sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A Revolução Democrática da Madeira de 1931


Cinco anos após a implantação da Ditadura de sinal fascista, instaurada em 28 de Maio de 1926, por militares conservadores que pouco depois actuaram em estreita colaboração com Salazar; era um facto notório que muitos intelectuais madeirenses e grande parte do povo estavam descontentes. Na verdade, as liberdades fundamentais foram cerceadas; a censura prévia à imprensa, na maioria executada por indivíduos boçais e intolerantes, impedia qualquer debate de ideias; a participação democrática estava coarctada, bem como a liberdade de reunião, o sindicalismo livre, e o direito à greve; enquanto uma facínora polícia política, alicerçada na força e no despotismo, lançava nas prisões muitos democratas e militantes da esquerda portuguesa.
Agravando a situação deflagrou nos Estados Unidos da América, em 1929, um profundo surto das cíclicas crises económicas típicas do capitalismo, que rapidamente alastrou aos restantes países desse modelo e modo de produção. Por todo o lado multiplicavam-se as falências, despedimentos, fomes, prostituição, assaltos, furtos, e muita violência e miséria. Na Madeira, além da crónica situação de pobreza das camadas populares da população, a própria classe média suportou graves dificuldades, pois faliram as casas bancárias Henrique Figueira da Silva e o Banco Sardinha & C.ª, e por consequência muitos pequenos e médios depositantes perderam, pelo menos, um milhão de libras esterlinas aí depositadas.
A situação atingiu aspectos dramáticos quando os Estados Unidos da América, então o principal adquirente dos bordados regionais, decretaram um forte aumento das taxas alfandegárias, o que determinou que a grande maioria dos americanos deixassem de importar essas manufacturas madeirenses, que se tinham tornado muito caras. Então, milhares de bordadeiras do campo e da cidade ficaram sem trabalho, e muito embora fosse escasso o que ganhavam a puxar pela agulha, o certo é que esses míseros vencimentos eram fundamentais para ajudar o sustento das suas pobres famílias. Daí que as medidas proteccionistas dos Estados Unidos da América determinassem mais desemprego e muita miséria na Madeira.

No meio desta conjuntura de sofrimento e descontentamento geral, o Governo Central, promulgou o Decreto I9.673 de 26 de Janeiro de 1931, anunciando que iria voltar a ceder o monopólio da importação de cereais a um trust de moageiros madeirenses da sua clientela política, o que logo provocou fortes reacções dos populares e da própria classe média, impedidos de importar livremente e por melhores preços, esses produtos alimentares.
No «Trabalho e União», com grande audiência junto dos trabalhadores, podíamos ler, nos primeiros dias de 1931, que «causou geral indignação no Funchal, a notícia da publicação dum decreto que vem restabelecer o odiento monopólio das farinhas, que ficou conhecido como o regime da fome. É preciso que todos saibam que a Madeira não é uma roça habitada por meia dúzia de cafres, mas sim uma terra com duzentos mil habitantes. Não se esqueçam aqueles que pretendem enriquecer com o novo monopólio, das lutas que se travaram para fazer baquear o regime cerealífero. Quando era legítimo esperar que em face da crise horrorosa que atravessamos, fossem reduzidos os direitos alfandegários que incidem sobre, trigo, farinhas, milho e arroz, o telégrafo trouxe-nos a notícia do restabelecimento do odiento monopólio cerealífero.
«Nas lutas contra esse regime que se prolongaram por muitos anos, chegaram a tombar nas ruas, varados pelas balas da força pública, humildes trabalhadores, que apenas defendiam o seu legítimo direito à vida, calcado e espezinhado por uns tantos senhores, que apenas atendiam ao aumento das suas fortunas pessoais, sem se preocuparem com a miséria das classes trabalhadoras. Pretende o Governo Central proteger a lavoura nacional? Que o faça, mas sem reimplantar na nossa terra um regime monopolista, embora encapotado, absolutamente contrário à vontade e aos interesses do povo madeirense».
Em consequência dessa crispação, das lutas populares, e até das reclamações de muitos comerciantes, que mais duma vez protestaram encerrando os seus estabelecimentos, a base social de apoio ao regime fascista tornou-se cada vez mais reduzida. Não admira, pois, que em 6 de Fevereiro de 1931, estalasse uma expressiva greve dos estivadores, que parou o movimento portuário. Ao mesmo tempo as moagens, nomeadamente, as «Panificações dos Lavradores», do «Anadia», e a «F. B. Freitas Sucessores» foram assaltadas pela população; e ferviam os comícios e manifestações, onde alguns sectores voltaram a reivindicar o reforço da Autonomia, única forma de encetar uma caminhada que lhes desse mais dignidade e resolvesse os graves problemas económicos e sociais que afligiam os madeirenses.
Em princípios de Abril desse ano, grande parte das forças militares movimentavam-se, e pactuavam abertamente com os populares, tornando explosiva a situação. Perante a gravidade desses acontecimentos o coronel José Maria de Freitas, na qualidade de governador militar, expôs a situação ao Governo Central, propondo a revogação da legislação monopolista das moagens, gesto que, inicialmente, acalmou os ânimos dos grevistas. Porém, o Ministro da Agricultura não atendeu às reivindicações do povo, e recorrendo a um placard anunciou a continuação do odioso monopólio cerealífero.
Por consequência, extremaram-se as posições, e de 4 a 9 de Abril decorreu nova greve geral, tendo o Governador Civil ordenado a contenção dos protestos e da agitação através do uso das armas. Todavia, segundo refere a historiadora Fátima Dionísio, as forças do «Regimento de Infantaria 13», apesar das instruções em contrário, confraternizaram com os grevistas do comércio, das fábricas, e dos transportes terrestres e marítimos; «e somente alguns elementos da «Polícia de Segurança Pública abriram fogo contra os grevistas, ferindo e matando adultos e crianças. Foi então quando a população avançou de peito descoberto para as balas, arrancando as armas das mãos dos agentes da ordem e matando, por sua vez, quatro deles.
«Tais acontecimentos fizeram com que os oficiais da guarnição telegrafassem ao Ministro da Guerra, comunicando-lhe que tinham forças suficientes para manter a ordem pública, dispensando o envio de tropas, não sem acatarem, assim o afirmavam, as ordens que o mesmo Ministro determinasse dar-lhes. No entanto, no caso de o envio de tropas ter de fazer-se, que se fizesse logo».

