Ilhéus/Ganga»; e também pela denúncia da opressão e exploração das bordadeiras, bem patente em «Lágrimas Correndo Mundo», classificaram Horácio Bento de Gouveia como um seguidor da escola neo-realista portuguesa, que teve como principais cultores Fernando Namora, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Álvaro Cunhal, Manuel da Fonseca, Antunes da Silva, Alexandre Cabral, José Rodrigues Migueis, e alguns outros escritores de maior ou menor mérito.&lt;br /&gt;Todavia, afirmamos, liminarmente, e sem qualquer hesitação, que apesar de algumas claras afinidades com aqueles autores, o romancista madeirense não poderá ser classificado como um cultor dessa escola literária.&lt;br /&gt;Desde logo porque todos os neo-realistas lusos professaram a ideologia marxista, adoptaram como guia filosófico os princípios do materialismo dialéctico, e como visão histórica, a progressiva luta de classes, que num processo dialéctico e científico, encaminharia a humanidade para um futuro de inevitável vitória do socialismo, a caminho do comunismo.&lt;br /&gt;Por outro lado, apesar das diferentes sensibilidades artísticas de cada um deles, das variadas influências culturais bem patentes na forma diversificada como abordavam o real, e não obstante o rigor estético que imprimiram às suas obras literárias, o certo é que em todos os neo-realistas portugueses encontramos o denominador comum da resistência ao fascismo e ao salazarismo, a denúncia da exploração, das injustiças sociais, e, sobretudo, a intenção de pela escrita, contribuírem, activamente, para a transformação da sociedade e da vida política, económica, social e cultural do País.&lt;br /&gt;De facto, logo em 1930, na revista «Seara Nova», José Rodrigues Miguéis dava o mote ao escrever que os intelectuais se deviam deixar «penetrar dum espírito novo, duma disciplina social, duma intenção de servir; e do dever de passar das afirmações doutrinais à acção, das camarilhas, tertúlias e academias para a atmosfera acre e fértil das massas». Incentivava ainda os escritores, para que tivessem «a coragem de reconhecer que os ideais, as doutrinas, e as teorias sociais não podem ser um refúgio da inteligência em conflito com as realidades, mas um poderoso instrumento sobre as mesmas». &lt;br /&gt;No mesmo sentido o grande romancista Romain Rolland - muito seguido e benquisto por todos os neo-realistas portugueses - propagaria «que todo o pensamento que não age ou é um aborto ou uma traição, (...) pois quem vê a injustiça e o crime, e se abstém de os combater, aos mesmos se associa»...&lt;br /&gt;Ora, ao contrário ds escritores neo-realistas, Horácio Bento de Gouveia, aderiu ao corporativismo, tendo até militado na União Nacional. Acresce que abraçava uma filosofia idealista, embora com certos laivos dum humanismo de matriz presencista, de pendor regionalista, e de materialismo libertino e individualista ao jeito do seu amigo Aquilino Ribeiro; navegando entre o primitivo modernismo e a tradição, e quedando-se enlaçado no predominante tronco naturalista da literatura portuguesa do início do séc. XX, nitidamente alheio e avesso a quaisquer concessões à dialéctica do movimento, da mudança e da luta pela profunda transformação politica, económica, social e cultural da sociedade, que são a pedra de toque do materialismo dialéctico e histórico.&lt;br /&gt;O Professor da Universidade da Madeira Thierry Proença dos Santos, na Introdução à reedição da «Canga» publicada pela Empresa Municipal «Funchal 500 Anos» concluiu que, nos seus múltiplos discursos, aquele livro «navega por entre as águas do presencismo, do neo-realismo e dos regionalismos aquiliniano e brasileiro, apontando claramente para a revindicação social, uma das missões que a literatura ocidental da altura, com intencionalidade progressista, levava a peito».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos, assim, classificar Horácio Bento de Gouveia como um apologista da sociedade burguesa capitalista, e um intelectual conservador, e de certo modo nacionalista, embora profundamente humanista. Deste modo, do estudo aturado da sua brilhante obra de romancista e novelista, facilmente verificamos que se trata dum escritor vincadamente regionalista, mas de cultura europeia, que por vezes se afirma liberal, para quem uma das traves mestras da sua ideologia consiste em encarar como imutáveis as desigualdades económicas e sociais, contra as quais, portanto, nunca pretendeu lutar de forma activa e revolucionária nos seus escritos.&lt;br /&gt;Na verdade, nos «Ilhéus/Canga» e em «Lágrimas Correndo Mundo», está bem patente o fatalismo dos caseiros e das bordadeiras, aliado à alienação religiosa, assente na esperança de que por milagre e não pela luta política e social, se atenue a opressão e se derrotem os exploradores.&lt;br /&gt;Vejamos alguns exemplos, embora para facilitar a leitura e a compreensão, não utilizemos o linguajar camponês do norte da Madeira, cuja música e cadência acompanhou a infância e a juventude de Horácio Bento de Gouveia, e que ele tão magistralmente soube plasmar na sua obra, embora sem nunca deixar de escrever de forma elegante, e com grande rigor estético e literário.&lt;br /&gt;Assim, nos «Ilhéus/Canga», Manuel Esmeraldo, personagem claramente autobiográfica, descreveu os colonos «como submissos, obedientes à lei de Deus, cumprindo o fatalismo da passividade, e não reagindo às extorsões do senhorio ambicioso, que como sanguessuga só abandona o doente quando está saciada».&lt;br /&gt;Impressionado com a opressão e extrema pobreza dos colonos, Esmeraldo lamentava: - «quantas famílias viviam uma vida de inteira servidão na sua terra, tão plena de luz mas tão negra! Os Garipos, os Misérias, todos sofriam o peso férreo e acalcanhante da vontade dos senhorios, sem um clamor, uma súplica de justiça, mas apenas uma revolta surda».&lt;br /&gt;Conformado, o caseiro Garipo afirmava «nunca ter ouvido dizer que pobre se tornasse rico um dia, pois, quem nasce pobre, pobre há-de morrer»; lembrando que o seu avô «toda a vida servira de moço de senhorio, comendo e dormindo na casa do amo, sem um belisco de terra sua, nem palheiro onde criar os filhos».  &lt;br /&gt;Duma forma sofredora, mas resignada, o caseiro Miséria lastimava a dramática situação familiar à sua mulher, esfomeada e tuberculosa, e dizia-lhe: - «o que Deus tem deparado é o comerzinho da terra. Se ao menos houvesse um peixinho…um bocadinho de carne, era bom para ti»; respondendo-lhe ela, de forma lacrimosa, mas submissa: - «Tou bem doente. Como há-de ser dos nossos filhos»? …&lt;br /&gt;Apenas a caridade tinha o condão de mitigar a amargurada miséria. «Na ocasião da Festa, os mais remediados chamavam os garotos e davam-lhes um niquito de carne e um gole de vinho», perante o olhar fatalista dos colonos.&lt;br /&gt;Ao ser vítima duma injustiça, o caseiro Miséria bradava: - «Deus não dorme! Deus há-de fazer justiça, o castigo de Deus há-se vir um dia. Quem era assim tão ganancioso, só amigo de si, tinha de pagar neste mundo todo o mal que fazia aos pobres como ele, que não podiam levantar uma palha do chão e chamar sua».&lt;br /&gt;Outro caseiro desabafava para um companheiro de infortúnio: - «A justiça de Nosso Senhor é grande»; e este apenas respondia: «mas quando vem ela, não sei, não se sabe…mas há-de chegar um dia» …&lt;br /&gt;E indignado com a malvadez do seu senhorio, o caseiro Pélea não se conteve e atreveu-se a dizer-lhe: - «a sua alma já está no inferno a arder».&lt;br /&gt;Também em «Lágrimas Correndo Mundo», Horácio Bento de Gouveia não escondia o fatalismo e a resignação das bordadeiras perante a opressão e a ganância de alguns industriais de bordados, e dos seus agentes.&lt;br /&gt;Numa ocasião Clara entregava o bordado que, penosamente, tinha executado. «O preço marcado era 1.800$00. O caixeiro desdobrou a toalha. Aproximou da luz os arrendados mais delicados e ia dizendo: o bisponto... este Richelieu... sabe, não está perfeito... Receba 1.500$00». &lt;br /&gt;Desesperada, a bordadeira exclama: - «um desconto de 300 patacas! Não querem ver! Três meses, do romper da manhã até depois da ceia, derreada em cima do bordado, o dinheirame gasto nas linhas, o petróleo todas as noites, e no fim o senhor caixeiro não acha bem feito o trabalho». E levantando as mãos à cabeça, «apertando-a com os braços em arco dizia-lhe: - o senhor está a fazer uma injustiça, está a roubar o meu comer. E quem paga ao vendilhão agora nas Festas o meu vestido e o xaile novo?... Deus vê tudo senhor caixeiro!... E as lágrimas borburalham-lhe nos olhos outonais»; enquanto murmurava em tom magoado: - «a gente pobre como eu vive da agulha e faz o impossível para apresentar o trabalho como deve ser! Para isto»…&lt;br /&gt;Mesmo ao lado, outra bordadeira lamentava-se: - «o pestilhança roubou-me... mas como a gente não se pode queixar, aceita-se o que nos dão»...&lt;br /&gt;E uma outra camponesa contava que tinha sido um «alevanto» na vizinhança pela doença da Helena por causa dos bordados. Fizeram-lhe um desconto injusto de quinhentos escudos. «Ficou muito desgostosa e daí para diante, a rapariga olhava diferente para as pessoas. A modos que andava apreensiva. E, coitada tanto imprendeu que foi o que aconteceu. Começou a ficar tonta dizendo alto: dá-me as quinhentas patacas que me roubaste! Ladrão dá-me as quinhentas patacas! E toda a tarde nisto!»…&lt;br /&gt; O caso não era para menos; comentou uma idosa bordadeira: - «a Helena levava as noites a bordar. Enchia o candeeiro de petróleo, e até às 4 horas da manhã não pregava olho, para dormir só três horas. Aconteceu o que tinha de ser, já era fraca da cabeça»...&lt;br /&gt;E os episódios de exploração e fatalismo multiplicam-se. «Três irmãs com os olhos a arder bordavam até às 2 horas da manhã, e se não fosse o frio estariam a noite inteira a trabalhar para o sustento da família», embora o pouco que alcançavam nem para isso chegasse. «Mas só dele nascia o pão. Curvadas em torno da mesa as mãos trabalhavam sem descanso até desoras. O pai que vivia entravado para mais de três anos, sentado em cadeira de vimes, embrulhado num cobertor, resignado à sua sorte de inútil, perdia o lume dos olhos vendo as filhas quase exaustas na luta pela existência de todo o casal, por manterem a sua honra, e a vida um tudo-nada feliz».&lt;br /&gt; Indignada, a vizinha lastimava: - «uma pessoa fica doente se quiser ganhar para comer e vestir. A vida de bordadeira é feita de muita lágrima. Mal sabem esses milionários que passam por aqui nos vapores de recreio quanto custa cada toalha muito arrendadas que eles compram, dando muitos contos de reis. Mal sabem quanto custa à desgraçada da bordadeira! Aqui há dias disseram-me que uma mulherzinha do Monte foi à casa de bordados levar trabalho. O marido tinha estado doente e quando ela foi entregar duas dúzias de lenços e uma camisa, passava já um dia do prazo marcado. Devia arreceber oitenta patacas e só lhe deram metade. A mulherzinha afligiu-se, explicou a razão de ter vindo um dia mais tarde, mas ficou assim mesmo...&lt;br /&gt;- «Quem é pobre tem que se assujeitar, retorquiu-lhe a amiga em voz baixa e olhar distante».&lt;br /&gt; Entretanto, lá em baixo, na cidade, «a vida borbulhava com os seus quadros de sofrimento e outros de efémera ventura. A cidade fosforejava de lumes. E a vida em seus contrastes de prazer e dor fechava-se dentro das casas pobres e das quintas dos ricos» ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além do conformismo e da alienação religiosa, Horácio Bento de Gouveia, ao contrário do que ocorreria com os escritores neo-realistas portugueses, chegou a acreditar, piamente, que o regime salazarista estava verdadeiramente interessado em pôr fim ao iníquo Contrato de Colonia, através da compra pelo Estado da nua propriedade dos terrenos, para depois a vender aos caseiros, que pagariam, em prestações, durante vinte anos.&lt;br /&gt;Assim, quando para lançar «poeira nos olhos» dos camponeses o Governo da ditadura chegou a comprar algumas fazendas em Ponta Delgada, afim de as ceder aos colonos, Manuel Esmeraldo logo asseverou, confiadamente, «que andam às dezenas as famílias que viviam sob o despotismo dos senhorios régulos. Há-de pôr termo à situação humilhante e miserável do povo. O Estado vai comprar as terras, pois o Governo é forte e a voz da grei é a voz de Deus».&lt;br /&gt;Arrebatados, os colonos da Lombada «davam vivas ao chefe do Distrito, que auscultando as aspirações do povo e reconsiderando que a justiça tinha de ser feita, atendeu à sua voz». E muito comovido, Manuel Esmeraldo exclamava para a multidão: - «Gente da Lombada! Confraternizo como o vosso júbilo, com a alegria que enche as vossas almas simples. Estou convosco nesta hora de felicidade. Eu sou também um camponês da Lombada»!&lt;br /&gt;E sempre confiante que o governo fascista iria acabar com aquela forma medieval da exploração da terra, Esmeraldo afiançava com ingénuo fervor: - «Extinguiu-se o longo reinado da Colonia na Lombada da Ponta Delgada. O exemplo terá de frutificar noutras partes. Os Misérias da aldeia, libertos da carga asfixiadora, desistem de partir para outros mundos, não pensam em emigrar trocando a sua terra bem-amada por terra estrangeira. O Brasil saíra da imaginativa e é substituído pelo palheiro, a casinha rústica que os agasalhava, e pelas suas fazendas que cultivavam com o exaltado afecto. A Lombada surge agora na memória com o calor da afectividade adormecida, como conservadora fiel das mais caras tradições da família e dos costumes avoengos, paraíso de baladas de amor e ternura, a arca de aliança de lágrimas, dores e risos».&lt;br /&gt;Em «Lágrimas Correndo Mundo», Horácio Bento de Gouveia também chegou a crer que a administração corporativista emitiria leis para repor a justiça nas relações de produção entre os industriais e as bordadeiras do campo e da cidade. Uma personagem desse romance regozijava-se pelo facto do governo ter prometido que os fabricantes teriam que melhorar os salários e as condições de trabalho das empregadas dos bordados; e convictamente comentava: - «agora é que se sabe das malandrices de certos patrões... Outro dia uma rapariga contava que a semana passada entrou no recorte às 5 horas da manhã para o trabalho, só saiu às 8 horas da noite; e só lhe tinham dado um quarto de hora para o almoço e para o jantar». Isso agora vai acabar...&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Chegados aqui, julgamos que já provamos o suficiente para concluir que Horácio Bento de Gouveia não acreditava na luta de classes como factor de transformação da sociedade, e por consequência, a sua atitude e o seu pensamento eram distintos, e por vezes até opostos ao dos autores da escola neo-realista portuguesa.&lt;br /&gt;Todavia, como afirmamos no início deste trabalho, da leitura atenta dos romances «Ilhéus/Canga» e «Lágrimas Correndo Mundo», também encontramos grandes afinidades com aqueles escritores.&lt;br /&gt;Desde logo, a convicção comum a todos eles, de que por meio da palavra escrita, o romancista deve ser um constante criador de beleza, e que a descrição dos ambientes e paisagens, bem como dos dramas e das injustiças sociais, em nada limita o valor estético da obra literária, antes a reforça, como aliás está bem patente no conjunto da obra bentiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, tal como ocorria com os seguidores da escola neo-realista portuguesa, Horácio Bento Gouveia revelava também uma profunda solidariedade para com os mais oprimidos e explorados, nomeadamente as bordadeiras, e os colonos, vítimas dos gananciosos senhorios e também dos seus feitores; «que conseguiam ser piores do que eles e com quem se entendiam como Deus com os anjos».&lt;br /&gt;Em «Ilhéus/Canga» o escritor classificou os colonos «como escravos da gleba explorados pelos senhorios», que os camponeses apelidavam de «criaturas de instinto perverso, (…) abutres de garras aduncas, a esfolar o seu semelhante, desprotegido da fortuna».&lt;br /&gt;Manuel Esmeraldo denunciava «a vida rastejante, de répteis humanos dos caseiros, cuja peleja diária do escravo da terra com a natureza que lhe fornece o sustento, contém algo de gigânteo que deveria ser escrito com o próprio sangue destes ilhéus sem estrelas».&lt;br /&gt;E o caseiro Miséria acusava a extrema exploração sofrida pelo seu pai, «que arrebentou as cordas do coração, de tanto carregar o senhorio levando-o de rede, pelas serras fora».   &lt;br /&gt;Por tudo isso, Esmeraldo arrematava que para haver justiça, os senhorios deviam ser obrigados a vender a terra aos colonos. «O conceito de felicidade não pode ser uns viverem regaladamente passeando, viajando, levando os dias de ripanço e outros gastando todas as suas energias com encharcar-se de suor desde o romper da manhã até ao pôr-do-sol. O governo não valoriza o trabalho do homem da terra. O regime de Colonia era uma afronta à dignidade humana».&lt;br /&gt;Perante o infortúnio não é de admirar que a ânsia de muitos caseiros fosse partir. «Emigrar! Emigrar! Cifra-se nestas palavras o maior sonho do colono desditoso». Porém, Pélea lamenta não possuir dinheiro para pagar as despesas da viagem; e mesmo que o tivesse, «temia que o novo caseiro não fosse do agrado do senhorio, pois este ou não autorizava a venda, ou despejava-o por truta e meia»…&lt;br /&gt;Em «Lágrimas Correndo Mundo», Horácio Bento Gouveia também se solidarizava com «a mulher dos bordados que ganha tão pouco, trabalhando exaustivamente». Maria Clara cramava: - «desde que o meu pai morreu, lá em casa há muitas faltas. São ainda pequenos os meus irmãos. E se não fosse eu, com o ganho bem triste da Casa, a gente não tinha um pratinho de semilhas ou de milho para o almoço e para a ceia».&lt;br /&gt;E, Maria da Luz acrescentava - «Se não fosse o que a minha madrinha me oferece, eu andava só com farrapos em cima de mim».&lt;br /&gt;Pesarosa e com voz dorida, outra operária asseverava «que apesar das exportações aumentarem a bordadeira ganha pouco, e tão pequena é a recompensa do seu trabalho, que o sofrimento sobreexcede a alegria de viver».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos «Ilhéus/Canga», além dessa solidariedade, o escritor compadecia-se com a extrema penúria e pobreza da vida da esmagadora maioria dos colonos.&lt;br /&gt;Muito pobre e triste, «o casebre do Miséria, coberto de palha de trigo, negreja, isolado, como triste anacoreta, nas cercanias brenhosas da serra. Um só piso, com o soalho feito de tábuas carunchosas de pinho, arrimadas umas às outras, e uma porta com postigo, voltada para nascente. À ilharga, separada daquele por um chiqueiro sem porco, está a cozinha, que é telheiro desabrigado que nunca teve porta. No interior, a lareira limita-se a umas pedras que servem de suporte às panelas de ferro de três pés. O tugúrio onde reside, compõe-se de um quarto indiviso. Ali dormem ele, a mulher e cinco filhos. A cama é um maranho de palha de milho espalhado no canto do quarto que tem por ventilação as frestas das pedras da parede… (…)&lt;br /&gt; «De tanto labutar, o Miséria envelhecia precocemente pois o organismo debilitava-se com a escassez da alimentação e a quantidade do trabalho quotidiano conduz o homem a uma morte lenta».&lt;br /&gt;Em resultado de tantas canseiras, a sua mulher começou a cuspir sangue pela boca; levando o marido a carpir: - «que há-de ser de mim, se não tenho dinheiro para pagar os doutores e os alimentos que ela carecia? Como poderei pagar as rendas!” Entretanto, a infeliz «jazia a um canto com os esfomeados pequeninos à sua volta»…&lt;br /&gt;Outra caseira expressava «a mágoa de não poder saciar a fome dos filhos pequenos, pois as batatas que conseguiu cozer tinham dado apenas para uma refeição, e à noite, os miúdos iam para a cama cheiinhos de fome, com a barriga vazia. E lembrar-se de que o senhorio tinha tantas batatas no armazém que até apodreciam, e que todos os dias um criado encheria caçarolas delas para ir deitar nos gamelões dos porcos» ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crua desumanidade e o modo arbitrário como eram tratados os caseiros, também perturbavam e comoviam Horácio Bento de Gouveia.&lt;br /&gt;O senhorio Custódio Filipe, invocando que desde o mar até às serras tudo lhe pertencia, «lançou o pregão que doravante os caseiros são proibidos de ir buscar lenha, varas e urzes à serra que deita para Lombadas». Os colonos agitaram-se porque «a serra sempre foi dos pobres, e vencendo o medo e a timidez, um grupo dirigiu-se à Câmara obrigando o Presidente a ouvir as suas razões» …&lt;br /&gt;Após um acidente de trabalho, outro senhorio «deu ordem para levar para casa, na sua rede, um filho do caseiro Garipo, que estava muito ferido na cabeça, aconselhando que lhe pusessem no lugar da ferida, panos ensopados com aguardente». Não o mandou ao médico, bolçando «que bem bastava pagar-lhe o dia inteiro, quanto mais ter despesas com doutores. Se precisar de doutor e remédios o pai que se aguente, porque é pai»!&lt;br /&gt;E quando em consequência das enormes despesas com a doença e hospitalização da mulher, o colono Miséria pediu uma pequena moratória para o pagamento do rédito, o senhorio respondeu-lhe: - «se não podes pagar a renda ficas sem fazenda; e não consinto que voltes a meter a enxada na terra, nem para colher as verduras que plantastes». &lt;br /&gt;Pesaroso, o colono exclamou: - «vossa senhoria não tem pena dum pobre como eu. Gastei centos de contos no amanho da cerca e bota-me fora como a um cão; mesmo com os meus filhos em casa, à minha roda, sem ter uma semilha, mortinhos de fome» ...&lt;br /&gt;Passados alguns meses, durante uma tempestade, as águas destruíram as paredes e danificaram uma fazenda daquele senhorio, que, enfurecido, ameaçou participar às autoridades que a derrocada era da responsabilidade do caseiro.&lt;br /&gt;«Mas que culpa tive eu? Ripostava o Miséria.&lt;br /&gt;«Andaste a escavacar o alicerce para a ribeira arrombar a parede… Eu conheço as manhas de vocês…Má raça de colonos»!&lt;br /&gt;Atónito, o Miséria ripostou: - «o senhor Custódio está a ser injusto e ofende. Se eu não fosse um desgraçado não falava assim. Mas que seria do senhor sem o nosso trabalho»...&lt;br /&gt;O senhorio não esqueceu nem perdoou aquela resposta, e pouco tempo depois «manifestou o seu despotismo de maioral da terra», denunciando o colono à polícia. E no próprio dia em que a mulher do caseiro regressava do hospital, com os filhinhos agarrados à mãe há tanto tempo ausente, «um cabo da polícia dava voz de prisão ao Miséria»....&lt;br /&gt; As situações de crueldade multiplicavam-se. Tentando que o senhorio lhe arrendasse uma parcela de terra em mato, o caseiro Garipo acordou em executar a desgastante tarefa de arrotear essa gleba, para depois o dono a locar. «Levaram muitos meses nesse trabalho em que Garipo e a família se mataram como negros». Quando a terra já produzia, o Garipo invocou o acordo, mas o senhorio logo lhe disse «que só arrendaria o campo depois de satisfeitas as despesas da aguardente gasta, da pólvora, da moída e dos homens que ajudaram na tarefa».&lt;br /&gt;Três anos depois, o Garipo voltou a pedir que a terra lhe fosse arrendada, como contrataram, mas o senhorio esquivou-se alegando: - «as colheitas têm sido fracas». &lt;br /&gt;O caseiro retorquiu: - «O senhor, não me diga isso! Então aquele trigal que enche o armazém não vale nada? Se eu me empenhei e tanto trabalhei não tenho direito que o senhor tome em conta as minhas despesas»?&lt;br /&gt;E perante o desespero do Garipo, friamente, o senhorio respondeu: - «Se as colheitas forem boas daqui a cinco anos faremos o contrato»...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horácio Bento de Gouveia anotou ainda que os senhorios, com o fim de obterem o maior lucro das suas fazendas, «nem deixavam plantar uma árvore de fruta na cerca do quintal das colonias», pois destinavam toda a terra à produção que mais lhes convinha. Também não permitiam «que as pobres crianças depenicassem uma uva que fosse»...&lt;br /&gt;Luís da Feiteira chegou ao cúmulo de mandar abater todas as árvores de fruta dos seus caseiros, o que revoltou o Pélea que, de cabeça perdida, se atreveu a dizer-lhe: - «O Senhor é um ladrão! É um tracista! Quem deu ordem de entrar na banda de cada um para lhes cortar as fruteiras? A terra é de quem a trabalha. Se quer a fazenda fique com ela, seu estupor. A troco do meu suor e do dos outros é que o senhor está podre de rico! Seu beato fingido»!&lt;br /&gt;A notícia dessa ruindade «correu rapidamente pela freguesia», e um caseiro encontrando o senhorio disse-lhe, em voz baixa: - «senhor Luís, também a gente somos deste Mundo. Vossa Senhoria fez uma acção que nem a faria o senhor Medeiros, papai do senhor». &lt;br /&gt;Cinicamente, o senhorio respondeu: - «Vocês para que querem fruta? Os figos fazem mal aos beiços!&lt;br /&gt;«Onde está a lei que o autoriza isso? O senhor não sabe que foi judiaria aquilo que fez? Ripostou o colono. &lt;br /&gt;«E tu não sabes que sou o senhorio! O Senhorio é a lei! respondeu-lhe o Luís da Feiteira».&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;O escritor também se indignou com os abusos sexuais dos senhorios e dos feitores, cometidos contra a honra das camponesas.&lt;br /&gt;Nos «Ilhéus/Canga» conta que o Luís da Feiteira e o feitor Pedro «ajudaram a prostituir Mafalda e outras filhas dos caseiros; e que noite de vigília, só de uma se lembrava o senhorio. Aquela em que estivera no palheiro com a criada, e ela lhe confessara que andava grávida de há três meses».&lt;br /&gt;Mas, depressa remediou o caso, «casando a rapariga com o criado Ismael, doando-lhes um palheiro e fazenda para tratar, e nascida a criança, ele e a mulher foram os padrinhos» …&lt;br /&gt;Em «Lágrimas Correndo Mundo», comenta «que as casas de bordados perdem muitas raparigas. As que tiverem pouco assento, as mais das vezes caem na má vida». Muitas não escapavam ao assédio dos patrões. «Mas, também conhecia mulheres sérias, que viviam com dificuldades e nunca tinham dado um passo em vão. Bem se lembrava duma Inês que, bonita como as estrelas, só via o seu marido. Um filho do patrão andou atrás dela a fazer-lhe promessas, mas os seus ouvidos estavam sempre fechados. E, quando o atrevido, uma vez, lhe dera um sobrescrito com uma nota de banco dentro, ela rasgou-lhe tudo na cara», e passou a trabalhar noutra fábrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Analisando com muito realismo outras facetas do terrível Contrato de Colonia que durante séculos vigorou na Madeira, Horácio Bento de Gouveia denunciou com veemência outras situações de extrema opressão e exploração dos caseiros.&lt;br /&gt;Quando um caseiro pedia autorização para construir um quartito para albergar os filhos, na maior parte das vezes, «os senhorios recusavam para em caso de despejo não terem de pagar essa benfeitoria, ou então logo se aproveitavam com o fim de aumentar a renda».&lt;br /&gt;E nas ocasiões em que os colonos pretendiam vender as benfeitorias, nomeadamente para emigrar, alguns senhorios usavam as suas influências para arredar qualquer comprador, e deste modo, adquirirem eles próprios as glebas, por baixo preço.&lt;br /&gt;Pior ainda eram os abusos relacionados com o direito de preferência, exercido quando os caseiros vendiam a parte da produção que lhes cabia. Nesses casos, muitos senhorios procuravam pagar «o que fosse da sua vontade»; lamentando-se os camponeses «que lá por serem caseiros não havia o direito de lhes pagarem a cana e o vinho por menos do que o preço corrente».&lt;br /&gt;Protestando que não queria continuar «sempre debaixo das patas dos senhores», o colono Pélea decidiu vender o seu vinho «aos armazéns suecos, que pagavam mais que a concorrência e mais que o senhorio». A ousadia, porém, saiu-lhe bem cara, pois o proprietário logo desencadeou o processo judicial para o despejo das terras, deixando-o na maior prostração e desalento, o que muito contribuiu para o seu prematuro fim.&lt;br /&gt;«Morrera o Pélea, mas com a sua morte o senhorio não saldara a dívida de vingança. Excluir do resto das benfeitorias os herdeiros do caseiro era a sua ideia. Chamados os louvados, as benfeitorias do Pélea que bem valiam uns dezassete contos, liquidaram-se por três»… A vingança estava consumada!&lt;br /&gt;Assim, a mais dolorosa provação sofrida pelos camponeses, «acontecia quando dava na real gana dos senhorios despejar os caseiros, ou por vinganças mesquinhas, ou por atrasos no pagamento das rendas, ou para depois venderem as terras por dobros e tresdobros»; tudo isso mesmo se as benfeitorias estivessem cultivadas com primor, ou permanecessem desde há séculos na posse da família do colono.&lt;br /&gt;Atormentado, o caseiro João Lameiro acusava: - «O palheiro onde vivo custou-me anos de canseiras, mas amanhã se dá na gana do senhorio ele exclui-me pagando aí umas duzentas de patacas, pois o Custódio Filipe, tão beato que é, tira os olhos aos que nada podem como ele».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da solidariedade para com os menos favorecidos, outra característica que de forma muito estreita aproximava Horácio Bento de Gouveia dos neo-realistas portugueses, foi o grande realismo e a forma livre, aberta e descomplexada como descreveu os conflitos psicológicos, a dissolução de alguns valores tradicionais, os idílios românticos, os amores sensuais, os deleites do corpo e do espírito e as situações de exploração e opressão dos caseiros e das bordadeiras; facto que até lhe acarretou a perseguição dos sectores mais conservadores da sociedade, e também da igreja católica.&lt;br /&gt;Na verdade, num artigo escrito pelo Cónego Fulgêncio, no «Jornal» de 23 de Fevereiro de 1949, amanhando a critica literária aos «Ilhéus/ Canga», publicado na altura do lançamento do livro, aquele sacerdote conservador, num tom em tudo semelhante ao empregado nos tempos negros da Inquisição, declarou, sem rebuços, que «na qualidade de jornalistas católicos, devemos advertir que a leitura dum tal género de literatura é defesa, não só pela lei natural, mas também pela igreja, aos católicos, como consta da Instrução da Sagrada Congregação do Santo Ofício do dia 3 de Maio de 1927».&lt;br /&gt;Num reaccionarismo vesgo, Fulgêncio referiu ainda que Horácio Bento encaminhou o seu romance contra a doutrina da igreja preconizada na encíclica «Rerum Novarum», de Leão XII e repetida por Pio XI, na «Quadragéssimo Anno». Sem rebuços, o cónego hitleriano bolçava que o nosso escritor «apresentou cenas de lupanar e semelhantes, descreveu traços eróticos em linguagem vulgar que repugna, e não apresentou a vida tão pura e singela da nossa gente, como as flores que espontaneamente brotam neste jardim de encantamento que é a nossa ilha plantado pelas mãos de Deus sobre as ondas do mar. (…) Uma tal arte é um crime contra a humanidade; é uma assassina em massa. Uma tal pena está ao serviço do inferno. «Calamus Calamitatum Auctor. Muito acima de tais letrados e artistas está o latrineiro: este exporta esterco e aqueles o importam até encherem tudo de imundície»...&lt;br /&gt;A filha do escritor também informou-nos que devido à forma humana, e solidária como o seu pai descreveu a vida triste e oprimida dos colonos, alguns senhorios da Ponta Delgada nunca lhe perdoaram, e até chegaram a cortar relações com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acresce que Horácio Bento de Gouveia foi um autor que acima de tudo exaltou a sua terra, e tal como era timbre dos neo-realistas lusos, também ele descreveu com profundo sentido estético e grande realismo as paisagens, a mentalidade, os costumes, o folclore, a etnografia, e todas as facetas da vida e dos dramas das suas gentes, que tanto amou, e com quem sempre fez questão de se identificar.&lt;br /&gt;Embora conscientes que podemos nos prolongar demasiado, transcreveremos algumas dessas descrições, que constituem das mais belas peças literárias que se escreveram sobre a Madeira e o seu quotidiano.&lt;br /&gt;Nas «Lágrimas Correndo Mundo», o escritor conta que «a Maria da Luz chegou ao trabalho dois minutos depois da hora. A encarregada deitou-lhe uns olhos fulminantes e multou-a em cinco escudos. A bordadeira debulhou-se em lágrimas, não só pela humilhação que sofria, senão também pelo receio que os pais viessem a ter conhecimento da cena. Era a primeira vez que chegava um pouco mais tarde, e por isso, não achava razoável uma lei tão dura, aplicada a ela e às outras, que trabalhavam todo o dia para usufruírem a miséria de 8 patacas.&lt;br /&gt;«As colegas nem reagiram. De olhos parados a Teresa ia recortando uma toalha, a Susana um lençol, aquela mais uma toalha, esta um lençol, aquela outra um travesseiro. Era uma oficina muda de seres humanos, na qual a vida não podia nunca expandir-se por sons articulados»...&lt;br /&gt;Noutra vez, a Maria Clara atrasou-se no intervalo do almoço. «Intolerante a encarregada da secção disse-lhe em voz rancorosa: - Está proibida de levantar-se até à hora de sair.&lt;br /&gt;«Maria Clara, aparentemente submissa foi para o seu lugar e a boca não deu sinal da perturbação que lhe ruborizava a cara. Recalcou as expressões que devia pronunciar e durante quatro horas pregaram-se-lhe os olhos ao trabalho, e as mãos não paravam.&lt;br /&gt;«Toda a sala jazia afogada em silêncio, apesar das mãos das engomadeiras reagir contra ele voluntária ou involuntariamente; e só se tinha a consciência do silêncio ao ouvir-se este ou aquele ferro de engomar que batia de chapa em cima da peça bordada cheia de refegos.&lt;br /&gt;«E quando, finalmente, o relógio marcou a hora de saída, há um frémito de alegria que perpassa em todas as secções de trabalho. Gente nova ou madura fala e ri na posse da sua liberdade sequestrada durante horas dum silêncio de igreja. Era como se fosse aberto um pombal que há muito havia conservado a porta fechada. As empregadas, num alvoroço incontido, desalgemaram-se e, escadas abaixo lançam-se na rua onde respiram o ar livre». &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Na «Canga», Horácio Bento de Gouveia menciona «que foi no norte alcantilado da Madeira que a aldeia da Ponta Delgada marcou a sua realidade humana como lugarejo, condição de vida, rente ao mar, depois que o navio do povoador abicou na enseada e os homens pisaram a terra fecunda e virgem. E foi crescendo e frondejando ao afago perene das ondas. Com o decorrer do século XVIII Ponta Delgada já era estância de prazer durante o Verão, de famílias nobres que se deslocavam da cidade para o remanso daquela formosa aldeia de frescos ares e deleitosas sombras. E, porque também fora berço de fidalgos, ficou conhecida em toda a redondeza da ilha por «Corte do Norte». A atestar ainda o esplendor que caracterizava o fausto de velhas casas senhoriais, permanecem, em nossos dias, vestígios dos antigos solares, cuja existência a história da Madeira assinala: a capela dos Reis Magos, a de Santo António, no Pico, e a de Sant´Ana, no Ladrilho».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descrevendo, magistralmente, na «Canga» os panoramas e as incidências duma caminhada da Ribeira Brava até São Vicente; o escritor refere que andados quinhentos metros, começava a parte aspérrima, a parte mais agra da viagem. «Iniciava-se, daqui por diante, a ascensão até à Eucumeada, no espinhaço da montanha, a mais de mil metros de altitude, o ponto divisório entre o fragoedo do norte e o pendor suave do sul da ilha.&lt;br /&gt;Através de caminhos barrancosos e serpeantes, que se vão obliquando ao jeito da configuração das encostas, colgadas de musgos nos ressaltos, por atalhos cavados na côdea mole da terra pegajosa, à ilharga dos quais se carcavam boqueirões e algares que descem dos espigões da serra, transitam os viandantes há mais de quatrocentos anos. Topam-se, aqui e acolá, urzes seculares, a uveira de bagas de coral, os fetos arbóreos, a vegetação luxuriosa e virgem de feição tropical e os loureiros. &lt;br /&gt;«Ao de cima, sombreando o caminho, os folhadeiros e as giestas formam um friso de eterna Primavera, remate das grinaldas de plantas que, vertente fora, perpetuam as dinastias de seus antepassados. Derramando-se o olhar por entre as clareiras dos galhos das árvores, vêem-se nas margens dos refegos do vale, onde as águas correm em melopeia suave, a terra cultivada e os bosques de castanheiros e nogueiras. É ali que se desenvolve o heroísmo anómalo da actividade agrícola do lavrador, a viver desconfortavelmente em seus lares frinchosos e de um só piso, chumbado à terra desde a infância rude à velhice desoladora.&lt;br /&gt;«O viandante subia custosamente os degraus dos socalcos a esbarrondarem-se, que, vereda acima, serviam de trilho a seus passos vacilantes, por via da terra que, ora fugia debaixo dos pés, ora se agarrava às solas das botas. A mata de castanheiros ficara já muito para trás nas solidões inóspitas da Serra de Água. Raparigas descalças, de pernas nuas e arranhadas das silvas, dirigiam-se açodadas para a povoação, transportando à cabeça molhos de feiteira para o gado.&lt;br /&gt;«A Encumeada, derradeiros contrafortes alpestres encavalitados em dorsos de cetáceos descomunais, que se houvessem anquilosado, apresentava-se imaculada de nevoeiros. Sobressaía um tom de bronze retinto nas dobras dos últimos cerros quase calvos, empinando-se para as alturas do céu com jeitos de arquitectura gótica.&lt;br /&gt; «Manuel Esmeraldo parou, e do farnel que levava ofereceu aos companheiros. Corria vento frigidíssimo, mas Manuel maravilhava-se: o panorama que a pupila abarcava tornava insensível o rosto castigado pelo regelo do ar. De um e do outro lado, avultavam painéis de surpreendente beleza. À direita, ao perto e mais distante, os marmelões olhavam para o céu e engrossavam no corpo malhado das rochas da cordilheira, das quais sinuosos veios de água escorriam para os abismos do fundo do vale. À esquerda, a ossatura das montanhas inchava mais para fora do vale, cujos flancos bojudos, às pregas, arreganhados pelas enxurradas, esboicelados pelas invernias, exulcerados das quebradas destruidoras, vertiam água límpida, abundantemente (…)&lt;br /&gt;«Lá em baixo, muito em baixo, na orla do mar, a meio da chanfradura da ribeira, divisava-se a capelinha de São Vicente como tosca pedra branca, encravada em penedo escuro. Rasgavam-se horizontes sem fim na direcção do norte. (…)&lt;br /&gt;«E principia a descida, ao longo de um carreiro primitivo que rompe o manto da vegetação exuberantíssima. A natureza, dormente, apenas de vez em onde perde o seu ritmo despercebido ao sentido humano, ao escutar-se um regato murmuroso ou as falas breves de qualquer passaroco transviado por aquelas paragens distantes da civilização dos casais. E a senda primeva, aos altos e baixos, com fendas e resvaladoiros, transformada em córrego com as chuvas do Inverno, estreita e angulosa, aberta no coração vicejante da selva, passando oculta pela ramaria enclavinhada dos loureiros e vinháticos, em grande parte impenetrável à luz clara do Sol ao atingir o zénite, vai despontar às portas dos palheiros de gado, nos cabos da serra, perdidos e entre montanhas escalavradas, e às olheiras das furnas, à beira dos vastos terrenos pingues de São Vicente. (…)&lt;br /&gt;«Anda que anda, o Sol já declinava para as bandas do Porto do Moniz, o céu tomava uma cor rósea a poente quando, ao entrarem na freguesia ouviram as badaladas argênteas do sino e, em seguida, tiros de arcabuzes e a chiadeira e o estrondear dos foguetes. Havia Missa do Parto na antemanhã próxima. A festividade efectuava-se com o esplendor que traduz a satisfação de uma promessa».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ambiente vivido na época das vindimas, também foi narrado por Horácio Bento de Gouveia com grande realismo e beleza estética, como era timbre dos escritores neo-realistas:&lt;br /&gt;«Agora, por toda a parte, em montados, fajãs, cabeços, fraldas da montanha, um agitar de braços fazia estremecer as folhas das vinhas. Velhos e gente nova, munidos de facas, e navalhas, cortavam os cachos que lançavam para dentro dos cestos pequenos os quais, por sua vez, se despejavam em barreleiros que se enchiam, até que as uvas, acamadas umas sobre as outras para cima da roda da beira, se acogulavam. E ala dos trabalhadores carregarem os barreleiros às costas a caminho do lagar. Homens de calça arregaçada, muitos com as pernas tingidas de mosto e barril ao ombro percorriam as ruelas mais solitárias da freguesia, uns «acartando» o vinho para as pipas, outros transportando água das fontes, a água que vai produzir a água-pé tão apreciada durante as longas noites de Inverno, nas debulhas do feijão.