Imediatamente o Governo Central mandou para a Madeira, como seu representante, o coronel Silva Leal, ao comando dum forte contingente militar, nomeadamente tropas de «Caçadores 5» e de «Metralhadoras 1». Aqui chegado, em 9 de Fevereiro de 1931, esse militar salazarista começou imediatamente a prender os cidadãos civis e militares que encabeçavam a oposição ao regime da Ditadura; e desencadeou, sem julgamento prévio, uma série de deportações para os Açores e para Cabo Verde, aguçando ainda mais o ódio dos madeirenses, por levar uma vida desbragada, ao ponto de, publicamente, se ter amantizado com a mulher dum dos seus subordinados.
Por essas cegas repressões, e sobretudo pela ameaça de se concretizarem ainda mais deportações, os cerca de 300 deportados políticos do Continente, que as autoridades fascistas tinham exilado na Madeira, e que segundo nos parece não se tinham envolvido, directamente, nos primeiros acontecimentos, sentiram que era o momento de agir. Facto que não é de surpreender, pois a grande maioria estava ligada à Maçonaria, e aos partidos políticos da Iª República, e tinham contactos com o Continente, onde se preparava uma revolta, de que eram principais dirigentes Faro Viana e Ribeiro de Carvalho.
Deste modo, na madrugada do dia 4 de Abril de 1931, a própria «Companhia de Caçadores 5», as tropas de «Metralhadoras 1», e o «Regimento de Infantaria 13», comandados pelo tenente-médico Camões, ajudado pelos tenentes Pélico e Gil Gonçalves, e pelos alferes Hasse Ferreira e Mouzinho Sacadura, apossaram-se dos «Correios e Comunicações», ocuparam o «Palácio de São Lourenço», prenderam o Delegado Especial do Governo Silva Leal, o Governador militar José Maria de Freitas, o Governador Civil Almeida Cabaço, e ainda cerca de 20 oficiais afectos à Ditadura; acabando por neutralizar, em toda a Ilha, qualquer hipótese de resistência governamental.
De imediato, formaram uma «Junta Provisória» presidida pelo prestigiado democrata, general Sousa Dias (que anos depois faleceu deportado em Cabo Verde); e constituída pelos madeirenses Dr. Manuel Gregório Pestana Júnior, a quem confiaram as pastas das Finanças e da Economia; e capitão-engenheiro Frazão Sardinha que ficou responsável pelo Comércio e as Comunicações. Por sua vez, de pronto, a Junta nomeou o coronel Fernando Freiria para Chefe do Estado - Maior, e como Delegado das Forças Armadas, o tenente-médico Camões.
De registar que as classes populares e as camadas médias da população aderiram, em massa, a esta Revolução pela Democracia e pelas Liberdades. Como referiu o Dr. Elmano Vieira no «Notícias da Madeira», «aqui os soldados marcham cantando! Aqui o povo canta com os soldados! Aqui estamos todos unidos, enlaçados num abraço fraterno, na consciência plena do que devemos ao Povo, à Raça, à Madeira, e à dignidade da Nação».