&lt;br /&gt;«Os colonos, ao passo que as uvas amaduravam, dirigiam-se ao senhorio ou ao feitor a pedir licença para fazerem a colheita e apalavrarem o dia do empréstimo dos lagares. Os quais, porque em número restrito, não bastam nunca para todos os pedidos. E assim, ainda um lagar está a empesar um pé de uvas, já para dentro dele se despejam cestos sobre cestos, propriedade de outrem.&lt;br /&gt;«Logo que a manhã dealba, onde o mar toca no céu, começa a labutação de fazer vinho das uvas que jazem apanhadas de véspera e o bulício lagareiro prolonga-se, fora de horas, até passante da meia-noite»…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como já nos alongamos, apenas a descrição na «Canga» do célebre arraial da Ponta Delgada, que como nas anteriores, Horácio Bento aliou o mais puro realismo a uma alta qualidade estética:&lt;br /&gt;«Na quinta-feira; véspera da grande romagem ao Senhor Jesus, a freguesia metamorfoseia-se, ganha expressão própria; uma vida transitória mas trepidante corre em suas artérias. Vive-se a agitação de cidade mercantil.&lt;br /&gt;«Os cerieiros armaram as tendas em torno dos plátanos do Largo do Açougue. Há tabuleiros com círios da altura de um homem e com outros metidos dentro de canas rachadas, e ainda se vêem molhos de círios com fitas encarnada a embelezá-los, um por um, circuntornando-os em espiral. Vitrinas abarrotadas de quinquilharias assentam em cima de caixotes encostados ao muro que limita o Largo. São os primeiros vendedores nómadas que vêm trazer a sua cor pitoresca ao arraial.&lt;br /&gt;«Na orla das ruas principais, os barraqueiros desmoronam muros, espetam estacas no chão, põem prateleiras, colocam toldos, amarram com espadanas e vimes ramos de loiro e de barbuzano que formam as paredes das típicas casas de comidas e bebidas.&lt;br /&gt;«Chapões de til preto são postos em esquadria em cima de barricas e outros são firmados sobre cunhais de pedra, nos talhos que surgem a esmo, ao longo das ruas, e onde as reses vão ser mortas.&lt;br /&gt;«Descem os carreiros das ravinas, que vêm morrer à vizinhança dos casais, homens ajoujados com cargas de espetos de loureiro para a carne assada, com lenha de urze para os braseiros, com galhos de barbuzano e de loiro prenhes de folhas e com alegra-campo para o alindamento do interior da igreja. O negócio é sempre de tentar na época da festa. Por isso, não há loja que não fique apalavrada de ano para ano, não há terreno à margem do caminho onde cresça erva nos três dias que precedem o primeiro domingo de Setembro.&lt;br /&gt;«O silêncio da aldeia perdeu a poesia, o mistério que se desentranha da natureza fecunda: o sussurro da água que escorre das aguagens, o rumor da viração que afaga as francas das árvores fazendo estremecer as folhas que se vergam, o bramir do mar e o coro das aves cantadeiras. Agora havia o que quer que fosse de desabitual, de novo, de estranho. Um alvoroço percorria a aldeia de cabo a cabo como o sangue circula no corpo. Desde que o Sol se erguera lá para trás das rochas altas, rompendo a corda de nuvens negras acasteladas no horizonte marinho, começara a azáfama que sempre se repete ao acercar-se a tradicional romagem: negociantes das povoações mais chegadas vinham tomar conta da sua quitanda ou da nesga de terreno onde esperavam atrair os romeiros, com servir bem a carne e o vinho. E traziam serrotes, martelos e podoas, e pregos nas algibeiras dos casacos, em companhia de rapazelhos que vêm munidos de vimes verdes para amarrar os galhos de loiro que hão-de formar as barracas. Ouve-se o toque de um «machete», a primeira mensagem do arraial em sua toada de reminiscência árabe. E a caminho da igreja vão camponeses e caseiros com molhos de alegra-campo cantando um conjunto de sílabas sonoras, que já tinham ouvido aos pais, quando desciam os atalhos da serra, carregados de lenha para vender aos senhores da freguesia… (…)&lt;br /&gt;«Na sexta-feira, convergem à povoação através dos primitivos caminhos abertos no basalto, subindo planaltos, descendo fajãs, galgando colinas, vadiando ribeiras, os romeiros das freguesias mais longínquas da ilha. De saias às riscas de cores vistosas, em que sobressaem o encarnado e o azul, as raparigas bailaricam ao som da viola de arame, do harmónio e dos ferrinhos, com seus requebros dengosos de cintura, braços no ar batendo palmas, enquanto os tocadores com um grande chifre cheio de vinho ou de aguardente de cana, a tiracolo, cantam quadras de improviso. Aos grupos, famílias inteiras vêm cumprir promessas ao Senhor Jesus. Há sempre, um instrumento de música, uma rabeca, um rajão, uma viola, um braguinha, um tambor ou um pandeiro que acompanha os peregrinos na jornada. Voz clara de rapariga canta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                       De Ponta Delgada ao Arco&lt;br /&gt;                       Do Arco ao Senhor Jesus&lt;br /&gt;                       Tudo são cravos e rosas&lt;br /&gt;                       Qu´eu co´a minha mão dispus. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sábado. O Caminho Novo, de lés a lés, é uma vaga humana ressoante de interjeições, frases enfáticas, trovas e notas desafinadas de instrumentos. Dá-se o fluxo e o refluxo, de gente que sobe e de gente que desce. São doze horas. O vapor «Gavião», embandeirado em arco, apitou e ancorou no porto, onde vai golfar centenas de romeiros. As lanchas mal topam no calhau e o primeiro «paral» se ajeita ao escorregar da quilha, vá de a companha puxar pela corda que está presa à popa, antes que uma onda mais forte revire o barco e encharque a malta dos passageiros que, precipitadamente, saltam em terra aos tropos-galhopos, mergulhando os pés nas poças, molhando os sapato e atirando cestas para longe do quebra-mar.&lt;br /&gt; «Na igreja a custo se pode respirar. As plantas e as flores mais formosas, jarros, não-me-deixes, rosas, gereberas, brincos-de-princesa e açucenas enfeitam os altares e as peanhas dos santos, profusamente. Sufoca-se. Há um mar onduloso de cabeças. Círios sem conto e de alturas várias ardem nas mãos dos velhos e moças impúberes. Cumprem-se promessas de joelhos. Distingue-se um murmúrio de rezas, abafado quase pelo clamor do oceano, alma penada em delírio eterno. Fora do adro, romeiros de faces afogueadas e fatos com engelhas, amarrotados do calvário da viagem, poisam no chão de cimento as cestas a estoirarem de lauto farnel a que não faltam as rosquilhas doces cheirando a amassadura fresca.&lt;br /&gt;«Aos atropelos, movem-se doceiros ambulantes que vendem bonecas de massa cor de gema de ovo, bonecas que têm coladas às pernas, aos braços, e à cabeça, lindas fitas coloridas de papel de seda, nas quais predomina o vermelho. (…)&lt;br /&gt;«Anoitecera. Magotes de foliões, uma faradonlagem endoidecida, pisando calos com botifarras de cordovão e solas de peso, corre Seca e Meca, explodindo vivório, urraria bárbara, ao passo que outros cantam desafinadamente:&lt;br /&gt;                           Primavera das flores&lt;br /&gt;                           Cuma esta não há mais&lt;br /&gt;                           Primavera vai e volta sempre&lt;br /&gt;                           A mocidade nã volta mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Na Terra Chã, (…) tocava-se, bailava-se, e garganteavam-se trovas portadoras de ironia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                            Cantas bem nã cantas mal,&lt;br /&gt;                            Gargantinha de marfim.&lt;br /&gt;                            Eu dava um vintém às almas&lt;br /&gt;                            Se o meu cantar fosse assim. (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Na mercearia do Pestana, jaziam, a dormir, estendidos a esmo, no chão de calçada áspera, os que tinham passado em claro a noite de sexta-feira. Em promiscuidade repelente, para ali estavam raparigas de tez queimada ao sol, em contacto com vilões adolescentes; as narinas delas aspiravam o bafio que se exalava das pernas e dos pés delas, com os dedos sujos e gretados da jornada fatigante através dos caminhos de cabras que ligam as povoações da ilha.(…)&lt;br /&gt;«Numa latada de vinha e pimpinelas, fazendo de dossel, tornava-se mais espesso o escuro da noite. (…) Uns jogadores de roleta, achando o lugar propício para o negócio proibido pala autoridade do Concelho, ali abancaram. Um caixote de petróleo era a mesa; os dados começaram a girar à luz bruxuleante de uma vela que, ao derreter-se, alastrava o sebo no tampo do móvel»…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resta referir e recriar os comentários e impressões de alguns escritores e académicos sobre a «Canga», que na nossa opinião constitui a obra-prima do nosso escritor.&lt;br /&gt;Assim, na Introdução da última edição desse livro, Thierry Proença dos Santos proferiu que «em 1946, Horácio Bento de Gouveia lança-se à escrita de um admirável fresco, visando ilustrar a gritante injustiça de que padecia certo mundo rural madeirense, bem como a evolução dos costumes da sociedade funchalense dos anos vinte. (…)&lt;br /&gt;«Apresenta a sua terra e as suas gentes e representa-se a si mesmo, ensaiando uma construção mítico-literária da Madeira, no sentido de definir uma identidade insular e projectar um futuro melhor para a sua comunidade. (…)&lt;br /&gt;«O tema central do romance é o drama da colonia, antigo regime agrário que vigorava, anacronicamente, na Madeira, e que tinha particular expressão desumana na Ponta Delgada. Esse regime prendia à terra o colono, nela trabalhando de sol a sol, em benefício do senhorio, não sendo aquele dono do solo, mas apenas das benfeitorias, cujo valor de transacção dependia da vontade deste. As famílias de colonos aqui retratados, os Péleas, os Misérias e os Garipos, entre outros, contracenam com os gananciosos senhorios, Filipe, Custódio e Luís da Feiteira. Esta situação é acompanhada por Manuel Esmeraldo, o fio condutor da narrativa e o protótipo do bom rapaz de família abastada, de configuração romântica e dado à meditação. (…) Desse processo de tomada de consciência resulta a afirmação do protagonista contra uma situação que o ultrapassa. (…)&lt;br /&gt;Por sua vez, António Marques da Silva referiu, na 3ª edição da «Canga», que Horácio Bento de Gouveia, «com imensa coragem, alimentada pelo espírito naturalmente compassivo e a indignação dum adolescente idealista, tratou da situação social causada pelo sistema da Colonia, e censurou a insensibilidade de certos senhorios». Anotou ainda que em «Lágrimas Correndo Mundo», o escritor narrou o quotidiano das verdadeiras artistas que dedicavam uma vida debruçadas a bordar maravilhas. Esses bordados corriam mundo, mas os grandes lucros caíam inteiros nas mãos dos industriais, dos intermediários e do Turismo. À mulher estava reservado o trabalho duro, cedo causador de complicações para a visão e a saúde».&lt;br /&gt;E o ilustre professor e escritor madeirense J. Vieira dos Santos, numa carta que enviou a Horácio Bento de Gouveia, publicada no «Eco do Funchal» em 24 de Março de 1949, mencionou: - «Até que enfim, no nublado céu literário da Madeira, apareceu um verdadeiro romance literário que veio enriquecer como estrela de primeira grandeza a nossa literatura insulana tão pobre e falida no domínio do romance regional e social. O teu livro está bem delineado, bem observado e bem escrito, como era duma pena tão aparada.&lt;br /&gt;«Talhado no basalto da nossa terra, escrito no murmúrio cantante das ondas que, nas tardes de doce poente, beijam carinhosamente as penhas da Ponta Delgada e nas noites tempestuosas as vergastam impiedosamente, no teu livro palpita vivo e estuante o drama do nosso trabalhador rural mourejando-se de sol a sol, em lutas com a terra safara donde há-de tirar o seu parco sustento e o da família. (…)&lt;br /&gt;«Reminiscência do antigo servo da gleba, que se vendia quando ao senhor se aprazia vender a terra, quando a sorte o faz depender dum Custódio Filipe, ou dum Luís da Feiteira, ou pior ainda, dos seus feitores, (…) então a infeliz condição do escravo da terra é uma via dolorosa, arrastada na miséria e plasmada no desespero. (…)&lt;br /&gt;«Vivendo numa situação deprimente, numa promiscuidade repugnante muitas vezes, num ambiente de penúria e de titânico esforço contra a natureza, que admira que o nível moral e social desta gente se ressinta e que propenda, umas vezes, para o vício da taberna e outras para a baixeza e para a imoralidade.&lt;br /&gt;«Que se pode esperar do carácter desses Garipos e dessas Misérias ou desses Péleas, para os quais o mundo só tem amarguras e a vida só mostra a faceta da penúria e do desconforto»?!&lt;br /&gt;Finalmente, no prefácio da 3ª edição da «Canga» Aquilino Ribeiro escreveu: - «o que mais saboreei no romance foi a faceta de sofrimento que vinca a fisionomia dos camponeses. (...) Os seus lapuzes, meu caro, nascem e morrem debaixo do fatídico condão da dor, e bem-haja a sua pena que não lhes alterou a sina, nem os alindou à Júlio Dinis. Por essa lealdade com os simples, eu o louvo! (...) Que o livro está bem escrito, e escrito no idioma que aprendeu as consoantes com o rolar das vagas, e os vocábulos com os murmúrios das fontes, ninguém lhe poderá contestar. Por isso, sobretudo pela forte dose de humanidade que anima o seu formigueiro, seus desesperados, levando a cruz ao calvário, carregando a feia taleiga da vida às costas, eu o saúdo e felicito»!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a nós, não temos a mínima dúvida em afirmar que uma grande lição se tira de estudo da obra do nosso escritor: a certeza de que o homem é de facto ele, as suas circunstâncias, e as suas contradições. Alguns pavões arvorados em humanistas e esquerdistas, falam muito dos trabalhadores, dos camponeses e na classe operária, mas no fundo pouco fazem para lutar pela transformação da sociedade que os oprime, pois estão mais interessados em promover a sua figura, ou manter fugazes mordomias.&lt;br /&gt;Horácio Bento de Gouveia, porém, é um idealista romântico e por vezes conservador, mas não temos a mínima dúvida que poucos como ele amaram tanto os trabalhadores e o povo humilde, oprimido e explorado da sua terra!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-8924270099855239873?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/8924270099855239873/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/horacio-bento-de-gouveia-e-escola-neo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/8924270099855239873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/8924270099855239873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/horacio-bento-de-gouveia-e-escola-neo.html' title='Horácio Bento de Gouveia e a Escola Neo-Realista Lusa'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33a4bFwQwI/AAAAAAAAADg/HpzcfMXknFg/s72-c/hbg.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-6206458978397494335</id><published>2010-02-15T00:33:00.001Z</published><updated>2010-02-19T00:29:14.811Z</updated><title type='text'>A Madeira na Obra de Vitorino Memésio</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33bUep1o0I/AAAAAAAAADo/2bIm7BEGw5U/s1600-h/vitorino-nemesio.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 226px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33bUep1o0I/AAAAAAAAADo/2bIm7BEGw5U/s320/vitorino-nemesio.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5439745069805839170" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva nasceu na ilha Terceira dos Açores, mais precisamente na Praia da Vitória, em 19 de Dezembro de 1901, e faleceu em Lisboa, a 20 de Fevereiro de 1978, tendo sido sepultado a seu pedido em Coimbra, com o inusitado pormenor dos sinos terem ressoado o «Aleluia» em vez do tradicional dobre de finados, tal como havia solicitado ao seu filho. &lt;br /&gt;Vitorino Nemésio começou os seus estudos na Horta, e embora tivesse sentido grandes dificuldades em adaptar-se à vida escolar, em 1922, concluiu o curso liceal na cidade de Coimbra, onde se matriculou na Faculdade de Direito, e ingressou na Maçonaria. Pouco depois optou, definitivamente, pelo curso de Filologia Românica, e obteve a respectiva licenciatura na Faculdade de Letras da «Universidade de Lisboa», em 1931. Três anos depois doutorou-se em Letras e concorreu ao lugar de Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, onde de 1956 a 1958, chegou a exercer o cargo director da Faculdade de Letras. Entre 1937 e 1939 leccionou na «Universidade Livre de Bruxelas», e durante o ano de 1958 também deu aulas no Brasil. &lt;br /&gt;Em 1965, pelo valor do conjunto da sua obra, Vitorino Nemésio foi agraciado com o «Prémio Nacional da Literatura», e em 1974, seria ainda aureolado com o prestigiado «Prémio Montaigne».&lt;br /&gt;A par da docência e da intensa actividade literária, Vitorino Nemésio ficou célebre pela sua amizade e correspondência com Miguel Unamuno; e, sobretudo, devido às brilhantes conferências que proferiu como comunicador na «Rádio Televisão Portuguesa», no decurso do afamado programa «Se Bem Me Lembro». Colaborou ainda em vários jornais e revistas, nomeadamente na «Seara Nova»; «Vértice»; «Presença»; «O Diabo»; «Diário Popular» e no «Dia», de que chegou a ser director; sendo que também fundou ainda e dirigiu a «Revista de Portugal» (1937-1940).&lt;br /&gt;Relacionado com a sua actividade docente, Nemésio publicou numerosos ensaios e escorços biográficos de investigação histórica e literária, nomeadamente A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1932); Sob os Signos de Agora (1932); Isabel de Aragão, Rainha Santa (1936); Études Portugaises (1938); Ondas Médias (1945); Destino de Gomes Leal (1953); O Campo de São Paulo (1954) e ainda Conhecimento de Poesia (1958).&lt;br /&gt;Vitorino Nemésio foi ainda, um brilhante poeta, cronista e também um notável contista e romancista, muito marcado pelas suas raízes insulares. Como poeta publicou O Bicho Harmonioso (1938); Eu, Comovido a Oeste (1940); Nem Toda a Noite a Vida (1953); O Pão e a Culpa (1955); O Verbo e a Morte (1959); O Cavalo Encantado (1963); Canto de Véspera (1966); e Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976).  &lt;br /&gt;Na qualidade de cronista de viagens divulgou O Segredo de Ouro Preto (1954); Corsário das Ilhas (1956); Viagens Ao Pé da Porta (1969); e Jornal do Observador (1974).&lt;br /&gt;Finalmente, como ficcionista Vitorino Nemésio editou o livro de contos Paços do Milhafre (1924), bastante corrigido e aumentado em 1971, com o título O Mistério do Paço do Milhafre; o romance Varanda de Pilatos (1926); as novelas A Casa Fechada (1937); e a sua obra-prima que foi o romance Mau Tempo no Canal (1944), premiado no ano seguinte com o «Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências».&lt;br /&gt;No «Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira» o poeta e académico David Mourão-Ferreira, classificou «Mau Tempo no Canal», como «o primeiro romance português contemporâneo e, porventura, o mais complexo, mais denso e subtil, de toda a nossa literatura. Ao redor do fio central da intriga, (…) e por um processo próximo da tradição do romance inglês – cristalizam-se inúmeros motivos de natureza histórica, social, etnográfica, e muitos eventos mobilizados com extrema perícia pelo engenho inventivo e a impressionante erudição do autor. (…) São por outro lado, eventos entretecidos numa vastíssima tapeçaria, globalmente configurados numa «representação» - fiel e sugestiva – da sociedade açoriana do primeiro quartel deste século. Mas este romance, que é a um tempo, romance de situações e de ambientes, de costumes e de estados de alma, realista e simbólico, sobretudo se define pela dimensão poética, através da qual tudo o mais se avoluma e eterniza». &lt;br /&gt;Mourão Ferreira referiu também que por trás da complexa e multifacetada obra de Vitorino Nemésio, «manifesta-se o incessante apelo do arquipélago natal: através de uma arte de sugestão e de evocação, por meio dos cercos estilísticos mais sábios ou das intuições mais fulgurantes e mais simples, com toda uma simbólica de grande poesia e, ao mesmo tempo, a frescura da genuína inspiração popular; esforçando-se sempre por atingir-se «inteiro», por se reconduzir à infância e à ilha natal, que representam uma e outra, e uma na outra, as imagens de uma perdida unidade».&lt;br /&gt;Por sua vez, na «História Ilustrada das Grandes Literaturas», Óscar Lopes, debruçando-se sobre a poesia do escritor açoriano, comentou «que a arte poética de Vitorino Nemésio é a de fazer falar o menino que sempre trouxe consigo, de início em termos de uma analogia saudosa, depois em termos de uma devoção que, de facto, opera ainda como canção de ninar e como uma aceitação do Pai»&lt;br /&gt;Precisando melhor, Óscar Lopes referiu que os livros de versos publicados por Nemésio agrupam-se claramente em dois ciclos. No primeiro, «a razão da existência (ou o pólo dos valores) é demandada através das saudades de uma infância que se desenha lá longe, nas ilhas, dentro de um aro de ondas salgadas, gaivotas, espuma, e que assume vários rostos mas sobretudo o do Pai e o de um primeiro amor auto-inibido. O tema central percorre a bem dizer toda a sua ficção em prosa e tem a melhor consumação em verso em «O Bicho Harmonioso», 1938, livro que é de longe o da minha preferência, que não da do autor (…)&lt;br /&gt;«O segundo ciclo poético de Nemésio caracteriza-se pela orientação ao Deus católico tradicional (não de seita, mas de abertura ao universal humano), daquilo mesmo que, dentro do primeiro ciclo, expunha as suas feições mais visíveis numa cortante saudade da infância ou adolescência. (…) &lt;br /&gt;«Tal como acontece com o naturalismo sensual e o neoplatonismo agostiniano, ambos renascentistas de Camões, estes dois ciclos da poesia de Nemésio só ganham em ser considerados em todo o espaço das tensões que constituem, sem qualquer amputação e com o mínimo de redução a qualquer modelo mental de interpretação. Toda a religiosidade dos últimos versos de Nemésio palpita em germe até nas cenas mais irreverentes de certos contos e do seu primeiro romance (mesmo em certa corda de sarcasmo e de humor mais vivo); e vamos presenciando sucessivas fases de esmaecimento das cores da paisagem infantil até à brancura, a osso nu, do final».&lt;br /&gt;Resta lembrar que na década de sessenta, mais precisamente com o livro «O Cavalo Encantado» (1963), Vitorino Nemésio abordou a «poesia experimental», utilizando alguns processos neo-barrocos, muito semelhantes a certas experiências dos poetas madeirenses Herberto Helder e António Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No livro de viagens «Corsários das Ilhas» (1956), o escritor deu-nos uma importante visão do arquipélago da Madeira nos primeiros anos da segunda metade do séc. XX.&lt;br /&gt;Principiou essa abordagem referindo: - «Paralelo 33. A menos de mil quilómetros de Lisboa, menos de mil às Canárias, menos ainda à África (Cabo Branco). É a Madeira. A NE o Porto Santo; a SE as rochosas reticências as Desertas – e tudo isto perfaz o que pomposamente se chamava um arquipélago. O que conta, porém, são os 728Km2 do abreviado mundo madeirense do açúcar, do vinho, da banana, dos picos e das matas.&lt;br /&gt;«É o quarto de milhão de madeirenses aguentando a terra ameaçada nos altos marítimos pelos esboroamentos periódicos, cuidando dos frutos exóticos, das flores de maravilha, da cana e do vime das ribeiras. Secos e tostados, de roupas claras, ainda há pouco empurravam as carretas de carga e os carrinhos de toldo turísticos nas calçadas lustrosas do Funchal. Os garotos mergulham como peixes, da borda das bateiras, a muitos metros de fundo da transparência da baía, capazes de detectarem um disco de cobre de milímetro. As mulheres vindimam e bordam. Os homens apertam as prensas do mosto, rolam as quartolas, remam, feijocam».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após essa curta introdução ao arquipélago da Madeira e às suas gentes, Vitorino Nemésio abordou de forma sumária o fenómeno da odisseia emigratória dos madeirenses, referindo: - «A ilha formiga de povo, e ainda remenesce gente para ir trabalhar nos Estados Unidos e na África, no Hawai, na Venezuela, como nos fins do século XV já havia saldo demográfico para ajudar a colonizar os Açores e o Brasil».&lt;br /&gt;Acrescentou ainda que apesar dos feitos seculares dos colonos insulares e da sua inevitável partitura da tuba canora e belicosa, «os emigrantes de há cem anos para cá fazem mais ou menos o mesmo e, quanto muito, os felizes são esperados no regresso por alguma filarmónica da Serra, cujos ecos se apagam nos desfiladeiros do mar. O esforço seguido é que importa. Isso é que é sério e duradoiro».&lt;br /&gt;Seguidamente, o escritor açoriano invocou o extraordinário papel da ilha e dos madeirenses na propagação portuguesa por todo o Mundo, e comentou: - «Por alguma coisa a Madeira pôde ser para a nossa expansão marítima o que é hoje o porta-aviões na guerra total e estratégica: um porta-aviões com árvores, canaviais e povinho exercido na arqueação e na pilotagem. Lá vai Diogo de Teive, senhor de engenho de açúcar, ajudar a povoar a Terceira, aumentar as sete ilhas dos Açores com as duas Floreiras em 1450, tocar a borda da América de Nordeste, ou pelo menos as suas águas já sobrevoadas de aves e flutuadas de botelho e rabo-de-asno. João Fernandes do Estreito interessa-se pela gorada aventura americana de Fernão Dulmo, verdadeiro prefácio da viagem triunfal de Colombo, quase que mais perfeito na sua malograda linha do que a obra destinada a vingar. António de Abreu avança às Molucas e à Austrália. Francisco Dornelas Moniz Júnior crisma-se de João Fernandes Vieira para vencer os Guararapes e restaurar Pernambuco».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dos breves intróitos que acabamos de recriar, Vitorino Nemésio passou a descrever uma das suas viagens às Ilhas, começando por informar que, como era habitual, o navio que o transportava para os Açores, fundeou na baía do Porto Santo quando ainda era noite cerrada. &lt;br /&gt;Acrescentou que «já lhe faltava aquela ingenuidade marinha que faz levantar os passageiros cedo para verem surgir, entre os negrumes do céu e do mar, a cobiçada terra… O Porto Santo, aliás é um tropeço nesta rota. Já várias pessoas se queixam da lentidão mortal de semelhante viagem: - doze milhas à hora na era do avião e do átomo! (…)&lt;br /&gt;«Todavia, confesso que apesar do mau humor em que me puseram os primeiros dias de mar, ainda tenho uma radical confiança à esteira dos navios, ao seu morno balanço nas cordagens, à nocturna e fresca paz dos tombadilhos». &lt;br /&gt;Assim, sem grande entusiasmo, o escritor levantou-se pouco depois de o navio ter fundeado, e já no convés, explanou que contemplado de madrugada, o Porto Santo tinha a sua beldade: - «Vejo a ilha seca, esgarçada ao largo da Madeira como cenário de papelão de um amarelo encardido, toda desenhada em aresta viva e com uma corcova a meio. A impressão que conservo é a de uma imensa praia espaldada por uma cortina de relevo semicircular: não uma montanha verde e natural como as outras, mas um pico de areia, um verdadeiro desmonte de materiais de fachina, feito à molhelha. Sente-se naquele telúrico e desolado estendal o espolinhadoiro natural dos coelhos de Bartolomeu Perestrelo. (…)&lt;br /&gt;«Mora ali uma próvida população de escassas centenas de almas entregues à pesca, à cultura da vinha, ao funcionalismo indispensável à cobrança dos impostos e ao içar da bandeira nacional no mastro da Casa da Alfândega. Estas ilhas pequenas e puras, como Porto Santo, Santa Maria, Graciosa, Flores, e sobretudo o miniatural e incrível Corvo, dão-me a impressão de existirem administrativamente apenas como simulacros pueris de ajuntamentos humanos. (…)&lt;br /&gt;«Pobres e minúsculas ilhas de solidão, coroadas de cagarros e de nuvens, onde a vida humana ainda tem, de quando em quando, o sabor dos primeiros dias da criação do mundo… Das espessuras oníricas da minha gaveta de bordo sonho-me corsário ou mercador. Abordamos o Porto Santo em pleno quarto de alva. Já se adivinha na escuridão do calado do paquete um vago livor de dia. O mar é tinta de escrever, mas já a ilha se adivinha abrupta, compacta, a uns quinhentos metros da escada do portaló. (…) É só largar a mala, um ou dois passageiros que vêm não se sabe de onde e vão não se sabe a quê, e aquela meia dúzia de lingadas de carga que mal quebram o silêncio aborrido dos camarotes partem no lanchão solitário em direcção a terra. O que irá ali, meu Deus?... (...)&lt;br /&gt;«Não quero cá saber! Gostaria de ser guarda-fiscal no Porto Santo, não para importunar o único passageiro mensal que vai em demanda da ilha, mas para ouvir chiar os cagarros à minha vontade, e jogar as cartas na Casa do Sal, à luz de uma candeia de azeite de peixe ou de baleia. (…) E talvez ter a elasticidade dos coelhos de Perestrelo nesta ilha austera e bem-amada» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em breve o navio zarpou com destino ao porto do Funchal, e Vitorino Nemésio entreteve-se a ver a Madeira avolumar-se, pouco a pouco, cada vez mais nítida… O encanto da Ponta de São Lourenço e o Caniçal bastaram-lhe para encher a chegada, e afirma: - «Era naquela baciazinha íntima, recortada de fragas e falésias, sem ramo verde e quase sem sopro humano, que me apetecia a ficar para sempre. (…)&lt;br /&gt;«A costa da Madeira é uma maravilha. Não há propriamente aldeias, a não ser um ou outro aglomerado mais denso que se aninha junto ao mar. O casario espalha-se pelas encostas da ilha como na cortiça de um presépio, a que o verde das culturas e o almagre das terras peladas dão colorido e relevo.&lt;br /&gt;«Aquela povoação recatada, atalaia meridiana, é Machico; e lembramo-nos logo do casal feliz que a lenda aninhou naquela brecha de rocha, novos Tristão e Iseu da Floresta e do Filtro…&lt;br /&gt;«Decididamente! Tudo convida aqui à solidão de amor. É uma ilusão de quem costeia isto, - este jardim verde, de cabanas brancas, dependurado no mar? Que importa! Enquanto a abordagem dura, vamos vivendo destes fumos…consumindo a nossa porção côngrua de sonho e de utopia, poetizando gratuitamente as costas da Madeira. Da velha espessura florestal que deu o nome à ilha já quase nada resta. Onde chega o homem com os seus dentes e unhas chega logo a machada, o fogo, o alvião. Estas encostas vestiram-se de cana doce e de batata. Os lenhos foram precisos para os chavecos dos pescadores, as traves da casa, as alfaias da lavra do pão.&lt;br /&gt;«Mas o madeirense, se desbastou as matas da colonização, aprendeu a ajeitar a copa das fruteiras e a cortar o cabelo à cepa de verdelho e de cereal».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois, dobrada a Ponta do Garajau e com a majestosa baía funchalense à vista, Vitorino Nemésio recordou-se da viajem que tinha realizado à Madeira, em 1924, na companhia de Raul Brandão, e da fantástica descrição que aquele escritor compôs sobre uma famosa feira que então existia na cidade, e comentou: - «Já não vamos encontrar no mercado do Funchal as cataratas de uva, de maracujá, de anona, de pêra e de papaia que faziam o encanto do viajante de há dez anos. Uma vereação empreendedora construiu um mercado monumental e higiénico, cheio de sábias divisões, de andares racionais, de escadas com direito e esquerdo. Foi um grande progresso. Mas é pena que se não tenha arranjado um outro dispositivo às frutas, mantendo a impressão semitropical que davam antigamente os cestos planturosos, as chapadas de cachos ainda com enxames agarrados ao mel dos bagos de oiro e a nota estridente das réstias de pimentos, dos araçás, dos abrunhos, por cima dos quais gralhavam as araras e se espenujavam os periquitos; cujas cores e matizes foram tão magistralmente descritas por Brandão nas «Ilhas Desconhecidas».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrando mais estreitamente na descrição da cidade e da sua magnífica baía, Vitorino Nemésio mencionou que se trata do «segundo porto português, depois do de Lisboa, na rosácea de rumos ao longo da bordadura Oeste de África, para o Oriente pelo Cabo, para a América Central e do Sul: o Funchal tão velho como o nosso império marítimo, com o seu bispado metropolitano da África, da Ásia e da América Meridional desde 1512, os seus mercadores flamengos, italianos e ingleses espiando notícias do Além-Mar e comprando vinho e açúcar, o próprio Colombo instalando-se na baixa da vila velha para aprender e repousar.&lt;br /&gt; «Se o casario mudou, o traçado do Funchal mantém-se fundamentalmente como nas eras em que a terra era o nosso viveiro ultramarino: A velha fortaleza de São Lourenço ainda abriga o governo da ilha; só os engenhos de cana e as quintas foram baralhados e dados ao sabor das jogadas do azar de cerca de meio milénio».&lt;br /&gt;Mais à frente, o escritor tornou a lembrar que o pitoresco Funchal que Raul Brandão se deliciou a pintar, desapareceu ou atenuou-se. «O sábio e previdente urbanismo das últimas edilidades deu um inevitável golpe de morte num certo casticismo, talvez parasitário, mas turisticamente singular: os montes de fruta desbordando dos estendais sobre as ruas e praças da cidade; os carrinhos sem rodas deslizando nas calçadas de seixos untados de sebo; os palanquins a ombro de vilãos de calça branca e «palhinhas» trigueiro. Esse Funchal de mágica, espelhado nos foles de bilhetes-postais lustrosos pendentes às portas dos estancos de bordados e de vinho de gargalo empalhado se não morreu de todo, entrou francamente na agonia.&lt;br /&gt; «Foi essa a Madeira de Júlio Dinis e António Nobre. Ainda era a do último Arquiduque reinante da Áustria e da Imperatriz Zita. Não vinha certamente do tempo de Diogo Gomes e de Cadamosto, porque era a acomodação da velha Madeira imperial e colonizadora de trópicos a tempos mais hedonisticamente mercantis e circulados. Mas essa faculdade de adaptação ao forasteiro e ao mareante do largo, esse transformar em blandícia e em gentileza etnográfico o antigo poderio marítimo tinha o encanto que lhe dá a ingenuidade do povo, tão pronto a fornecer galeotes às naus do alto bojo como a dar vendilhões de barretinhos de lã e de bolo de mel embrulhado em celofane.&lt;br /&gt; «O madeirense, aliás, nunca perdeu o seu velho sentido prático endereçado às empresas duradoiras. Defendeu o seu vinho generoso concentrando no Funchal os mostos a tratar e aí envasilhando os néctares consoante as castas e os tipos. Cuidou da sua aguardente fabricando-a também em regime de entreposto selector. Das ramas de açúcar obtido à força de levada fez um produto unificado e garantido. Á indústria de bordados, outrora entregue à fantasia das bordadeiras desprotegidas e esparsas, deu riscos industriais que aliam a fraca da invenção primitiva à decoração moderna. Concentrou a embalagem para a exportação das bananas. Fez enfim do Funchal uma cidade portuária que é ao mesmo tempo antiga, arejada e moderna, com os seus edifícios públicos e particulares de linhas elegantes, respirando desafogados no quadro de uma das mais belas e sedativas paisagens do Mundo».&lt;br /&gt;Vitorino Nemésio dissertou ainda sobre a urbanização típica que se verifica na capital da Madeira; e asseverou: - «É a este éden por fora, com seu purgatório de trabalho bem acusado lá dentro, que rumam os grandes paquetes carregados de europeus desenfadados. O Funchal, para sempre marcado por este vaivém de proas, conservou todavia a sua velha estrutura de tráfico e a sua vizinhança patriarcal de cultivadores e burgueses. Apenas urbanisticamente cerrada no centro, em torno da velha Sé que estendia o seu pastoreio às florestas da Índia e do Brasil, a cidade estende-se pelas encostas como uma grande quinta salpicada de casas de regalo. A não ser os pobres carregadores e vilãozinhos que se abrigam nas casitas das calçadas ou nos curtos telhados do pendor, todo o agenciário expedito e um pouco afortunado tem a sua vivenda sobranceira à baía e desafogada em seu quintal, que desborda para a íngreme ruela com trepadeiras multicores, dá maracujás e bananas, tem legumes e a inevitável parreira carregada de cachos piramidais na sazão. (…)&lt;br /&gt;A arquitectura patriarcal vai sendo varrida pela prosperidade nos sítios mais comunicáveis, invadidos pela estrada e o automóvel. A emigração favorece o madeirense do Sul, que gosta de cal e da nódoa avermelhada dos telhados e já mete a cozinha dentro de casa, abrindo-lhe mais portas e janelas. Mas quem tem meios prefere construir de novo a aumentar ou desfigurar o velho cardenho familiar: por isso o casario se espalha como se uma mão divertida e generosa o semeasse nas vertentes». &lt;br /&gt;E entusiasmado com o clima esfusiante da Madeira, Vitorino Nemésio acrescentou que na ilha «tudo parece novo em folha, graças ao prodígio da luz e à mobilidade vegetal: No fundo, o húmus é o mesmo; os esquemas económicos adaptam de tempos a tempos a velha vestimenta da produção e do trato; a população flutua, mas em parte regressa: Há sempre um fru-fru de folha de cana «mélica» e de folha de vinha caída, pelo qual Zarco, Perestrelo, Afonso do Arco ou Teixeira identificariam ainda hoje a sua ilha perdida, tão bem como um Ornelas, um Camacho, um Pestana ou um Smith «up to date»…&lt;br /&gt; «Para dar a nota do cosmopolitismo da Madeira basta lembrar que o consulado inglês do Funchal está a bater à porta do seu terceiro centenário. Atrás do açúcar veio o vinho capitoso, o porto interposto aos continentes, a abreviatura fantástica das paisagens mais belas e sedantes que o ocioso busca na Terra: montanhas a mil metros, mas também vales aconchegados; interior serrano e recessivo, mas sobretudo costa em anfiteatro. Do brote vulcânico primitivo restam falésias a nu ao rés do litoral, mas a estrutura interna e escoriácea da ilha foi mais ou menos recoberta de uma vegetação caridosa. O corpo eruptivo sossegou, a erosão trabalhou por toda a parte como um cavador diligente e pobre que ajeita o seu pedregal para lenha e culturas. Simplesmente, estes lavradores geomórficos não pensam muito no homem, trabalham para a vista das aves, dos aviadores, dos turistas. Mas tudo é cortado de ravinas, depositado ao fundo de gargantas espiadas do alto por picotos só bons para pássaros ou talvez para alpinistas. E o madeirense, esmagado pela paisagem, acaba por viver como uma formiga caída na dobra de um pão de muito sôlo».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrando na descrição das especificidades geográficas e da flora da Madeira, Vitorino Nemésio afiançou que no conjunto da ilha, verificamos «que existem, praticamente dois mundos naturais que só se harmonizam nas cumeeiras: a Madeira do Sul amena e cultivada; a do Norte menos penetrada de mão de homem e, assim, muito mais primitiva. Mas a impressão florestal dominante do tempo do descobrimento e passada ao nome da ilha não é a que hoje se colhe. O Norte, escavado pelos lenhadores e carvoeiros, fez-se relativamente árido e severo. O Sul desdobra-se à vista dos navios costeiros como uma imponente sucessão de vertentes afeiçoadas pelo velho escoar das escórias e das lavas, semeadas de casario esparso e colorido entre uma vasta vegetação de folha perene, ou estendidas em ansas e pontas escalvadas, de surpreendente relevo.&lt;br /&gt;«Os aloés arbóreos contrastam com o azul que enquadra as montanhas; a opúncia ou tabaiba fornece o folhedo para os gados; a pita, a giesta, o seixeiro enfeitam as dobras do terreno ajeitando recessos onde apetece ficar. O litoral acolhedor perfuma-se de murta e de zimbro, a oliveira brava mancha-se de jasmins amarelos. Os jardins das casitas espalhadas em pendor de presépio levantam os seus dragoeiros em flor e os seus escuros barbuzanos. Depois, sobre altos despovoados, estende-se o manto das urzes, dos loureiros e das faias. &lt;br /&gt; «O til, o vinhático e o folhado refugiam-se entalados nas ravinas, às vezes à raiz dos degraus que o madeirense trepa para cuidar das suas culturas nos picos ou terraços aráveis (poios), até que, subindo sempre, a Madeira ultrapassa o seu próprio anel de nuvens e se contenta com feiteiras e moitas de alecrim-da-serra».&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Passando a descrever certas características típicas das aldeias madeirenses, Vitorino Nemésio começou por mencionar que «a casa rural confunde-se frequentemente com a arribana e o palheiro; ela própria ainda é muitas vezes coberta de uma capa de colmo. Não havendo praticamente frio nas zonas cultiváveis, não há necessidade de ficar de portas fechadas. O melhor tecto ainda é a copa da árvore e o céu azul. Lavar e cozer é obra para fora de portas. As mulheres bordam na rua; os homens entrançam a mobília de verga ao ar livre; contra o sol, à sombra das fruteiras e da vinha em latada.&lt;br /&gt; «Talvez até a instalação dos gados dê mais que pensar ao madeirense do monte que a própria residência. A inclinação do terreno facilita um pouco a coisa. Assim, é fácil estear um andarzito para granel e arrumação e ter em baixo o abrigo da vaca e do porco. Quando se é muito pobre, vive-se como Deus quer entre a tulha e as alfaias. Para as paredes tanto serve a pedra solta, que é o menos que falta, como a madeira em que a ilha é parca – ou não se chamasse isso mesmo… E a abundância de fibras e de colmo dá o anteparo contra as chuvas, havendo previamente o cuidado de escorrer bem os tectos em três planos que vêm até o chão. É o velho modelo da cabana lenhosa, do tempo de Zarco e de Colombo.&lt;br /&gt;« Em Santana, como a pedra é mais rara, recorre-se em geral exclusivamente à madeira; e, como os declives não abundam, a casa tem de se implantar rectangularmente no terreno e lançar duas fachadas, cobrindo-se de quatro águas. (…)&lt;br /&gt; «Nada ou quase nada de aldeamentos. Cada um procura a vizinhança da nesga de terra que lhe coube ou da terra que granjeou com seu suor, e lá acampa e se ajeita. Ao pé da igreja vendolas, o correio, algumas casas mais gradas. Tudo o resto se inflecte sobre os lombos e os poios, a não ser em vilas como Santa Cruz e Machico, onde a concentração esboçou pequenos núcleos citadinos arejados e dormentes ao mar».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Vitorino Nemésio também se debruçou, atentamente, em volta do prodigioso trabalho e das tradicionais canseiras do povo madeirense; comentando que «era naquela dispersão multiplicada em que o espaço parece que não conta, que uma das populações mais prolíficas e laboriosas de Portugal vive e luta. A riqueza agrária e fruteira não cai do céu: o humo é pouco, numa ilha lavrada por antigas escórias e toda arquitectada em altura: os poios em folhas cultiváveis ficam engastados ao rochedo, e para lá se ir é preciso escalar os desníveis, subir muito a calçada, trepar penedos sem fim e os estrangulamentos das levadas.&lt;br /&gt; «Três e quatro colheitas em dois anos, sim, mas à força de água de rega que, se abunda e borbotoa, rebenta geralmente nas serranias ou vem mesmo através delas do lado norte da ilha, condutada habilmente por meio de depósitos aproveitados do natural e escoados em borbotões que se formam a meia encosta e engrossam as ribeiras e condutas angustiosas – propriamente as «levadas».(…)&lt;br /&gt;«Era a elas que, repartida em lanços de ensarilhada irradiação, o camponês vai buscar o refresco constante das culturas triviais e preciosas: a horta, o pomar, e até a seara e a vinha. São milhões e milhões de litros de água que gorgolejam por toda a parte, dando ao turista a impressão de que todo aquele sangue é fácil no corpo da ilha verdejante, quando custou o suor e a previdência da cadeia de muitas gerações zelosas do interesse dos heréus e inventora dos levadeiros ou vigias, dos juízes, enfim de um complicado sistema de repartição e consumo que, tendo as vantagens empíricas de toda a organização comunal consuetudinária, se opõe todavia a um aproveitamento racional e ao fomento de novas energias».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Antes de findar o interessante estudo sobre o arquipélago da Madeira, o escritor ainda lembrou que «a vida humana, na Madeira, começou contra a Ponta de São Lourenço, nos contrafortes de Leste, que tornavam acessíveis a baía de Machico e o Norte imediato. Mas a parte mais fértil descaía a Ocidente, e foi no Funchal que se fez o estabelecimento mais rendoso. Tanto num ponto como no outro o arvoredo cerrado opunha-se ao progresso do homem, e foi com vastas queimadas que os primeiros terrenos se ganharam. Mas o trigo e a horta em breve se tornaram pretextos para sustentar gente, sobretudo ocupada nos produtos comerciais. As levadas faziam mover os engenhos do açúcar levado à Flandres e ao Mediterrâneo, desde o Adriático ao Bósforo. Depois veio o vinho, à espera da decadência do açúcar para se qualificar como produto de embarque.&lt;br /&gt; «O malvasia ardeu imaginariamente aos olhos de Faltstaff e consolou de certo a garganta de Shakespeare. O boal começou a cintilar nos cristais como um poente. Enfim, as cepas do cerceal procuraram a Boca dos Namorados e os ásperos píncaros da ilha debruçados no Curral das Freiras».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vitorino Nemésio terminou o trabalho que estamos recriando com palavras de sentido louvor à versatilidade dos explorados e oprimidos camponeses da Madeira, que durante séculos desbravaram a ilha maravilhosa, exclamando com espanto: - «Este «vilão» dos altos é um dos mais plásticos homens das redondezas da Terra. Serrano e marítimo, cultivador e barqueiro, a tudo se afaz. O monte, em tempos céleres e cobiçoso como os nossos, não é nada sem a costa navegada e o Funchal das chegadas e partidas. O vilão desce e sobe: é quase um trepador como os papagaios e periquitos que se ajeita a vender no cais e lhe chegam nos navios de África, com um ou outro saguizinho bom para inculcar ao inglês que chegou esta manhã e embarca esta tarde».&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A Madeira&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-6206458978397494335?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/6206458978397494335/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-vitorino-memesio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/6206458978397494335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/6206458978397494335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-vitorino-memesio.html' title='A Madeira na Obra de Vitorino Memésio'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33bUep1o0I/AAAAAAAAADo/2bIm7BEGw5U/s72-c/vitorino-nemesio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-510412261684640273</id><published>2010-02-14T22:01:00.002Z</published><updated>2010-02-19T00:30:46.153Z</updated><title type='text'>A  Madeira na Obra de Cabral do Nascimento</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33brRsSVII/AAAAAAAAADw/MIVHnRygv6c/s1600-h/Cabral_Nascimento.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 276px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33brRsSVII/AAAAAAAAADw/MIVHnRygv6c/s320/Cabral_Nascimento.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5439745461463438466" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;João Cabral do Nascimento, nasceu na freguesia da Sé da cidade do Funchal em 2 de Março de 1897, e faleceu em Lisboa, a 22 de Março de 1978. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1926, aonde ainda estudante dirigiu o jornal «Restauração» e fundou, com os madeirenses Ernesto Gonçalves e Vieira de Castro, a revista «Ícaro», na qual chegaram a colaborar Teixeira de Pascoais e Eugénio de Castro.&lt;br /&gt;Regressado à Madeira, Cabral do Nascimento exerceu a advocacia durante três anos, e foi professor do «Liceu Jaime Moniz» num curto período, tendo sido nomeado director do «Arquivo Distrital do Funchal», de 1931 a 1955, instituição onde com o seu colega também madeirense Álvaro Manso de Sousa, organizou e fundou o célebre «Arquivo Histórico da Madeira», de que foram publicados 9 volumes, nos quais foram divulgados algumas dezenas de artigos e ensaios da sua autoria.&lt;br /&gt;Na década de 30, Cabral Nascimento foi eleito sócio-correspondente do «Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia de Lisboa», e desde 1938, foi nomeado correspondente da «Academia Portuguesa de História».&lt;br /&gt;Em Dezembro de 1915, empeçou por publicar no «Diário da Madeira», dirigido pelo major Reis Gomes, alguns trabalhos em prosa ainda ao gosto decadentista-simbolista, então muito em voga. Posteriormente, durante a sua longa vida, colaborou com diversos jornais e revistas madeirenses, nomeadamente no «Diário de Notícias» e na revista «Das Artes e da História da Madeira»; e também continentais, entre elas, a «Presença», «Revista de Portugal», «Ocidente», «Atlântico», «Panorama», «Diário Popular» e a «Enciclopédia Portuguesa e Brasileira». &lt;br /&gt;Traduziu ainda numerosas obras de grandes escritores estrangeiros, nomeadamente, Truman Capote, François Mauriac, Henrique Troyat, D. H. Lawrence, George Eliot, Steveson, Edgar Allan Poe, Dostoiewsky e tantos outros.&lt;br /&gt;Como poeta, escreveu e publicou As Três Princesas Mortas num Palácio em Ruínas (Lisboa 1916); Além- Mar (Lisboa 1917); Hora de Noa Lisboa (1917); Descaminhos (Lisboa 1926); Arrebalde (Coimbra 1928) Litoral (Funchal 1932), Poesias Escolhidas (Lisboa 1936); 33 Poesias (Lisboa 1941); Cancioneiro (Lisboa 1943); Confidências (Lisboa 1945); Antologia – Líricas Portuguesas (1957); e Colectânea de Versos Portugueses do Século XII ao Século XX (Lisboa 1972). &lt;br /&gt;  Em 2003, a investigadora madeirense Doutora Maria Mónica Teixeira, num notável ensaio editado no Porto, compilou, coordenou, anotou e divulgou, com um prefácio de Vasco Graça Moura, os magníficos trabalhos poéticos do escritor, num livro a que deu o título «Cabral Nascimento - Obra Poética».&lt;br /&gt; Importa ainda anotar que durante os longos sessenta anos em que João Cabral do Nascimento publicou poemas, e como consequência da sua grande exigência e rigor estético; nas sucessivas reedições desses trabalhos, foi corrigindo e apurando muitas das composições, sempre com o intuito de melhorar a cadência rítmica da linguagem, e expurgar o acessório ou quaisquer artifícios retóricos.&lt;br /&gt;Em prosa, Cabral Nascimento divulgou Estampas Antigas da Madeira (Funchal 1935); Lugares Selectos de Autores Portugueses Que Escreveram Sobre o Arquipélago da Madeira (Funchal 1949); e A Madeira (Lisboa 1968). Salientamos ainda alguns trabalhos Históricos tais como Apontamentos de História Insular (Tipografia Madeirense Editora, 1927); Genealogia da Família Medina da Ilha da Madeira (Lisboa 1930); A Restauração de Portugal e o Convento da Incarnação (Lisboa 1940); e ainda Os Pedreiros-Livres na Inquisição e a Corografia Insulana (Funchal 1949).&lt;br /&gt;João Cabral do Nascimento foi um intelectual de cintilante cultura, humanista, conservador, e dotado duma personalidade metódica e requintada. Conviveu em Lisboa com os melhores escritores do seu tempo, nomeadamente António Sérgio, Vergílio Ferreira, Jorge de Sena, Alfredo Guizado, Pedro Homem de Melo, António Ferro, e Olavo d´Éça Leal. Também era sobrinho do escultor Francisco e do pintor Henrique Franco, tendo sido amigo de outros artistas plásticos tais como Almada Negreiro, Alfredo Migueis, e Abel Manta que, em 1927, o pintou num óleo que ficou conhecido com o título de «O Homem do Binóculo». &lt;br /&gt; Podemos afirmar que Cabral do Nascimento iniciou-se como escritor com a publicação, em 1916, dos vinte sonetilhos do pequeno livro intitulado «As Três Princesas Mortas Num Palácio Em Ruínas», editado um ano após da divulgação da revista «Orpheu», da qual recebeu algumas nítidas influências. E embora se tratasse do trabalho dum principiante, foi considerado «futurista» pelos críticos da época, tendo sido mais tarde classificado como uma obra «do simbolismo português» por Óscar Lopes. Por sua vez, Fernando Pessoa num artigo que intitulou «Movimento Sensacionista», difundido na revista «Exílio 1», referiu que se tratava duma «interessantíssima, pequena obra, que revela que quem a escreveu tem qualidades de imaginação e inteligência que podem fazer dele um poeta inadjectivavel»; tendo até prestado a Cabral do Nascimento conselhos vanguardistas do tipo «salte por cima de todas as lógicas. Rasgue e queime todas as Gramáticas», que, todavia, não foram acolhidas pelo nosso poeta. Mais tarde, a Professora Mónica Teixeira no seu brilhante ensaio «Tendências da Literatura na Ilha da Madeira nos Séculos XIX e XX», é da opinião que esses sonetilhos de Cabral do Nascimento «foram escritos sob a inspiração do Sensacionismo, nas suas duas primeiras fases literárias; e que no seguimento desta atitude, o poeta conseguiu criar uma poesia do «eu» e imprimir aos seus poemas um clima páulico de imprecisão e de simultaneidade, na continuidade do Simbolismo (…)&lt;br /&gt;«Assim, entre o clássico e o páulico, passando pelo simbolismo e o decadentismo, Cabral do Nascimento concilia vários discursos literários com temas do maravilhoso popular e da lenda. (…) A originalidade de «As Três Princesas Mortas Num Palácio Em Ruínas» reside também na forma como o poeta criou a sua própria distância em relação ao Modernismo de «Orpheu», encontrando nesta revista literária, não uma fonte de inspiração definitiva, mas a base modernista para a palavra exacta da sua futura escrita poética». &lt;br /&gt;Em relação às oitavas do poema épico descritivo e nacionalista «Além-Mar», pejado de desígnios de patriotismo insular, Cabral do Nascimento descreveu a epopeia do descobrimento da Madeira por Gonçalves Zarco, ao serviço do Infante D. Henrique. Todavia, Maria Mónica Teixeira refere que o poeta não pretendeu narrar os altos feitos de um herói predestinado, mas glorificar o povo anónimo, suporte de toda a epopeia, pois a obra é também «a fala das massas, o eco da multidão, e a voz do pensamento comum». Comentou ainda que ao longo das vinte oitavas dessa poesia, além do maravilhoso sagrado, o maravilhoso popular ocupou um lugar importante, como se pode depreender de dois curtos exemplos, que também ilustram o desígnio tradicionalista de glorificar a coragem e os feitos dos marinheiros portugueses:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Mansas as naus de Zarco vão singrando,&lt;br /&gt;         Já lentamente se descerram véus;&lt;br /&gt;         Longe começa a névoa contornando&lt;br /&gt;         Um ponto que não é mar nem céus;&lt;br /&gt;         Parece um sonho mágico tombando&lt;br /&gt;         Como um milagre, lá das mãos de Deus;&lt;br /&gt;          - Por isso dando graças ao Senhor,&lt;br /&gt;         Fecham os olhos para ver melhor…&lt;br /&gt;         (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Quando porão as caravelas rasas&lt;br /&gt;          Esses gigantes que este mar povoam?&lt;br /&gt;         Que é d´esses monstros que possuem asas&lt;br /&gt;         E sobre as naus em desafio voam?&lt;br /&gt;         Aonde o ilhéu que dir-se-ias brasas&lt;br /&gt;         Para consumir os barcos que lhe aproam?&lt;br /&gt;         E as outras tantas coisas semelhantes&lt;br /&gt;         Que nos contaram velhos mareantes? (…)&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt; Depois dos dois livros de poesia que acabamos de comentar, a que se seguiu os poemas de «Hora de Noa» (1917), Cabral do Nascimento esteve durante sete anos sem publicar. Porém, em 1924, o poeta tornou a divulgar em Lisboa o livro «Alguns Sonetos», onde apesar de ser um incondicional admirador da obra de Camilo Pessanha e sobretudo de Mário de Sá-Carneiro, abandonou, claramente, a via vanguardista que era demasiado artificial e cerebral para o seu temperamento, e encaminhou-se na direcção de soluções literárias mais de acordo com o seu gosto e formação, nomeadamente a prática e os modelos da antiguidade greco-latina. Deste modo, equilíbrio, ordem e proporção eram «as três virtudes clássicas», que segundo Mónica Teixeira atraiam definitivamente a sensibilidade do nosso poeta, no seguimento do lema horaciano de que a perfeição estava no meio-termo.&lt;br /&gt; Por outro lado, e como concluiu a Professora Mónica Teixeira, o saudosismo nacionalista de Afonso Lopes Vieira e de António Sardinha apresentava-se-lhe também demasiado retrospectivo e sentimental para o seu feitio objectivo, independente e pragmático. Assim, embora aristocrata nato, havendo mesmo de vir a pertencer ao grupo do «Nacionalismo Integral» e ao «Integralismo Lusitano», Cabral do Nascimento, também não se deixou convencer pelos louvores de António Sardinha em «A Monarquia», a propósito das oitavas nacionalistas do seu livro de poemas «Além-Mar»; pelo que o nosso poeta seguiria o seu próprio rumo literário, nitidamente balanceado entre o clássico e o moderno. &lt;br /&gt;Interessa ainda salientar que nascido na Madeira, terra onde viveu a adolescência e, mais tarde, entre os vinte e sete e os trinta e nove anos de idade; Cabral do Nascimento escreveria no Funchal além de «Alguns Sonetos», os livros de poesia «Descaminhos» (1926); «Arrebalde» (1928); «Litoral» (1932) e «Poesias Escolhidas» (1936); sendo que em todos estes trabalhos os encantos da Ilha estão presentes na inspiração e sensibilidade do poeta, na concepção panteísta da natureza, nos impulsos de partir e regressar, na nostalgia, e sobretudo na obsessiva e constante presença do mar.&lt;br /&gt;Vejamos um pequeno exemplo extraído das «Poésias Escolhidas»:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                      Vapores, que ides sobre estas&lt;br /&gt;                      Ondas de verdes enganos…&lt;br /&gt;                      E de um, de dois, de três canos,&lt;br /&gt;                      Lembrais pequenas florestas&lt;br /&gt;                      Plantadas nos oceanos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                       Da minha casa, que deita&lt;br /&gt;                       Para o mar, eu sigo a rota:&lt;br /&gt;                       De oiro o poente vos enfeita…&lt;br /&gt;                       Partis… A água se ajeita…&lt;br /&gt;                       Antes eu fosse gaivota!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passando a residir em Lisboa, a partir de 1936, a Ilha continuou sempre presente em muitas das posteriores poesias de Cabral do Nascimento, como por mero exemplo colhemos neste pequeno texto extraído da colectânea «Descaminho», reeditada em 1969:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                         Dia de cisma na varanda&lt;br /&gt;                         A ver o mar… De longo mastro…&lt;br /&gt;                         Esbelta proa e vela panda,&lt;br /&gt;                         Sai um navio e eu sigo o rastro…&lt;br /&gt;                         Que bem que vai! Que bem que ele anda!&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Na «História da Poesia Portuguesa do Século XX», João Gaspar Simões não se afastando muito das interpretações e elucidações que expressamos, concluiu que «paralelamente a Fernando Pessoa, ele mesmo, Cabral do Nascimento, sem a complexidade intelectual nem o cerebralismo do mestre da «Mensagem», oferece-nos uma perspectiva que não podemos deixar de considerar um dos primeiros «apports» do modernismo do tipo classicizante. Sucessivamente em «Arrabalde», «Litoral», «Poesias Escolhidas», «33 Poesias» e, inclusivamente em «Cancioneiro», a que se seguem ainda «Confidências», «Digressão» e «Fábulas», vemo-lo, realmente, alcançar uma pureza de forma adentro de um tradicionalismo métrico que de maneira alguma pode confundir-se com a dos poetas que entre nós poetaram anteriormente ao «frisson nouveau». Esquecendo algumas vezes, em proveito de uma sensibilidade demasiado correntia, o que deve à poesia, pela arte requintada como trabalha o verso, Cabral do Nascimento atinge em muitas das suas composições uma simplicidade, uma sageza, um desencanto e um doloroso fluir dos efémeros frutos da vida, características que lhe dão o direito a que o consideremos um dos mais altos poetas da sua geração».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ilustrar a musicalidade e a refinada pureza da forma do grande poeta madeirense, escolhemos uma poesia extraída do «Cancioneiro» (1943):&lt;br /&gt;                                  Sextilha&lt;br /&gt;             &lt;br /&gt;               O silêncio é um aroma&lt;br /&gt;                       E a distância uma flor.&lt;br /&gt;             Não peço nem desejo,&lt;br /&gt;                      Nada ouço nem vejo,&lt;br /&gt;                      Mas a tristeza assoma&lt;br /&gt;             E é cada vez maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                    É pálida a ilusão;&lt;br /&gt;                                                    O mistério é sem cor.&lt;br /&gt;                                                    Não cismo nem medito,&lt;br /&gt;                                                   Não penso nem reflicto,&lt;br /&gt;                                                   Mas bate o coração&lt;br /&gt;                                                     e aumenta a minha dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    A vida é uma andorinha;&lt;br /&gt;    Morte, negro condor.&lt;br /&gt;    Não choro nem suspiro,&lt;br /&gt;    Não clamo nem deliro,&lt;br /&gt;    Mas o tempo caminha&lt;br /&gt;    E é cada vez menor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                         Orgulho, imensa planta;&lt;br /&gt;                                                         Erva pequena, o amor.&lt;br /&gt;                                                         Não murmuro nem falo,&lt;br /&gt;                                                         No meu sonho me calo,&lt;br /&gt;                                                         Mas a poesia canta &lt;br /&gt;                                                         E diz tudo o que for.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;     A impaciência é onda&lt;br /&gt;    E o êxito um sol-pôr.&lt;br /&gt;    Não procuro nem espero,&lt;br /&gt;    Não pretendo nem quero;&lt;br /&gt;    Onde a glória se esconda&lt;br /&gt;    Será tudo melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em diversos escritos em prosa, João Cabral do Nascimento também referiu, por diversas vezes, à história, às paisagens e aos costumes do arquipélago da Madeira, até à segunda metade do século XX, trabalhos que passaremos a resumir e recriar. &lt;br /&gt;Na introdução da antologia «A Madeira, na Obra de Escritores Portugueses» dissertando sobre a situação geográfica e a integração do arquipélago no conjunto político nacional, Cabral Nascimento esclareceu «que o grupo Madeira – Porto Santo – Desertas (e ainda as três Selvagens e respectivos ilhéus) está situado a Oeste da Europa; (…) e localiza-se entre a costa de Portugal, a de Marrocos e os arquipélagos dos Açores e das Canárias. A medição da ilha principal é de 780 quilómetros quadrados, com o maior comprimento na direcção Este-Oeste (58Km) e a maior largura na direcção Norte-Sul (23Km), sendo o perímetro da costa de 151.350 metros».&lt;br /&gt;Todavia, se os elementos geográficos que citou são incontroversos, o escritor referiu que existiam algumas dúvidas históricas sobre os temas relacionados com descobrimento do arquipélago e o primeiro povoamento. «Mas fosse como fosse as ilhas madeirenses entraram por doação na posse da Ordem de Cristo, de que D. Henrique foi grão-mestre. Nos seus bens sucedeu o sobrinho D. Fernando e depois os filhos deste, o último dos quais, D. Manuel, vindo a ser rei de Portugal, as incorporou finalmente na coroa. Dividida a Madeira (com as Desertas e Selvagens) em duas donatarias, e formando outra o Porto Santo, até os Filipes o governo local pertenceu aos respectivos capitães-donatários. Em seguida passou este aos governadores-gerais e, após a Restauração, aos governadores capitães-generais. Com a implantação do liberalismo, foram os governadores civis as autoridades superiores do distrito (um só com sede no Funchal).&lt;br /&gt;«Nas primeiras décadas a seguir a meados do séc. XX, a população rondou os 300.000 habitantes», embora já começasse a manifestar indícios de gradual redução.&lt;br /&gt;Cabral do Nascimento comentou ainda que como tema literário, a Madeira nunca deixou insensíveis os escritores portugueses e estrangeiros que a visitaram, ou a viram de passagem, na rota da África e do Brasil. «Interessaram-lhes sempre todos os aspectos que a ilha pode oferecer ao seu espírito ou à sua sensibilidade: a paisagem, o traje (hoje artificial e cominatoriamente ressuscitado), os hábitos dos seus moradores, bizarros e hospitaleiros, os meios de transporte, o ambiente social, as indústrias, as festas típicas, e em especial os seus frutos e as suas flores; (…) e ainda a etnografia, folclore e restantes particularidades regionais.&lt;br /&gt;«Dos antigos três reinos da natureza é o vegetal aquele ali mais se impõe à curiosidade do visitante e mais louvado tem sido desde que a terra – si vera est fama – tirou o nome do arvoredo que tão densamente a cobria. &lt;br /&gt;«A natureza é mais artista do que o homem. Este, quando muito, poderá discipliná-la, mas não consegue substitui-la. (….) Mas o certo é que a ilha da Madeira deve tudo às forças naturais e nada ou muito pouco ao trabalho humano em matéria de embelezamento e decoração».&lt;br /&gt;Após esta breve introdução, numa fatigante e morosa tarefa, Cabral do Nascimento seleccionou e publicou alguns trechos em prosa e em verso, escritos por 57 autores portugueses, que pelos séculos fora, se interessaram a dissertar sobre os mágicos panoramas da Madeira e os seus pitorescos costumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1935, noutra atraente publicação de 224 ilustrações editada pelo «Club Rotário do Funchal», com o título «Estampas Antigas da Madeira –Paisagem – Costumes – Traje – Edifícios – Marinhas», João Cabral do Nascimento redigiu uma brilhante Introdução, empeçando por referir que, em 1933, a revista «Arquivo Histórico da Madeira» publicou uma relação, sem dúvida incompleta, das gravuras a buril e água-forte, xilogravuras e litografias com assuntos madeirenses, feitas até o terceiro quartel do século XIX, quási sempre por artistas ingleses. Ao mesmo tempo inseriu reproduções de algumas delas, chamando assim a atenção para essas interessantes e valiosas estampas, muitas, já bastante raras, e todas necessárias para o estudo dos costumes, trajes e arquitectura civil e religiosa da Madeira.&lt;br /&gt; «Em Dezembro do ano seguinte, teve o Rotary Club do Funchal a simpática iniciativa de promover uma exposição de artigos da indústria regional, aproveitando como decoração das paredes das salas, muitas dessas gravuras, que os seus possuidores emprestaram para tal fim. Desta forma foi possível reunir, pela primeira vez, uma colecção deveras notável de obras artísticas dum género agora menos cultivado, mas que, antes da fotografia, foi o processo usado de reprodução e divulgação da pintura e desenho, impondo-se ele mesmo como manifestação autónoma de arte.&lt;br /&gt;«Depois daquela exposição, surgiu a ideia de se publicar uma espécie de catálogo dessas estampas, não só das que constituem colecções, como também das avulsas e até, por fim, das ilustrações de livros executadas por meio de gravura artística, anteriores, portanto, aos processos meramente químicos empregados actualmente.&lt;br /&gt;Cabral do Nascimento comentou ainda que o volume em apreço era precisamente uma colectânea de quase todos esses trabalhos conhecidos como «gravuras», tendo conseguido juntar mais de dois centos de obras, entre eles os magníficos exemplares das litografias de Pitt Springtt, Andrew Picken e Frank Dillon, que a oficina fotográfica de Perestrelos habilmente reproduziu, Marques Abreu gravou superiormente, e o Club Rotário editou, numa atitude invulgar de bom gosto, para elucidação dos que se interessam por estas coisas de arte, de etnografia e de história. &lt;br /&gt;«Como documentários da vida madeirense em épocas passadas, será decerto supérfluo salientar a importância das gravuras, O estudo do traje não se pode fazer sem o concurso delas. A evolução da carapuça, antes mais baixa e enterrada na cabeça, depois afunilada, posta à banda, graciosa e inútil; a diferença da indumentária campesina entre o norte e oeste da ilha, aqui mais variada, mais garrida nas cores; os trabalhos rurais, os meios de transporte, em que se nota a gradual substituição dos &lt;br /&gt;cavalos pelos bois; o palanquim cedendo o lugar à rede; o celebrado «oxen-car» que o Major Bulkeley pretendia haver introduzido em 1848, mas que os visitantes dos fins do século XVIII já tinham observado e comentado; os frades, as freiras, o clero secular, os vereadores, as damas, as criadas, - tudo isto surge aos nossos olhos quando se folheia um desses álbuns, tudo isto ganha movimento e cor, deixando um rasto de encanto, de risonha evocação nas figuras obesas das litografias satíricas de Willian Combe, de melancolia saudosa em todas as outras mais. &lt;br /&gt;«A cidade está hoje desfigurada e incaracterística. Demoliram o que nela havia de artístico, histórico, ou simplesmente pitoresco. Contemplar essas estampas, feitas quando ainda o burgo mantinha os traços curiosos que o distinguiam, é um prazer espiritual e ao mesmo tempo uma desforra platónica. A paisagem, essa decerto não mudou; mas os artistas; que a fixaram então, parece que tinham maior sentimento da verdade, encontrando até motivos de beleza nas montanhas enevoadas, no tom sombrio da atmosfera cor de cinza.&lt;br /&gt;«A Madeira de outros tempos… Não a conhecemos nós, que apenas recordamos, diluídos nas memórias da infância, uns restos irreconhecíveis do passado; não a poderão imaginar as gerações que vão surgir, olhando em volta para a banalidade dos ambientes modernos. Mas este livro ficará como um testemunho de dezenas de artistas, mostrando, a quem quiser saber, como foi esta ilha noutras eras, como viviam os habitantes outrora e como os turistas antigos ocupavam bem os seus ócios em elevadas preocupações de espírito, legando-nos obras de arte que, sem serem dum Rembrandt ou dum Daumier, constituem no entanto o enlevo dos coleccionadores».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutro brilhante artigo divulgado na revista «Eva» de Dezembro de 1947, João Cabral do Nascimento publicou um curioso e interessante artigo sobre o Natal madeirense, que além de primar pela eloquência da forma e elegância da escrita, reproduz muito da vida e dos costumes dos madeirenses, antes da segunda metade do século XX.&lt;br /&gt;Começa por referir «que o Natal diz-se que é festa de todos, e, em especial da família; nada, portanto, mais favorável à ideia de colectividade. &lt;br /&gt;«Contudo, na Madeira, o sentimento que ele gera é perfeitamente individualista. Cada pessoa tem o «seu» Natal, isto é, sente-o à sua maneira; e, comungando embora com os demais nessa euforia ecuménica, guarda no íntimo, para si apenas, recordações particulares, anseios próprios, saudades intransmissíveis, um mundo de coisas imponderáveis e inexplicáveis».&lt;br /&gt;Pleno de saudosismo, Cabral do Nascimento interroga-se sobre o que torna tão diferente e especial o Natal que se vive isolado no meio do Atlântico: «- Por ser mais florido, mais tépido? Por ser aquecido por um sol que transluz entre nuvens, e embalado por um mar cor de pérola, que se move sem pressa, como um desdobrar lento de sucessivas folhas de estanho? Por ter festões de giestas e grinaldas verdes de alegra-campo, e fruta da flora tropical, e presépios de conjuntos anacrónicos? Por causa daquele silêncio de chumbo, soturno e opressivo, abafado e elástico, entrecortado aqui e além pelo rebentar dos petardos? Pela circunstância rara de toda a gente ficar de portas adentro, no dia principal, a gozar a sua festa num egoísmo quase feroz que parece excluir toda a ideia de comunicação com o exterior?&lt;br /&gt;«Quando eu nasci ainda havia freiras entre os muros arruinados de Santa Clara e das Mercês, em cujas cercas, à tarde, se abriam as longas campânulas das daturas para espalhar na atmosfera esse perfume insidioso, denso, perturbante, que ao mesmo tempo envenena e delicia. Elas, as monjas velhas, é que em verdade já não tinham este nome: intitulavam-se recolhidas e estavam para ali abandonadas como as pedras dos claustros. Quem diria pertencerem à mesma congregação que no princípio do século anterior festejara o Natal com uma ceia em que se consumiram vinte e três galinhas para um total de trinta bocas, e se gastaram cento e noventa libras de açúcar no confeito de argolinha? Todavia, dali emanavam ainda as melhores espécies de bolo de mel, os segredos do farte e da raspadeira, do cuscuz para o desfeito, dos sonhos pelo Entrudo da Quaresma, da talhada de amêndoa em Quarta-feira de Cinzas, do manjar preto, e do arroz doce em Domingo de Ramos. Extintos os conventos, laicizaram-se as receitas da copa regional. As donas de casa rivalizaram, nesse ponto, com as franciscanas. Mais uma razão para que a quadra festiva decorresse entre penates – e que as ruas, finda a labuta do mercado, tombassem numa sonolência de três dias, sob um sossego morno e extenuante».&lt;br /&gt; E citando Charles Dickens que dedicou belas páginas de prosa ao advento do Menino Jesus, e que comentou que se o Natal «se estendesse todos os meses, o mundo seria bem diverso»; Cabral do Nascimento acrescentou: «diverso sem dúvida, mas também fastidioso. Penso pelo contrário – e sejam quais forem as razões pelas quais se ambiciona, com tamanho afã, esse regresso ao ciclo natalício – penso que o seu maior encanto reside precisamente na circunstância de ser só uma vez em cada ano. Ai de nós, se não esperássemos por qualquer coisa certa ou incerta! Aguardar o Natal constituía para as crianças do meu tempo a mais bela expectativa da sua vida. Quando ele chegava não direi que se produzisse o desengano, mas uma tal ou qual saciedade insatisfeita, por mais paradoxal que isto pareça.&lt;br /&gt;«Das vésperas as festas, diz o rifão. Esta, de que falo, principia com tão complicados e minuciosos preparativos que chega a parecer, no fim de contas, pretexto para reformas domésticas em vez de glorificação duma data célebre. Nas casas, a limpeza a que se procede não exclui a própria caiação das paredes; nos diversos arranjos que se seguem está implícita a substituição das cortinas das janelas e até a modernização dos estofos da mobília. Depois, passando das salas e dos quartos para a despensa e cozinha, vem em primeiro lugar a amassadura dos bolos de mel e a preparação dos licores, em especial de tangerina e amêndoas. Aquela representa uma das mais fortes tradições insulanas, e dir-se-ia inventada por um espírito faceto que porfiasse em misturar os ingredientes mais antagónicos, desde as especiarias – canela, pimenta, noz-moscada, cravinho – ao açúcar, à farinha, à manteiga, à banha. Há na sua confecção como que um ritual: depois de amassado, o bolo, com uma cruz desenhada a toda a sua altura e largura, fica a levedar durante três dias dentro de um alguidar, antes de ser cozido. E por mais estranho que isto se afigure, ninguém, ao comê-lo, terá dúvida em confessar que o acha muito bom.&lt;br /&gt;«Se alguma diferença existe entre estes preparativos do Natal ilhéu e os que se faziam para o enterro de um faraó do Egipto, ela repousa apenas no facto de um Tutacamão ou de um Ramsés durar uma eternidade, em lugar das setenta e duas horas que se precisam para o recolhimento do português da Madeira nas suas festas consagradas ao nascimento de Cristo». (…)&lt;br /&gt;«No interior das casas, como nas capelas das igrejas, o presépio está armado e é mais ou menos igual ao dos anos anteriores: reforçam-no apenas alguns novos pastores de barro policromo e uma ou outra inovação do progresso: automóveis que se dirigem para Belém, ao lado de camelos, locomotivas que projectam, pelas chaminés, fumo compacto de algodão branco, belos e complicados transatlânticos ingleses que sulcam oceanos de areia ou de serradura, mesmo aos pés de S. José e da Virgem Maria. O Menino Jesus tem um ar do século XVIII, veste comprida túnica de seda orlada de rendas e, erguendo a mãozita gordalhufa, toca com um dedo num cacho de bananas de loiça, que está na rocha e que, a despenhar-se, poderia esmagar a um tempo todos os três Reis Magos. Das escarpas fluem águas de vidrilho, entre fetos e avencas naturais, e nos promontórios mais inacessíveis equilibram-se, por milagre, casas de papel com muitos andares e janelas venezianas, e igrejas de altos campanários amarelos e vermelhos. Por toda a parte, nos recôncavos da lapa, sobem e descem pastores e pastoras, em cujos ombros se ostentam cabazes com laranjas, anonas, maçãs, galinhas, patos e perus. Há peixes fora de água, indiferentes à circunstância de se acharem num elemento que não é o seu, e animais de climas antagónicos, reunidos com tanta naturalidade como se estivessem na própria Arca de Noé. Em baixo, sobre a mesa, rodeando a toalha de linho, corre uma fila de searas dentro de xícaras – trigo, lentilha, centeio, milho, alpista; estão verdes e pujantes, mas as raízes, sem terra para se expandirem, já se entrelaçaram de tal modo que formam como que um bloco duro e redondo».&lt;br /&gt;Sempre com muito saudosismo e justeza, depois de discorrer sobre todos os pormenores das limpezas e decorações, acompanhados pela concretização das exigências das provisões de boca, e de descrever a célebre «lapinha»; Cabral do Nascimento salientou o grande zelo de no período natalício vedar-se qualquer contacto com a vida externa: &lt;br /&gt;«O padeiro fornece o pão destinado ao consumo que deva fazer-se no dia 25 e nos seguintes, que têm o nome de oitavas. A carne de porco está de há muito nas salgadeiras, coberta de vinho, vinagre, malagueta e folhas de louro. As hortaliças são constantemente refrescadas, a fim de não perderem o viço. Distribui-se a fruta pelos sítios mais arejados. Tudo se encontra a postos. Desgraçado daquele que se esqueceu de adquirir com antecedência algumas dessas pequeninas coisas indispensáveis ao manejo culinário, um dente de alho, pimenta, sal fino ou grosso. Infeliz de quem, sendo fumador, não teve a previdência de se munir de alguns maços de cigarros, ou de quem, sendo atreito a enxaquecas, não soube precaver-se com um tubo de aspirinas. Fechou-se tudo, após a missa do galo. O silêncio pesa. O céu é cor de cinza. O ar está imóvel. Nenhum pássaro se atreve a riscar o espaço, não adeja nenhuma borboleta, a água não cai nas fontes, o mar não se mexe, o Sol descansa num leito de nuvens opalescentes, os lagartos dormem nas brechas dos muros, os ralos não cantam, as flores sustêm a custo o seu aroma. Só, de quando em quando, um estampido seco, uma bomba de clorato que rebentou mo chão ou um morteiro que se ergueu na atmosfera pasmada».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1954, completamente rendido pelas belezas e requinte das quintas madeirenses, João Cabral do Nascimento publicou na revista «Panorama» nº 9, uma empolgante bosquejo sobre essas maravilhas românticas, com um entusiasmo e uma exaltação, que nos fez lembrar o frémito e intensidade com que também as descreveu e sentiu a grande escritora Maria Lamas, no «Arquipélago da Madeira – Maravilha Atlântica» (1956).&lt;br /&gt;Nascimento principiou por comentar que as deslumbrantes quintas da Madeira «não são propriedades rústicas, terras de semeadura, fazendas, como no conceito geral de quinta, classificam estes largos domínios majestosos; muito menos agregado de casas de diversos donos, na mesma freguesia, segundo a acepção que o termo inculca lá por extensões maninhas de Trás-os-Montes. Não é pomar de laranjeiras, no sentido especial das ilhas açorianas. Não é nada disso, e muito pelo contrário. Os dicionários portugueses ainda não registaram o significado típico, a equivalência particularíssima que esta palavra tomou em território madeirense. Os ingleses, a quem se deve em grande parte as quintas, já diagnosticaram o fenómeno, recolhendo uma interpretação sui generis; «Quinta, a contry house in Madeira», definição que eu encontro, por exemplo, numa das enciclopédias deste século. Não será de grande rigor específico (à parte a localização), isso bem o reconheço, mas aponto o facto para evidenciar como eles surpreenderam a autonomia do termo, destrinçando-o de outras explicações que se lhe podem atribuir na língua portuguesa.