Cabe desde já esclarecer que os revoltosos apenas pretendiam combater o salazarismo e restaurar o regime Constitucional encetado em 1910, como, aliás, logo ficou bem patente no Manifesto dirigido à população, onde afirmavam que queriam «constituir um Governo que imediatamente garanta as liberdades públicas suspensas em Portugal»; bem como no Telegrama enviado pelo tenente Camões e por Sousa Dias, ao presidente da República, general Carmona, reivindicando «um governo republicano, que restaure as liberdades políticas e procure realizar, em curto prazo, a volta à normalidade constitucional».
Esse repúdio contra o governo corporativo, com matriz fascista, é bem visível pela leitura dum artigo muito duro e contundente, publicado pelo «Noticias da Madeira», onde Ferro Alves critica o «lívido e cruel Salazar, essa detestável figura que empenhou-se em torturar o país, impondo aos portugueses uma política feroz e tormentos inenarráveis, fragilizando a Nação com uma saraivada de impostos e exaurindo as actividades económicas; essa alma tenebrosa que perante as Ilhas e o País revoltado não compreende que a sua demissão seria o fim da luta e a ponte de passagem para a normalidade constitucional. (...) Porém, ao seu cérebro de frio calculador, essa ideia não aflora. A sua alma tenebrosa onde não existe piedade, onde somente domina o orgulho, recusa-se ao gesto libertador. (...) Teimoso, inflexível, insiste em conservar-se no governo, com uma pertinácia que constitui um hediondo crime. A sua mão descarnada, que jamais acariciou num frémito de amor, a face duma mulher, impele os homens à guerra. O sangue que enodoou o solo ridente da Madeira, é ele que o faz derramar. Oliveira Salazar, eis o nome maldito do responsável por todos os males da Pátria»...

Face aos acontecimentos, de imediato o Governo Central nomeou o coronel de infantaria Fernando Augusto Borges para o cargo de comandante das unidades expedicionárias a enviar para a Madeira, com a missão de restabelecer a ordem; ao mesmo tempo que declarou o estado de sítio no arquipélago, com a suspensão dos direitos e garantias individuais.
Por outro lado, pelo decreto-lei nº 19. 569, encerraram os portos da ilha a toda a navegação e comércio, medida que só revogaram em 22 de Dezembro, apesar dos grandes prejuízos causados à precária economia da Madeira.

Chegados aqui, é altura de descortinar quem apoiava as hostes revolucionárias na Madeira. Desde logo é de realçar o papel predominante da Maçonaria, nomeadamente a loja Liberdade, cujo venerável era o Dr. José Joaquim de Freitas. Também foi importante o apoio do «Partido Comunista Português» e de todo o movimento operário e sindical, então muito forte e servido pelos jornais «O Avante», «A Batalha», «Trabalho e União» e o «Proletário», assim como a adesão do que restava dos membros dos partidos da 1ª República, nomeadamente o «Partido Republicano da Esquerda Democrática liderado pelo Dr. Pestana Júnior; a «União Liberal Republicana» do engenheiro Cunha Leal, representado no Arquipélago pelo Dr. Vasco Marques e de certo modo pelo Dr. Sargo Júnior, e ainda «O Partido Republicano Radical» de Frederico Mesquita Spranger.
Combatiam a Revolução Democrática insular, os nacional-socialistas, os corporativistas, a maioria dos monárquicos cujo seu «Jornal» foi encerrado e o equipamento posto ao serviço do «Notícias da Madeira», e ainda o «Centro Católico Português», embora seja de realçar o apoio activo de muitos católicos ao movimento democrático, e o papel do bispo do Funchal, D. António Ribeiro, que tudo fez para evitar a guerra civil.
Externamente, a Ditadura nacional aliou-se aos Estados e Partidos fascistas então semeados por toda a Europa, nomeadamente o Governo da Itália de Mussolini, no poder desde 1922, os nazistas de Hitler que se preparavam para dominar a Alemanha, e ainda aos regimes da Polónia, da Jugoslávia e da Espanha de Afonso XIII.
Muito curiosa foi a ambígua e depois pérfida política seguida pela Inglaterra, apesar de estar no poder o «Partido Trabalhista» de Mac Donald. De início os britânicos destacaram para o arquipélago o cruzador «London» e depois o «Curlew», aparentemente neutros e apenas para proteger os súbditos de sua majestade, segundo tiveram o cuidado de anunciar. Mas logo a 7 de Abril, o Ministro da Guerra, Schiapa de Azevedo, personalidade da extrema-direita nacional, ofereceu um amistoso banquete ao embaixador inglês na capital; e quando em 14 de Abril foi proclamada a «República Democrática e Socialista da Espanha», os britânicos, temendo uma Federação Ibérica que prejudicasse os seus interesses hegemónicos na Península, além de fornecerem armas ofensivas ao governo da Ditadura, facilitaram-lhe os serviços de Transmissões, e ajudaram o gerente do Banco de Portugal a inutilizar parte do papel-moeda existente no Arquipélago. Depois, culminaram a infâmia, enviando a Lisboa o herdeiro do trono britânico, que foi recebido com grande pompa e cumplicidade, e entregando à mercê dos fascistas portugueses, os revolucionários democratas que na Madeira se tinham refugiado nos seus cruzadores.

Conquistado o poder, os democratas madeirenses tomaram importantes decisões económicas, políticas e sociais, ao mesmo tempo que realizavam exercícios de defesa, levantavam fortificações, requisitavam viaturas civis para fins militares, autorizavam anarquistas a fabricar granadas numa fábrica situada na Ribeira de João Gomes, e constituíram uma «Junta Governativa de Defesa da Madeira», dirigida pelo coronel Freiria.
Dentro das medidas tomadas por essa Junta Governativa, salientamos a restauração das liberdades públicas, a libertação de todos os presos políticos, a reintegração nos serviços dos democratas que tinham sido saneados pela Ditadura, a nomeação das Comissões da «Junta Geral», da «Câmara Municipal do Funchal» e dos Administradores dos Concelhos, a publicação de novos órgãos de informação, a aliança com eminentes políticos da Iª República, tais como Bernardino Machado, Cunha Leal e Afonso Costa, e a tentativa de ganhar o apoio dos poderosos ingleses com interesses económicos na Madeira, bem como de acalmar a «Comissão Diocesana» e os católicos.
No âmbito da economia, foram publicados importantes decretos, nomeadamente para liberalizar a importação das farinhas e extinguir o monopólio cerealífero; para autorizar a abertura de um crédito de mil contos a favor da indústria de bordados; para conceder uma moratória de 90 dias relativa ao pagamento dos débitos bancários comerciais; para poupar combustíveis e outras fontes energéticas; para criar empregos através da realização de obras no porto do Funchal; e ainda para garantir a distribuição, gratuita, de sopas e assim acudir à extrema pobreza que grassava em muitos lares.

Ao contrário do propalado por alguns inimigos da democracia, era bem alto o patriotismo dos revoltosos, tendo sempre sido afastada qualquer ideia de reivindicar a independência. Podíamos ler no «Notícias da Madeira», de 17 de Abril de 1931, que era certo «que a Madeira pugna e tem pugnado, sem desfalecimentos, para que os poderes públicos lhe dêem aquela necessária Autonomia Administrativa, que permita desenvolver as suas estupendas fontes de riqueza. Mas independência política não a desejamos e não a queremos. Orgulhosamente somos portugueses, e só uma História nos serve – a de Portugal».
O próprio «Trabalho e União», embora usando uma linguagem violentíssima contra o Centralismo e o seu representante Silva Leal, também não reivindicava qualquer modalidade de separatismo. Na sua edição de 10 de Abril de 1931 referia: «Os fados cumprem-se. O coronel Silva Leal foi finalmente destituído do cargo de manipanço arbitrário. Estava de facto a meter nojo, a empestar-nos com o seu fartum de cloaca, esse Delegado especial do Governo da ditadura, cuja tirania acaba de baquear às mãos da Guarnição Militar da Madeira. Em mau signo chegara à Ilha o representante do despotismo, que magicando a farófia de um régulo entre macacos do Congo, havia criado uma situação inaudita de vexame para a dignidade e brios do povo madeirense»! E «Trabalho e União» termina incitando à Revolução de todo o País contra a ditadura fascista: «Cidadãos de Portugal! Às armas todos, pela República e pela Pátria!».
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De referir ainda que as forças revolucionárias democráticas, tiveram a preocupação e o rigor de criar um «Boletim Oficial», dirigido pelo capitão Augusto Casimiro, saído nos dias 11, 14, 16 e 20 de Abril; onde, com uma redacção cuidada e impregnada de grande exigência jurídica, publicaram todas as nomeações, decisões, e demais legislação do seu governo.