&lt;br /&gt;«Uma quinta na Madeira é, evidentemente, um parque. Mas um parque desprovido de todo e qualquer intuito lucrativo, sem fruta, sem caça, alheio à ideia de exploração florestal de que se auferissem benesses com que viver à barba-longa, entregue a mãos mercenárias, com alta cotação nos cadernos do rendimento colectável. Entre uma quinta do continente e outra da Madeira cava-se um abismo mais profundo que o próprio oceano que as separa. Quem as possui, do Minho ao Algarve, é senhor de oliveiras, com seus lagares de azeite e armazéns, é possessor de vinhedos, com a sequente produção de mosto, é proprietário de vastas leiras cerealíferas, com seus alpendres, tulhas, arcas e silos, um ror de coisas prometedoras, estimulantes, ainda quando os anos são maus e as colheitas deficientes. Mas possuí-las na encosta do Monte, na planura da Levada, nos altos e baixos do litoral insulano, é dar-se a um luxo sumamente caro, é empobrecer com grandeza, perder as últimas libras ou os últimos escudos no capricho de manter verde e aveludada a grama dos passeios à custa de tosquias dispendiosas e regas difíceis; é ver fugirem as economias na arquitectura fantasiosa dos jardins, na sombra desinteressada dos grandes plátanos antigos, dos carvalhos tortuosos, das araucárias piramidais; é imolar-se à pura beleza da paisagem, sem outro ganho ou proveito além da satisfação de contribuir para a guarda das tradições aristocráticas e de gozar, na limpidez estática da manhã ou no palor violáceo da tarde, a sinfonia dos melros de portas adentro e o tom e o aroma das glicínias, das daturas, dos jasmins. Se alguma vez alguém, acomodando-se ao adágio popular, conseguiu viver nas suas sete quintas, esse alguém, com certeza, foi um gentil-homem da Madeira».&lt;br /&gt;Sempre utilizando uma linguagem aprimorada, e uma escrita elegante, Cabral do Nascimento passou a descrever o grande papel que as quintas representavam na beleza e na estética do Funchal, e as modificações que lhes foram sendo introduzidas:&lt;br /&gt;«Integradas no panorama do anfiteatro, cada vez em número mais reduzido, ainda assim conservam a dignidade de outros tempos, se é que muitas delas não evoluíram num sentido estético socorrendo-se de outros elementos artísticos fora do reino vegetal, adornando-se de construções de basalto, de pilares de tufo, de grutas e varandas, para se aproximarem ora dos jardins italianos ora dos portugueses setecentistas, sem perderem, na imitação as características próprias. Abriram-se perspectivas de cenário, desbravaram-se alamedas, descobriram-se pontos de vista com a adição de miradouros; nos seus pavilhões, tão adrede baptizados de «casas de prazer», recolheram-se plantas raras, e nos passeios, ladeando-os crescem agora árvores desconhecidas em que desabrocham flores rubras, de tons de fogo».&lt;br /&gt;Cabral do Nascimento finalizou o curioso trabalho sobre as mágicas Quintas da Madeira, realçando a premente indispensabilidade para que sejam tomadas medidas urgentes destinadas a prevenir que estas autênticas maravilhas do património madeirense continuem a ser destruídas e vandalizadas e salienta:&lt;br /&gt;  «- Que seria do ambiente da cidade se um dia as quintas desaparecessem e nos espaços devastados, onde elas deram a nota repousante da sua graça, se erguessem blocos e blocos de construções maciças? Que seria do Funchal se para sempre se dissipassem essas manchas de sombra verde salpicada aqui e além do lacre das begónias, do riso das buganvílias, da frescura das hidrângeas? Uma urbe diversa, estiolada ao hálito morno dum céu baixo e nevoento, parda de lés a lés, invadida até ao mais recôndito da sua alma pelo zumbido uniforme do progresso mecânico, lá onde se calaram os gorjeios das aves e a melopeia embaladora dos repuxos.&lt;br /&gt;«Não, as quintas da Madeira, de nomes estrangeiros ou portugueses, longas e largas de muitos hectares ou retraídas e enclausuradas entre altas paredes musgosas, as quintas de tão pura estirpe hão-de viver sempre como fulcro da paisagem, disciplinando a natureza bravia. Delas depende o panorama que estamos habituados a contemplar – um panorama tranquilo, apaziguador, igual nas suas transformações, como deve ser a própria Eternidade».&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-510412261684640273?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/510412261684640273/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-cabral-do-nascimento.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/510412261684640273'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/510412261684640273'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-cabral-do-nascimento.html' title='A  Madeira na Obra de Cabral do Nascimento'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S33brRsSVII/AAAAAAAAADw/MIVHnRygv6c/s72-c/Cabral_Nascimento.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-5398424311266668572</id><published>2010-02-11T00:33:00.001Z</published><updated>2010-02-11T00:38:08.584Z</updated><title type='text'>A Madeira na Obra de António Nobre</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NRaw98IHI/AAAAAAAAACs/CsEN76ZxRDc/s1600-h/Antonio+Nobre.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 212px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NRaw98IHI/AAAAAAAAACs/CsEN76ZxRDc/s320/Antonio+Nobre.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5436778695429464178" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;António Nobre nasceu na cidade do Porto em 16 de Agosto de 1867, e amargurado pela tuberculose, faleceu na Foz do Douro, em 16 de Março de 1900.&lt;br /&gt;  Escreveu os primeiros versos com apenas 14 anos de idade, e aos 16, juntamente com seu irmão Augusto e outros jovens amigos, colaborou em diversos jornais e revistas do Porto, e pouco depois com a tertúlia literária dos Nefelibatas.&lt;br /&gt; Em 1883, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde foi um dos principais impulsionadores do grupo literário a Boémia Nova; tendo-se tornado notado pelos inconsequentes idílios amorosos, pelas excentricidades no vestuário, e por certa megalomania, aliada a um exacerbado narcisismo de raiz pequeno-burguêsa. &lt;br /&gt; Após o desgosto por ter reprovado dois anos seguidos no curso jurídico - facto que  determinou que tivesse de abandonar a sua Coimbra sem par, flor das cidades – António Nobre foi viver em Paris, onde terminou o curso de Direito na Sorbonne.&lt;br /&gt; Concorreu, depois, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, tendo sido admitido na carreira diplomática, mas por já estar muito doente, não chegou a ser nomeado para qualquer posto.&lt;br /&gt;Em vida, o poeta publicou O Só (1892); e, posteriormente, vieram a lume Despedidas (1902), onde se encontram oito sonetos e três outras poesias escritas na Madeira, Primeiros Versos (1921), Cartas Inéditas (1936), e Cartas e Bilhetes-Postais a Justino Montalvão (1956). &lt;br /&gt;A partir de 1895, a tuberculose declarou-se abertamente em António Nobre, que numa via-sacra de doente inconformado, em 1896, tentou curar-se em Clevedel, STºJoham e em Platz; em 1897, nas cidades de Berna, Lausana, e Villeneuve; em 1898, na Foz, Baltimore e na Ilha da Madeira, sendo que, finalmente, em 1899, voltou a tentar a cura em STº Joham e em Platz. &lt;br /&gt;Foi durante todo esse período que o poeta, depauperado pela doença, muito deprimido e cada vez menos esperançado na cura - se identificou com a amarga conjuntura económica, política, social de Portugal, e escreveu alguns poemas de índole sebastianista; embora sem a convicção e a persistência do seu amigo Sampaio Bruno, o que bem demonstra que apenas teria sido motivado, momentaneamente, pela sua dramática situação pessoal.&lt;br /&gt;De forma breve, embora conscientes que analisamos um dos mais complexos escritores nacionais, acrescentaremos que após a publicação do Só – a sua obra-prima e único livro publicado em vida – António Nobre passou a ser considerado o percursor da moderna poesia portuguesa, e tornou-se muito consagrado pelas suas características de poeta inovador, criativo e original, além de ter sido detentor duma extrema sensibilidade, e dotado de grandes capacidades para criar emoções intensas e vibráteis.&lt;br /&gt; Alguns autores tecem-lhe acerbas criticas por se ter debruçado, com insistência, sobre aspectos mórbidos, fatalistas e macabros, e até pela sua atracção por gostos e estilos decadentes. Todavia, há que lembrar que nas últimas décadas do séc. XIX, foi moda na literatura portuguesa utilizarem uma estética decadentista, circunstância que terá influenciado, alguns poemas do Só, embora minimamente.&lt;br /&gt; Deste modo, não temos dúvida em afirmar que a maioria das poesias desse famoso livro, nomeadamente as escritas em Paris, por vezes num tom de diário íntimo, caracterizam-se pelo predomínio dum saudosismo prenhe de lusitanismo, e até por certos laivos do neogarretismo também muito em voga na época. Daí que Vitorino Nemésio tivesse afirmado, muito justamente, não haver livro mais nosso do que o Só, nem poeta mais português do que António Nobre.&lt;br /&gt;Outra característica marcante do poeta, foi o realismo com que descreveu a sensibilidade, as crenças e os costumes populares nortenhos. Por esse facto, Oscar Lopes referiu «que o povo tem para António Nobre uma apetência e um parentesco, como o de uma ama cujo leite não tivesse, apesar de bom, conseguido revigorá-lo; ou como o de um irmão colaço e pobre, mas rijo, por via dessa mesma ama».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a conselho dum médico amigo e na ânsia de debelar a doença, que o nosso poeta procurou na Madeira remédio para o seu mal do peito. Os seus companheiros madeirenses Dr. Mark Athias, médico em Lisboa, e Alfredo de Freitas Leal, ainda aluno da faculdade de Direito de Coimbra, deram-lhe boas informações sobre a Ilha e a fama do seu clima para o tratamento da tuberculose. Falou também num jantar de confrades que o poeta Gomes Leal, certamente, louvou a terra dos seus pais, onde se curara, e passara os dias mais felizes da sua vida, como lembrou na velhice.&lt;br /&gt; Deste modo, António Nobre, desembarcou na Madeira por altura do Entrudo de 1898, onde permaneceu cerca de dezoito meses. Em carta escrita ainda em Lisboa, para o seu amigo e confrade Justino de Montalvão, datada de 28 de Janeiro de 1898, noticiava:- Columbano está a pintar o meu retracto, e quer esmiuçar o trabalho, de modo que poucas faltas tenho dada à pose. Está admirável.&lt;br /&gt; De seguida informa que embarcaria para o Funchal no dia 1, no paquete Hildebrand, acrescentando:- parto um pouco à socapa para evitar que os jornais noticiem – pois sabes a ilha da Madeira tem a mesma fama que a Suiça. (...) A minha adresss será apenas Funchal-Madeira. Devo prevenir-te que os paquetes regulares, (isto por causa da correspondência,) são nos dias 5 e 20 de cada mês de Lisboa. Há outros ainda que não se podem prever com antecedência. É verdade: há também o D.ª Amélia lá de longe em longe.&lt;br /&gt;Todavia, três dias depois, em nova missiva, informava a esse amigo que o vapor retardado, só partiria 5ª feira, às 3 da tarde, e que afinal embarcaria no Moçambique; mas rezam as crónicas que acabou por viajar no Cazengo comandado pelo capitão Barros. &lt;br /&gt;A título de curiosidade podemos confirmar que o célebre pintor Columbano terminou, efectivamente, o retracto do poeta, o qual chegou a ser mostrado na 8ª exposição do Grémio Artístico de 1889, mas segundo nos parece essa obra nunca mais foi reencontrada. &lt;br /&gt;   Da maneira muito peculiar como recriou os cenários e ambientes vividos pelas personagens que estudava, o advogado e historiador madeirense Ernesto Gonçalves, no ensaio Portugal e a Ilha, lembra que na época em que António Nobre desembarcou no Funchal, «ainda estavam de pé, na sua soberba solidez à prova dos séculos (não do homem) duas das portas da cidade que fora amuralhada: - a maioral, a dos Varadouros, nobre e severa como a dum castelo, dir-se-ia fundida no bronze dos canhões, e a da Rua dos Aranhas, recatada, abrigava o sono de algum pobre sem amparo. Em frente do Palácio de São Lourenço, para a banda do mar, fazia-se ostensivo o progresso local, hílare de modernismo na Praça da Rainha, com quiosques de estilo árabe, (fornecimento de bebidas finas e sorvetes…) e, a meio, um coreto catita, todo de ferro, para funçanatas filarmónicas, às vezes, música clássica, puxada a fôlego, regalo de apreciadores solenes. Ao longo da praia, pousavam barcos verdes, desde os de pesca às canoas, esbeltos e de leme sagaz, e tão ágeis como as veleiras caravelas da ilha, fabricadas de lenhos primitivos» …&lt;br /&gt;Já na cidade, numa terça-feira do Carnaval de 1898, com muito entusiasmo, António Nobre escrevia a Justino Montalvão, comentando:- a Madeira é um encanto. Ilha dos Amores, a Verdadeira. O ar delicioso parece feito de flores. Olha que vale a pena um passeio até cá. A minha chegada foi o acontecimento na terra. Não me julgava, tão célebre. (...) Como é Entrudo, as meninas de cá, lindas e finas por sinal, vieram em grupos de mascaradas visitar-me e, logo da entrada da porta, gritavam – Onde está ele? - o poeta, o poeta. Todas me pedem para que deixe crescer bigodinho o que não pode ser. Mãos nas mãos, enfim puro Canto VII dos Lusíadas. É o que te eu digo, estou na Ilha dos Amores e faço agora as vezes do bom Gama.&lt;br /&gt; O escritor Feliciano Soares, do Instituto de Coimbra, acrescentou um toque romântico a este episódio, referindo que fazia parte desse rancho uma rapariga de pequena estatura, fresca como o ar da madrugada, magrinha como o escritor, e que mais tarde também morreu tuberculosa. «O poeta fala-lhe de perto. Ele encanta-se. Ela sente-se lisonjeada e diz como na Purinha: Quem me dera ser alta como a Torre de David; e logo o poeta respondeu: mas és magrinha como o choupo onde se enlaça a vide...&lt;br /&gt;António Nobre finda a carta endereçada a Montalvão, informando que na casa onde se hospedara encontrou o pai do seu amigo e médico Dr Mark Athias, e o Conde de Resende, cunhado de Eça de Queiroz e casado com uma madeirense, que lhe pareceu um homem muito simpático e inteligente. Conversamos muito, ele é muito lido. Também aqui está uma minha Pobre Tísica. Mal eu diria! É uma irmã do D. Caetano de Bragança, que vivia no Convento das Comendadeiras de Santos. Conheces? Tem 23 anos, coitadinha!; e chamava-se Maria José de Portugal e Castro. No Funchal, pela fama que tem a ares do Mar, também deparou se com o seu camarada portuense Nuno de Brito da Cunha e com o pintor Julião Machado, que tinha conhecido em Paris, ambos muito doentes.&lt;br /&gt;Quando chegou à Madeira, e tal como tinha planeado, o poeta hospedou-se no Quinta Vitória Hotel, que pertencia à inglesa Sheffield, situado no Funchal na Rua da Imperatriz Dª Amélia, que era um razoável estabelecimento hoteleiro, com confortáveis instalações para vinte e cinco hóspedes. Foi também visita do Bispo e do Governador, a casa de quem, por vezes ia tomar chá.&lt;br /&gt;  Nos seus passeios pelos arredores passava quase todas as tardes na Quinta Almeida onde, segundo refere Feliciano Soares, «residiam as senhoras Nizas (Teles da Gama), e depois na Quinta da Penha para onde as mesmas ilustres senhoras se passaram». Em consequência dessas amiudadas visitas, António Nobre apaixonou-se por Dª Constança Teles da Gama, filha dos marqueses de Niza, a qual foi a última grande paixão da sua vida, com quem se correspondeu até morrer, e que lhe inspirou muitos poemas. &lt;br /&gt; Seria talvez, essa débil e jovem fidalga que lhe inspirou um dos mais belos sonetos das Despedidas, escrito na Ilha dos Amores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                      Sofrer calada as suas próprias dores&lt;br /&gt;                                      E chorar como suas as dos mais,&lt;br /&gt;                                      Tal a Rainha do seu nome, em flores&lt;br /&gt;                                      Transforma pedras e em sorriso ais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                       A toda a parte leva o sol e amores,&lt;br /&gt;                                       É a Saúde dos Enfermos nos Casais;&lt;br /&gt;                                       E, no mar-alto, os velhos pescadores&lt;br /&gt;                                       Invocam-na entre espumas e temporais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                        Quem será ela, tão piedosa e doce!&lt;br /&gt;                                        Com uns tais olhos que não tinha visso.&lt;br /&gt;                                         Será a Virgem! Oxalá que fosse!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                         Qh! flor mais bela do jardim d’esta Ilha!&lt;br /&gt;                                         Fora outrora, talvez, filha de Cristo,&lt;br /&gt;                                         Se Cristo houvesse tido alguma filha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Alguns meses depois de assentar na Madeira, António Nobre morou, durante mês e meio, na parte alta de Santo António, numa casa descrita por Adolfo César Noronha «como térrea, muito humilde, rodeada de vinha e de outros plantios, a Oeste do Trapiche, quase no Boliqueme»; onde conviveu com a família da Condessa de Cascais que também ali esteve durante algum tempo. Lá existia uma nespereira que, um temporal derrubou há anos, na qual o poeta gravou na base do tronco o seguinte verso do Só: sede de imensa luz, como a dos pára-raios.  &lt;br /&gt;Todavia, a saúde do escritor continuava a piorar; e em carta escrita a 18 de Abril de 1898, lamenta a Justino Montalvão:- tenho estado muito doente com uma pleurisia: três semanas de cama sofrendo e apenas há alguns dias me levanto trémulo, convalescente... Dias bem tristes! O Conde de Resende, unicamente, por companhia, e uma hora cada dia: as restantes, só. Ler, apenas jornais. Os da terra, muito ingénuos, que de Ulyssipo nenhum recebo. Agora que eu andava com fome de leitura! Voltaire, Rousseau, vieram cair-me às mãos e nunca mais os larguei. Foi a pleurisia que mos veio tirar. Não imaginas como Voltaire é grande e divertido. A erudição que nos seus livros tenho colhido é já bastante e espero regressar ao Continente todo encadernado em sabedoria... Rousseau, já conhecia um pouco. Só daqui a uma temporada poderei de novo, com licença do doutor, recomeçar os meus estudos. Que vontade de estudar eu tenho agora!&lt;br /&gt;Mostra-se ainda muito entusiasmado com a segunda edição do Só, que acabara de receber, e anota:- não suponha nada que fosse ilustrada a cores, de modo que me encantou. Os roxos, os azuis, e os vermelhos são finos, têm um pouco de mistério. Os motivos, sabes, não é verdade? Não eram todos do meu gosto: trop nationaux! Mas agora, no livro tudo esqueço, para te dizer que acho a edição muito bonita.&lt;br /&gt; Termina como em quase todas as suas cartas, evocando que nunca esqueceu a sua inglesa, e lastima:-  Mas há muito que não sei dela: a dificuldade de correspondência. Simpática que era!&lt;br /&gt;Apesar dessas pequenas alegrias e compensações, o certo é que, impiedosamente, a tuberculose debilitava cada vez mais o poeta. Em 25 de Maio desse ano, António Nobre volta a escrever ao mesmo amigo, confidenciando:- tenho melhorado um pouco e desejo voltar a Portugal agora, e para Leça, que não sei se por sintoma de velhice me lembro continuamente, como um regresso à infância. E depois de dissertar sobre a obra de alguns escritores, e comentar a vida literária nacional, assevera ainda um pouco esperançado:- antes de retornar ao Continente planeio ir até à Guiana Inglesa, lá perto de onde anda a guerra. Vou num Voilier, de modo que será longa a viajem, 3 meses, mas penso que os ares do mar me farão um bem enorme à saúde. Levo livros, muitos livros e o Regresso para o completar: desta vez sempre irá.  &lt;br /&gt;Em 30 de Outubro de 1898, de novo António Nobre escreve a Montalvão, queixando-se do atraso das cartas do amigo a presentea-lo com notícias do Continente e da querida Baby. Ainda com uma réstia de esperança, confessa que se tem lembrado das lindas praias nortenhas; e acrescenta: - também não esqueci completamente a minha Inglesa, nem do Passeio Alegre, nem da velha Carlota. Tu estranhas que eu não tivesse partido, visto estar já bom... Não estou tal bom. A minha doença segue a sua evolução, a que eu assisto, e vai felizmente em melhor caminho. Mas, se Deus quiser, só em Maio próximo irei aí.&lt;br /&gt; Acaba esta missiva voltando a pedir, encarecidamente, notícias, sobretudo literárias, e confessando:- não tenho mais pachorra para falar em estados d’alma – humanizei-me muito e, por isso, sou agora curioso. Satisfaz-me. Conta-me da Inglesinha, do hotel Mari Castro, do Passeio Alegre: os doentes são todos assim.&lt;br /&gt;Feliciano Soares refere que, nessa época, sobretudo nos momentos aflitivos, o poeta já afirmava que «a Madeira era péssima para o seu temperamento». Apesar disso, António Nobre nunca abandonou os habituais amores platónicos; e divertia-se na Ilha, juntamente com Domingos Teles da Gama, praticando diabruras infantis contra um vizinho da casa de Santo António, para depois gozarem, à boa maneira coimbrã, com as birras e zangas desse agricultor. «Nas tardes quentes, era também em sociedade com aquele amigo que ia para a cidade, tomar sorvete – nada recomendável para o seu estado. Deixavam tudo, esperavam a primeira corsa que passasse, e para ela saltavam, vindos ambos de pé, por essas ruas fora, em equilíbrios difíceis, e, contentes, riam da sua aventura».&lt;br /&gt; Naqueles dias, Nobre escreveu um madrigal dedicado às madeirenses, que esteve na posse de Dª Joana Abudarham da Câmara, no qual entoava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   São as Meninas da Ilha da Madeira&lt;br /&gt;   Ternas, graciosas, pálidas, ideais.&lt;br /&gt;   Fica- se doido, vendo-se a primeira,&lt;br /&gt;   Doido se fica se se vêem as mais,&lt;br /&gt;   Qual é a mais bela da Ilha da Madeira, &lt;br /&gt;    se são todas iguais?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 25 de Janeiro de 1999, o poeta tornou a escrever a Justino Montalvão noticiando que o fazia de mão trémula, pois encontrava-se em convalescença duma grave congestão pulmonar. Passei no leito as minhas Boas Festas do Natal, e saí da cama (embora não para a rua) no dia de Ano Bom. Estou muito aborrecido da Madeira: ansioso para que chegue Maio para abalar para aí. Partiria ainda mais cedo se não fosse o receio de súbita mudança de temperatura. E isto, principalmente por constar se ter descoberto um remédio definitivo para esta doença. &lt;br /&gt; Fala sobre a actividade literária do amigo, a favor de quem informa que tinha escrito, uma carta de recomendação a Mariano Pina; e de seguida lamenta:- de saúde não me sinto famoso - este clima das Ilhas, é mole e húmido, o que não vai comigo.&lt;br /&gt; Termina a missiva muito agastado por uma crítica agressiva que Júlio Brandão lhe teria feito num jornal continental; ameaçando:- quando aí chegar, tu me dirás qual bengala preciso usar, a ser preciso.&lt;br /&gt;Cada vez mais enfraquecido, voltou a escrever-lhe, em 22 de Abril desse ano, referindo que estava desolado e sentia-se bastante mal. Mas conseguiste fazer - me rir e reanimar-me um pouco. Que graça achei a tudo isso! Às pernas de vitela, às colchas de damasco, aos abades, aos regedores, às regueifas! Muito pitoresco e eu, doente, muito doente, a respirar este ar da Ilha, que só tarde o soube, me ia fazendo o pior possível. Detestável clima! Quando Portugal vale mais! Mas não sabes ainda? Sigo hoje para Lisboa, daqui a três horas. Vou no Cabo Verde e esta carta vai comigo.&lt;br /&gt;Já na capital, no dia 3 de Julho de 1899, António Nobre tornou a escrever a Justino Montalvão, triste pelo amigo não ter podido esperá-lo no cais de desembarque. Habituado das mais vezes, dos outros meus regressos, a encontrar-te sempre o primeiro ao meu lado e, agora, só, só, só! Á vista te contarei quanto me tem acontecido, desde que cheguei da Madeira, e os sítios, nos arredores de Lisboa, onde procurei assentar a minha tenda de Beduíno errante». Cita ainda Taine para invocar que só conhece a vida quem um dia esteve à beira do suicídio, ou da loucura, (...) talvez um amor me retenha, me dê coragem para a Vida. O que me têm feito! O que me tem acontecido! Todos a fugirem da minha tosse... Deus castigou-me. Vou para o Douro. Deus me dê forças! Conversaremos, na Foz. Abraça-te o teu amigo, António.&lt;br /&gt;A doença prostrava cada vez mais o poeta, e o desespero era dramático, como confirma um poema, de sabor nostálgico, escrito no Funchal, e que transcrevemos das Despedidas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Vários poetas vieram à Madeira.&lt;br /&gt;   (Pela fama que tem) a ares do mar:&lt;br /&gt;   Uns pr’a breve voltarem à lareira,&lt;br /&gt;   Outros, ai d’eles para aqui ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,&lt;br /&gt;   Morrer nesta ilha não deve custar,&lt;br /&gt;   Mas para mim sempre é terra estrangeira.&lt;br /&gt;   Á minha pátria quero, enfim, voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Ilhas amadas! Céu cheio de luas!&lt;br /&gt;   Ah como é triste andar por essas ruas,&lt;br /&gt;   Pálido, de olhos grandes, a tossir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Eu vou-me embora, adeus! Mas volto a vê-las,&lt;br /&gt;   Vou com as ondas, voltarei com elas,&lt;br /&gt;   Mas com elas, p’ra tornar a ir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inexoravelmente, tudo se encaminhava para que no dia 16 de Agosto de 1867, António Nobre perdesse a vida, com apenas 33 anos - a mesma idade com que Cristo expirou na cruz. O seu irmão Dr. Augusto Nobre, refere:- «nos últimos meses veio para o Porto, ainda foi para o Seixo, a nossa aldeia, donde partiu, então, malíssimo, já ao colo. Voltou à Foz. Na véspera do António morrer, estive com ele até tarde, deixando-o bem disposto. No outro dia de manhã, fui vê-lo. Era tal o seu estado, que fazia doer a alma. Parecia que estava à minha espera. Abraçou-me e sem agonia, sem um movimento aflitivo, deixou-nos para sempre». Na antevéspera ainda escrevera:- incharam-me os pés e as mãos, perdi, de todo, o apetite e sustento-me de leite, de manhã e, pelo dia adiante, duma colher de sopa de Madeira.&lt;br /&gt;Seria, assim, o generoso vinho da Ilha da Madeira, o seu último alimento. Também os madeirenses, nunca esqueceram aquele poeta gentil, talentoso e infeliz, que deambulava pelas ruas do Funchal, pálido, de olhos grandes, a tossir e a quem chamavam O Messias da Poesia Moderna.&lt;br /&gt; Em 1927, a Câmara Municipal deliberou dar o apelido do escritor ao jardim junto à Ponte do Ribeiro Seco; e em 1941, a cidade do Funchal voltou a homenagear António Nobre, com um ciclo de conferências sobre a sua obra, e inaugurando a estátua em bronze do busto do poeta, que foi levantada nesse jardim que lhe ostenta o nome.&lt;br /&gt; Na cerimónia da implantação daquele monumento, o académico Feliciano Soares terminou a calorosa conferência de homenagem a António Nobre, exclamando:- «tu és também desta terra ó poeta da Bondade quase Santa, porque esta Ilha é Portugal, mesma é a bandeira.&lt;br /&gt; E, muito emocionado, enfatizou:- «Quantos dos que passam, não virão, agora, aqui, rezar a Ladainha das Dores e das Saudades, no teu missal – O Só».  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Mas tende cautela, não vos faça mal...&lt;br /&gt;   Que é o livro mais triste que há em Portugal!...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-5398424311266668572?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/5398424311266668572/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-antonio-nobre.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/5398424311266668572'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/5398424311266668572'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-antonio-nobre.html' title='A Madeira na Obra de António Nobre'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NRaw98IHI/AAAAAAAAACs/CsEN76ZxRDc/s72-c/Antonio+Nobre.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-3883764122811392964</id><published>2010-02-11T00:27:00.001Z</published><updated>2010-02-11T00:33:14.475Z</updated><title type='text'>A Madeira na Obra de Júlio Dinis</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NQQ82qIII/AAAAAAAAACk/pBfSlEid1zg/s1600-h/Julio+Dinis.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 256px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NQQ82qIII/AAAAAAAAACk/pBfSlEid1zg/s320/Julio+Dinis.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5436777427309830274" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Júlio Dinis – pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho – nasceu no Porto em 1839, e aí faleceu a 12 de Setembro de 1871; sendo filho do cirurgião José Joaquim Gomes Coelho e de D.ª Ana Constança Potter.&lt;br /&gt;Estudou medicina na Cidade Invicta, tendo chegado a Professor da Escola Médico-Cirúrgica dessa urbe. Todavia, minado pela tuberculose, cedo interrompeu a carreira científica e pedagógica, dedicando-se a escrever Contos, Romances, Poesia e até Teatro.&lt;br /&gt;Relacionado com a colónia inglesa do Porto, de quem descendia por parte da família da mãe, desde cedo conheceu, estudou e aprofundou a novelística de Charles Dickens e as obras literárias doutros escritores britânicos, nomeadamente, de Goldsmith, Fielding, e Jane Austen.&lt;br /&gt; Esse gosto pela literatura inglesa, e o facto de ter vivido no período da ascensão e afirmação do liberalismo, explicam, em grande parte, que além de burguês assumido, Júlio Dinis seja considerado o escritor português que fundou o romance moderno no nosso país. Na realidade, Alexandre Herculano não hesitou em classificar As Pupilas do Senhor Reitor «como o primeiro romance português do século XIX»; e no mesmo sentido, António José Saraiva escreveu que Uma Família Inglesa foi, «em data, o primeiro romance moderno português bem realizado».&lt;br /&gt;Apesar do escritor ter falecido com apenas trinta e dois anos de idade, deixou uma vasta obra literária, tendo publicado em vida As Pupilas do Senhor Reitor (1866), Uma Família Inglesa (1868), A Morgadinha dos Canaviais (1868) e Serões na Província (1870). Depois da sua morte foram ainda editados Os Fidalgos da Casa Mourisca (1872), Poesias (1873), Inéditos e Esparsos (1910), Teatro Inédito (1946) e Cartas e Esboços Literários (1946). &lt;br /&gt;Embora muitos autores classifiquem Júlio Dinis como um escritor de transição entre o Romantismo e o Realismo, somos de parecer que o conjunto da sua obra evidencia predominantes características realistas. Realista pelo grande rigor com que descreve os factos, os costumes, as crenças e os ambientes exteriores da cidade e do campo. Realista pela clara vocação para caracterizar psicologicamente os sentimentos, as paixões, os estados de alma e o subconsciente das suas personagens. Realista também pela naturalidade e simplicidade dos seus diálogos, despidos de declamações líricas, de barroquismos ou doutras figuras de estilo. Realista pela coerência da sua moral burguesa, humanitária e filantrópica; e realista ainda pela especial atenção que dedicou à crítica de grande parte do clero, bem como à denúncia da corrupção e da cupidez praticada pela maioria dos políticos.&lt;br /&gt; Aliás, o próprio escritor refere nos Inéditos e Esparsos que a verdade lhe parece ser o atributo essencial do romance bem compreendido. Verdade das descrições, verdade dos caracteres, e verdade na evolução das paixões e da intriga, o que bem revela a sua inclinação para o modelo realista. Porém, é certo que Júlio Dinis levou ao extremo o optimismo e a delicadeza moral das suas personagens, amputando da sua obra os grandes vícios, os cenários eróticos, as vilezas e as perversões dos pecadores. Simplesmente, isso apenas ocorreu porque esses temas não lhe agradavam, e nunca por imperativos estilísticos ou literários. Daí que em 1869, Júlio Dinis referisse com grande convincção:- nos meus romances não há indivíduos caracterizadamente maus. Não tenho pintado crimes, quanto muito vícios. Tanto eu me deleito em conceber um carácter que simpatize, em o encarar por todas as suas faces para as pôr em evidência aos olhos dos leitores, em vê-lo em acção e harmonizar o diálogo com esse carácter; quanto me repugna e enfastia demorar o pensamento em um tipo antipático, em um carácter revoltante, em uma dessas criaturas em cuja contemplação a alma se enoja ou indigna.&lt;br /&gt;Todavia, apesar desse predominante gosto pelo realismo, restam na obra de Júlio Dinis certas pitadas de romantismo, nomeadamente quando o escritor se intromete na acção dos romances para manifestar as suas opiniões pessoais, comparando-se com as personagens, e ainda quando em ligação com os sentimentos utiliza uma excessiva coloração bucólica da natureza; ou até mesmo quando exagera e se excede numa visão cor-de-rosa do mundo, ou numa fácil e enganadora felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tuberculose pulmonar que já tirara a vida da mãe e de dois irmãos do escritor, muito cedo também começou a destruir-lhe o débil organismo. Em procura de melhoras deslocou-se à Madeira desde Março a Maio de 1869, altura em que ganhou alento para começar a escrever Os Fidalgos da Casa Mourisca. Voltou ao Porto, mas sentindo-se pior, tornou a embarcar para a Ilha, onde viveu de Outubro de 1869 até Maio de 1870. Como a tuberculose não cedesse, refugiou-se novamente no Funchal, em Outubro de 1870, donde em Fevereiro de 1871, informou que tinha estado muito doente; e desafogava:- uma verdadeira tempestade de nervos caiu no meu organismo e mo pôs em completa anarquia. Emagreci, quase me desconheço quando, ao pentear, me vejo.&lt;br /&gt; Cada vez mais desesperado, noutra carta escrita na Madeira em Abril de 1871, manifestou a resolução de aguardar tranquilamente o Outono nalgum buraco dos subúrbios do Porto. E seja o que Deus quiser...            &lt;br /&gt;Nos períodos em que viveu no arquipélago madeirense, Júlio Dinis observou e relatou com alguma minúcia as paisagens, os ambientes e os costumes ilhéus. Numa carta literária escrita no Funchal, em Março de 1870, começa por referir que partiu para a Madeira com a alma oprimida, em virtude de estar cada vez mais debilitado pela terrível tuberculose, pelo que não serão alegres e risonhas as tintas com que pintará a ilha. Acrescenta ainda que as viagens, esse sonho doirado que tanto seduz a imaginação da mocidade, ansiosa como ave prisioneira, por alargar horizontes, transformam-se em amarga proscrição, sempre que as empreendermos forçados por uma triste necessidade, e partimos levando o espírito assombrado por um pressentimento doloroso. O próprio mar, esse imenso foco de melancolia, acaba por escurecer-nos o pensamento, e apesar da sua grandiosidade, o oceano é um desconsolado companheiro para a alma naquelas disposições.&lt;br /&gt;Todavia, quando ao amanhecer de um desses dias melancólicos e desoladores, se avista além, muito além do horizonte uma sombra mal distinta, saúda-se essa sombra como uma promessa de redenção. È a Madeira que se ergue e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas naturais, revelando-se, enfim, tal qual é, entre o azul do mar e o azul do céu. Então a melancolia dissipa-se e o espírito engolfa-se no regaço de verduras da formosa ilha, que crescia para nós a receber-nos, abrindo o seio benéfico e maternal aos desconfortados que nela só depositavam as suas derradeiras esperanças.&lt;br /&gt;Pouco depois, o escritor já descortina claramente a terra, e quando o vapor dobra a ponta de São Lourenço, transpondo o amplo pórtico que ela forma com o grupo das penhascosas Desertas, exclama entusiasmado:- sente-se uma súbita mudança de clima, como se de repente se tivessem vencido muitos graus de latitude. Afagam-nos a face a brisa tépida e perfumada da ilha, aspiramos com prazer o hálito acalentador e salutífero desta fada marítima; achávamo-nos sob o seu abençoado encantamento, reconhecíamos enfim a Madeira.&lt;br /&gt;A costa sul da ilha ia-lhe passando em revista, com as suas rochas escarpadas, as suas ribeiras profundas, a sua vegetação vigorosa, as suas formidáveis quebradas, os altos picos onde poisam as nuvens, os vales fertilíssimos e as povoações graciosas. Enfeitiçado, Júlio Dinis descreve a mágica sensação de dobrar a ponta do Garajau e contemplar as casas e as quintas do Funchal iluminadas por um esplêndido sol de Outono, que doirava as extensas plantações de cana. (...) A magia do espectáculo emudecera-nos. De um lado o mar, do outro as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade sorrindo como a criança adormecida entre os pais, que a defendem e acalentam.&lt;br /&gt;Ao desembarcar, o encanto quebrou-se um pouco, pois o escritor sentiu a falta dos areais alvejantes das praias continentais, em cujas penhas se formam aquários naturais, onde o sol se espreguiça e tudo ilumina, pelo que comenta, constrangido:- afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra formada de calhaus roliços, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais que são o principal atractivo da beira-mar. Esta pedra escura parece conservar ainda evidentes vestígios do cataclismo vulcânico que a arremessou à superfície das águas, e comprime o coração.&lt;br /&gt;A cidade também inspirou a Júlio Dinis uma sensação de melancolia. Por isso mesmo que é generosa consoladora de tantos aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e que de toda a parte do mundo correm a abrigar-se no seu calor salutar. O Funchal é a alegria da caridade, onde sentimos uma serena comoção. Ó Funchal! Que tristes dramas se têm passado à luz do teu sol benéfico! Que de lágrimas ardentes caídas no teu solo sequioso, que se apressa a escondê-las discreto! &lt;br /&gt;Deprimido pela doença, o romancista refere que o carácter triste da cidade avulta aos primeiros passos no interior dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras pálidas, emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transportadas em redes, encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa meditação, ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia. São ingleses cadavéricos, alemães diáfanos, portugueses descarnados, brasileiros, norte-americanos, russos. São velhos, adultos, crianças, vaporosas belezas femininas de toda a parte do mundo; todos a convencer-nos que estamos na «citta dolente», onde à entrada revestem-se de esperança os próprios condenados.&lt;br /&gt;Numa carta escrita no Funchal, em 5 de Abril de 1869, para o seu primo José Joaquim Pinto Coelho, Júlio Dinis anota que ficou muito impressionado e constrangido, quando viu passar nas ruas funchalenses o Francisco Luís Gomes. Imagina tu um esqueleto, no rigor da palavra, alto, esquio, as pernas a vergarem-se-lhe sob o peso do corpo, a roupa a flutuar-lhe, a cor de cobre própria dos índios, os dentes descarnados e salientes. Faz medo, coitado! Ninguém dirá que está ali um homem de inteligência.&lt;br /&gt;Afim de aliviar a neurastenia e a depressão, o escritor reconhece que era aconselhável subir às montanhas e passear pelo campo, mas para tanto sentia algumas dificuldades. Como tal, numa missiva endereçada a Custódio Passos, em 5 de Maio de 1869, refere que embora na Madeira a natureza seja soberba e repousante, não era fácil um doente deslocar-se para fora da cidade. Passeios a pé são impraticáveis graças às pavorosas subidas que por toda a parte se encontram. A rede não é tão cómoda como parece; e os carros sem rodas não podem vencer todos os caminhos. Depois um homem habitua-se como aí no Porto, a dar todos os dias a mesma volta e acabou-se...&lt;br /&gt;Mas, apesar de continuar muito deprimido, na referida carta literária de Março de 1869, Júlio Dinis elucida que toda a tristeza e melancolia são compensadas pela grande simpatia que os doentes pulmonares inspiram aos madeirenses, simpatia tão forte que se sente poder substituir os doces afectos da família. E afirma: - Pessoas que nunca vos falaram, que não conheceis, seguem passo a passo, com sincero interesse, os progressos das vossas melhoras ou as alternativas do vosso padecimento. (...) Rara é a família que, levada por generosa curiosidade, se não informe com o médico que a visita ou com os proprietários dos hotéis, do estado dos estrangeiros doentes. Uma cura operada é um triunfo e todos a conservam na tradição gloriosa, com muito orgulho, e como se tratasse do principal brasão da terra.