Interessa também relatar, embora de forma muito sumária, que a Revolução Democrática foi bastante comentada pela imprensa madeirense e estrangeira. No Funchal, «O Notícias da Madeira» foi o catalisador do movimento revolucionário, através de artigos mobilizadores de Elmano Vieira, Augusto Casimiro, Pestana Júnior, Eduardo Ferreira, Carlos Vilhena, Carlos Cóque, Ferro Alves, e do seu redactor Fidelino Costa; o órgão anarquista «A Batalha», com o mesmo nome do editado em Lisboa, também publicou artigos favoráveis à democracia, escritos pelo director Mário Castelhano e por Manuel Rijo, Teófilo Rodrigues, Luís Marino e Lopes Bibi. O mesmo aconteceu com o «Novidades» de Olim Marote, e com o semanário «Trabalho e União», dirigido pelo militante do partido comunista Carlos Rates; todos eles muito importantes para galvanizar e ganhar o apoio da classe média, do povo e dos trabalhadores insulares, a favor da Revolução Democrática da Madeira.
No Continente, só o clandestino jornal do «Partido Comunista Português» «Avante» defendeu abertamente o movimento madeirense. A restante imprensa estava amordaçada, salvo o «Diário da Manhã», órgão oficioso da Ditadura, e visceral inimigo da Democracia, que imputou ao Partido Comunista, à Maçonaria e à republicana Liga de Paris, a responsabilidade dos eventos, e lançou uma forte campanha de desinformação e calúnias contra os acontecimentos insulares.
Lemos também referências à Revolução de 1931, nos jornais ingleses «Daily Express», «Daily Telegraph» e «Daily Chronicle», que enviaram para o Funchal três jornalistas, de certo modo neutros; e ainda no «Times», mais favorável ao regime da extrema- direita nacionalista. Na França, «Le Jornal» era defensor da ditadura portuguesa; sendo mais neutros «Le Figaro», «Le Temps, «L’Oeuvre», «La Republique» e o «Excelsior». Os jornais socialistas «Le Populaire» e «La Volonté» inclinavam-se para a democracia. Todavia, o mais caloroso defensor da Revolução da Madeira foi o órgão do Partido Comunista Francês «L’ Humanité», sobretudo através de artigos de Gabriel Pérri, heróico militante e jornalista que, na II Guerra Mundial, seria fuzilado pelos nazis.

Mas, já atrás afloramos que as forças democráticas madeirenses contavam que a revolução pela Liberdade e a Democracia alastrasse no Continente e nas Colónias, condição, aliás, indispensável, para que o movimento vingasse, e para que tivessem êxito, as diligências desencadeadas, pela «Liga de Paris», junto da «Sociedade das Nações», com o fim de ver reconhecido o modelo de governo da Madeira, como forma legítima do governação de Portugal.
Para tanto, a estação de T.S.F. instalada no Caniçal, diariamente, expedia telegramas apelando para a revolta generalizada em todo o espaço português. Também para atingir essa finalidade, o comandante Sebastião Costa embarcou na Guiné para o Algarve, com a finalidade de apoiar um levantamento no Sul do país; e os tenentes Norberto Guimarães e João Pereira de Carvalho partiram para Londres, donde derivaram para Portugal, com a finalidade de tentarem levantar o Norte. Contudo, apesar dessas tentativas, os democratas continentais apenas conseguiram levar avante alguns aliciamentos a militares, e greves académicas nas Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra, tendo-se salientado nessas acções José Magalhães Godinho, Teófilo Carvalho dos Santos, António de Macedo, e os irmãos Cal Brandão.