&lt;br /&gt; Além de simpáticos, o escritor refere que os insulares são muito amáveis, ao ponto de ter bastado que, um amigo o tivesse recomendado a um madeirense, para que, de vez em quando aparecesse em casa um ou outro indivíduo oferecendo os seus serviços. As senhoras, além de formosas, condescendem muitas vez em animar a alma desolada dos solitários enfermos com o raio vivificador dos seus olhares magnéticos. Amoráveis, algumas acalentam esses amores que elas bem sabem sem futuro, e iluminam os últimos dias de uma triste existência com a doce luz do mais casto e imaculado afecto. (...) Anjos adoráveis, às vezes sob a influência do vosso amor voltam as cores às faces desmaiadas, um sangue novo circula nas veias exauridas, e por um milagre de afecto renasce para a vida o que a ciência já condenara.&lt;br /&gt; Nas diversas cartas escritas da Madeira para os amigos e familiares, Júlio Dinis também refere o ameno e privilegiado clima do arquipélago, considerando-o menos rigoroso do que o do Continente, com a particularidade de respirar-se melhor e de forma mais leve. Por exemplo, numa missiva endereçada a Custódio Passos, em 5 de Maio de 1869, afirmava: - estou grato a este clima, que, se me não curou de todo, deu-me mais vigor e mais resolução. Em 18 de Outubro voltava a comentar para esse amigo: - o tempo aqui vai magnífico. È um gosto abrir pela manhã a janela a este ar! E em 19 de Dezembro confidenciava-lhe:- a falar verdade, eu sou tão inimigo do frio, que me há-de custar a prescindir na época dele, do benefício desta ilha, onde, devo dizer, apesar do Inverno relativamente desfavorável que tem feito este ano, ainda não senti coisa que em Portugal merecesse o nome de frio. Ponho-me à janela todas as manhãs logo que me levanto, e depois de almoçar, saio fora e vou com a roupa que daí trouxe no Verão. &lt;br /&gt;Além do clima, o escritor ficou encantado com as paisagens madeirenses. Na carta literária de Março de 1870, a que já fizemos referência, alude que para que a Madeira nos sorria, para que nos apareça formosa como a descreve o poeta inglês e fragante como uma verdadeira flor do Oceano, é necessário sair do recinto da cidade, procurar as freguesias rurais, subir as íngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar então a vista pelos formosíssimos vales que vão descobrindo o seio fecundíssimo aos nossos olhos. Que vigor e variedade de vegetação! O verde doirado da cana realça entre as diferentes cambiantes da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira de África agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bananeira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de viço nos mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as laranjeiras odoríferas, As rosas, as malvas, as madressilvas florescem espontâneas à beira dos caminhos; debruçam-se dos muros as buganvílias entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaranjadas das begónias; e tudo tem um ar de festa e alegria. A choça mais humilde tem um jardim à entrada; as flores sorriem à porta dos ricos e dos pobres.&lt;br /&gt;Deslumbrado, Júlio Dinis exclama:- quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnífico aspecto. De um lado vemos, aos nossos pés, o mar liso como um espelho, azul como safira, limitado ao longe pelo grupo das Desertas, vagamente tingidas do azulado da distância; do outro lado, as altas serranias que rompem as nuvens e cujos cimos tantas vezes tinge a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos em fendas quebradas, sulcadas em ribeiras pelas torrentes do Inverno, uma vegetação exuberante, cheia de vida, encobrindo aqui uma casa isolada, enfeitando além uma povoação risonha, que se agrupa em torno de um campanário. Então sim, então a atmosfera embriaga, o peito aspira com voluptuosidade esse ar balsâmico, o espírito liberta-se de todas as apreensões que nos gelavam os sorrisos nos lábios e goza-se despreocupado do mais surpreendente espectáculo que pode imaginar-se.&lt;br /&gt;Esse encanto do escritor pela Madeira também colhe-se, claramente, ao recriarmo-nos com a leitura da sua abundante correspondência para o Continente. A título de exemplo, citamos uma carta escrita a Custódio Passos, em 9 de Março de 1969, na qual Júlio Dinis afirmava que a vegetação da ilha não era mais abundante do que a do Minho. Era sim mais variada porque reúne flora dos climas quentes. Isto é que lhe dá um aspecto novo para nós e que me agrada imenso. As casas de campo, num gosto inglês, com os mais bonitos jardins que eu tenho visto, descobrindo-se por entre plantações da cana e adornadas por altas palmeiras, bananeiras e outras árvores tropicais, são de um efeito surpreendente e magnífico.&lt;br /&gt;Porém, quanto à baixa do Funchal, sabemos que Júlio Dinis refere que é feia, triste e melancólica. Confidência até a Custódio Passos, noutra missiva que lhe endereçou em 18 de Abril de 1869, que o próprio passeio público é um largo plantado de árvores, metido entre casas pouco elegantes e com um aspecto triste a que ainda não me pude costumar, pelo que prefiro ficar em casa, mesmo sabendo que ao domingo aí se toca música e vai toda a sociedade da terra.&lt;br /&gt;Mas, se esteticamente a cidade não o deixou entusiasmado, o romancista continuava a realçar que sempre tinha sido bem recebido pelos seus habitantes. Assim, numa missiva escrita em 20 de Outubro de 1867, para o primo José Pinto Coelho, refere que os seus livros já tinham sido lidos no Funchal, apesar de aí não haver nenhuma livraria aberta ao público, salvo para a venda de obras escolares. E adianta:- pouco depois que desembarquei, corria na cidade a notícia da minha chegada. O Damião Moreira lendo a lista de passageiros e conhecendo o meu nome, disse na alfândega que tinha chegado o autor das Pupilas. Meia hora depois de eu entrar em casa, veio um rapaz daqui, de propósito, dar a notícia às minhas patroas que já conheciam o livro. Depois, houve quem não tendo lido o livro sentisse desejos de o ler, por verem o autor. Isto tem dado lugar a muitos cumprimentos na rua, que eu dispensava porque ainda não aprendi a responder-lhes.&lt;br /&gt;E talvez devido a essa timidez, Júlio Dinis, noutra carta enviada em 18 de Abril de 1869, para Custódio Passos, confidenciava que era monótona a vida que levava na ilha, pois não tinha a qualidade que admira em certa gente, de apreciar a convivência, seja quais forem as pessoas com quem convivem; para mim só é realmente agradável a convivência com pessoas muito íntimas, com quem se esteja a vontade. Outro qualquer fadiga-me.&lt;br /&gt;Também, e precisamente por não ser extrovertido, o escritor estranhava o excesso de bisbilhotices que, diariamente, circulavam entre a élite funchalense. Em missiva de 5 de Maio de 1869, comenta ao mesmo amigo:- uma noite houve aqui um baile em casa dum morgado. Os morgados andam por cá a rodo. Pois ao almoço do dia seguinte eu sabia das minhas patroas, que aliás não tinham lá ido, as mínimas particularidades da soirée. As informações distribuem-se aqui logo às horas do leite e do pão quente. Outra impertinência do Funchal é a conversa forçada em doenças do peito. Todos os dias os doentes se encontram nas ruas e informam-se reciprocamente de quanto tossiram, de como passaram a noite, da maior ou menor pressão que sentem, e de mil pequenas coisas a que os doentes dão importância, Não há meio de fugir disto.&lt;br /&gt; Como sabemos, esse peculiar ambiente devia-se ao cunho próprio do turismo terapêutico, que na época era uma importante actividade económica do arquipélago. Deste modo, numa carta datada de 30 de Setembro de 1870, e endereçada a José Pedro da Costa Basto, Júlio Dinis aludia com certo desalento:- este ano a afluência de doentes à Madeira é considerável. Estão todas a casas alugadas e as hospedarias bem fornecidas. Esta circunstância, que é lisonjeira para os que vivem nesta desalentada colónia, para mim não é muito agradável porque aumenta o número de caras amarelas e das organizações deterioradas que encontro pelas ruas. Ás vezes no Funchal pesa uma nuvem de melancolia que se não evita.&lt;br /&gt;Outro grande problema do escritor, relacionava-se com as constantes incertezas e atrasos para receber e enviar a correspondência. Numa missiva escrita ao visconde Júlio de Castilho, em 10 de Abril de 1869, queixava-se: - a chegada dos vapores de Portugal era o acontecimento que mais me alvoroça o coração. Nunca tinha experimentado o que é passar quinze dias em absoluta ignorância do que vai nas casas por onde deixamos os mais íntimos afectos. É desesperador! (...) Viver no meio duma população obsequiadora e afável, mas onde não vemos um só rosto que conhecêssemos quinze dias antes; olhar em volta de nós e encontrar por todos os lados o mar, a separar-nos cruelmente dos nossos amigos e avistar ao longe uma nuvenzita de fumo a prometer-nos as almejadas novas, é enervante, e em grande parte anula os benéficos efeitos deste maravilhoso clima. Noutra carta endereçada a João Pedro da Costa Bravo, a 20 de Janeiro de 1869, dizia-lhe que o mar do Funchal quis finalmente mostrar-se com cara de mar, que ainda lhe não conhecia; salta, ronca e espuma, de maneira que o vapor ainda não pôde descarregar, pelo que qualquer borrasca atrasa ainda mais a recepção de missivas. E em 18 de Abril de 1869, volta a lamentar-se ao amigo Custódio Passos:- dizes-me tu, na tua carta que se esta ilha pertencesse aos ingleses, os meios de comunicação com a metrópole não seriam tão escassos. Sabe pois que os nossos caros aliados não esperaram que a ilha lhes pertencesse, para multiplicarem os vasos de guerra que a frequentam. Enquanto nós os portugueses, só sabemos notícias dos nossos duas vezes ao mês, a colónia inglesa daqui tem-nas da Inglaterra quase de oito em oito dias, e, às vezes, com intervalos mais curtos, pois a cada momento fundeiam na baía do Funchal vapores ingleses, ou de guerra ou mercantes, que andam na carreira de África e vão para o Cabo da Boa Esperança, ou de lá voltam. Causam inveja aqueles diabos que a cada momento me aparecem nas ruas a lerem a correspondência que receberam.&lt;br /&gt;Resta lembrar que durante as suas estadias na Madeira, embora sempre preocupado com a doença, Júlio Dinis nunca deixou de observar e comentar, as incidências da vida politica do arquipélago. Assim, numa carta escrita a 18 de Abril de 1868, para Custódio Passos brada enfadado: - atravessar o mar numa viajem de três dias e, quando se espera estar longe das questionantes da política de freguesia, vir encontrar exactamente o mesmo aqui! Maçam-me com as probabilidades de vitória do Lampreia contra o Agostinho de Ornelas, morgado do Caniço; com as cartas do centro ao bispo e do bispo ao centro, e isto desde pela manhã até à noite. Eu, às vezes, olho para as Desertas, que me ficam fronteiras, três enormes rochedos, onde ninguém habita e apetece-me viver ali para não ouvir falar em eleições e deputados. E menos de um mês depois, ou seja em 5 de Maio de 1869, volta a comentar ao mesmo amigo:- eu imaginava que a ilha da Madeira teria costumes novos para mim, que haveria nesta sociedade uma feição especial. Nada disso; os mesmos cavacos políticos nas praças, as mesmas cerimónias nas salas dos partidos, as mesmas bisbilhotices nos largos, onde se reúne a elite funchalense. É o Porto sem tirar nem pôr, com a única diferença de se entrar aqui mais pelo íntimo das casas para assoalhar o que lá vai. Finalmente, noutra missiva endereçada em 20 de Março de 1870 para José Pedro da Costa Bastos, o escritor volta ao assunto, referindo que no arquipélago a luta eleitoral era descabelada e furiosa como em outras partes. A política da ilha é das mais malcriadas que tenho visto. As gazetas mimoseiam-na com epítetos, um só dos quais daria fundamento suficiente para uma polícia correccional. Eu não pude ainda interessar-me por esta contenda, nem tomar partido entre o décimo quarto morgado do Caniço e o Dr. Fonseca de um lado, e o Herédia e um tal Dr. Vieira do outro, de maneira que fica-me só o recurso de contar os dias que me faltam para mudar de vida&lt;br /&gt;                         e de terra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-3883764122811392964?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/3883764122811392964/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-julio-dinis.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/3883764122811392964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/3883764122811392964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-julio-dinis.html' title='A Madeira na Obra de Júlio Dinis'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NQQ82qIII/AAAAAAAAACk/pBfSlEid1zg/s72-c/Julio+Dinis.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-393908659535883156</id><published>2010-02-09T01:48:00.001Z</published><updated>2010-02-11T00:12:19.847Z</updated><title type='text'>Madeira na Obra de Luiza Grande Lomelino - Luzia</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NLVEcFZFI/AAAAAAAAABc/Azn226g9ZXI/s1600-h/Luzia+Lusa+Grande.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 190px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NLVEcFZFI/AAAAAAAAABc/Azn226g9ZXI/s320/Luzia+Lusa+Grande.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5436772000507192402" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Luísa Susana Grande de Freitas Lomelino, nasceu na cidade de Portalegre, em 1875, e faleceu a 10 de Dezembro de 1945 na sua casa de residência no Funchal, mais precisamente na «Quinta Carlos Alberto», sita na rua do Jasmineiro; e era filha do secretário-geral do «Governo Civil do Funchal», Eduardo Dias Grande e de Luísa Ana de Freitas Lomelino.&lt;br /&gt;  Embora tivesse nascido no Alentejo, Luísa Grande passou grande parte da infância na «Quinta das Cruzes» em companhia dos avós maternos, o morgado Nunes de Freitas Lomelino e de Dª Ana Welsh de Freitas Lomelino. Em 3 de Abril de 1896, casou com o morgado do Jardim do Mar, Francisco João do Couto Cardoso, de quem se divorciou, oficialmente, em 1911, aproveitando e beneficiando da Lei da república de 3 de Novembro de 1910. &lt;br /&gt;Além duma educação esmerada e de ter visitado várias cidades europeias, Luísa Grande foi uma das mais brilhantes e cultas escritoras portuguesas dos fins do século XIX e das primeiras décadas do XX; tendo sido considerada, «O Eça de Queirós de Saias», numa época em que as mulheres tinham extrema dificuldade em se afirmar, publicamente, como autoras literárias.&lt;br /&gt; Utilizando nos seus trabalhos o pseudónimo de «Luzia»; Luísa Grande Lomelino, só bastante tarde começou a escrever e a publicar, incentivada pela sua talentosa amiga, também escritora e investigadora, Dª Maria Amélia Vaz de Carvalho, que foi casada com o célebre poeta Gonçalves Crespo. &lt;br /&gt;Contudo, depois de ter publicado o seu primeiro livro Luzia jamais deixou de escrever, mesmo após ter adoecido e ficado cega. Deste modo divulgou entre outras obras, Rindo e Chorando (1922); Cartas do Campo e da Cidade (1923); Os Que se Divertem – A Comédia da Vida; (1931); Almas e Terras Onde eu Passei (1936); e Uma Rosa de Verão (1940).&lt;br /&gt;Comentando a forte relação da escritora com a Madeira, José Martins dos Santos Conde, no livro «Luzia: o Eça de Queirós de Saias», referiu que «quando uma amiga de Lisboa lhe escreve e pergunta: Quando voltas? Não te agarres. Tu és de cá, não és de lá…Luzia responde: - Eu já mal sei donde sou. Como certas plantas em todos os terrenos deito raízes. Onde chego, julgo sempre que vou ficar. Sinto-me já amadeirada. Tenho o meu lugar em todas as mesas de «bridge». Pertenço a todas as associações».&lt;br /&gt;Por sua vez, Luís Peter Clode mencionou no «Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses», que «embora nascida no Continente, a Madeira era para Luísa Grande a sua terra adoptiva e onde passou a maior parte da vida». (…)&lt;br /&gt;Acrescentou ainda, que segundo um biógrafo da escritora «os seus livros não são uma obra de mocidade. Não há nela a inquietação, o entre abrir de sonhos, os passos irreflectidos e audazes de quem marcha na vida, supondo levar na mão um facho de triunfo. A sua obra é sobretudo evocadora para o fio de luar das suas recordações».&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Em «Cartas do Campo e da Cidade», Luísa Grande de Freitas Lomelino, (Luzia) publicou uma série de cartas escritas em 1918 e 1919, do Bussaco, Lisboa, Ribeira Formosa, Bonfim e, finalmente, da cidade do Funchal, donde redigiu a primeira epístola em 4 de Abril de 1919 e a última a 20 de Setembro.&lt;br /&gt; Quinze anos depois Luísa Grande divulgou «Almas e Terras Onde Eu Passei», onde também se podem ler alguns trechos escritos na Madeira, versando o quotidiano da ilha, e um curioso relato das suas vivências durante a «Revolução da Madeira» de 1931. &lt;br /&gt;No Livro «Cartas do Campo e da Cidade», que passaremos a recriar, Luísa Grande de Freitas Lomelino, com alguma ironia e muita elegância, debruçou-se, sobretudo, sobre a vida e os costumes, da aristocracia e da classe dominante da Madeira no início do século XX, precisamente nos primeiros anos da transição da Monarquia Constitucional de que foi simpatizante, para os agitados e conturbados tempos da 1ª República.&lt;br /&gt; Mas, além de algumas paisagens e comentários sobre a vida trepidante dos salões e das célebres quintas madeirenses, Luzia também transmitiu, amistosamente e com alguma cumplicidade, a grande influência dos ingleses e dos seus hábitos e costumes no quotidiano madeirense da época.&lt;br /&gt;Numa primeira carta endereçada à sua jovem amiga Maria, escrita em 4 de Abril de 1919, no «Bela Vista Hotel» do Funchal; «Luzia» exaltava o clima da Madeira: - «Chove e faz sol. O céu está cinzento, azul, cor-de-rosa, verde, doirado…Um céu inverosímil, sobre uma terra inverosímil, onde se pisam flores…E toda a Madeira rescende como o teu lenço, Maria.&lt;br /&gt;«Estou talvez no Paraíso… Sim, foi certamente aqui que Adão e Eva comeram aquela deliciosa maçã que tanto lhes amargou depois…&lt;br /&gt;«Aqui os nossos antepassados venerandos trocaram a monotonia da perfeição sem fim pela doce vida imperfeita, onde as rosas são mais belas porque se fanam, onde a hora é mais querida porque foge, onde se tem sede de eternidade porque se morre…Aqui conheceram a mortal tristeza e o mortal amor… &lt;br /&gt;«Por isso os madeirenses andam sempre enamorados de …seja lá do que for, que a gente afinal gosta é da ilusão» …&lt;br /&gt;Animada, Luísa Grande, incitava a amiga, tentando convence-la a fazer as malas para visitar a Madeira, e afiançava: - «É fácil e doce a nossa vida. Não corre mais tranquilo um rio manso.&lt;br /&gt;«Somos elegantes. Temos boas maneiras e hábitos civilizados. Falamos baixo. Não gesticulamos. Em Lisboa, vive-se na rua, na Garrett, nos animatógrafos, no teatro, nos automóveis. Nós preferimos viver nas nossas casas, que sabemos tornar bonitas e confortáveis, sem gastar uma fortuna. Têm uma incomparável frescura as flores das nossas jarras. Não fomos buscá-las às «vitrines» do Chiado. Vieram dos nossos jardins, húmidas ainda do orvalho que as beijou.&lt;br /&gt;«Servimos o chá segundo as nobres tradições do chá inglês, tão mal compreendido na capital. De resto fazemos tudo à inglesa» …&lt;br /&gt;E insistia, sobre os requintes e primores da ilha, multiplicando argumentos, por vezes irónicos, para a persuadir: - «Queres esquecer, queres ignorar? Queres pôr, entre os teus olhos e o feio mundo, aquele radioso véu da fantasia com que o Eça enfeitou a rude nudez da verdade? Vem à Madeira.&lt;br /&gt;«Depois, que branduras de costumes! Que bom, que humilde – a cem léguas do povo soberano – o povinho da Madeira!&lt;br /&gt;«Habituada à altiva independência dos meus rendeiros alentejanos, que me tratam de igual para igual, confesso-te que fico enternecida – um pouco confusa, envergonhada também – quando um caseiro de Santa Cruz me deposita aos pés o seu cestinho de ovos – nenhum aparece sem um presente – com tamanhas genuflexões, que nem que eu fosse o Papa… E sempre de chapéu na mão: «Senhora ama» para cá, «Senhora ama» para lá…&lt;br /&gt;«Até a sociedade, Maria, a temível sociedade, que em toda a parte constitui a camada mais feroz do género humano, é relativamente mansa. Ninguém pretende endireitar o mundo… torto de nascença. Ninguém diz: - Não admito…&lt;br /&gt;«Bisbilhoteia-se – oh, já se vê que se bisbilhoteia! Pois em que havia a gente de passar o tempo? – Mas com uma certa meiguice. As mais graves e iracundas senhoras limitam-se a lançar, de vez em quando, a sua excomunhão sobre qualquer saia mais curta, qualquer chapéu mais exagerado, qualquer brancura de pele que surja mais indiscreta do decote ou da manga dum vestido.&lt;br /&gt;«Nunca falamos em política. Ignoramos as instituições que nos regem. Desconhecemos o cavalo-marinho, o revolucionário civil e a senhora talassa conspiradora. Não fazemos discussões às portas do café. É-nos completamente indiferente o problema nacional e o futuro das colónias…  &lt;br /&gt;«E, se tão amáveis milagres não conseguirem seduzir-te, outro maior, melhor, te prometo ainda. Queres ficar inteiramente nova, inteiramente menina? Vem à Madeira. &lt;br /&gt;«Tens pouco mais de vinte anos, bem sei. Mas, em cada dia que passa, na breve existência, cai uma folha, fana-se uma flor… É curta a Primavera. (…) E todos os caminhos, alegres ou tristes, escuros ou luminosos, levam-nos para a velhice. Só na Madeira – terra mil vezes abençoada! – a gente pode ter dobrado o cabo perigoso dos trinta e mesmo o cabo tormentoso – tormentosíssimo! - dos quarenta, e creio que aquele em que se deixou toda a esperança, como na porta do Inferno de Dante, o dos cinquenta.&lt;br /&gt;«Desde a criada que nos serve, o carreiro que conduz o nosso confortável carrinho, a mulher da Camacha que nos vende flores e o caixeiro que nos vende bordados, todos nos chamam: - Menina!&lt;br /&gt;«Assim é perfeitamente em vão que, cada manhã, o meu espelho anuncia mais uma ruga, mais um cabelo branco. Entra a criadinha, tão fresca no vestido engomado, diz-me na sua estranha entoada madeirense:&lt;br /&gt;«- Bons dias, menina (menaina). E eu logo me convenço: Foi o espelho que mentiu… É um espelho maldoso, caluniador. Sou nova outra vez… Sou menaina»!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa nova carta escrita a 10 de Abril, no mesmo Hotel, Luísa Grande comentava a outra amiga, que bem se lembra e não dúvida de ter escrito à Maria muitas maravilhas sobre a radiosa paisagem da Madeira, a frescura das flores, a mansidão dos costumes,« aquele superior não te rales, deixa andar, corra o marfim»… Mas, pensa que não lhe dissera que tudo estava na mesma:&lt;br /&gt;«Se acrescentei que, nesta terra, nada tinha mudado, que nos conservamos livres dos vandalismos do progresso…Ah! Margarida, não foi então da Madeira que eu escrevi, mas daquele doirado país da ilusão, onde por vezes habito. Porque infelizmente está bastante mudada, bastante… «adiantada», a nossa ilha. Quando aqui vieste, já as redes, as pitorescas redes, que tanto te divertiam, andavam um pouco fora de moda, mas eram ainda os confortáveis, simpáticos, «amorosos» (como lhes chamavas) carrinhos de bois que, ao som daquela arrastada cantilena: - «Cá para mim, boisinho, para mim! Cá para mim Muriano! Para mim! Bonito! (Bonaito)» - que nos levavam aos jantares da condessa da Torre Bela, às «soirées» da condessa de Ribeiro Real, aos «bridges» de Mrs. Blandy… Ia-se em passo pachorrento; (…) e antes d´uma pessoa se lançar nas doidas valsas ou nos febris «sans-atous», tinha tempo de sobra para dormir uma dessas deliciosas sonecas tão reparadoras do sistema nervoso. &lt;br /&gt;«Agora há os banais automóveis e os «side-cars» horrendos que atroam a cidade com os seus esganiçados assobios. Não se dobra uma esquina sem perigo de vida. Não se atravessa a dantes tão quieta, silenciosa e… de todo repouso rua dos Aranhas sem o Credo na boca!&lt;br /&gt;«As minhas amigas, muito estrangeiradas, muito modernas, adoptaram logo, com entusiasmo, este novo meio de locomoção… Mary B. – aquela loira tão fina, tão bonita, (…) tornou-se uma… um desembaraçado «chauffer». Vestida de sarja escura, o cabelo escondido sob um véu cinzento, enormes luvas de camurça, deformando-lhe as esguias mãos, vemo-la constantemente no árduo trabalho de concertar um pneumático…       &lt;br /&gt;«- Então já não se vê um carrinho, um amoroso carrinho?!&lt;br /&gt;«Ainda se vê, mas … ai dele! Foi também vítima dessa doença da pressa, que, após ter invadido o mundo, chegou à calma Madeira. Já ninguém quer andar… a passo de boi. Duas possantes mulas substituíram o doce Muriano, o manso Bonito»…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sempre aguçando a sua lupa conservadora e aristocrata, mas temperada por uma fresca ironia, Luísa Grande de Freitas Lomelino confidenciava à amiga as transformações significativas que ia verificando no tecido urbanístico do Funchal:&lt;br /&gt;«Não esqueceste, decerto, aquele velho passeio da Constituição, onde se festejavam, com música e iluminações de vidrinhos de cores, todas as nossas datas gloriosas, e à sombra de cujas lindas, frondosas árvores, era moda sentarem-se as elegantes do bom velho tempo…Pois o fino gosto dos nossos governantes não poude suportar velharia tão inútil, incómoda, atravancadora e, ainda por cima, atentatória do regímen... Árvores que ouviram o hino da Carta, onde porventura tremularam bandeiras azuis e brancas, são árvores suspeitas, criminosas… E as grandes figueiras da Índia e as nobres magnólias tiveram o destino de tudo o que, no nosso país, é grande e nobre… Caíram assassinadas. Defronte da velha Sé escancara-se agora uma larga avenida, género moderníssimo, género grande cidade! … A pobre igreja tem o ar arrepiado, envergonhado dalguém que os malfeitores deixaram nu em plena rua… (…)&lt;br /&gt;«Outras coisas mais extraordinárias ainda se farão… A colossal avenida que, por ora, graças a Deus, chega apenas ao Jardim Novo, deve prolongar-se triunfalmente por S. Lázaro fora… (…) Oh! quando se trata de embelezar os nossos governantes não olham a despesas! Do antigo Funchal, dentro em pouco, não restará uma pedra. Moinhos das Mercês, Convento das Capuchas, beco das Almas, que a doce capelinha guardava e protegia, beco das Cruzes, sombrio entre os altos muros floridos de «bougainville», velhas quintas, velhas discretas casas, cantos misteriosos onde morava o silêncio, quebrado apenas pelo chorar das fontes, tudo enfim, que conservava ainda um pouco de poesia, o que emprestava ao banal presente o mágico encanto do passado, durará apenas, no domínio da nossa saudade, o breve tempo que nós duramos» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hospedada no «Hotel Bela Vista», mas sempre com o habitual remoque e muita ironia, em 15 de Abril, Luísa Grande tornou a escrever à amiga Margarida, aclarando que não tinha voltado à sua linda quinta que cheirava a jasmins: «Alugou-a um sírio, negociante de bordados... (…)&lt;br /&gt; «Ignoro se as delicadas corolas dos jasmins continuam a exalar os seus capitosos aromas. Mas as roseiras plantadas por mim, (…) essas mandaram-nas cortar. Cada um a seu gosto. O sírio prefere as paredes nuas. Nos canteiros, junto à varanda, que em cada mês de Maio eram como um bosque em miniatura onde cresciam e se enroscavam e transbordavam doidas de seivas, as ervilhas de cheiro; medram agora fartas couves… (…)&lt;br /&gt;«Mas, eu não vou fazer filosofia triste…Deixo isso a Schopenhauer. Está um tão lindo tempo! Oiço rir, tão alegre, a água das levadas! E é hoje o dia da moda, dia de dança e chás elegantes na quinta Pavão. Eu embirro algum tanto com os dias da moda… Porém, tenho um convite para o chá da minha amiga Mary. (…) Vamos pois, ao Casino, que como dantes está cheio de flores. Há sobretudo petunias, uma doida, quase inverosímil profusão de petunias, desde as brancas, apenas tocadas de manchas lilás, até às cores de violeta e às daquele roxo avermelhado, que tão bem vestia a tua amiga Veva.&lt;br /&gt;«A grande sala de baile conserva os berrantes veludos encarnados que faziam o meu horror. E nos mesmos bancos, as graves mamãs perfilam-se, chaperonando as meninas que dançam…Mas os pares do meu tempo contavam todos, pelo menos dezoito ou vinte anos. Agora, Senhor do Céu! Dir-se-ia que se mudou para a sala do Casino a classe da srª Elisa Costa. (…) Meninas de dez a doze anos, valsam, e tangam com meninos de igual… menoridade. Ambos tão compenetrados do seu papel! (…)&lt;br /&gt;«Na sala de jogo o espectáculo não mudou. Em volta da roleta faces empalidecem, bocas comprimem-se, olhos interrogam numa ânsia, mãos nervosas distribuem moedas sobre o pano verde.  &lt;br /&gt;«Fora, no terraço sobre o mar, estão postas as mesas, reluzem as pratas nas toalhas muito brancas, entre jarras de rosas. A linda e alegre Mary espera-me já. (…)&lt;br /&gt;«É delicioso o chá. Há bolos da Felisberta. Bolos de mel e queijadas e morgadinhos e rapaduras de coco. Somos seis convidados. Porém daí a pouco todos os «dandies» rodeiam a nossa mesa – ou não fosse ela a mesa da Mary… Acendem-se cigarros. Susana diz-me: Como vês, Luzia, aqui podemos fumar em público. Graças a Deus estamos em terra civilizada. – E logo, violenta, brusca, passa a atacar o atraso, a hipocrisia – sobretudo a hipocrisia – dos costumes lisboetas.&lt;br /&gt;«- Vocês fazem tudo às escondidas…&lt;br /&gt;«Ruth – a dos magníficos olhos e dos irrequietos, tempestuosos gestos, (…) organiza um «pic-nic» no Monte, para mostrar-me as giestas selvagens que nada ficam a dever às civilizadas glicínias.&lt;br /&gt;«- Vai-se de automóvel. Volta-se de carrinho. Levam-se machetes…&lt;br /&gt;«- E cartas de «bridge» … A Luzia diz que não vai sem «bridge» … (…)&lt;br /&gt;«O doutor T. o mais pitoresco e original dos nossos janotas, depois de felicitar-me pelo meu regresso à «haute gomme» funchalense, e pela elegante abundância das minhas malas que, certamente, conteem tesouros «dernier cri, last fashion», convida-me, para no próximo baile, o grande baile da Páscoa, fazermos juntos… alguns kilómetros de valsa. (…)&lt;br /&gt;«Reparo em duas senhoras, (…) que numa mesa ao lado da nossa, discutem, tão abespinhadas, tão nervosas, que realmente temo vê-las chegar a vias de facto!&lt;br /&gt;«Pergunto baixo a Susana: - O que têm elas? Rivalidades?&lt;br /&gt;«- Sim, de fidalguias.&lt;br /&gt;«Ah! Margarida, mais uma coisa que eu tinha esquecido! Em Lisboa quando senhoras se engalfinham trata-se sempre de homem ou de vestido… Pois na Madeira ninguém se incomoda por coisas de tão somenos importância e tão fáceis e substituir. (…)&lt;br /&gt;«Pergaminhos, títulos, morgadios, e acima de tudo descendência, parentesco, ar de família com o Zarco - nosso grande cavalo de batalha – eis o que disputamos, o que pretendemos arrancar umas às outras! (…)&lt;br /&gt;  «Já o sol se põe. Crésus magnífico vai fazendo milagres no horizonte. Cada nuvem é um pedaço de oiro. Chove oiro sobre o céu, chove oiro sobre o mar».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 4 de Maio, em nova carta escrita no mesmo hotel do Funchal, Luzia anunciava a chegada da primavera, recordando que «a condessa de Noailles pediu a protecção do Senhor contra a doçura perigosa do mês de Maio. Ah! Que diria madame de Noailles se conhecesse Maio nos exagerados jardins da Madeira… o desatino dos perfumes, a febre das rosas!&lt;br /&gt;«Felizmente, que eu saiba, nenhuma das minhas amigas se deixou contaminar, embora seja tão contagiosa a doença e elas tão intimas das rosas. Nenhuma sentiu o quente, pesado beijo da primavera. E a bebedeira dos perfumes que à noite exala a terra… Têm tido mais que fazer, interesses, divertimentos, novidades que muito mais as apaixonam. Porque a primavera afinal é a mesma coisa todos os anos» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 10 de Junho, Luísa Grande de Freitas Lomelino volta a escrever do referido «Hotel Bela Vista» à sua jovem amiga Mary, e participa-lhe: «Junho trouxe-nos, com os nevoeiros cinzentos e os jacarandás azuis, a carícia venenosa da sua humildade quente. (…) Do jardim sobe uma imensa paz silenciosa, até os pássaros cantam em surdina, «pianíssimo, pianíssimo», no receio talvez de acordarem o sonho das coisas… (…)&lt;br /&gt;«E eu tive o mal da Madeira: um estranho mal. Tu sabes o que é. Só os madeirenses o conhecem. Horrível acesso de nostalgia, saudades, ânsia doutra coisa, desejo de partir, de mudar, de fugir a este excesso de cores, de perfumes. Susana chama-lhe: o sangue do Zarco, do aventureiro, turbulento descobridor, a pular-nos nas veias. (…) &lt;br /&gt;«Fechei as janelas para não ver o jardim, para não ver o mar. E também para não ouvir o apito melancólico dos vapores que partiam e irresistivelmente pareciam chamar-me. Não queria obedecer-lhes. Tinha a certeza que a doença havia de passar. O mal da Madeira dá assim, por crises. E fica-se depois mais presa ao seu encanto, e as reconciliações são o que há de mais doce em amor.&lt;br /&gt;«Maio acabou entre festas. Às tão sensacionais de Dolly, seguiu-se um torneio de «tennis» em S. Martinho. A Quinta Dias rejuvenesceu, pôs à moda outra vez, o velho «croquet». A Palmeira ofereceu renhidas, ardentes, partidas de «bridge» naquele lindo jardim branco, que perfumam imensos maciços de açucenas. &lt;br /&gt;Além destas esfusiantes festividades, Luiza contou à Mary que tinham sido um doido sucesso «a função de beneficência para colher fundos para a «Bolsa de Estudos António Georgina», fundada, sabe Deus com que dificuldades, com que lutas, por Feliciano Soares, a quem os estudantes ricos e pobres tanta devem»; e a muito participada «garden party» da Quinta Pavão a benefício do Lactário para crianças pobres, «constituído por Eugénia Canavial, que foi uma das elegantes «leaders» da nossa sociedade numa época em que o Funchal, visitado por príncipes e milionários, podia rivalizar com as mais concorridas e animadas estações de Inverno. (…) Há muito que Maria Eugénia abandonou a sociedade que se diverte. E a sua antiga elegância transparece agora apenas nas festas organizadas a benefício desse Lactário, a que infatigavelmente consagrou toda a sua admirável inteligência e todo o seu admirável coração. (…)&lt;br /&gt;«Prolongou-se sempre animada a «garden party», até que as primeiras sombras da noite fizeram daquela linda sucessão de jardins – depois do Pavão; o da Vigia, dantes tão aristocrático, agora… é melhor não falar nisso; Lambert, o do formoso terraço que vermelhas «bougainvilles» engrinalda; Angustias, o dos altos ciprestes – um único, imenso, e misterioso jardim.&lt;br /&gt;«E aqui tens Maria, as notícias, que me pediste da quieta Madeira… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nova carta enviada a 18 de Junho, Luzia, numa prosa ágil, exuberante e por vezes mordaz, conta que o Funchal andava sobressaltado e alvoroçado, com a chegada dos presos políticos, que tinham participado numa conspiração monárquica:&lt;br /&gt;«Durante dois dias toda a nossa atenção, todo o nosso interesse, concentraram-se no navio de guerra que as ondas batiam de manso e onde se debruçavam centenas de cabeças juvenis… todas mais esquentadas umas de que as outras, segundo reza a fama. Consta até que duas inglesas velhas, ardendo em curiosidade – atributo da sua raça e aliás das senhoras velhas de todas as raças – foram num pequeno barco, competentemente armadas de binóculos, bordejar em volta do poderoso vaso de guerra, para logo à chegada constatarem: What they look the youg portuguese rebellious… (…)&lt;br /&gt;«Enfim, após dois dias de espera, ancorados defronte da cidade – segundo os costumes da terra nada estava pronto para recebe-los – desembarcaram no Lazareto os prisioneiros e todo o Funchal que se preza passou a ocupar-se exclusivamente dos seus recomendados… Quem não tem recomendado inventa-o. A mim, por graça de Deus e da minha amável amiga Marquesa de T. coube-me em sorte um conde… dos mais autênticos. Assim, tenho podido fazer parte das peregrinações às masmorras republicanas – última palavra do «chic» madeirense.&lt;br /&gt; «Em vão os tiranos que nos regem, marcaram para as elegantes visitas as horas mais incómodas. (…) e puseram à porta os mais ferozes, intratáveis alferes jacobinos. A gente arrisca a pele mas entra, e em vão suprimiram as mais elementares comodidades, não há uma cadeira, não há um banco, ora em cima dum pé, ora em cima do outro, passam-se, duas vezes na semana, horas de desusada animação.&lt;br /&gt;«Susana pensa mesmo em organizar partidas de «bridge» jogadas no chão… à turca…&lt;br /&gt;«Os conspiradores estão óptimos. Gabam-se, fazem-se pimpões. (…) Declaram d´alto que se conservam no Lazareto porque muito bem querem, acham aprazível, com o mar ali mesmo à mão para os banhos. E não arranjam outra bernarda porque não lhes apetece – está muito calor para bernardas… (…)&lt;br /&gt;«O povo simpatiza com a velha monarquia, «que nunca ofendeu a nossa santa religião» …e, se não fosse o considerável respeito que lhe inspiram os marinheiros já tinha ido ao Lazareto soltar aqueles «inocentes», como lá foi há anos quando… houve uma epidemia de peste, em que ele se recusou acreditar – o povo é tão ignorante. (…) tão desconfiado, tão ingrato; - e sem que corresse uma gota de sangue, quebrou pachorrentamente toda a loiça, atirou a mobília ao mar e trouxe em triunfo os pestíferos para as suas casas…&lt;br /&gt;«Esta carta já vai longa. (…) Daqui a pouco são horas do chá. Tenho apenas tempo para abraçar-te».&lt;br /&gt;Semanas depois, sempre com alguma mordacidade, Lúzia deu conta à amiga que «alguns dos jovens prisioneiros monárquicos do Lazareto, talvez com a delicada preocupação de não abusarem da hospitalidade republicana, resolveram fazer outra vilegiatura. (…)&lt;br /&gt;Numa bela manhã o oficial de serviço constatou que se tinham safado no veleiro do gentil Humberto. Aventura que tem interessado e fascinado todas as imaginações… É que houve meninas apaixonadas pelo conde de S. tão valente, tão «royaliste» e …milionário ainda por cima….&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 21 de Junho, Luísa Grande Lomelino, noutra carta enviada do Funchal à sua jovem amiga Maria, diz-lhe que «começava o «cotillon», quando decidiu deixar um famoso baile, oferecido por Miss G, à oficialidade dum navio de guerra inglês e ao mesmo tempo – não há como matar duma só cajada dois coelhos – a todos os que mostraram simpatia e interesse pela Inglaterra, nestes calamitosos anos.&lt;br /&gt;«Era justamente meia-noite. Os «flirts» espalhados pelos terraços e pelo jardim, tinham recolhido apressadamente à grande sala vermelha. (…)&lt;br /&gt;«Misses autênticas e misses feitas à pressa – das que em alguns anos de Demerara esqueceram completamente como se diz em português uma …fly! – valsavam já, ostentando nos cabelos os grandes crisântemos de papel cor-de-rosa, que as haviam tornado entre todas eleitas, privilegiadas na primeira figura do «cotillon».&lt;br /&gt;« Muriel, (..) preferira a continuação do seu divertido colóquio com M. – esse M. eternamente encantador, eternamente novo, sob os cabelos brancos – à banalidade dum «cotillon» de verão com ingleses de meia tigela… (…)&lt;br /&gt;«Mary – com um audacioso vestido curto e decotado até o inverosímil, rodeada de reluzentes fardas, fumando cigarro sobre cigarro, instalara-se defronte do grupo virtuoso dos viscondes de B. e dos barões de T. que a cocavam numa curiosidade indignada.&lt;br /&gt;«Susana e Marta, ambas de preto, ambas moderníssimas, ambas travadíssimas já tinham abancado ao «bridge» …&lt;br /&gt;«Senti-me só, perdida, na grande sala. Depois certamente o «cotillon» ia servir de pretexto a numerosas graças inglesas… E Deus não me fadou para a graça inglesa. O defeito deve ser meu. Mal surge um «joke» caem-me os cantos da boca de amargura. Resolvi deixar o baile».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após abandonar essa divertida festividade, porque fazia um formosíssimo luar, «e porque é tão pacífica, sem perigo, a qualquer hora, a doce terra da Madeira, Luzia decidiu passear pelas ruas desertas da cidade, cujo silêncio rompia apenas, no seu cantar incessante, a água das levadas. E pela voz da água quantas vozes me falaram na solidão, no mistério da noite prateada!&lt;br /&gt;«Maria, tu ris e zombas quando eu te asseguro que, último refúgio de fadas e ninfas, as fontes e os regatos falam; zombas de todo esse mundo gentil e alado que dá à minha imaginação as suas mais lindas festas… porém se estivesses há pouco comigo, eu te provaria, ah! Eu te provaria até à evidência que a minhas fadas existem e são mais que uma ilusão as minhas brancas ninfas… Tê-las-ias ouvido e visto, como eu ouvi e vi, murmurar, suspirar, rir, cantar, dançar, desfiar pérolas, tecer luar, nas musicais levadas da Madeira.&lt;br /&gt;«Junto ao portão da quinta Vigia – a mais aristocrática das nossas quintas – parei. Pus-me a pensar no estranho destino daquela nobre casa, daqueles jardins que tamanho esplendor conheceram! Lembrou-me quando, muito pequena ainda, eu ouvia – qual conto das mil e uma noites – as minhas tia descreverem os sumptuosos bailes de Lady A. que enfeitava, mais de que todas gentil e fina, a figura da Condessa de Farrobo…  &lt;br /&gt;«Durante alguns Invernos habitaram a Vigia os Príncipes de O. com a sua numerosa e elegante comitiva. E todo um romance surgiu, um romance de amor, que acabou em «mésalliance» e já se vê, em desilusão, como todos os romances de amor…&lt;br /&gt;«Depois foi essa estranha Princesa de R. herdeira das jóias e da beleza de Josefina, que só aparecia de noite, as luzes veladas por seda e rendas para que não lhes vissem as rugas…&lt;br /&gt;«Depois os terraços sobre o mar, as misteriosas ensombradas alamedas, os luminosos rosais viram chorar inconsolável uma Imperatriz, a mais triste, a mais desditosa e a mais linda… aquela que Barres chamou Imperatriz da Solidão…&lt;br /&gt;«Depois … instalou-se na Vigia um Casino, onde se deram elegantíssimos bailes, os jardins iluminados dir-se-iam floridas estrelas, mas já chocava tanto… parecia tão brutal contraste uma roleta e «crupiers» ali!&lt;br /&gt; «Depois… nem sei, venderam a quinta à companhia dos Sanatórios, cujos projectos não se realizaram por motivos de ordem… inglesa, ficando o nosso governo com todas as propriedades adquiridas pela dita companhia. E começou o longo, cruel abandono da Vigia, utilizada apenas raramente para festas oficiais. (…)&lt;br /&gt; «Depois… um génio mau persegue a pobre quinta. Durante a guerra instalaram-lhe uma bateria no terraço e agora, Senhor do Céu! A Vigia abriga toda uma companhia da Guarda Republicana! (…)&lt;br /&gt; «Assim, entregue a saudades do que foi e apenas do que é, subi a rua do Jasmineiro, respirei o penetrante aroma das trepadeiras, que vestem cada muro, e entrei na longa alameda que leva ao hotel».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a habitual ironia e certa mordacidade de monárquica impenitente, a escritora contou à amiga, que tinha ido a um dos «garden- party», que de vez em quando o governador civil republicano realizava na «Quinta Vigia»:&lt;br /&gt; «Era por uma ardente tarde de verão. Havia sol e moscas. Mal se respirava no jardim onde morriam as rosas. Na sala, logo à entrada, esbarrava-se com um busto duma dama arrogante, a liberdade creio eu, gloriosamente embarretada e engravatada de vermelho e verde… Mas, não ficava por aí a preocupação da ilustre autoridade em marcar bem a cor da sua festa. Até os bolos – deliciosos aliás, dignos do real apetite do Sr. D. João V – eram encarnados e verdes… (…)&lt;br /&gt; «Certo que a quem custasse a digerir encarnado e verde que não fosse lá… Porém, meu Deus, eu falo apenas pelo amor da santa harmonia. O busto, a gravata, os bolos, certos convidados… oh! Sobretudo os convidados, de que dizia alegremente Susana: - Vocês acham que a gente escapa desta sem apanhar uma facada»?!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nova missiva escrita em 10 de Julho, Luzia dava conta que a canícula apertava e lastimava-se: «Pelas nossas pesadas, opressivas noites, o calor activa, torna penetrantes, estonteadoras, quase insuportáveis os perfumes dos jasmins, das daturas, das baunilhas. Nas longas, infindáveis tardes enevoadas não bole uma folha. O monótono uah! uah! dos carreiros tem qualquer coisa de triste e selvagem e nostálgico que me lembra África.&lt;br /&gt; «Aos mirantes – especialidade madeirense: não encontras aqui um único quintalório madeirense que não possua o seu mirante coberto de vistosas trepadeiras, com o competente mastro, onde, em dias festivos tremula uma bandeira – afluem famílias inteiras. (…)&lt;br /&gt; «Os menos privilegiados, os que não possuem mirantes, sentam-se às portas, onde as mulheres trabalham naqueles maravilhosos bordados, em que, dir-se-ia, pousaram apenas dedos de fadas, ou se entregam a certas pesquisas melindrosas na cabeça dos filhos pequenos… Ao lado dorme o cão amarelo; e duas ou três galinhas, com um chinelo velho atado aos pés – para não abusarem dos prazeres da liberdade – esgravatam nas pedras da rua. Do fundo escuro das tabernas vem um melancólico tanger de machete…&lt;br /&gt; «Ao cair da noite começa a romaria ao Cais, «rendez-vous»… elegante dos madeirenses que habitam o interior da cidade, as horríveis ruas de João Tavira, do Sabão, da Alfandego etc. Respira-se, de mistura com as salinas brisas, o cheiro acre da maresia e… muitos outros cheiros, a que prefiro não me referir. As senhoras sentam-se, abanam-se languidamente, conversam do calor, das vidas alheias, da carestia das casas no Monte. As meninas passeiam, namoram… &lt;br /&gt; «Pelas oito e meia chegam vapores da Costa de Baixo, e «vilões», carregados de cestos, sobem as escorregadias escadas, atravessam apressados entre os mimosos grupos das meninas. (…) Aos já variados perfumes, junta-se um bafo de suor, de aguardente, de atum salgado, de azeite rançoso.&lt;br /&gt; «Entretanto acenderam-se as luzes. O caminho da Pontinha parece uma estreita fita, picada de pequenas estrelas, a acabar no ilhéu. Do outro lado, os íngremes caminhos do Til, dos Saltos, do Monte, do Palheiro, são outras tantas fitas luminosas, a cortar a montanha. Sobre os plátanos da rua a electricidade põe tonalidades claras de luar. No seu eterno vaivém murmuram as ondas.&lt;br /&gt; «Já as mamãs se levantam, chamam as meninas, sobem vagarosamente a entrada da cidade. Recolhem a penates as Julietas e os Romeus ao Golden Gate… (…)&lt;br /&gt;«Em Julho, após a época alta, fecham o «Casino Pavão» e o «Hotel Reed», ficando poucos estrangeiros na Madeira. É o verão, o odioso verão madeirense, quando a cidade despe as suas elegâncias de civilizada…&lt;br /&gt;«Em fins de Junho ainda celebramos a paz. (…) O amável cônsul inglês mandou-me um copo de «champanhe» para que eu bebesse à paz, à vitória, ao mais monumental trunfo de «Great Brittain». Apenas molhei os beiços, ofereci o resto à criada, que esvaziou o copo com estas palavras profundas: - Para que as coisas fiquem mais baratas» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 20 de Setembro de 1919, Luísa Grande tornou a escrever à sua amiga Maria informando que na primeira semana de Agosto trocou o Bela Vista Hotel - com o seu invariável almoço de peixe-espada e seus astutos «travestis» - pela deliciosa «Quinta das Tílias» no Monte, onde passou as primeiras semanas em suave e preguiçoso remanso, sentada à sombra dos grandes pinhais.  &lt;br /&gt;«Pelas tardes em que o nevoeiro suspende pedaços de renda nos ramos das árvores, repeti com Albertina, os antigos passeios. Tornei a ver o Pico das Rosas. Subi ao Pico dos Namorados. Percorri as quintas amigas, desde a Cossart, onde há jardins que parecem talhados por Le Nôtre, até aquela que exala uma tristeza tão nostálgica, a dizer com o seu nome: o Desterro».&lt;br /&gt;Na semana seguinte estalaram os foguetes e a música anunciando as novenas que procediam a festa de Nossa Senhora do Monte, o maior arraial popular da Madeira. E como sempre vieram inúmeros romeiros de toda a ilha que dormiam no adro e na igreja.&lt;br /&gt;«Cada noite a filarmónica de S. Roque, tremendamente desafinada, atroou os ares com polkas, valsas retumbantes e o fogo-de-artifício estalou alegremente numa chuva de estrelas de mil cores. O povinho encantado murmurava um longo ah! de admiração e esquecia que tem fome, que a dificuldade, a carestia da vida aumentam todos os dias. (…)&lt;br /&gt;«Como sempre vieram romeiros de toda a ilha. Dormiram no adro e na igreja. É um velho, encantador costume Nossa Senhora oferecer hospitalidade aos seus peregrinos. Pagaram-se inúmeras promessas. Mais braços e pernas de cera foram guarnecer o altar do milagre. Os círios, essas delicadas hastes em que treme uma flor de luz, consumiram-se aos pés pequeninos da Virgem. Mãos postas, olhos em êxtase, mulheres subiram de joelhos, a grande escada que leva à igreja.&lt;br /&gt;«No campo, sobre a erva, à fresca sombra das árvores, desenrolou-se em pitorescos quadros o lado pagão da festa. Abriram-se os cestos do farnel. Assaram-se no espeto gordas pernas de vitela e de carneiro. Ao monótono som dos machetes rapazes e raparigas dançaram. O Monte, jardim azul como o céu, florido de hortênsias – cá chamam-se novelos – e coroas de Henrique, ficou luminoso e lindo. E tudo decorreu com o habitual entusiasmo, com a habitual devoção.&lt;br /&gt;«Proclamou-se a república. Podem proclamar-se mais trinta repúblicas, esfalfarem-se a dizer asneiras trinta mil pensadores, que a Senhora do Monte nunca deixará de ter a sua festa, será sempre a doce rainha, a suave padroeira dos madeirenses»!&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Passados alguns dias depois, o Monte dos veraneantes animou-se e voltou a trepidar. «Foi uma fúria de chás, de «soirées», de partidas de jogo, no Palace, nas quintas, em salas, ao ar livre, debaixo das tílias, debaixo dos pinheiros. Ninguém mais parou. Mergulhámos todas em profunda futilidade. As cabeças passaram a servir apenas para pôr chapéu… (…)&lt;br /&gt; «Depois, depois, minha querida Maria, íamos ardendo… (…) Um enorme incêndio devastou toda a serra da Madeira, esteve aqui mesmo, atrás de nós, nos primeiros pinheirais do Monte. Havia três dias que tínhamos «leste», o vento terrível que é como um bafo de lava. Os novelos e as coroas de Henrique logo penderam fanados. Uma cinza fina cobriu, engelhou as folhas. Formigas e mosquitos invadiram tudo. E ainda que tu exclames:- Shocking! – acrescentarei que como toilette, quase suportávamos apenas a camisa.&lt;br /&gt;«Na manhã de vinte e dois vieram dizer-nos que tinha pegado fogo à serra. A vinte e três o vento redobrou de violência, ateando as chamas. Olhávamos em roda e só víamos labaredas. Ao cair da noite começaram a ouvir-se os mugidos do gado. O fogo já atingia os currais. Depois, num alto clamor, vozes irritadas de homens praguejaram, vozes trémulas de mulheres entoavam o Bendito. E dominando tudo, lúgubre, ameaçador, o vento rugia entre as árvores. (...)&lt;br /&gt; «Começou enfim a fuga através dos campos que as chamas iluminavam sinistramente. Formávamos uma estranha caravana! Albertina, as criadas, os pequenos, iam carregados de cestos, de trouxas. A mim tinham-me confiado – não sei quem nem quando – um par de botas a quem consagrei todos os meus cuidados.&lt;br /&gt;  «Chegámos ao largo da Fonte onde está num pequeno nicho, à sombra dos grandes plátanos, a imagem milagrosa. Foi ali, dizem, que a Virgem apareceu toda de branco, entre as roseiras selvagens e logo, aos seus pés miudinhos uma fonte brotou. Era de manhã por um sol radioso… Em cada gota d´água fremia um diamante…&lt;br /&gt;«Numa fúria, que, dir-se-ia crescer a cada momento erguiam-se as chamas. Toda a montanha vomitava lume. (…)&lt;br /&gt; «Adiante nas lindas alamedas do parque, encontrámos os V. com a numerosa criadagem, os cães, uma infinidade de cestos para onde tinham atirado a «trouxe mouxe» as coisas mais disparatadas: toucas do «baby», uma «raquette», uma guitarra! Continuámos juntos.&lt;br /&gt; «Às portas das quintas gente assomava espavorida num pasmo. E contradiziam-se as notícias (…) Resolvemos fazer uma «halte» na entrada do Palace. Sentados no chão, rodeados de cestos, de trouxas, parecíamos um acampamento de ciganos. Pouco a pouco todos os hóspedes do hotel se nos reuniram. Maria de C. em plena crise histérica gritava: - Vamos todos morrer queimados! Vamos todos morrer queimados! E jamais esquecerei a estranha aparição, alta, esguia, vestida de branco, com o cabelo em desalinho, os braços erguidos para a abrasada montanha. Levaram-na. Tudo voltou ao morno desalento. Alberto chegou a cavalo. Contou que a cidade está em pânico. (…) &lt;br /&gt; «O vento soprava mais rijo – É a nosso favor – disse um criado do hotel. Realmente as labaredas pareciam correr para traz, para a serra. Decidimos esperar ali a manhã. A cada instante entravam vultos, ajoujados sob malas e trouxas. Instalaram-se. Trocaram impressões. E na noite da tragédia, pobres personagens de comédia, recaíamos já, insensivelmente, no habitual «ram-ram» da nossa frivolidade! Conversava-se como em «soirées» do Palace. Os Mosers descreviam o seu passeio de automóvel a Machico, o belo horrível da serra. Susana contava o último jantar da Palmeira em que debutara o novo cônsul americano: - Encantador como parceiro e como «flirt»… Vocês verão…(…)&lt;br /&gt; «Ás três da madrugada Celeste de V. apareceu vestida como para uma festa. Chegara na véspera de Lisboa. Todos a rodearam. Queriam saber das greves e do preço dos vestidos e onde comprara aquele lindo chapéu. (…)&lt;br /&gt; «Amanheceu. Todos tinham o ar cansado, envelhecido. Algumas senhoras polvilharam-se discretamente. Susana exclamou: - Para não metermos ainda mais medo de que o incêndio! &lt;br /&gt; «A minha nevralgia torturava-me. Já nem pensava no perigo. Sentia um único desejo: deitar-me fosse, onde fosse, ter uma cama para descansar ou morrer&lt;br /&gt; «Mas o vento continuava atirando o fogo para traz. Já mal se avistavam as chamas. Apenas uma coluna negra de fumo subia no horizonte. Foi opinião geral que podíamos, sem imprudência, voltar às nossas casas. Uma voz zombeteira: - a da Suzan observou: E, se nos der o susto outra vez, tornamos a fugir, não há nada mais fácil!&lt;br /&gt; «Durante três dias ainda o «leste» continuou, os sinos tocaram a rebate, o fogo devorou as lindas serras da Madeira. (…) Porém tudo passa. Há quem pretenda que tudo volta também. Depressa, em frescas noites de luar ou de estrelas, nos terraços do Palace, onde novos idílios desabrocharam, esqueceu-se a longa, ansiosa noite» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Luzia terminou a longa missiva confidenciando que o seu humor irrequieto e inconstante a solicitava cada vez com mais premência… «Entretanto, entramos no Outono, o formosíssimo Outono do Monte. Começam a abotoar as beladonas. Ao jardim azul vai suceder o jardim cor-de-rosa. Depois, em Dezembro, o jardim branco, sob a neve perfumada das azáleas… Mas, já o meu humor vagabundo me leva para longe outra vez. Onde estarei quando abrirem as beladonas? Donde evocará a minha saudade o brando aroma das azáleas?&lt;br /&gt; «Partir! Mudar! Ver sempre novos horizontes novas terras! Ah! Como tu és feliz! Como nós te invejamos! – exclamam em coro, as minhas amigas.&lt;br /&gt; «E eu não ouso confessar-lhes quanto lhes invejo a doçura de ficar»» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Em 1936, noutro excelente livro intitulado «Almas e Terras Onde Eu Passei», Luísa Grande de Freitas Lomelino depois de afirmar que não vinha à Madeira desde há alguns anos, voltou a relatar mais algumas paisagens, descrições, e impressões sobre a ilha, terra querida da sua mãe, onde acabaria os seus últimos dias:&lt;br /&gt; «Como o Funchal mudou desde que, há perto de vinte anos, eu deixei de habitá-lo. Dantes a «season» acabava mais tarde. Só em fins de Abril, Lady Stanford, Mrs. Blandy, Mrs. Faber e tantas outras felizes proprietárias das nossas lindas quintas resolviam declarar-se «home-sick», trocar os seus jardins, onde já dava flor a glicínia e abotoavam os jacarandás, pelo paquete da «Castle Mail» que as levava a Inglaterra. E com elas desaparecia também o alegre enxame de «Misses», vestidas de primavera, que faziam as delícias dos nossos rapazes, nas tardes de «tennis» e nas noites do Casino, quando depois da valsa – a harmoniosa valsa inglesa – gorjeavam, à luz do luar ou no mistério suave das estrelas, os seus musicais: - Oh! Yes…&lt;br /&gt;«O Funchal caía então numa doce sonolência, embalada pelo monótono Uah! Uaah! dos carreiros e de que saía apenas, mal acordado ainda, para ir ver passar a procissão e comer os bolos da Felisberta, no Colégio em casa da Condessa de Torre Bela, em S. Pedro no Palácio da Condessa de Ribeiro Real, ou da janela dos Leais na estreita rua das Mercês… A cidade cheirava a incenso, a cera queimada, a rosas brancas… Das sacadas pendiam colchas de damasco escarlate ou amarelo. E até que desfilassem os santos, nos seus andores enfeitados, as confrarias nas suas opas vermelhas, os doces anjinhos, vestidos de seda branca, com asas que raras vezes se mantinham inteiras, arrastavam-se, pesadas e moles, as horas das longas, festivas tardes» …&lt;br /&gt;Ligeiramente aborrecida e constrangida, Luzia observou que quando em fins Março se instalara no Hotel Savoy, ao contrário de antigamente, a maioria dos hóspedes já se preparavam para partir.&lt;br /&gt;«Não tive tempo de demorar os meus encantados olhos naquela deliciosa inglesinha, descendente de Nelson – ignoro se também de Lady Hamilton – que em seus vestidos muito rodados, linda reminiscência das «criolines», parecia desprender-se dum quadro de Winterhalter.&lt;br /&gt;«E quanto às felizes habitantes das nossas quintas: um «bridge» nas confortáveis salas, quase tão floridas como nos feéricos jardins, um «cocktail»… para não fazer triste figura, não mostrar que dato da era dos Afonsinhos …  e good bye…pois estão de partida…&lt;br /&gt;«Porém a cidade não tem de adormecer ao som monótono dos Uhah! Uhah! – que, de resto, mal se ouvem, abafados pelo terrível estrépito dos camiões – e de ir ver passar a procissão, no bom cheiro do incenso, da cera queimada, das rosas brancas…&lt;br /&gt;«Um pequeno intervalo, apenas o necessário paras sacudir os tapetes, arejar os quartos, substituir o dispendioso cozinheiro italiano que, durante o Inverno, jurou a perda do estômago inglês, pelo António da Madalena que, com menos despesa e menos pompa, continuará a sua obra de extermínio. O sumptuoso maitre d´hotel pelo Manuel de Santa Cruz, e aí temos outra «season», a do verão, a dos banhos do mar, triunfo do pijama, que já tinha usurpado todos os direitos da camisa de noite e pretende agora destronar o vestido. A maioria das inglesas desembarca nessa exótica «toilette», que só troca pela tanga – pouco mais… ou pouco menos – para entrar, cada manhã, no banho e, algumas vezes à noite, por ligeiras «écharpes», para «flirtrar» nos terraços do Reid e do Savoy, ou para dançar no Casino. De resto, faz as suas visitas, as suas compras, os seus passeios, almoça, toma chá, de pijama… Uma ou outra mulher do povo, vendo-a passar, benze-se, murmura: - «Bendito seja Deus!». Mas o garoto – é dum imperturbável, dum desabusado, o garoto madeirense! –  encolhe os ombros, limita-se a exclamar: - «Senhora Inglesa!». Como ele, eu há muito me familiarizei com todas as excentricidades de… senhora inglesa e, manda a verdade, acrescentar, que o domínio do pijama não se estende apenas através do Império Britânico; como o bolchevismo, ameaça invadir o mundo inteiro…Não tarda que o encontremos a passear no Chiado. Ah! fossem todas as que o adoptarem como aquela deliciosa, quebradiça boneca, esquisita japonesice que uma manhã vi surgir no jardim, de volta do banho, com o cabelo húmido ainda, fresca como a flor que o orvalho beijou e ninguém mais do que eu, cantaria os louvores do pijama. Mas há também as velhas, há sobretudo as gordas que, aos meus cegos olhos, tomam proporções terríveis de enormes monstros cabeçudos…&lt;br /&gt;«E não ficam por aqui os aspectos desagradáveis desta «season» de banhos de mar e viagens a preços reduzidos. Graças aos últimos, temos a invasão do inglês de segunda classe – o que há de mais grosseiro e arrogante na espécie – que almoça em trajes menores e à sobremesa, com a maior sem-cerimónia, nos atira ao nariz o fumo do seu cachimbo» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perante tamanhas mudanças, Luzia apressou-se a trocar o Funchal de Verão pela frescas sombras do Monte, que as suas amigas de Lisboa conheciam bem, pois todas tinham ouvido falar que numa das suas aristocráticas quintas morrera um Imperador; embora confundam, constantemente, a Madeira com os Açores «e até com São Tomé e Príncipe… Para elas é tudo a mesma coisa, tudo… a «ilha»! Que eloquência, que paciência tenho gasto, em vão aliás, junto das alfacinhas… (…)&lt;br /&gt;«Mas, também o Monte mudou – e quanto! – desde o primeiro Verão que em pequena aqui passei, numa deliciosa quinta que as hortênsias – os novelos, assim se chamam na ilha – vestiam de azul celeste. Vinha-se em carro de bois. A viagem levava pelo menos, duas horas e, se era pitoresca, muito tinha de impressionante, de aflitivo também, assistir ao esforço dos pobres animais para galgarem a péssima, íngreme calçada. &lt;br /&gt;«- Cá p´ra mim, Muriano, cá p´ra mim Bonito...«Bonaito»! Ah, Mariano e «Bonaito» não devem ter saudades desses longínquos tempos! Foram decerto os primeiros a regozijar-se quando apareceu o pequeno comboio que, entre verdura e flores, nos traz ao Monte. Quase ao mesmo tempo surgia, tão maravilhosamente belo, como se o tivesse criado a varinha duma fada, o parque…E abria o Monte Palace que, apesar do seu nome com pretensões cosmopolitas, guarda um delicioso encanto patriarcal, um doce aroma de província. (…)&lt;br /&gt;«Tudo se transformou. O Monte perdeu completamente o seu aspecto de paraíso inacessível. Fizeram-se estradas para os automóveis. Há uma carreira de «autobus». Há o magnífico Hotel Belmonte, donde escrevo, muito superior a todos que conheço em Portugal e, sem dúvida, o melhor da Madeira. &lt;br /&gt;«Daí lhes escrevo, num confortável quarto onde tudo é fino, de bom gosto, desde o tapete cor de cereja até ao linho dos lençóis. As janelas estão abertas sobre o jardim, de que se despedem as rosas. As hortênsias – glória do Monte – trocaram o seu vivo azul por um verde, levemente manchado de roxo. Mas estão em flor as dálias, as begónias, os crisântemos… E não tardam as beladonas estendendo sobre os campos, sobre as quintas, o seu manto perfumado. Para lá do jardim avisto as densas sombras do parque, adivinho os misteriosos cantinhos onde responde, à doce voz dos pássaros, a cristalina voz das fontes…&lt;br /&gt;«Lisboeta gentil, como eu queria ver-te subir a larga escadaria que leva a esses quietos, idílicos retiros! Como eu queria persuadir-te de que, mais perto e por preços menos dispendiosos do que os da Suíça, a montanha da Madeira te estende os seus floridos braços».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 11 de Abril de 1931, com a habitual ironia e denunciando uma visão aristocrata de mistura com leve simpatia pela ditadura que tinha conquistado o poder no Continente, Luísa Grande Lomelino narrou a um confrade de Lisboa, as incidências e o ambiente que viveu durante o período da Revolução da Madeira; notas que constituem, sem dúvida, um interessante documento histórico, que até hoje os historiadores madeirenses não têm prestado a devida importância.&lt;br /&gt;Na Quinta da Palmeira, onde se refugiara, a escritora comentou: - «havia rosas e paz nesta linda ilha, quando lhe escrevi do Savoy. Ai de nós! Onde estão as rosas, para onde foi a paz? Vento e chuva torrencial esfolharam as primeiras… - Essas não tardarão a reflorir: já as roseiras abotoam… - Quanto à segunda… oh! Imprudente ditadura, que aqui pôs tantas cabeças de motim. É verdade que lhes juntou a remessa de um Comissário, com abundância de soldados e metralhadoras, destinados a servirem de papão, mas os soldados e as metralhadoras embirraram com o Alto-comissário, acharam mais simpáticos os deportados – Le coeur a des raisons … (…) Decidiram prender o Alto Comissário, (…) e já se vê, apoderaram-se do lugar, do mando, de todas as variadas atribuições da autoridade engaiolada.&lt;br /&gt;«O povo, o bom povinho desta ilha, sempre prudente, desconfiado, começou por encolher os ombros, lavar do caso as suas mãos. – Não era nada com ele; era lá com a tropa de Lisboa! – Mas fizeram-se comícios. A sereia cantou… Anunciou mil prosperidades, todos os bens deste mundo e do outro. O povinho ouviu, abriu a boca até as orelhas, num pasmo feliz, (…) e acreditou.&lt;br /&gt;«Toda a ilha está com os revoltosos. De toda a parte chegam voluntários. Todos ajudam. Todos confiam. Entretanto, passado o primeiro fogacho, veio também a inquietação. Ninguém sabe o que será o dia de amanhã, se esta Madeira, tão linda, sob o seu manto de «bougainville», sob as suas grinaldas de glicínias, sorrindo à promessa das rosas, terá de sofrer as consequências terríveis de um bombardeamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inquieta com as visíveis preparações para a luta, Luzia mencionou que após as autoridades revolucionárias terem começado a deter os automóveis particulares, e como a maioria dos seus amigos morasse fora da cidade, aceitou a hospitalidade que lhe ofereceu uma amiga inglesa; tendo saído do «Hotel Savoy» para ir residir na «Quinta da Palmeira», afastada do centro do Funchal e debaixo da protecção da bandeira inglesa.&lt;br /&gt; Ali havia flores, livros, magazines, cães, e até se jogava «bézigue» ao canto do fogão. «Rodeia-me o maior conforto: toda a elegância, harmonia e método dos hábitos ingleses. Os H. praticam a hospitalidade da mais agradável, inteligente maneira: dando-me a impressão que estou na minha casa» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três dias depois, noutra carta endereçada ao mesmo amigo, a escritora comentou que dada a situação belicosa, não tem recebido nem despachado correspondência. «Decididamente é o bloqueio que começa… Antes ele de que um bombardeamento, bem sei, mas…Oh! Eterno «mas» de todas as coisas da terra! &lt;br /&gt;«Mrs. H. não se lamenta. Nesta bélica ocasião, prefere estar na Madeira. Quer entrar em cena, representar um papel notável, mostrar o seu grande amor pela raça portuguesa, concorrer para que o país volte à Constituição, à normalidade – falou todo o tempo em Constituição em normalidade! – Já se inscreveu na Cruz Vermelha… quanto mais não seja para despejar os baldes, contando que se dedique por esta raça, a melhor do mundo… Ah! Mrs. H., que desacato ao British Empire! – E acha que todos deviam imitá-la. (…)&lt;br /&gt;«De resto a Cruz Vermelha já conta com um importantíssimo número de adeptos. E as escoteiras não param. É raro o dia em que duas ou três não vêm à Palmeira. Aceitam um cocktail, oferecem os seus serviços… Tudo apressadamente, não devem demorar-se. Dum momento para outro, o que pode acontecer! E prosseguem na sua alegre azáfama. - «Nunca me diverti tanto!» - confessava-me ontem uma delas, a minha afilhada Vera, muito elegante, muito bonita, no seu uniforme azul. Acredito, acredito… Mas quando e como acabará este divertimento?! That is the question… um pouco angustiosa, para quem não é uma escoteira de vinte anos, ávida de movimento, de imprevisto!&lt;br /&gt;«As tropas do Governo continuam no Porto Santo, onde o dreadnought britânico vai constantemente, decerto na esperança de levar ou trazer o raminho de oliveira…&lt;br /&gt;«Ontem espalhou-se… isto é, espalharam os revoltosos, que Lisboa estava em pé de guerra também. Felizmente, parece não ter fundamento a notícia.&lt;br /&gt;«Entretanto, o «Jornal» passou das mãos monárquicas do meu amigo Luís Vieira de Castro, para as mãos democráticas do sr. F. C. Na mesma página em que se anunciavam, com grandes letras, os escândalos da Democracia, anunciam-se agora, com letras ainda maiores, os da Ditadura…&lt;br /&gt;«O dr. X, no auge do entusiasmo, abraça os madeirenses, felicitando-os por terem nascido neste heróico torrão, que vai salvar a pátria! Um reservista, chamado ao serviço activo – para restaurar a Constituição e a normalidade, tão necessárias à ventura de Mrs. H. – exclama desconsoladamente: - «Ai! O pior são as botas!» - Como eu simpatizo com esse grito de alma! Desde que aportei a esta formosa ilha – que vai salvar a Pátria! – ainda não deixei de ter dores nos pés! &lt;br /&gt;«E tudo isto é como a onda que quebra de encontro às altas muralhas duma fortaleza, como um eco de coisas que se passam longe, muito longe, na Rússia, na China…&lt;br /&gt;«A Palmeira continua a sua calma existência, entre rosas e pássaros, entre vôos de pombas e doces murmúrios de ramagens…   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias depois, Luísa Grande Lomelino escreveu outra carta para Lisboa, comentando que apesar de já terem passado três semanas de instabilidade revolucionária, em nada se tinha alterado o agradável ram- ram da sua fácil existência. «Continuamos a jogar o«bridge» todas as tardes e o «bézigue» todas as noites. Eu já pretendi entrar pelos «cocktails», em obediência à moda e seguindo o denodado exemplo das minhas parceiras madeirenses, mas de cada vez que me meto nessas altas cavalarias, apanho uma enxaqueca de respeito! No meu tempo, o bom tempo em que o Funchal ignorava os prazeres revolucionários, não estavam também à moda as bebidas de guerra e, como diz a sabedoria das nações, certo «bicho» velho não aprende…&lt;br /&gt;«Enquanto nós, as de «pé pesado», jogamos, as de «pé leve» dançam. É inverosímil o que se tem dançado durante a revolução! No casino, a bordo do «London», em casa duma senhora inglesa… Nos intervalos do baile, há partidas de «tennis». De «murder game», excursões, «pic-nics». E há o «flirt» - amor em botão, amor que ainda não tem espinhos.&lt;br /&gt;«O povo sofre com falta de trabalho e falta de pão, mas sofre cheio de entusiasmo e de esperança, encantado pela importância que lhe dão…que fingem dar-lhe, julgando-se o único objectivo destes espertos – espertíssimos – senhores, gostando de ir aos comícios, onde tudo se diz em seu nome – Ah! Pobre, querido povinho da Madeira, que ainda não sabia felizmente para ele, o que era ser soberano! – Porém, forçoso é confessar, nem tudo são rosas… O pronunciamento traz alguns maus bocados. Há os que têm medo. Os que têm passado por horrores de medo: os pobres galuchos, com carinhas ingénuas, espantadas e aterradas, de crianças que ouvem o conto do Papão; há os que choram de dia e de noite… há os que fogem tomados de pânico – entre esses, uma senhora doente morreu na maca em que a transportavam!&lt;br /&gt;«Agora como «bouquet» final, espera-se o bombardeamento da cidade. - «Não passa de amanhã; começa logo ao romper do dia! – anunciavam ontem os boateiros… Também os há na Madeira…&lt;br /&gt;«Mas, precedidas pelo lindo compasso de minuette, já soam as dez horas e ainda não se ouviu um tiro»! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 29 de Abril, já muito alarmada com a gravidade da situação Luzia tornou a escrever ao sei amigo de Lisboa, comentando:&lt;br /&gt;«Hoje… amanhã… E os dias passam e os nervos não podem mais! Acabou-se a nossa doce inconsciência. É já impossível viver estranhos, alheios, ao drama – comédia-drama – que se está desenrolando…ou antes arrastando!&lt;br /&gt;«Desde que chegaram os navios de guerra, anuncia-se, a todos os instantes, o bombardeamento. No dia vinte e seis, quando jogávamos tranquilamente o «bridge», numa das lindas quintas da Madeira – propriedade inglesa, já se vê – três aeroplanos voaram sobre a cidade, espalhando proclamações aos soldados, e ao povo. Grande excitação na elegante sala! Todos correram às janelas… Do jardim, onde um grupo juvenil se entregava aos prazeres do «tennis», trouxeram-nos essas proclamações. Achei-as sensatas, claras. (…) Mas nem os soldados de Lisboa se deixaram convencer… Responderam com um terrível «vivorio» à República e um «morrorio» à Ditadura! Quanto ao povo, fugiu desvairado, gritando que era peste mandada pelo Governo, para destruir a Madeira!  A vinte e sete, voltaram os aeroplanos e houve uma tentativa de desembarque em Machico. Acabou o dia com a participação oficial do bombardeamento, às cinco da tarde de ontem. Escolheu-se uma zona neutra destinada aos estrangeiros. Os revoltosos fizeram mais dois comícios para que, neles, o povo… soberano, decidisse se queria render-se ou combater. O povo não deve ter entendido grande coisa do que disseram os oradores, mas ouviu duas ou três palavras retumbantes de som – embora talvez um pouco ocas de significação – que lhes subiram à cabeça. Escolheu o combate. Vencer ou morrer! ...&lt;br /&gt;«Ah! Luís, que maravilha de tarde! Nos lindos jardins da Palmeira, as pombas voavam sobre um macisso de açucenas, os pavões abriam as caudas sumptuosas entre os canteiros de cinerárias, uma imensa paz transparente descia do céu muito azul e, às cinco horas, os bombeiros passaram, tocando uma campainha para avisar o povo de que não viesse à janela nem à rua. Ia começar o bombardeamento. Mulheres choraram, crianças gritaram… Todos nós, de binóculo em punho, fixávamos ansiosamente o mar, azul, transparente como o céu. Vimos o «Vasco da Gama» tomar posições que pareciam de ataque. E, logo depois o «Carvalho Araújo»… Não tardava o bum, bum! Que Deus se compadecesse da nossa pobre Madeira! Um grande minuto passou, mais cinco… mais dez… meia hora, uma hora… «Vasco da Gama», dear old Pimpão, como lhe chama o Harry, a nada se movia!... Alguém chegou com a notícia de que o Governo tinha resolvido dar mais duas horas, para que os rebeldes se rendessem… Ao cabo dessas horas, ouviu-se de novo a campainha dos bombeiros. Voltou a ansiedade… Mas outra vez, minutos e horas passaram no mesmo silêncio! E a noite caiu, serena, como tantas noites da Madeira» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; No dia 1 de Maio, Luzia voltou a escrever da Quinta da Palmeira para o seu amigo continental, informando que os confrontos directos já duravam há três dias, que tinham tirado os telefones à população e o único jornal disponível era o dos revoltosos. Ao mesmo tempo multiplicavam-se os boatos.&lt;br /&gt;«Há mortos, centenas, milhares de mortos! Não há um único morto…Batem-se entre os rochedos do Campanário, onde as tropas de Portugal encontrarão um fim horrível. Batem-se aqui mesmo…Já vêm a caminho! Vão bombardear a cidade, etc. etc.  E os dias passam…E ao hospital, até ontem chegaram apenas dois feridos! Uma coisa é certa, porém: os canhões não se calam. Esta noite, com um luar maravilhoso, a sua voz fazia pavor! Pavor que o mistério aumentava… Pelo menos a mim parecia mil vezes preferível saber a verdade, por muito dolorosa que fosse.&lt;br /&gt;«Como a sorte é cheia de disparates e se compraz numa constante ironia, deixei o Savoy que todos julgavam muito exposto, caso houvesse um bombardeamento, e finalmente esse hotel faz parte da zona neutra, onde se refugiaram os estrangeiros e todas as pessoas que não desejam travar conhecimento com as granadas lisboetas; e está guardado por marinheiros ingleses, armados até os dentes.&lt;br /&gt;«Ontem de tarde, pelas incertas notícias, a Palmeira não oferecia grande segurança. Vários automóveis com fugitivos – os mesmos que, há dias vimos subir a caminho das quintas do Monte – desciam rapidamente… Mas os H não tencionam sair de casa e eu fico com eles. Será o que Deus quiser… (…)&lt;br /&gt;«Bum, bum, bum! – Quantos morrem, quantos vão morrer, nesta manhã tão bonita de Maio, feita para amar a vida, para amar as rosas…(…) Decididamente sinto-me tão enervada que não posso continuar. Até amanhã se, se» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte Luzia torna a escrever ao seu amigo já com outro espírito e certa euforia…&lt;br /&gt;«Hurrah pela Ditadura! Depois duma noite de pesadelo, ouvindo os canhões tão perto que abalava toda a casa, veio a boa notícia da entrada das tropas fiéis e, há pouco, a notícia, ainda muito melhor, da rendição dos revoltosos…&lt;br /&gt;«A manhã está… de derrota. Que tristeza de céu, que nuvens tão pesadas, tão negras! Como o silêncio oprime, pesa, depois da «vitória» e… «morrório» desta última semana. Até os pássaros se calaram… para mostrar o seu desagrado, talvez… E eu que queria que tudo se enchesse de sol, de gorjeios, de flores, que tudo festejasse a vitória, ou, pelo menos, a paz»!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, Luísa Grande Lomelino escreveu uma última carta, onde patenteou a sua simpatia pelas forças continentais, mas também a animosidade dos madeirenses contra Lisboa, muito amor pelo povo miúdo da Madeira, e um profundo desprezo pelos oportunistas que sempre pululam após as trágicas derrotas.&lt;br /&gt;«A Madeira, vencida mas não convencida, (…) assistiu, ontem, num silêncio de enterro ao desembarque das tropas vencedoras. Horas antes, em Machico, Botelho Moniz, seguido apenas por meia dúzia de soldados, inscrevera mais uma página de oiro na história das gloriosas temeridades. Outros ainda, heróis obscuros, heróis de que nunca se saberá o nome, acabavam de sacrificar a vida, no perigoso cumprimento do seu dever. &lt;br /&gt;«E quanta gratidão – escusam de protestar, eu escrevi, eu repito: gratidão! - deviam os que assim se calavam rancorosos, revoltados, aos navios e tropas do governo, pela maneira tão prudente, tão humana, com que desempenharam o difícil cargo de… metê-los na ordem!&lt;br /&gt;«Mas esse desfilar de soldados – soldados de Portugal que, como tudo o que vem da Metrópole, inspiram desconfiança e medo ao madeirense – representava o desmoronamento dum maravilhoso castelo de cartas… Iam-se por água abaixo tantos bens anunciados, prometidos, a farinha, o milho mais baratos, a vontade do povo para cá, a vontade do povo para lá!&lt;br /&gt;«Sim, era um enterro que passava e o mais triste, aquele de que mais dificilmente alguém se consola: o enterro duma ilusão.&lt;br /&gt;«Entretanto, os camaleões da política, os que em todos os acontecimentos só procuram e diga-se de passagem, quase sempre encontram, o seu proveito, há poucos dias ainda, partidários entusiásticos, intransigentes, do pronunciamento, fazem gravemente o elogio do Governo, esperando que ele saiba mostrar-se à altura da situação - «É preciso apurar responsabilidades: andam por aí muitos revolucionários encapotados… Castigar com a devida energia… Reclamamos ditadura, não admitimos «ditamole». &lt;br /&gt;«Os navios de guerra ingleses abarrotam de fugitivos. Até os há encarrapitados nos mastros do «London», diz-se … mas eu não quero acreditar… Chassé  croisé… Eterna contradança da vida!  Já o…outra vez alto-comissário reentrou no Palácio de São Lourenço, já os chefes da revolta e outros oficiais que como eles se renderam com honra, foram ocupar os seus menos confortáveis aposentos, no Lazareto... (…)&lt;br /&gt;«E enquanto se desenrolam tão inesperados acontecimentos, tão rápidas, quase inverosímeis mudanças de cenário, o soldadinho do campo, o soldadinho improvisado, que nunca entendeu porque lhe puseram ao ombro o peso da espingarda, porque lhe entalaram os pés na tortura das botas, ri, com um largo riso, que todo o seu rosto ilumina…&lt;br /&gt;«Não sabe, nem procura saber, de que lado estava a razão. Aos que lhe perguntam com ironia: - Quem ganhou? – responde simplesmente; - Ganhou quem tinha mais força… E - lição para tantos! Acrescenta – Dizem que poucos morreram …  Pena foi que morresse alguém!&lt;br /&gt;«Acabou o pesadelo. Vai voltar à sua aldeia, onde tudo o chama e acolhe, desde a bênção da mãe, aos olhos da namorada. Tão leve como o corpo sente o coração. Não causou perca nem dano, não quis mal a ninguém. Ah! Rica, bela coisa, livrar-se da caserna, dizer adeus à cidade! Para outras bulhas não o chamem… Quem as arme que as desarme. Haja paz, haja concórdia… E passem por cá muito bem!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-393908659535883156?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/393908659535883156/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-luiza-grande.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/393908659535883156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/393908659535883156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-luiza-grande.html' title='Madeira na Obra de Luiza Grande Lomelino - Luzia'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NLVEcFZFI/AAAAAAAAABc/Azn226g9ZXI/s72-c/Luzia+Lusa+Grande.