Todavia, como informa João Soares, além duma grande ofensiva diplomática, visando tirar qualquer eventual apoio internacional aos madeirenses, «a Ditadura não cruzou os braços e reagiu concentrando tropas no Barreiro, nas Caldas da Rainha e ainda nos principais entroncamentos ferroviários, nomeadamente na Pampilhosa e no Entroncamento; assim como efectuou numerosas prisões preventivas por todo o país, entre as quais a de Norton de Matos – depois Grão-mestre da Maçonaria e na altura um dos mais destacados opositores do regime – acabando por dominar a situação, quase totalmente», pois apenas não conseguiram impor um bloqueio à navegação internacional para a Madeira, objectivo por que tanto se bateram.
Nos Açores, os deportados políticos aí exilados e algumas guarnições militares, ensaiaram uma Revolução em Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e na Graciosa; instituíram «Juntas Revolucionárias»; editaram um jornal de propaganda; mas não conseguiram o apoio da maioria da população, pelo que foi fácil que uma expedição naval sob o comando de Fernando Borges, conseguisse, em 18 de Abril de 1931, obter a rendição dos revoltosos de Ponta Delgada, e no dia seguinte da Terceira, embora alguns revolucionários tivessem conseguido fugir para a Madeira a bordo do «Pero de Alenquer».
Na Guiné, também estoirou um golpe no dia 17 de Abril, por iniciativa dos deportados políticos aí exilados, que chegaram a prender o governador na cidade de Bolama e constituíram uma «Junta Revolucionária», formada por mações, e pelo militante da Legião Vermelha, José Soares, o Malatesta. De notar que os activistas desse movimento revolucionário chegaram a intervir em Cabo Verde; embora não conseguissem aprofundar o surto revolucionário nas duas Colónias, pelo que foram derrotados com alguma facilidade.