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-2298573794035109522</id><published>2010-02-09T01:41:00.003Z</published><updated>2010-02-11T00:14:25.204Z</updated><title type='text'>A Madeira na Obra de Manuel Teixeira Gomes</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NL1_OFncI/AAAAAAAAABk/sUkhT-1G0lk/s1600-h/Marques+Oliveira+Teixeira+Gomes.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 255px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NL1_OFncI/AAAAAAAAABk/sUkhT-1G0lk/s320/Marques+Oliveira+Teixeira+Gomes.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5436772566041992642" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Manuel Teixeira Gomes, nasceu na cidade algarvia de Portimão em 27 de Maio de 1860, e faleceu exilado, voluntariamente, em Le Bougie, Argélia, a 18 de Outubro de 1941.&lt;br /&gt;Estudou o ensino secundário no seminário da cidade de Coimbra, na qual também frequentou os preparatórios da Faculdade de Medicina, que não chegou a terminar. Após ter abandonado os estudos académicos foi habitar durante algum tempo, em Lisboa e no Porto, onde desenvolveu uma vida descuidada e ociosa, praticou o jornalismo republicano, e privou com muitos escritores e artistas, entre eles, Fialho de Almeida, João de Deus, Sampaio Bruno e Soares dos Reis. &lt;br /&gt;Aos 23 anos passou a tratar dos negócios de conservas e exportação de frutos secos que pertenciam ao seu abastado pai, tendo feito várias viagens comerciais a muitos países da Europa e ainda à África e Ásia; que foram aproveitadas para aperfeiçoar e requintar as suas inclinações artísticas, claramente visualistas, e fortemente sibaritas e hedonistas. &lt;br /&gt;Portador duma marcada sensibilidade aristocrática, e defensor dum modelo político social-democrata, Manuel Teixeira Gomes participou, activamente, na vida política nacional, e depois da implantação da República, exerceu o alto cargo de «Ministro Plenipotenciário em Londres», apenas interrompido num curto período pela sua demissão ordenada por Sidónio Pais, mas logo reatado após a queda desse ditador.&lt;br /&gt; Em 1923, foi eleito «Presidente da República», função que exerceu com grande dignidade e distinção, mas passados pouco mais de dois anos, desiludido com as mediocridades e constrangimentos que o abarcavam, acabou por renunciar ao cargo e abandonar a vida política, indo viver silenciosamente no Norte de África.&lt;br /&gt; Efectivamente, numa carta endereçada em 7 de Janeiro de 1927, ao seu amigo Dr. F. Mira, Manuel Teixeira Gomes deixou bem expressa a sua amargura, comentando: - «Quando me soltei de Belém, para voltar às minhas antigas peregrinações, foi no propósito de me remeter ao mais absoluto e intangível silêncio».&lt;br /&gt;Felizmente, esse mutismo apenas se verificou quanto à actividade política, pois seria precisamente após o exílio, que Manuel Teixeira Gomes escreveu grande parte da sua vasta e multifacetada obra literária.&lt;br /&gt;De facto, noutra carta enviada dois meses depois (17 de Março) a António Patrício, seu amigo e confrade, Teixeira Gomes com a proverbial ironia que o caracterizou, garantiu que não ficaria quedo ou deprimido: - «Eu sempre fui um homem de desordenado viver e pensar (valeu-me o ter chegado a este mundo quando já estavam apagadas as fogueiras da Santa Inquisição, sem o que há muito que uma delas me haveria purificado da mácula dos meus pecados) e eu não levo jeito nenhum de tomar melhor caminho. Começo a nutrir certas apreensões acerca dos dias que me esperam; são capazes de me não deixarem festejar o meu próprio centenário, ao que eu punha certo empenho, pois era o mais bonito número do resto do meu programa»...&lt;br /&gt; O crítico literário Serafim Ferreira escreveria no «Diário» de 5 de Agosto de 1989, que em relação à Literatura - actividade a que desde muito cedo Teixeira Gomes também se dedicou – o período posterior ao frenesi político, «foram anos de reflexão e meditação sobre os problemas e valores estéticos e humanos de que claramente deu conta nas muitas cartas aos amigos, incidindo, com alguma sentida amargura, nos sobressaltos e questões sociais levantados depois da derrota em 1926 da agitada e convulsa primeira República».&lt;br /&gt; Manuel Teixeira Gomes legou-nos uma importante obra literária. Em 1899, publicou Inventário de Junho (reeditado e aumentado em 1933); em 1903, Cartas Sem Moral Nenhuma; em 1904, Agosto Azul (reeditado e aumentado em 1930); em 1905, Sabina Freire; em 1909, Gente Singular; em 1932, Cartas a Columbano; em 1935, Novelas Eróticas e Regressos; em 1937, Miscelânea; em 1938, o livro que tem sido considerado a sua obra-prima, Maria Adelaide; em 1939, Carnaval Literário; e em 1942 Londres Maravilhosa, (edição póstuma).&lt;br /&gt;Na «História Ilustrada das Grandes Literaturas», Óscar Lopes comentou que as primeiras obras de Manuel Teixeira Gomes tinham uma clara intenção anti-romântica e certa feição naturalista, bem visível «naquele cuidado de pormenorização tipificadora, que dessa escola resta como aquisição definitiva; e no gosto dos casos de doença, de degradação física e psíquica, como as devastações do bócio em «Maria Adelaide», os numerosos macrocéfalos e outros aleijões das suas páginas».&lt;br /&gt; Mas, se é verdadeiro esse ponto de partida naturalista, é também certo que já nessa altura se inserem «os seus achados expressionistas, tão invulgares entre os escritores portugueses do seu tempo, excepto Fialho, seu amigo íntimo».&lt;br /&gt; Na verdade, como refere Urbano Tavares Rodrigues no «Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira» desde muito cedo «a actividade do instinto e a imaginação plástica convergem no neo-helenismo impressionista de Teixeira Gomes (como ele próprio confirmou); sendo que nele se confundem e se interpenetram o sensualismo e o esteticismo. A arte é para Teixeira Gomes uma fonte de emoções sensuais, a vida um objecto de contemplação estética».&lt;br /&gt; De facto, somos de parecer que abertamente se pode afirmar, que em Teixeira Gomes a apreensão do belo exalta e enobrece o desejo, e este é como que o eixo da sua literatura recheada de virtuosismo e esteticismo aristocrático.&lt;br /&gt; Aliás, Urbano Tavares Rodrigues, que foi quem mais e melhor estudou a vida e a obra do escritor, diria mesmo «que tornam-se líricos a sua insistência nos temas eróticos e o seu misticismo estético, que é como uma segunda natureza conquistada. Uma pronunciada aversão pela discursividade didáctica ou moralizante, a repulsa do realismo «banal», combinam-se em Teixeira Gomes com a ironia, predispondo-o (…) para um comprazimento na crónica egolátrica (egocentrista), no retrato satírico, na acentuação do anómalo e nas evocações voluptuosas». &lt;br /&gt; De resto, Tavares Rodrigues e a maioria dos escritores que se debruçaram sobre a obra do escritor, asseverou que «veículo de matéria cromática, sensorial, o seu estilo, longe do puro deleite verbal, anseia  observação aristocrática de Teixeira Gomes. Em Ruskin e Wilde, em Rémy de Gourmont e Heine se podem encontrar os parentes espirituais mais acatados por Teixeira Gomes, propenso como o primeiro ao comentário de obras de arte, ligado aos restantes pela ironia sensorial, pela compostura perante a dor, pela exaltação da vida. Os seus mestres na literatura pátria, são por um lado os puristas e lavrantes da forma – Bernardes e Castilho – e por outro lado o grande subjectivo e gigante do sarcasmo, Camilo Castelo Branco, que a sua geração (Fialho à cabeça), saudosa de afirmação, de novo entroniza, apeando o objectivo Eça com o seu programa naturalista, do pedestal a que pronto regressaria».&lt;br /&gt; Por outro lado, Óscar Lopes depois de lembrar o carácter epistolográfico e miniatural duma parte substancial da obra de Manuel Teixeira Gomes, refere que «o fôlego do escritor algarvio, não ultrapassa o quadro pitoresco ou de costumes, o da anedota, do esquisso, do conto.&lt;br /&gt; Mas, nesses limites em que se vaza um conversador vibrátil e apurado, a composição é admirável, a linguagem inexcedivelmente clara, pura, exacta, variada de junturas, na sua restrição propositada de meios. Trata-se, assim, de um artista bem conhecedor da sua arte, a quem importam os clássicos, a gramática e os dicionários. (…)&lt;br /&gt; À guisa de conclusão e síntese, Urbano Tavares Rodrigues mencionaria que «o mais significativo da obra de Teixeira Gomes é a revelação duma forte personalidade estectizante, a apetência de serenidade agnóstica, o tom helénico-romântico (apesar do seu repúdio do romantismo frenético), duma atitude pagã antropocêntrica e a amorosa e consciente realização estilística (pureza de sintaxe, casticismo lexical, impressionismo das imagens)».   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Nos primeiros anos do séc. XX, o escritor permaneceu algumas semanas na Madeira, donde mencionando as belezas, os panoramas e o quotidiano da ilha, escreveu quatro cartas literárias ao seu amigo Luís Botelho, que foram publicadas, em 1903, num livro intitulado «Cartas Sem Moral Nenhuma».&lt;br /&gt;  Depois de destacar o humor vivaz, e a força do estilo do escritor, Urbano Tavares Rodrigues referiu que esse livro é na obra de Manuel Teixeira Gomes, «um dos mais aliciantes pela constante aliança das estesias e da ironia sarcástica, pela frescura de certas emoções e fantasias, como os descritivos da ilha da Madeira, desde os combates de nuvens aos mantos do verde e aos algares grandiosos da paisagem, às três noites seguidas de adoração ao corpo saboroso da Cecília dos cabelos adamascados, ou ao enlevo diurno do narrador perante o tríptico de três Apóstolos na sacristia da Igreja de São Pedro».&lt;br /&gt; No Prefácio dessa 5ª edição de «Cartas Sem Moral Nenhuma», Tavares Rodrigues, comentou ainda que o arrojado título daquela excelente obra, reforçou as ofensas, e calúnias dos conservadores e desafiou ainda mais a estúlcia da burguesia reaccionária, contra o cintilante escritor algarvio. Contudo, parecia-lhe óbvio que aquelas primorosas cartas, «sendo opostas ao espírito moralizador convencional, são em última análise aguerridamente morais, mesmo quando preconizam o pleno direito à felicidade dos sentidos, e até em especial quando assinalam misérias desumanas ou sofrimentos que o enunciador compadece e lhe despertam a revolta».&lt;br /&gt;Realçou ainda, que «Cartas Sem Moral Nenhuma», «frutos da vagabundagem de um olhar dedicado e de uma pena imaginosa, (…) pedem meças aos melhores textos similares de um Valéry-Larbaud, de um Giradoux, de um André Gide. Temos aqui a cartilha ibérica do mais mediterrâneo dos nossos escritores, o mais fadado para reproduzir e estilizar a natureza, a pintura, a escultura e o desvario erótico em termos de jóia verbal, discurso ele mesmo adornado, e pulcro, paralelo ao referente, por vezes superlativo e então – entre o classicismo e a sobrecarga quase barroca do léxico e da imagética – tocado de um flavor pessoal inimitável, a raiar a genialidade».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feita esta breve referência ao valor estético e literário de «Cartas Sem Moral Nenhuma», passaremos a resumir e a recriar os capítulos dedicados à Madeira, com a nota que os consideramos como umas das mais harmoniosas páginas da literatura portuguesa, sobre as singularidades e belezas do arquipélago madeirense.&lt;br /&gt;Teixeira Gomes começa por referir que vindo  das Canárias, o velho e sujo «Aline Woermann» aproximou-se da Madeira de madrugada, e foi já quase no ancoradoiro da baía do Funchal, que descortinou a ilha, «toda estofada em vegetação de um profundo verde-garrafa, subir como um pano de veludo esticado, que as nuvens estivessem puxando do mar…&lt;br /&gt; «Cortina espessa, húmida e feracíssima, sem delineamentos nem contornos, absorvendo tudo no seu nivelado plano ascendente, apareceu-me tal a convencionada antítese das ilhas clássicas do Mediterrâneo, descarnadas, sinuosas, de recortes caprichosos, sem qualquer sugestão utilitária como abundância, riqueza, fertilidade… Nesses enfeites do mar e do céu, peanhas propícias à obra de arte humana, onde uma coluna truncada ainda realça tão bem como o cabuxão no engaste de oiro, apurou a nossa raça os modelos definitivos da paisagem espiritual e poética, escravizada à arquitectura.&lt;br /&gt; «A primeira impressão da ilha da Madeira – tenebrosa e farta – é flagrante desacato a esses modelos respeitáveis e vem trilhar-nos, a despeito de tudo, a estesia que honramos…Mas, como chega depressa a reconciliação e como esmaece a aparente hostilidade suavizada em trechos surpreendentes, infinitamente diversos e de engenhoso arranjo»! …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Após desembarcar, o escritor hospedou-se na «Quinta Vigia», harmonioso e belo hotel dentro da cidade, que considerou o sítio ideal de retiros dos intelectuais, «para sentir a imaginação, largando pano direito a remotas, desconhecidas, almejadas plagas…&lt;br /&gt; «Tudo é imobilidade e sossego no panorama em gris que a minha vista abrange: mar de calmaria, adamascado, com a sua orla bordada de barcos em relevo – cascos de seda frouxa e mastreação de retrós – à luz igual, branca, branda, que o alto céu leitoso côa do sol que se não vê; as verduras mociças da serra aliviando-se de espessura em verduras mais tenras, ao contraste dos casais caiados, e, longe, sombrejando o horizonte, uns arremedos de Capri, ilhas perdidas cujas corcovas montam por sobre a última linha do mar»… &lt;br /&gt; Manuel Teixeira Gomes aclarou ainda que os esplêndidos jardins aéreos da Quinta Vigia - que foram afagados pela bela «Sissi», doce e infeliz imperatriz da Áustria - estabeleciam um inviolável refúgio para quem busca descanso e isolamento.&lt;br /&gt;  «A Quinta Vigia, cesta de flores, posta em peanha de basalto cujo plinto o mar lambe, foi o ninho preferido, ninho de silêncio, onde a miúdo vim macerar as minhas saudades em ondas de perfumes, movidos e avivados pelo hálito do mar. (…)&lt;br /&gt; «Em redor de mim os cravos poisam nas craveiras, espertos, como bandos de passarinhos: há cravos vermelhos, da cor fogo, que ardem ao sol, pequeninas chamas que vão desaparecer…&lt;br /&gt;«Não são os cravos…&lt;br /&gt;«Os cravos têm o perfume das vodas do campo; aqui, neste jardim, o cheiro da rosa vence todos os mais perfumes. É que ainda aqui paira o aroma da «rosa intangível» que os poetas adoraram, essa fluida imperatriz cuja incontestável realeza o profuso, excessivo manto, que lhe punha nos ombros o cabelo solto, apregoava. Foi aqui que ela sofreu os tormentos da sua pubescência dolorida» …&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Um dos primeiros passeios que Manuel Teixeira Gomes realizou na Madeira foi aos arredores do Monte, para onde galgou aproveitando o velho e esfalfado comboio. «É já uma elevação grande, o Monte, e o seu acesso, ao tirar da locomotiva arquejante, pela íngreme pendente acima, remete-nos à fantasia de certos contos diabólicos onde se violam sem escrúpulo as leis naturais. A paisagem torna-se ludíbrio da vista invertendo perspectivas, deturpando curvas, machucando casas, bandeando rochas, cavando abismos infernais sob a gaze esverdinhada das trepadeiras em flor, desencantando vales idílicos a meio de ravinas lôbregas e revoltas, arrancando os pinhais à sua perpendicularidade majestosa para os arrojar como feixes de lanças de encontro aos broquéis espelhados dos tanques de água.&lt;br /&gt; «Todos estes elementos de discórdia, aquietados à paragem do elevador, tecem, sumptuosamente, a dalmática, a capa de asperges, admiração e enlevo dos olhos, sob a qual o Monte avoluma desde a roda do mar ao adro da igreja. Os pinhais fazem-lhe o fundo de veludo escuro, cercado e lavrados da doirada ramagem das carvalheiras, por onde reluz a pedraria das fontes» …&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Partindo dessa pitoresca capela, à cata de novas perspectivas, o escritor caminhou pelos pinhais que se alastram por cima, «com mira nos cabeços de granito quase inacessíveis que a miúdo calvejam na densíssima vegetação das matas, empresas por vezes temerárias mas generosamente recompensadas na exultação dos horizontes larguíssimos, a mais e mais despejados ao sucessivo desdobrar de ondulações montanhosas».&lt;br /&gt; Depois, torneou para leste, «dando volta à escavação fragosa do Curral Pequeno, descansando na passagem da Choupana – trecho de composição alpestre - até os prados da Camacha, campina em planos curtos de relva, quebrada por sebes de vimeiros».&lt;br /&gt;  E a tarde já ia longa quando o escritor regressou, e desceu do Monte ao Funchal, «dentro de uma canastra de verga, assente em duas tiras de madeira ensebada – trenó rústico – resvalando vertiginosamente pelos declives arrebatados da calçada estreita, onde há traços quase verticais cuja passagem provoca angústias de queda mortal» … &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, Teixeira Gomes visitou Câmara de Lobos, «porto de pescadores fechado em rochas de basalto, crespas como ficam as gotas de chumbo derretido que as crianças deitam na água fria, para tirar sortes, em véspera de São João. Aí perto levanta-se do oceano uma despropositada mole, de temeroso esboço elefantino, aguentando a encosta risonha do vastíssimo vale que deu entrada aos descobridores da ilha. &lt;br /&gt;  «A estrada que liga o Funchal a Câmara de Lobos, nos lanços arrojados, no modo de galgar as agrestes, apertadas ravinas, nos encurvamentos pitorescos por onde se esquiva, plagia agradavelmente a estrada de Posilipo» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra jornada que encantou o escritor, pela irrefutável originalidade e beleza, foi a que realizou ao Curral Grande ou Curral das Freiras, que o deslumbrou ao ponto de comentar: - «Esta pavorosa depressão geológica encerra no círculo das suas muralhas de granito negro, à profundidade de muitas centenas de metros, um vastíssimo e deslumbrante tapete de tintas fundidas a primor em culturas variadas e prósperas. Tal é a surpresa de encontrar assim entregue à monstruosa aglomeração de rochas bravias a guarda daquela maravilhosa alfaia, cujo desenho e colorido somente se explicariam nas combinações de uma arte reflectida e consumada, que não sopeamos a fantasia e à incitação do conjunto fabuloso, para ali trasladarmos instintivamente quadros mitológicos, imaginando que ali mesmo se congregaram os exércitos de titãs para ocultar o seu paládio, antes de acometer o céu…  &lt;br /&gt;«Prestava-se a luz à visão perfeita, exaltada na transparência do ar que acendia as cores como cristal puríssimo. Tudo ali era pintura; nenhum relevo perceptível destrinçava as árvores de outra vegetação mais chã; as casas denunciavam-se no rigor geométrico das suas manchas e movimento algum traduzia o gorgulhar do homem naquele fundo matizado onde a impressão de isolamento absoluto, de alheamento expiatório, de natureza enclaustrada, sobrepujava a qualquer outra». &lt;br /&gt;No regresso, para que a quinta-essência fosse total, o escritor afirma que descansou «numa espécie de boceta oval, toda alcatifada a musgo roxo, genuína gruta de poema pastoril, a cuja entrada rectangular pendia uma cortina de água desfiada, e os fios tão juntos e distintos como nos reposteiros de missanga japonesa».&lt;br /&gt;E ainda não refeito pelo deslumbramento das paisagens do Curral das Freiras, antes de regressar Teixeira Gomes ainda anotou, assombrado: - «O meu guia, a quem não foi indiferente o assombro que se me transluzia no rosto, prometeu-me passagens ainda mais portentosas nesta ilha desconhecida. Falou-me do sítio de Santana como se pintasse a tebaida dos poetas; ergueu a mão, lentamente, sobre os abismos e aguçou no espaço uma ponta diabólica: o Pico Ruivo; os seus grandes olhos reflectiam cambiantes infinitas: eram as cascatas do Rabaçal».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manuel Teixeira Lopes fruiu algumas horas de descanso no Funchal, onde na manhã do dia seguinte, apoiado ao imponente mirante da «Quinta Vigia», observou o desembarque dum contingente de tropas inglesas com destino ao Cabo. «Desembarcaram limpos e empertigados nos seus uniformes de caqui engomado. (…) Regressam, amarfanhados, mas não combalidos, pelos efeitos das beberagens venenosas – que sob o rótulo de «Madeira genuíno velho» os taberneiros lhes ministraram -, distribuindo pontapés e socos, em guisa de paga, aos assassinos que os perseguem».&lt;br /&gt;  Na parte da tarde, quando descia até ao centro, o escritor confidenciou: - «aproveitarei para dar uma volta pela cidade que ainda não vi; nem sequer entrei à Sé. Contento-me quando vou a caminho do Monte em parar diante da torre quadrada que se ergue das abóbadas da abside. É um arranjo de linhas e de cor altamente pitoresco.&lt;br /&gt;«A construção ampara-se a gigantes toscos – rematados por agudíssimos fusos de pedra torcida entre os quais corre uma renda manuelina – para formar terraço. Apoiado em parte neste, e sustido lateralmente por gigantes mais sólidos, outro terraço mais elevado cerca-se de balaústres, donde se levanta o campanário de pedra negra faustosamente mitrado de azulejos claros. A ramagem de duas viçosas palmeiras, que repuxam dos alicerces, espaneja-lhes as pedras carcomidas». &lt;br /&gt;Dias depois, visitaria o interior da sumptuosa catedral, que descreveu como sendo composta de três naves, «com um tecto de cedro artesoado, em rosas octógonas, com pinhas vazadas e pinhas pingentes, alternando, e tudo embutido a marfim e madrepérola, no melhor estilo hispano-árabe.&lt;br /&gt;«A capela-mor, manuelina; - infelicíssima com a pintura das cadeiras de coro retocada a azul celeste e caca de anjinho; a capela do Santíssimo lavrada e cosida em oiro, resplandecente, riquíssima, e o tesouro da irmandade recheado de ostentosas alfaias do bom tempo de D. João V; muito azulejo curioso, de fábrica portuguesa, em largos panos historiados a figuras azuis. Alguns painéis, de forte colorido, pelos retábulos e a jóia por excelência, a célebre cruz que D. Manuel ofereceu, a qual tão apreciada foi em Lisboa, na Exposição de Arte Ornamental, que por pouco não fica lá esquecida. É com efeito objecto para ensandecer a quem lhe antegostar a posse: as delicadíssimas figurinhas dos quadros da Paixão, que lhe enxameiam os braços, parecem obra italiana» … &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Nessa semana, o escritor visitou a igreja de São Pedro e ficou maravilhado com um tríptico em madeira, hoje exposto no «Museu de Arte Sacra do Funchal» que por um feliz acaso encontrou na sacristia, «onde jazia há mais de um século, incrivelmente, sem nunca ter conseguido arrancar aos frequentadores ou visitantes da igreja palavra alguma de louvor ou admiração... (…)&lt;br /&gt; «É um verdadeiro tríptico, com os painéis laterais susceptíveis de serem dobrados sobre o painel do meio, como se fecham as portas de um armário. Uma figura de corpo inteiro – três quartos do natural – em cada quadro.&lt;br /&gt; «O do centro representa São Pedro visto de frente, a cabeça um pouco inclinada para a direita e rematando a leve inflexão do corpo. Com a mão esquerda segura as pregas do manto e com a direita, erguida à altura do peito, empunha a chave doirada do céu, sustendo no antebraço um livro aberto. (…) Velho, calvo, corado, de barba branca, tipo rústico, de expressão jovial, bondoso e são, como convém à figura que reproduz. O fundo do quadro imagina a larga paisagem em volta de um lago, ou ria, ou braço de mar sereno, onde as margens se alcantilam de rochas agudas. Ao lado direito, em proporções de miniatura, o episódio da vida do pescador que deixou a barca no mar e vem, por cima de água, direito ao Cristo que o espera na praia; depois, a perspectiva circular dos rochedos e vegetações que se entremeiam, à esquerda, de edifícios consideráveis até dar no casaria de uma cidade fortificada. (…) Pitorescas ribas com trechos de praia arenosa; florestas fruindo luz; águas fluidas, sob a ampla concha do céu, a desfalecer em tons atenuados de uma doçura liliácea; toda a admirável paisagem esbatida a meias-tintas, onde a figura principal ganha relevo, este fundo pacificador e luminoso é quase a alma do santo comentada.&lt;br /&gt; «O quadro direito representa Santo André. Vestido de escuro, a cabeça a três quartos, o corpo inclinado para a frente, uma das mãos arrimada à cruz em forma de x, na qual padeceu o martírio, a atitude, a expressão do rosto de quem rebate com ironias os assomos da brutalidade agressiva e insofrida… É uma figura de homem vigoroso, na pujança da vida, superiormente belo (…) &lt;br /&gt;«O quadro da esquerda é obra-prima de simbolismo manifesto. Tudo quanto o dogma cristão deve à tenacidade agitadora, ao imperialismo intelectual de São Paulo encontra-se ali escrito, naquela figura imperturbavelmente severa e enérgica, a um tempo meditativa, inteligente poderosa e obstinada… (…) O que se vê da paisagem, ao fundo, é em linhas convulsas, por onde assoma uma nesga de floresta tenebrosa ou torreja um castelo minaz.&lt;br /&gt;«A classificação desse tríptico deve apresentar dificuldades ainda aos mais expertos. O valor subjectivo – sem quebra de perfeição naturalista – das paisagens que lhe tomam o fundo fá-lo, talvez, derivar da escola de Bruges e contemporâneo de Gerard David, mas a obra está absolutamente limpa dos trechos ornamentais, bordados e alfaias, que constituíam as delícias de pintores flamengos de então. (…)&lt;br /&gt;«É sem dúvida trabalho de grande mestre. (…) Mas que seja flamengo, ou, ainda, alemão – o Holbein não repudiaria o Santo André – pouco importa a quem lhe não goza o sentido arqueológico ou histórico e sim a actualidade da beleza que persiste na harmonia do colorido, no engenho da composição e pelo vigor do desenho». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de sair da igreja de São Pedro o escritor passeou pela cidade, onde era bem visível a situação de abandono total por parte do Governo Central, aliado à profunda crise económica, e ao deplorável atraso social e cultural da Madeira de finais de século XIX e princípios do XX. Então, acudiu-lhe ao espírito reflexões amargas de fel:&lt;br /&gt;«Desgraçado país! Aqui, no Funchal, da linda casa onde habitou Colombo, relíquia venerada, romagem de estrangeiros ilustres, ainda perfeita há dez anos, só resta um cliché fotográfico: arrasaram-na por causa das eleições… Nesta ilha abençoada não há «porto», não há «estradas» … e chamaremos infames aos Ingleses se nos derem o que nos falta só a troco de uma substituição de bandeira? Chamaremos infames aos Americanos quando eles, em nome da humanidade e a troco de sacrifício igual – leve – levantarem e acenderem nos Açores os faróis de que os Açores carecem para não serem mais, em mãos dos portugueses, o terror da navegação universal» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana seguinte, Manuel Teixeira Gomes passou quinze dias de inefável regozijo contemplativo em Santana, como refere «a filtrar a alma por sítios tão altos, tão luminosos, tão desafogados, que ma restituíam límpida, serena, permeável às mínimas irradiações de beleza exterior. Movimentos, formas, cores, reverberavam-se-me no cérebro por clarões iriados da alegria de viver. &lt;br /&gt;As cinco léguas de travessia do Funchal até a hospedaria de Santana, foi trabalhosa, com chuva e cerração, muitas horas sempre com água acima do artelho, «pisando caminhos suspensos à laia de escadas de corda sobre despenhadeiros apocalípticos. (…) &lt;br /&gt;«Esperavam-me…Despi-me; confiei o fato encharcado a uma das duas bruxas saturninas a cujo cuidado fora cometido o trato da minha pessoa. Jantei na cama e adormeci ao som da tempestade que durou pela noite fora e era deliciosa de ouvir nos interlúdios do sono. (…)&lt;br /&gt;«Amanheceu o dia seguinte inesperadamente formoso e a chuva não incomodou mais durante a minha permanência ali; tempos vários, frescos, de ventos e nevoeiros e muita nuvem a empanar o céu de formas em perpétua evolução, como estudos para ornamentações cada vez mais faustosas… O tempo, enfim, que melhor convém a digressões alpestres (…)&lt;br /&gt;«Sorvia o mundo pelos sentidos, abrindo os olhos às perspectivas infinitas, aos céus ampliados na circunferência do mar que a elevação das montanhas dilata, as prodigiosas transfigurações da paisagem, ora aparecendo em miniaturas esmaltadas, nas profundíssimas cavidades dos vales, pelo rasgão de uma nuvem opaca, ou, deslocada no caixilho móvel do arco-íris, esbatendo-se sob a musselina flutuante das neblinas leves, ou sepultando-se nos nevoeiros crassos, que a abafam por fim em borrões quase líquidos – redomas de vidro cheias de fumo negro… E logo a súbdita rajada de vento, a ressurreição das matas cerradas que sobem pelas encostas arrebatadamente, como exércitos, levando, a modo de guiões nas pontas mais altas dos pinheiros, farrapos de névoa doirada; e na volta do atalho, a terra a resvalar por vinte espinhaços, varetas de um leque meio aberto, cujo pano matizado o mar arredonda.&lt;br /&gt;«Ao cair da tarde o sol oblíquo ardia nas poças de água tão violentamente que encandeava e, mais intensa do que à excitação do álcool, a vida acelerava-se na embriaguez das excessivas altitudes…O meu sono era suave e continuava durante a noite o embevecimento dos dias generosos, em sonhos cujas imagens buscavam o meu travesseiro bailando como pérolas brancas nas réstias de luar» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante esses dias de encanto, Manuel Teixeira Gomes efectuou alguns passeios pelas magníficas redondezas da vila. «Foi ao Santo da Serra e ao Pico Ruivo, custosas jornadas que alternavam em dias de mais energia com as visitas aos povoados vizinhos e às fragas da costa.&lt;br /&gt;«Em volta de Santana o campo bem cultivado e fértil reparte-se infinitamente em pequenos retalhos por sebes tecidas de roseiras, hortênsias e lírios. A indústria tem chegado ali ao extremo de prender ao flanco das rochas aprumadas no mar pequenos canteiros de verdura, sobrepostos em cadeia de alcatruzes, por sítios cujo acesso se deve reputar empresa para loucos». &lt;br /&gt;Maravilhado, o escritor relata: - «Para rematar o prazer desses dias de Sant´Ana a situação do hotel reservava-me, nas horas sedentárias, o seu admirável panorama, cuja tribuna era um grande jardim abandonado.&lt;br /&gt;«Ao centro a casa, sob a exuberância festiva das flores de um buganvil que lhe bucolizava a fachada, fazia de caramanchão, sustida, rusticamente, em torcidos troncos de parreiras; nos festões de púrpura desbota do buganvil, emaranhavam-se as vides com a viçosa alacridade das hastes novas que abrem ao sol as folhas de cristal doirado.&lt;br /&gt; «O jardim, todo, em volta, celebrava a glória de vegetar livremente, por desvairadas composições cromáticas e promiscuidades subversivas dos bons preceitos de cultura.&lt;br /&gt; «O cálice dos lírios roxos enfeitava a hirsuta grenha dos buxos outrora tosquiados; dois ciprestes agudos viam-se liados até meio na rede das trepadeiras multicores, como bandarilhas de honra; presos à mesma moita, os botões de rosa, cheios, pesados, amarelos com jeito de limões, as estrelas de veludo gasto das rosas negras, as crespas borlas fartas das arregaçadas rosas cor de carne. Outras rosas desfolhadas maculavam de sangue os cortes de brocado rescendente, tecidos por jacintos e narcisos em canteiros ainda geométricos. Árvores imensas de camélias, tão inçadas de flores que pareciam fingidas, a meter-se ainda em cima nos enredos de florinhas brancas dos jasmineiros de Itália e, suspensas nas pernadas dum carvalho único, exorbitante, os xales de glicínias sumptuosamente franjados…  &lt;br /&gt;  «Parte do jardim tornara-se impenetrável pela densíssima vegetação que o enchia, mas via-se, de longe, desse miolo de verdura, alar a fluência magnífica das bananeiras estéreis, os leques malabares das palmas anãs, as vergastas dos bambus e, ardendo como fachos acesos, os tirsos alaranjados dos cactos floridos… Do lado oposto e ao abrigo do biombo de loureiros, entretecidos de heliotrópios, cujas flores, na sombra lúcida, lhes recamavam a folhagem envernizada de gotas azuladas, o tanque de águas verdosas, turquesa oval, reflectia por entre rolos de limos trechos do céu profundo. Era ali que durante os crepúsculos se destilavam os perfumes mais activos.&lt;br /&gt; «O jardim vivia o momento supremo do seu esplendor, hora imperial, fulgurante, perdulária, que se encurtava para se não repetir mais, exausta em voluptuosidades arrebatadas e caprichosas; e essa hora divina foi para mim só» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Do terraço da hospedaria, livre por todos os lados, graças à amplitude de sucessivos vales, Teixeira Gomes descobriu «em redor a imensa região de serranias revoltas, que enchem o horizonte de cimos recortados como um abecedário turco e garram, para o sul, na ponta de São Lourenço…&lt;br /&gt; «A ilha saturada de água ressuda agora em fontes, cascatas e ribeiros, cujo murmúrio ouvido no jardim, como um solo de flauta modulado a distância, os melros acompanham chilreando em coro.&lt;br /&gt; «Mas o que ia no céu não eram meras combinações ornamentais; as nuvens davam ali espectáculos ordenados, de acessível compreensão. Comédias e tragédias e autos e farsas.&lt;br /&gt; «Os protagonistas eram uns monstros de algodão nevado, e aparência vagamente ursina, que dois dias depois da minha chegada assomaram ao horizonte lá dos lados de leste e nunca mais desampararam a cena. Se por acaso o vento norte os obrigava a acolher-se a bastidores, ei-los que, ressurgindo de oeste, iam tranquilamente acastelar-se nas cristas da serra, levando o céu às costas, como coisa muito sua e do seu uso íntimo. Armavam todas as tardes umas aparatosas tendas de cetim bordado a froco, cujas franjas desciam até o mar, e nelas se recolhiam ao cair da tarde, em majestosa procissão, com os Reis à frente, a quem o Gregório chamava Dom Fabrício e Dona Giralda.&lt;br /&gt; «Passaram alguns dias em batalhas que pelo método a que tudo obedecia mais pareciam torneios, e era de ver, durante os terríveis recontros, como se abolavam as resplandecentes couraças e que jorros de sangue lhes corria das feridas e vinham pelo céu abaixo juntar-se, a poente, num lago de púrpura. Desse lago levantou-se uma tarde um dragão horrendo que arremeteu de fauces escancaradas direito ao sol. Correu-lhe ao encontro Dom Fabrício, despedindo chamas do arnês de diamante. Mas o dragão levou-o de vencida, arpoou-o com as garras, engoliu o Sol e rolou para o mar escabujando e dando urros…&lt;br /&gt; «Depois fez-se entre os monstros a grande paz em que os deixei. Saíam com a aurora a apascentar os rebanhos de ovelhas de prata e desciam invariavelmente, sem mais desvio, a pendente do mar onde passavam a noite. Só uma vez os vi fora de água depois do sol-posto: estavam todos à roda da Lua a estudar, talvez, algum maravilhoso fenómeno que nós não percebíamos cá da Terra» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manuel Teixeira Gomes regressou de Santana pelo caminho que bordeja o Faial e embarcou na praia de Machico para o doce remanso da «Quinta Vigia», no Funchal. «Por toda a parte a vegetação pulula e as mesmas rochas desaparecem sob espessíssimos mantos de musgo, de modo que um estofo solto parece cobrir o esqueleto da ilha, sustendo-se nas depressões em regaços de veludo e selando-lhe os espinhaços de feltro brando. Certos caminhos desenroscam-se nas gargantas dos algares, pelos debruns dos despenhadeiros, à laia de serpentes; outros são como frágeis laços de nastro atirados a esmo aos lombos cheios; outros riscam as penhas escuras e perpendiculares de ziguezagues – as linhas quebradas das faíscas eléctricas nos horizontes plúmbeos» …    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Poucos dias depois, o escritor foi de passeio à famosa, «Quinta do Palheiro Ferreiro», «que era a propriedade mais bem cuidada e mais célebre da ilha, verdadeiro apanágio de casa reinante.&lt;br /&gt;«Em situação esplêndida e, à semelhança dos parques ingleses, armando, ao acaso, sobre um prado uniforme, igual, de relva viçosa, ou canteiros de flores, os grupos de árvores raras, as alamedas pomposas de carvalhos, de castanheiros, de plátanos, os pequenos labirintos de pinheiros, os lagos reflexivos e as fontes sussurrantes, limpa de toda a rusticidade inconveniente, não será fácil inventar cenário mais apropriado para idílios perversos do que o recinto daquela embelezadora quinta» … &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As últimas digressões pela ilha da Madeira executadas por Manuel Teixeira Gomes e que o deixaram deslumbrado, encaminharam-no para o Rabaçal; e até às serras de São Vicente e Boaventura:&lt;br /&gt;«Fui embarcado do Funchal à Calheta, que é um cordão de casas, suspenso do espinhaço da serra, à semelhança dos rosários de pimentos que se vêem às portas das vendas espanholas…&lt;br /&gt;«O trecho fragoso da costa que o vapor percorre despeja, agora, dos alcantis sobre o mar infinitas cascatas, como se a ilha fosse uma imensa concha de granito a transbordar água clara.&lt;br /&gt;«Vai-se da Calheta ao Rabaçal em continuada ascensão por lombos ouriçados de pinheiros novos e fundos barrancos vestidos de giestas amarelas de oiro que o vento açafroa aos sulcos – os sulcos deixados pelo roçar, leve, dos dedos sobre um estofo de pelúcia… Atravessa-se à luz de archotes um quilómetro de túnel – o Furo – e desemboca-se na região das «águas loucas», o Rabaçal, onde tudo se desfaz em cristais líquidos a correr para os abismos de veludo, verde.&lt;br /&gt;«Ali, ainda subsiste a primitiva vegetação em urzes que atingem dimensões de carvalhos grandes e nas dragoeiras-da-índia, árvores quase fabulosas, com troncos abertos e cavados a modo de grutas amplas no seio da rocha…&lt;br /&gt;«Desfazem-se os rochedos em água que lhes rebenta do coração e repuxa e brilha e cai, silenciosa, nos tapetes de musgo.&lt;br /&gt;«Uma estreita cornija que serpenteia sob o lençol, pejado de cambiantes, de extensa cachoeira, dá acesso ao assombroso meio cilindro, cavado no granito, onde esfuziam com desordenada violência, espadanando em leques ou vergastando em cordas grossas, dezenas de fontes, e sobre elas, de altura espantosa e tomando-as todas dentro de uma luminosíssima cúpula de vidro prismático, outra cascata a desfechar noutro mais vasto cilindro, fojo temeroso e sem fundo por cujos recessos a vegetação esponjosa lhe absorve e abafa o ruído…&lt;br /&gt;«É o Risco e o Sítio das Vinte e Cinco Fontes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vistas e percorridas todas as excelências em torno da Calheta e do Rabaçal, que se multiplicavam em girândolas de beleza e assombro; o escritor percorreu as serras de São Vicente e Boaventura que «pedem para ser vistas por miúdos e «vividas» durante meses. O género pastoril, a não ter nascido na imaginação dos poetas que buscavam cenários adequados a idílios rústicos entre almas cândidas, inspirou-se, decerto, em regiões parecidas a esta, se as há: murmuram os ribeiros, chilreiam as aves, choram as fontes e as grandes árvores agitam brandamente sobre os prados matizados a sombra cariciosa das suas ramas… Aónia e Pérsio por lá andam perdidos…&lt;br /&gt;«Mas a fim de satisfazer a todos os gostos também não escasseiam ali vestígios de convulsões tremendas, com perspectivas trágicas. Topa-se a caminho do Curral Grande com uma escadaria colossal de basalto que, sendo infinita, não leva ao céu nem ao inferno…; é uma expressão de ansiedade petrificada».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas cartas que estamos recriando, Manuel Teixeira Gomes também nos deixou algumas páginas reveladoras da sua imaginação fortemente esteticista e sensualista; bem patentes na narração do corpo saboroso de Cecília, uma jovem camponesa do Monte, que tinha sido seduzida por um primo, e vivia por conta dum inglês rico e zeloso, que se tinha ausentado da ilha; facto que o escritor aproveitou para obter os favores dessa magnífica e esplendorosa gema…&lt;br /&gt;«Era um perfil idealizado à maneira dos cunhos gregos que eu divisei, argênteo quase, no interior penumbrento de uma casa térrea, de passagem para o Monte. Expressão muito fina e o que quer que fosse de longinquamente, subtilizadamente, caprino; olhos claros sob a leve curvatura das sobrancelhas negras e dois rolos de cabelo loiro, levemente arcados também e paralelos às sobrancelhas, alisando-se sobre a testa para unirem as pontas detrás da cabeça. (…)&lt;br /&gt;«A Cecília tem a consciência exacta de quanto vale despida. Viveu até aos dez anos descalça, na serra, e os pés, perfeitos, conserva-os intactos, mau grado as elegantes botinas de tacão alto, a cujo molde os sujeitou. (…) Contou-me que o dissoluto amante fotografou-a repetidas vezes, em diversas posições estudadas nua, mas conservando-se de meias e botinas… Para arranjar fundos aos quadros colgava nas paredes colchas preciosas de que ela me mostrou a colecção admirável.&lt;br /&gt;«Eu observei-lhe: - O teu amante, além de libertino, parece-me homem de pouquíssimo gosto… Tu és incomparavelmente mais formosa descalça e para to provar vamos repetir as lições que ele te deu, mas sem botinas nem meias…&lt;br /&gt;«Às atitudes académicas ajuntava ela outras de suas invenções; a mais atraente era de joelhos sobre a cama, sentada nos calcanhares, com um sorriso malicioso e quieto, a apontar para mim os bicos dos seios hirtos, cada um em sua mão… Era imagem que o poeta aceitaria para pôr à entrada do palácio da Ventura… (…) Apeteceu-me beijar-lhe os olhos, sorvê-los como duas gotas de vinho generoso… (…)&lt;br /&gt;«Julguei de outra vez surpreender-lhe nos olhos claros uma levíssima tinta de melancolia.&lt;br /&gt;-« Que tens tu? – Perguntei?&lt;br /&gt;- «Nem eu sei bem… Desejava ser cabra e comer de bruços a erva verde… - e o seu rosto tomou a mais lídima expressão vegetativa» …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já com saudades do mar, Teixeira Gomes, fez as últimas despedidas da Madeira, pois no dia seguinte embarcaria no «Cabo Verde», e já melancólico revelou: - «Respigando nas minhas sensações após a deliciosa ceifa, foi ainda ao sossego umbruoso da Quinta Vigia que recorri – a Quinta Vigia das horas de grande calma. Esta cesta de flores, posta em peanha de basalto cujo plinto o mar lambe, foi o ninho preferido, ninho de silêncio, onde a miúdo vim macerar as minhas saudades em ondas de perfumes, movidos e avivados pelo hálito do mar… (…) Em redor de mim os cravos poisam nas craveiras, espertos, como bandos de passarinhos: há cravos vermelhos, da cor do fogo, que ardem ao sol, pequeninas chamas que vão desaparecer… (…)  &lt;br /&gt;«A lembrança de uma pequena ilha morre depressa na memória; fica-nos dela uma vaga imagem, fingida, a boiar à tona do mar distante; é um navio desmantelado que já não levanta ferro, inválido, incapaz de seguir viagem… (…)&lt;br /&gt;«Destes perfumes, destas flores, da vida livre e encadeada no resplendor que assoma às arestas das montanhas – e as sestas breves junto às fontes claras – e a ânsia fútil de subir, para que a redoma do céu abranja um circulo de mar mais vasto – e a caça dolosa aos desejos fugitivos nas pupilas dos olhos que se esquivam – e a esperança da virgindade a violar – e a impressão dos teus seios que amadureceram ao calor das palmas desta mão - ; é de tudo isto que eu teci a mortalha com a qual te enterrei já, ilha encantadora e selvagem, neste jardim onde o perfume da rosa vence todos os mais perfumes» …&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-2298573794035109522?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/2298573794035109522/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-manuel-teixeira.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/2298573794035109522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/2298573794035109522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-obra-de-manuel-teixeira.html' title='A Madeira na Obra de Manuel Teixeira Gomes'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NL1_OFncI/AAAAAAAAABk/sUkhT-1G0lk/s72-c/Marques+Oliveira+Teixeira+Gomes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-8582415641514820212</id><published>2010-02-09T00:34:00.001Z</published><updated>2010-02-11T00:15:23.887Z</updated><title type='text'>A Madeira na Vida de Norton de Matos</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NMFekFAtI/AAAAAAAAABs/odlYhYBo9zQ/s1600-h/Norton+de+Matos.bmp"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 210px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NMFekFAtI/AAAAAAAAABs/odlYhYBo9zQ/s320/Norton+de+Matos.bmp" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5436772832153764562" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;José Maria Mendes Norton de Matos, nasceu em 23 de Março de 1867, na Vila de Ponte de Lima - Minho, tendo aí falecido a 3 de Janeiro de 1955. Matriculou-se no Curso de Matemática da Universidade de Coimbra, em 1885, tendo ingressado depois na Escola do Exército no ano de 1888; onde três anos depois acabou o curso, e foi promovido a oficial do quadro permanente.&lt;br /&gt; Foi um ilustre escritor, um distinto militar, um brilhante quadro colonial e um corajoso político, agraciado em Portugal com as Grã-Cruzes da Torre e Espada; de Sant’Iago; e de Avis; e ainda com a comenda da Ordem de Cristo. Na Inglaterra, seria distinguido com a Grã-Cruz de S. Miguel e S. Jorge.&lt;br /&gt;Como escritor, além de ter colaborado em diversos jornais, nomeadamente no Primeiro de Janeiro do Porto, publicou A Província de Angola (1916), Memórias e Trabalhos da Minha Vida (1914-1916), Ensaio sobre Paiva Couceiro (1948), e A Nação Una (1953).&lt;br /&gt;Como militar, encetou a sua carreira no posto de alferes do Regimento de Cavalaria 4, e poucos anos depois, concluiu os tirocínios para o Corpo do Estado-Maior; tendo sido nomeado chefe do Estado-Maior da 5ª Divisão Militar, após a implantação da República. No período da Primeira Guerra Mundial, já como Ministro da Guerra, foi o principal responsável pela organização do Corpo Expedicionário Português, tendo contribuído, decisivamente, para em apenas nove meses, transformar um exército bisonho e mal organizado, numa razoável unidade operacional; façanha que ficou conhecida como o milagre de Tancos.&lt;br /&gt; Com o Governo da Ditadura implantada por Sidónio Pais, Norton de Matos foi demitido da pasta da Guerra, e obrigado a exilar-se em Londres, onde apenas por grande patriotismo aceitou um comando subalterno na Flandres, no mesmo corpo expedicionário que tão brilhantemente havia criado e chefiado. Finda a Guerra, foi um dos mais destacados e influentes membros da delegação portuguesa à Conferência de Paz.   &lt;br /&gt;Como quadro colonial, pouco após o odioso Ultimato inglês, e influenciado por Mouzinho de Albuquerque a quem muito prezava e admirava, Norton de Matos iniciou a sua famosa carreira servindo durante alguns anos no Estado da Índia, onde se salientou como chefe dos Serviços de Agrimensura; tendo até dirigido e organizado todo o cadastro dos terrenos daquela colónia.&lt;br /&gt; Em 17 de Julho de 1912, foi nomeado Governador – Geral de Angola, tendo sido afastado dessa incumbência pelo gabinete de Pimenta de Castro, que depressa acabou também por cair. Poucos meses depois, o novo Governo da República indicou-o para o cargo de Ministro das Colónias, e mais tarde para o de Ministro da Guerra. Até que em 1921, voltou a Angola para desempenhar o importante posto de Alto-Comissário da República, tendo aí desenvolvido uma obra tão gigantesca, que ficou conhecido e apelidado como o Cecil Rhodes português, ou seja, o homem que sonhou o Império.&lt;br /&gt; Na verdade, Norton de Matos foi o maior obreiro da nossa acção colonial, ordenando a construção de dezenas de milhar de kilómetros de estradas e caminhos-de-ferro, o apetrechamento e a reconstrução de vários portos, o lançamento de linhas telegráficas, a expansão da língua portuguesa, o incremento do povoamento, a organização administrativa e civil de Angola, o combate à doença do sono, e a realização do 1º Congresso de Medicina Tropical, em que participaram os mais célebres cientistas mundiais.&lt;br /&gt; De toda essa vasta obra colonial, de que apenas focamos alguns exemplos, queremos destacar o seu constante empenhamento no sentido de mudar a situação das populações indígenas, transformando a conjuntura de quase escravatura, que então imperava, num estatuto de cultivadores livres e de pequenos proprietários. Em suma e como refere o historiador Rui D’Abreu Torres, a política de Norton de Matos «consistiu, fundamentalmente, em colocar o território angolano – onde foi encontrar escravatura encoberta, camuflada e sofismada – no caminho dum desenvolvimento económico, com base na agricultura, e numa aculturação assente na dignidade humana relativamente às condições da propriedade, do trabalho e da saúde».  &lt;br /&gt;Tamanha visão e humanismo despertaram a reacção dos medíocres e dos negreiros exploradores dos povos coloniais, que acabaram por conseguir que, em Junho de 1924, o general fosse afastado de Angola, embora para ocupar o importante cargo de embaixador de Portugal em Londres. Na Inglaterra, Norton de Matos depressa ganhou prestígio e consideração, tendo registado com muito brio:- que no meio de uma civilização como outra nunca houve, fui cercado de estima e respeito na minha qualidade de representante de um País, que soubera colocar-se no lugar que o seu passado e a sua missão histórica lhe marcaram.&lt;br /&gt; E através da sua calorosa acção em defesa da amizade luso-britânica, foram tão distintos e valorosos os benefícios alcançados pelos dois povos, que determinou que Jorge V lhe concedesse o título de sir, e o agraciasse com a Grã-Cruz de S. Miguel e S. Jorge. &lt;br /&gt;Como politico, Norton de Matos sempre revelou uma coesa orientação progressista e democrática, honrando significativamente o nome herdado de seu pai Tomás Mendes Norton, activo liberal e descendente duma geração de ilustres pedreiros livres, portugueses e ingleses.&lt;br /&gt; Em consequência dessa tenacidade desenvolvida na defesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade, a ditadura de sinal fascista surgida após o movimento de 28 de Maio de 1926 afastou-o dos cargos políticos e administrativos que desempenhava; marginalizando este grande vulto da história nacional, que apenas pôde dedicar-se à carreira de professor catedrático de Geodesia e Topografia, no Instituto Superior Técnico.&lt;br /&gt; Em Junho de 1948, milhares de anti-fascistas, na maioria provenientes do Movimento de Unidade Democrática (MUD), patrocinaram a candidatura do General à Presidência da Republica, tarefa que foi aceite por Norton de Matos, que apesar da sua já vetusta idade, alimentou uma corajosa e dinâmica campanha eleitoral, na qual reivindicou a restauração do regime democrático, e denunciou os crimes da PIDE, a repressão, a desenfreada exploração, o obscurantismo, os males da censura, e a falta das liberdades fundamentais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1896, o general Lencastre de Menezes, proveniente de famílias da nobreza, e frequentador dos salões da alta sociedade lisboeta, foi encarregado de chefiar uma comissão de inspecção militar no arquipélago da Madeira. O então jovem oficial do estado-maior Norton de Matos, tinha sido nomeado seu ajudante de campo, e nessa qualidade, acompanhou-o naquela missão a realizar na ilha. Em carta que escreveu ao pai, o oficial informava que embarcaria no vapor Zaire para o Funchal, e comentava que embora a maior responsabilidade da legação pertencesse ao general, do modo como nos desempenharmos dela resultará bem ou mal para mim.&lt;br /&gt;Noutra missiva, já escrita na Madeira, mostrava-se despreocupado e muito contente, pois além de se divertir bastante, tinha feito algum sucesso nos salões da terra e galhardamente comentava: Anteontem tivemos um jantar em forma, onde estavam oficiais dum navio de guerra francês que aqui está. Meti tudo a um canto.&lt;br /&gt; De notar que embora o militar tivesse apreciado as belas paisagens madeirenses, e conhecido os pitorescos costumes do povo ilhéu, estes aspectos pouco ou nada foram referidos nas suas cartas. Apenas escreveu sobre o clima, classificando-o de bom, apesar de um pouco húmido e de revelar a proximidade de África. O seu biógrafo José Norton, explica que dir-se-ia que «estava deslumbrado com a visão de uma sociedade que em Lisboa nunca tivera a oportunidade de frequentar e que aí se lhe abria, por se estar num meio pequeno e ele acompanhar um oficial superior, oriundo de família afidalgada».&lt;br /&gt;Contudo, esses encantos e mordomias palacianas não ofuscaram o sentido crítico de Norton de Matos, pois era bem patente - como julgamos ter provado no nosso livro História da Madeira- Uma Visão Actual - que  tal como aconteceu em setecentos; durante grande parte do séc. XIX e nos primeiros decénios do séc. XX, o arquipélago sofreu uma crise económica, social e até moral, tão profunda e devastadora, que não temos dúvida em classificar os séculos XVII e XIX como os períodos mais negros e mais dramáticos da história insular. Daí que o militar, numa missiva dirigida a sua mãe, comentasse:- a primeira sociedade daqui, no meio da qual tenho vivido, é muito distinta, muito amável, e recebe admiravelmente em suas casas, postas com um gosto raro e fino. Sente-se, porém, na convivência, um não sei quê de falso e artificial que nos põe de sobreaviso: e por mais que faça para desviar esta ideia, sinto ao falar com eles a mesma impressão - modificada, transformada é verdade – que me causam os cicerones, os vendedores e os lojistas na sua faina de atrair o estrangeiro. Explorar atraindo e cativando, parece-nos ser a frase que define esta gente, delicada de mais, amável de mais – desde o portador de rede ao mais importante tipo da primeira sociedade daqui.&lt;br /&gt; Observando e cavando mais fundo, facilmente a lupa de Norton de Matos desvendou as reais dificuldades dos insulares. Assim, numa carta endereçada à mãe referia:- não há fortunas consideráveis na Madeira, a não ser na mão dos ingleses, e através do luxo das recepções, transluz a penúria da vida de todos os dias, da vida íntima. Acrescentava ainda, que o sector da população que constitui a primeira sociedade é um pouco mesclado – há os nomes, os funcionários mais graduados, e um ou outro membro do alto comércio. As raparigas, muito agradáveis, fazem ao rapaz solteiro que aqui cai do Continente, um cerco em regra, dirigido superiormente pelas mães e« tuti quanti».&lt;br /&gt; E muito seguro, orgulhoso e até algo presumido, terminava essa carta, afirmando que com as raparigas madeirenses, como são pobres e sem a mínima parcela do que moralmente constitui o encanto da mulher – não há perigo. Quanto ao resto, a vida não é má. Isto é realmente pitoresco, a vida «des gens du monde» é realmente curiosa; não serve, porém, para sempre.&lt;br /&gt;Todavia, pouco tempo depois, em nova carta dirigida à mãe, adivinha-se que Norton de Matos ia modificando, significativamente, as suas opiniões. Certo que ainda referia que o nível intelectual dos homens era muito baixo; mas quanto às mulheres, nomeadamente da primeira sociedade, são instruídas e educadas. A convivência amiudada com oficiais de marinha de todos os países, recebidos aqui com mil soirées e festas, e que com elas conversam quase exclusivamente, dá-lhes um feitio que os homens não têm; falam todas o inglês e o francês como o português, e recebem e apresentam-se como o que há de melhor em Lisboa. – à parte umas pequenas liberdades que a nossa rigorista e sã educação do Continente não admitiria. Acaba essa missiva, confidenciando:- tem sido muito comentada e notada a minha assiduidade junto da menina mais distinta e bonita do Funchal, e pertencente a uma das famílias mais selectas desta ilha - dela terei, talvez, de lhe falar mais tarde...&lt;br /&gt;E o certo é que pouco depois, Cupido completara a sua obra, atingindo, fortemente, o coração de Norton de Matos, que não conseguiu esconjurar o perigo que, apressadamente, não tinha reconhecido às madeirenses. Passadas curtas semanas, noticia à mãe, que pediu em casamento a Ex.ª Sr.ª D.ª Maria da Câmara de Vasconcelos e Couto, filha de Luís de Vasconcelos e Couto (já falecido) e de D.ª Ifigénia da Câmara de Vasconcelos. Queria tê-la junto de mim, minha querida Mamã, para a abraçar e beijar e dizer-lhe que nunca na minha vida me senti tão feliz. A minha noiva tem 21 anos em Março, e pertence a uma das famílias mais distintas da ilha da Madeira. O que ela é como gentileza, esmero de educação, finura e distinção de sentimentos, escusado será dizer-lho, porque a Mamã bem sabe qual era o meu modo de pensar a respeito das qualidades a exigir na mulher que eu escolhesse para minha.&lt;br /&gt;Vivendo uma grande paixão, o militar encontrava todas as qualidades e encantos na noiva. Referia que ela era aparentada com as melhores e mais influentes famílias da Madeira e até de Lisboa, sobrinha do dirigente do partido regenerador – Barão do Jardim do Mar; prima do Governador Civil João Ribeiro da Cunha; e sobrinha do Barão de S. Pedro - político muito considerado na capital. Acrescentava que não é rica, mas também não era pobre, e teria dado o passo que dei, mesmo que esses factos não existissem, (...) pois cada dia que passa me revela mais na minha noiva a bondade que possui e a dedicação de que é capaz; e como a felicidade do casamento depende principalmente dos mútuos sentimentos de bondade e dedicação, tenho a certeza que hei-de ser muito feliz.&lt;br /&gt; Após ter retornado a Lisboa, já noivo da jovem madeirense, Norton de Matos continuava convicto que os pais estariam contentes e satisfeitos por ter decidido casar com uma senhora com aquele perfil, pois eles até já haviam tentado arranjar-lhe uma noiva minhota, de quem com alguma dificuldade conseguira escapar. Tanto que noutra carta, confiadamente, referia à mãe:- espero que serei muito feliz com a resolução que tomei; pena é que há mais tempo eu não tivesse pensado em casar. O que tem sido a minha vida até hoje? – Inútil para os outros e para mim. Tece depois considerações sobre o quotidiano de solteiro, as ociosidades, as aventuras, os perigos e a falta de motivação para lutar pela construção dum futuro prestigiante. E afirma:- hei-de pôr sempre acima de tudo a felicidade da mulher que confiadamente me quer para seu marido. Caso com 30 anos e com muita experiência do mundo: hei-de fazer feliz a minha mulher. Que ela seja o que a minha mãe tem sido é o que eu desejo.&lt;br /&gt;E esquecendo as preocupações financeiras da família, o militar entregou-se, quase exclusivamente, à concretização do projecto de casar com a madeirense que o deixou cativo. Confidenciava à mãe:- encontrei aquela senhora, vi nela a realização dos meus sonhos, o penhor da minha felicidade, o melhorar da minha vida futura: devia abandonar tudo isso? (...) Eu preciso casar-me por todas as razões...&lt;br /&gt;Todavia, apesar do grande apego e investimento sentimental naquele casamento, o certo é que, perversamente, conjugou-se a falta de maturidade da jovem noiva, com a distância e o decurso do tempo, acabando por determinar que Maria de Vasconcelos esmorecesse os seus sentimentos, e acabasse por romper com o noivado.&lt;br /&gt;Aquele inesperado golpe atingiu profundamente Norton de Matos, que em missiva que endereçou ao pai, lamentava: - depois de 23 cartas escritas quase dia-a-dia, enviadas por todos os vapores e cheias de todas as palavras e frases que o uso consagrou para significar amor e estima, recebi o seguinte daquela que foi minha noiva: – Ex.º Senhor. Desde há alguns meses dá-se em mim uma luta que dificilmente poderei descrever, e achando melhor evitar frases inúteis, venho somente dizer-lhe que pensando melhor no passo mais sério da minha vida e analisando minuciosamente os meus mais íntimos sentimentos, vejo que não me sinto com coragem para contrair o casamento ajustado entre nós, pois não lhe posso dispensar o sentimento que deveria torná-lo feliz. (...) Creia que lhe desejo do coração todas as felicidades que se possam ambicionar para um bom amigo e espero que me devolverá as minhas cartas, assim como os meus retratos.&lt;br /&gt; O militar refere ainda que após receber essa crua notícia do rompimento do noivado, veio a sua casa o oficial da marinha Francisco de Vasconcelos, seu amigo e irmão da noiva, perfeitamente sucumbido e mostrou-me a carta que nesse instante tinha recebido da mãe, e em que ela dando-lhe parte da resolução da filha, dizia que o único motivo que ela alegava para desmanchar o casamento, era o não sentir por mim verdadeiro afecto. Nessa carta eram-me feitos os maiores elogios... Este proceder do irmão quebrou por completo o impulso de qualquer passo, que o meu génio me levaria, porventura a dar. (...) Ontem mesmo enviei para a Madeira, sem uma única palavra que as acompanhasse, as cartas e retratos que tinha em meu poder.&lt;br /&gt; Termina a carta pedindo para o pai não se apoquentar, e para que continue a ter confiança na dignidade, na energia de carácter, e no orgulho do seu filho que pede que o abençoe.&lt;br /&gt;A título de curiosidade, informamos que depois duma série de averiguações, soubemos por familiares da noiva, que poucos anos depois de romper o noivado, Dª Maria de Vasconcelos Couto Cardoso casou com o oficial do exército alemão Ricardo Lutz, o qual, por ironia do destino, faleceu na Iª Grande Guerra Mundial, em combate contra as tropas aliadas, em cujas fileiras Norton de Matos foi um dos mais brilhantes oficiais; facto que, certamente, ofertaria a Camilo Castelo Branco, matéria para compor mais uma das suas famosas novelas… &lt;br /&gt;Fácil é calcularmos quão profundamente aquele inesperado fim do projecto de casamento feriu os sentimentos e o amor-próprio do militar. O seu biógrafo José Norton escreveu que «nunca mais, na sua longa vida, tornou a falar neste episódio, e quem sabe se alguma vez voltou a sentir, tão intensos, os tormentos e anelos da paixão de amor».&lt;br /&gt;Quanto a nós, não duvidamos que a ferida aberta pela jovem madeirense no brio e na auto-estima de Norton de Matos, foi determinante na construção dum grandioso futuro. Na verdade, em vez de cair num estado depressivo, a elevada formação do militar, a sua tenacidade e o seu forte carácter, sublimaram tamanho desgosto; levando-o a concentrar todas as suas energias ao serviço do País e do seu povo, e a construir, afincadamente, a obra notável que o projectou até ao estatuto duma das maiores e mais assinaladas figuras portuguesas do seu tempo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1797918665749624872-8582415641514820212?l=ruinepomuceno.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/feeds/8582415641514820212/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-vida-de-norton-de-matos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/8582415641514820212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1797918665749624872/posts/default/8582415641514820212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ruinepomuceno.blogspot.com/2010/02/madeira-na-vida-de-norton-de-matos.html' title='A Madeira na Vida de Norton de Matos'/><author><name>Rui Nepomuceno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12979928657575699226</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S2ooeNZUX_I/AAAAAAAAAAM/vjFhN98hIS8/S220/Rui_02.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NMFekFAtI/AAAAAAAAABs/odlYhYBo9zQ/s72-c/Norton+de+Matos.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1797918665749624872.post-9128478583783256107</id><published>2010-02-09T00:31:00.001Z</published><updated>2010-02-11T00:16:04.539Z</updated><title type='text'>A Madeira na Obra de Raul Brandão</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NMPqG6D2I/AAAAAAAAAB0/qhzuYePMJo4/s1600-h/Raul+Brandao.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 238px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_uSA4CkOeIIs/S3NMPqG6D2I/AAAAAAAAAB0/qhzuYePMJo4/s320/Raul+Brandao.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5436773007051329378" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Raul Germano Brandão nasceu no Porto em 12 de Março de 1867, tendo falecido a 5 de Dezembro de 1930, na sua quinta, em Nespereira, próximo de Guimarães. &lt;br /&gt; Frequentou o Curso Superior de Letras na Universidade de Coimbra, mas influenciado pelos pais, enveredou pela carreira militar, para a qual, aliás, nunca manifestou a mínima vocação.&lt;br /&gt;Além de numerosos artigos saídos em jornais e revistas do país, publicou impressões de viagem, contos, peças de teatro e ensaios históricos; sendo os seus principais trabalhos Impressões e Paisagens (1890); A Farsa (1903); Os Pobres (1906); Húmus (1917); Memórias (1919 – 1933); Os Pescadores (1923); O Gebo e a Sombra, O Rei Imaginário, O Doido e a Morte (Teatro - 1923); As Ilhas Desconhecidas (1926); O Avejão (1929); e Pobre de Pedir (1931).&lt;br /&gt;Na maioria destas obras, Raul Brandão - aliás como alguns escritores portugueses da época, nomeadamente, Abel Botelho e Fialho de Almeida – empregava uma prosa prenhe de vibrante fogo interior sempre que se debruçava sobre os rigores da condição humana, e recheada de grande solicitude para com todos os oprimidos, os infelizes  e os desgraçados. &lt;br /&gt;Deste modo, muitos dos seus escritos assemelham-se com o socialismo utópico de Dostoievsky, e a capacidade daquele romancista para analisar, por vezes de forma cruel e subterrânea, os tormentos físicos e espirituais dos humilhados. Sente-se também a influência da tendência anarquista de Tolstoi e, sobretudo, a profunda crise religiosa-moral daquele escritor, na contínua busca para desvendar a alma humana, nas suas mais íntimas e secretas tensões. &lt;br /&gt;Raul Brandão mostra-se ainda sensível ao trilho aberto por Gogol, sobre o trágico fantástico do espírito do homem, nomeadamente a fusão do patético e do demoníaco, com o grotesco e o cómico, traduzidos num modelo tendencialmente realista, mas nunca despido de certos laivos românticos ou mesmo barrocos.&lt;br /&gt;Daí que Oscar Lopes tenha escrito, que Raul Brandão «traz à literatura portuguesa um momento de íntima sensibilidade, em que a corrente naturalista se transmuda, quer mergulhando até ao fundo na tragédia dostoievskiana (e fialhesca) dos pobres e espezinhados; quer abrindo em febril confissão os escaninhos da má consciência pequeno-burguêsa, perante os gritos já ameaçadores de tal tragédia; quer transpondo a ressurreição histórica à Oliveira Martins até ao seu tom dominante de um patético grotesco; quer abeirando-se de um pitoresco impressionista de paisagens e costumes»; quer vibrando, intensamente, com as espantosas surpresas da vida, e com interrogações metafísicas sobre o para quê da dor e do sofrimento humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feitas estas considerações muito gerais sobre a obra e as tendências literárias e ideológicas de Raul Brandão, procuraremos recriar e descrever com algum detalhe o capítulo das Ilhas Desconhecidas que, em 1926, o escritor dedicou à Madeira, páginas onde denotamos o grande apego do escritor pelo arquipélago madeirense, o seu pulsar panteísta face à natureza da ilha, e um olhar especialmente atento e carinhoso sobre a difícil situação das gentes humildes insulares; tudo descrito em pinceladas que embora com o intuito de alcançar um realismo documental, não deixam, por vezes, de se embrenhar numa estética impressionista, com alguns exageros barrocos ou românticos. &lt;br /&gt;Raul Brandão começa por contar que vindo de Lisboa, numa madrugada de Junho de 1926, pressentiu que o vapor em que viajava se aproximava da Madeira, pois tinha acordado já com o cheiro a terra.&lt;br /&gt;Entusiasmado, salta do beliche e sente que o ilumina uma luz cinzenta, luz doirada – transparência azul boiando cheia de cintilações ao longe, e depois mais luz viva que nasce e estremece diante da grande massa escura que sai do mar sob a magia do nascente:- tenho diante de mim dois morros espessos, um mais próximo, recortando o negrume no céu doirado, e o outro ao fundo, todo roxo e picado de luzinhas como se lhe tivessem soprado faúlhas que se pegam e reluzem, pairando sobre a imobilidade cinzenta do mar.&lt;br /&gt; Lentamente, o navio abeira-se mais da costa, e o escritor descreve entusiasmado:- desdobram-se os planos, e aparece intacto todo o pano de fundo. Um hálito azul... Mais claridade estremecendo – esta primeira luz delicada e viva, quando acorda a terra e acorda o mar com o céu todo doirado e virgem para as bandas do nascente e nos deita o bafo à cara, é maravilhosa. Fundeamos, e a Madeira abre-nos os braços, com a ponta do Garajau num extremo e a ponta da Cruz no outro extremo. Adivinho as casas, que por ora são fantasmas e descem lá do alto até à praia. Agora o tom cinzento desapareceu, domina o azul e o oiro, e na minha frente o grande anfiteatro verde dos montes ergue-se como um altar até ao céu. É uma serra a pique, é uma serra voluptuosa e verde que se oferece lânguida e verde. Ao meio um grande monte entreaberto; por traz a montanha enorme e escalvada. Algumas colinas vão terminar no farol e no forte sobre um penedo destacado e corroído.&lt;br /&gt; Sempre deslumbrado, Raul Brandão deixou-se ficar a bordo, contemplando e discorrendo sobre o belo panorama que a baía do Funchal lhe oferecia. O dia vai correndo, a luz ganha todos os tons e se modifica a todos os momentos, até ao fim da tarde, em que o mar se torna diáfano bem como os montes transparentes, com uma grande nuvem pousada em cima. Vejo perder a cor, desfalecer, sumir-se a terra, que no escuro cheira cada vez mais a fruta e me inebria. Já o primeiro plano está roxo, o segundo é uma mancha enorme e indecisa, e o mar no poente arfa como um seio, ainda iluminado. &lt;br /&gt; A tarde passou célere, e a viajem vai prosseguir: De novo o ruído da hélice, o fumo da máquina, o ferro a levantar, e à medida que o vapor se afasta, a montanha que tanto atrai parece mais negra e maior – sobe, ergue-se e chega ao céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três dias depois Raul Brandão atinge os Açores, onde visita e descreve as ilhas de Santa Maria, São Miguel, a cidade de Ponta Delgada, a Terceira, S. Jorge, a Graciosa; e embrenha-se no Corvo, com a sua gente e os seus costumes. De seguida percorre as Flores, a Horta a que chama ilha azul, e o Pico com a sua magia trágica da pesca à baleia. Encanta-se, ainda com as Sete Cidades, as Furnas e os segredos do Atlântico açoriano; até que em Agosto retorna para melhor conhecer a Madeira, pois nunca mais esquecera a manhã virginal passada na Ilha, sobretudo as cores que iam do cinzento ao doirado, do doirado ao azul-índigo – nem a montanha entreaberta saindo do mar, diante de si, a escorrer azul e verde.&lt;br /&gt; Ainda a bordo, aninha-se na amurada à procura de luz – da outra luz em que foi criado - e já ao meio da tarde, começa a erguer-se uma coisa azulada e indistinta com uma grande nuvem cinzenta acachapada em cima. O sol que bate nos altos ilumina o cone dum monte e esguicha de entre as névoas sobre a extremidade dum morro quase negro. Já se distinguem as nodosidades disformes da terra e paredões, envoltos em fumaça que entra em rolos pelas fendas abertas da pedra. Acentua-se a dureza, as chapadas, as ravinas, os cortes perpendiculares cor de ferro; adivinha-se o drama que deve ter sido este parto, cheio de convulsões e de desmoronamentos, quando o grande cataclismo dilacerou e desmembrou o continente submerso, deixando patentes, neste resto, feridas que ainda hoje sangram. E nos bocados de cisco que por acaso caíram e alastraram à beira-mar, agarram-se meia dúzia de casinhas, que têm por pano do fundo a massa espessa erguida logo pelo lado de trás.&lt;br /&gt; Horas mais tarde a costa caminha direita ao viajante, cada vez mais violeta e mais negra. Mete medo. Mal se distinguem as florestas nos altos enevoados e os vales profundos por onde a água no Inverno deve cair em torrentes. O navio segue encostado à falésia, que desse lado da ilha não tem fundo, mostrando-nos a Madeira cortada por um machado que a abriu de lés a lés, atirando com a outra parte para o fundo do mar. É um bronze severo e trágico que contrasta com a entrada do Funchal visto da outra costa da ilha.&lt;br /&gt; No convés, Raul Brandão contempla as povoações: - Jardim do Mar e Paul do Mar, agarradas às muralhas, onde só distingue escorrências de zinavre. Só o homem! Só o homem é que se atreve a cultivar socalcos abertos a fogo na perpendicular da falésia! Depois, cada vez mais empolgado avista a Madalena do Mar, esmagada entre dois morros que se reflectem em negro no veludo da água; e a Ponta de Sol e o Cabo Girão que a noite torna maior e mais espesso... &lt;br /&gt;O escritor, coberto pelas nuvens que baixam ainda mais sobre a tinta parada das águas, já mal distingue a terra até à ponta desmedida da Cruz, por trás da qual o espera o porto de abrigo. A cada momento que passa, mais alto e mais escuro se afigura o paredão que nos intercepta o mundo. Só há uma vaga claridade para o lado do mar; o resto é negrume alcantilado e monstruoso colaborando com a espessura da névoa e o indistinto da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é já fundeado no porto do Funchal que na manhã seguinte, Raul Brandão acorda. Abre a fresta, por onde entra o cheiro a trufa, e observa as vielas animadas, as ruazinhas calçadas de seixos ensebados, onde deslizam carros de bois sem rodas, pintados de amarelo, com toldos frescos e cortinas de ramagem apartadas ao meio. Olha para as casas brancas e amarelas, de beirais caiados de vermelho e gelosias pintadas de verde, que dão à cidade um carácter familiar e íntimo. Tudo surpreende: o calor, a luz forte, o jardim com fetos e um grande jacarandá de flores roxas, arbustos penetrados de satisfação, que na imobilidade e no silêncio vão desfolhando sobre a terra e deixando um charco rubro em roda. &lt;br /&gt;Ao desembarcar, o escritor senta-se, por um instante, sob grandes plátanos, que se oferecem mesmo à saída do porto, e exclama:- este ar é um perfume gordo. Depois sobe até um largo irregular, e depressa encontra a igreja da Sé - grande cofre de sândalo com doirados e incrustações em madrepérola. Lá dentro cheira a incenso e a madeira preciosa; cá fora, por cima dos telhados, descobre-se sempre a carcaça denegrida da serra.&lt;br /&gt; De seguida, caminha na direcção do mercado que o atrai. Pequenino, com duas ou três árvores e uma fonte marmórea; todo ele transborda de fruta como um cesto cheio – cachos de bananas amarelas, alcofas de vindimas a deitar fora, com damascos, figos pretos sumarentos e entreabertos, a destilar sumo. Toda a fruta aqui é deliciosa e a banana deixa na boca um perfume persistente para o resto da vida. À primeira vista confunde: tem a gente de colocar-se a distância, como nas pochadas, para distinguir as uvas doiradas, as papaias, o vermelho dos tomates, as araras e as aves exóticas penduradas nos troncos, e sob os toldos, entre guinchos de macacos de S. Tomé, ouve-se a fala cantada do povo da ilha.&lt;br /&gt; A própria sombra é luminosa. Com ela palpita o doirado das bananas, o amarelo dos melões, o vermelhão intenso das malaguetas enfiadas em rosários. E se um cesto sai da sombra para a luz, então as frutas faíscam, ardem e adquirem transparências extraordinárias. Da fonte de mármore e a refrescar o quadro a água cai aos pingos, misturada com o sol reluzindo, que pincela aqui, pincela ali, por entre as árvores. &lt;br /&gt;O falatório dos ilhéus envolve-nos; bem como as mulheres de lenço branco na cabeça e botas de cano alto e rebuço, que preparam farnéis para a festa do Monte; os homens tisnados e secos; e as inglesas de cabelo curto, vestidas de branco, cortadas pelo mesmo padrão que a Inglaterra agora fabrica e exporta para todo o mundo.&lt;br /&gt; Nessa tarde memorável, para contemplar devidamente a cidade e os subúrbios, o escritor subiu ao Pico dos Barcelos. Então, à medida que se afasta do centro, vão aparecendo casinhas isoladas entre jardins, e as largas folhas das bananeiras, ainda em botão roxo ou donde pende já todo o regime amadurecido. Lá do alto descobre-se, enfim, o majestoso anfiteatro. É uma grande concha, que termina dum lado no Pico do Garajau e do outro na Ponta de Santa Cruz, com o fundo de serra ondulado. Os vales e as linhas dos talvegues vêm de cima rasgados pelos enxurros sobre um leito de pedras em estilhaços, escorregadias e azuladas. (...) Tudo que se avista, à excepção dos cumes denegridos, foi dividido em hortas, em poios de cana muito verdes, em quintalejos de rama, donde irrompem tufos de bananeira, numa amplidão que entontece e deslumbra. São léguas de fertilidade, de jardins, de campos e culturas, que nos impõem o recolhimento e o silêncio.&lt;br /&gt; À direita, a serra estende-se até Câmara de Lobos, distinguindo-se os riscos violeta das encostas, as vivendas lá no alto entre vinhas e pomares, os prédios rústicos pendurados na rocha e agarrados à montanha aberta ao meio, por um rasgão violento e romântico.&lt;br /&gt;Impressionado com a profusão de árvores que irrompe de todos as bandas Raul Brandão admira a estranha vegetação tropical misturada com as outras: - ciprestes, cactos, plantas envernizadas, entre grupos de pinheiros mansos e grandes seres imóveis e fortes, estendendo a ramaria sobre as ruas.&lt;br /&gt; O carácter deste panorama atrai os sentidos e tudo se conjuga para nos enternecer e assombrar. A sua majestade não se contenta com duas ou três árvores, envoltas no ar fino e pouco derretido - é exigente e pesada. É materialista e devassa. Ao mesmo tempo é bela. (...) Paraíso sem frio nem calor, a que se ajunta ainda o sabor dos vinhos bebidos aos golos, e cuja transparência se avalia através do vidro erguendo-o para a luz, dum doirado azul diluído que envolve toda a paisagem deitada a nossos pés, como as mulheres que oferecem os seios duros com impudor e inocência ao mesmo tempo.&lt;br /&gt; Mas, para o espectáculo seja completo o escritor lembra que é preciso escolher dias e horas favoráveis afim de o fruir plenamente, porque o céu da Madeira anda quase sempre nublado, correndo a fumaceira pela barreira imensa que toma todo o horizonte do lado da terra e desce até ao mar, em rampa retalhada de culturas e povoada de casinhas que se vão aproximando e apinhando ao chegarem à cidade branca e sensual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na madrugada seguinte, Raul Brandão acorda com a sensação que a noite foi uma volúpia e o ar daquele clima tropical uma carícia, logo que desaparece o sol. Alvoroçado, apressa-se a devassar a ilha, a percorrer as estradas e os caminhos, a surpreender os recantos, as casas enegrecidas das aldeias, a vida rural, a vida marítima, e as culturas variadas; bem como a recriar-se com a grande variedade do clima madeirense.&lt;br /&gt;  Toda a fatia meridional da Madeira, por ser abrigada, pelo excelente clima, e por nunca aí nevar, é a zona mais habitada, e com uma grande actividade agrícola, nomeadamente a cultura da vinha nas encostas, e da cana-de-açúcar no litoral. Partindo do Funchal para Leste, a costa é quase sempre cortada a prumo: Santa Cruz, e lá no alto o Senhor da Serra; uma fenda enorme por onde entra o mar – Machico; e logo o Caniçal à beira d’água; e o relevo caprichoso da Ponta de São Lourenço. Para lá desse cabo começa a costa Norte, que é a parte mais selvática, mais verde e talvez a mais bela desta ilha tão variada e decorativa. &lt;br /&gt;Para o Oeste da cidade, o sítio triste entre penedia negra, e cheirando ao peixe, de Câmara de Lobos; logo algumas aldeias, à beira de pequenos retalhos cultivados, com molhos de lenha secando à porta das choupanas. Às vezes um açude para a rega, a greta donde escorre a água, e lá para o fundo o abismo, com um espigão tremendo ao lado, que faz sombra e pavor: - há sítios destes, onde o sol só entra durante cinco ou seis horas por dia.&lt;br /&gt; Mas, para Raul Brandão, o que mais caracteriza a Madeira é, sobretudo, um maciço de serras cortado a pique na costa Oeste, descendo até o mar na costa norte e mais cultivado nos vales e gargantas inundados pelas águas. O interior é montanha em osso, com excepção para o Paul da Serra. (...) No Curral das Freiras – cordilheira central - curioso vale de erupção, ravina enorme apertada entre vertentes alcantiladas, com profundidades que metem medo e que vão até oitocentos metros, deparam-se povoaçõezinhas perdidas: o Livramento, a Fajã Escura, o Curral, o Pico da Figueira e outras. Este sítio revolvido e dilacerado, explica talvez a formação da ilha, onde se encontram mais vestígios de crateras, com indícios de erupções relativamente recentes nos charcos do Porto Moniz, na Caniça, no Caniçal. &lt;br /&gt;O escritor lembra ain