Então, o regime fascista passou à ofensiva militar contra a Madeira; começando por expedir tropas sob o comando do coronel Fernando Borges, que após desembarcar no Porto Santo, dirigiram-se, para os Açores, com o fim de esmagar o surto revolucionário que aí se esboçou. Depois da rendição dos açorianos, essas forças voltaram a rumar para a Madeira, onde se juntaram a uma segunda expedição sob o comando de Magalhães Correia, composta por seis hidroaviões, os cruzadores «Vasco da Gama», «Niassa» e «Pedro Gomes», o contratorpedeiro «Vouga», as canhoneiras «Zaire», «Bengo», e «Ibo», o navio «Carvalho Araújo», e ainda uma fortíssima guarnição composta por duas divisões de artilharia, dois pelotões de sapadores, duas companhias de metralhadoras, dois batalhões de infantaria e respectivos serviços de logística e de saúde; forças essas esmagadoramente superiores às madeirenses, que apenas disponham de barca de cabotagem «Bútio», (logo apresada pelo Vasco da Gama), o «Regimento de Infantaria 13», reforçado com alguns reservistas entretanto mobilizados, a «Companhia de Caçadores 5», uma Secção de metralhadoras, e uma Bateria de artilharia guarnecida com poucas peças em estado operacional.
Assim, no dia 25 de Abril de 1931, o cruzador «Vasco da Gama» entrou em águas do Funchal, ao mesmo tempo que três hidroaviões lançaram panfletos contra-revolucionários, de apelo à rendição total das forças revolucionárias, aliás sem qualquer êxito, pois numa grandiosa manifestação popular, os madeirenses, pela voz de Pestana Júnior, continuavam a apoiar o movimento.
No dia seguinte, após bombardeamentos e algum tiroteio, as tropas da Ditadura conseguiram desembarcar no Caniçal e destruir, todo o sistema de T.S.F. aí instalado; enquanto na cidade, grupos de estudantes e de populares manifestavam-se dando gritos à República e à Liberdade, dirigindo-se depois ao consulado inglês em busca do apoio britânico, e de seguida à representação diplomática espanhola, com o mesmo fim e também para felicitar, ruidosamente, a vitória republicana na Espanha.
Em 28 de Abril, os fascistas emitiram um ultimato reivindicando a rendição incondicional das hostes democráticas, enquanto os estudantes e operários realizarem novas manifestações e comícios, apelando à resistência. Nesse mesmo dia, a bordo do «Carvalho Araújo», o bispo da Madeira tentou, sem sucesso, uma mediação entre as duas forças que se degladiavam, apenas conseguindo que fosse reservada uma zona neutra, onde começaram a refugiar-se os estrangeiros que habitavam no Arquipélago.
No dia seguinte, alguns navios da Ditadura bombardearam diversas zonas da Ilha, causando danos, nomeadamente na Ajuda e no Gorgulho. Entretanto na Calheta, após a Vila ter sido sujeita a um bombardeamento naval, tropas da ditadura ainda conseguiram desembarcar dois pelotões de infantaria, mas foram forçados a retirar, perante a resistência dos civis e de alguns militares. Todavia, enquanto tudo isto se passava, as forças continentais, apesar da luta defensiva dos insulares, conseguiram, finalmente, desembarcar em massa no Caniçal, embora com algumas baixas.
A Revolução Democrática da Madeira aproximava-se do fim e a derrota estava eminente. Em 30 de Abril e a 1 de Maio, ainda se deram algumas escaramuças, que terminaram com a vitória total das forças fascistas comandadas por Botelho Moniz, após uma corajosa e bem concebida progressão, pelas serras do Caniçal de duas secções das suas tropas especiais, que ficaram conhecidas como os 18 diabos de Machico. Esses militares conseguiram ocupar aquela localidade, perante a debandada da guarnição, confundida pela surpresa, e sobretudo, pela inesperada prisão do comandante de sector, major Varão, caído numa emboscada quando se dirigia num automóvel para as suas linhas avançadas.
Na madrugada do dia seguinte, o Estado-Maior da Revolução reuniu-se de emergência no Porto Novo, e após estudarem a situação, decidiram-se pela rendição, para evitar um inútil banho de sangue. Enquanto isto se passava, desembarcaram dos seus cruzadores, unidades de fuzileiros navais ingleses, que avançaram para a zona neutra localizada junto aos hotéis «Reid`s», «Atlantic» e «Savoy», onde se concentraram os estrangeiros, e para onde também se deslocaram grande parte dos dirigentes democráticos, que após pedirem asilo político, se refugiaram nos navios britânicos.
Porém o general Sousa Dias, o seu chefe do Estado-Maior Freiria, e Mendes dos Reis, não intentaram a fuga e de forma honrosa e digna renderam-se aos vencedores. Frazão Sardinha e Carlos Vilhena conseguiram escapar numa pequena embarcação para as Canárias. Os comunistas e anarco-sindicalistas Marcos Castelhano, Henriques Rijo, Lopes Bibi e Aníbal Dantas, mergulharam, durante cerca de um mês na clandestinidade, até que conseguiram sair da Madeira, escondidos no depósito de carvão, junto às caldeiras do navio «Niassa», onde durante mais de 72 horas viajaram sem comer, nem beber.
Quanto aos dirigentes democráticos e militares que pediram asilo a bordo dos cruzadores ingleses, poucos dias depois, em Lisboa, foram miseravelmente entregues pelos britânicos, à senha vingativa e odiosa dos fascistas portugueses.

Começou, assim a fase mais dura do regime, que só seria derrotado muitos anos depois, pela gloriosa «Revolução de 25 de Abril de 1974». E julgamos que com graves consequências, nomeadamente a consolidação da ditadura nacionalista no nosso País, e a decisiva ajuda de Salazar às forças de Franco. Como refere João Soares "se a Revolução da Madeira tem ido avante e a democracia saísse vencedora, outro galo teria cantado à progressiva República Espanhola e, por tabela, ao rebelde Franco, que teve no Portugal de Salazar a retaguarda segura para o seu movimento contra a democracia; (,,,) pelo que não parece excessivo afirmar como o faz um revolucionário da Madeira, o capitão Carlos Vilhena, que se a revolta tem triunfado, não teria havido a Segunda Guerra Mundial, pois a guerra de Espanha foi fundamental para amadurecer os planos bélicos de Hitler e Mussolini".
Mas as consequências também foram nefastas para a Madeira, pois uma vez mais não vingaram os anseios autonomistas, e foram presos ou deportados muitos democratas insulares, tudo agravado pelo facto de Salazar e o seu Governo, durante décadas de poder centralista e totalitário, nunca terem perdoado a «Revolução Democrática de 1931» e consequentemente, calcaram os trabalhadores, os intelectuais e grande parte da população madeirense, com forte opressão e até com um punitivo imposto de guerra.

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